Friday, March 26, 2010

1981 - Goulart de Andrade no Globo Repórter

Folha de S. Paulo
8/1/1981
Helena Silveira
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BOA REPORTAGEM SOBRE A MISÉRIA BRASILEIRA



Meus Deus, enquanto o coronel Sidne Gimenez Palácios era preso por denunciar negligęncia em altos escalőes e corrupçăo desviando o dinheiro do público no Detran, o Globo Repórter exibiu um documentário com a chancela de um de nossos melhores profissionais no âmbito do telejornalismo: Goulart de Andrade.

O enfoque era a problemática da criança brasileira, do planejamento familiar. Um repórter, Dácio Nitrini, ficou morando quinze dias numa das maiores favelas de Săo Paulo, a de Vila Prudente, onde vivem cerca de 9 mil pessoas em mil barracos. E nos chegavam cifras estarrecedoras, uma panorâmica năo somente dos Estados mais ricos da Federaçăo, como das regiőes menos favorecidas.

Entăo, como os telejornais haviam anunciado a prisăo do coronel, juntava-se, e era impossível que năo fosse assim — duas calamidades: o pauperismo nacional e o esbulho sofrido pelo povo dos dinheiros públicos. Fez-se uma Revoluçăo contra movimentos possivelmente anti-regime e, também, contra os corruptos. Professores e estudantes foram presos, banidos, torturados, mortos. E que conta se presta dos corruptos? Quem pegou cadeia, mas pegou, mesmo?

Quando há uma denúncia, em lugar de inquéritos prende-se o denunciante? Pais surrealista, este. E tudo poderia ser até muito engraçado, oferecer elementos para que escritores se lançassem no teatro do absurdo, se a criança năo estivesse envolvida, e como? Trinta milhőes de crianças carentes para uma faixa de 45 milhőes contando-se até os quinze anos de idade. Uma criança morrendo a cada minuto nestes Brasis de meu Deus até os cinco anos de idade.

A cada fim de ano, poder-se-ia juntar para macabra cidade, uma populaçăo imensa de crianças mortes, habitantes de órbitas com um esvaziado olhar acusador.

E os filhos de măes solteiras, a maior parte domésticas, sem creches e tendo diante delas o recurso único do abandono ao orfanato? Fileiras de leitos gradeados, semelhantes a grades de prisőes. Os pequeninos insinuavam a măo entre grades, pegavam na măo adulta, estendida. Carentes. De comida, de agasalho, mas sobretudo de amor.

A miséria gera um singular e triste cinismo. Assim o homem que declarava ter feito 45 filhos em tręs mulheres. Muitos tinham morrido, restavam quinze. E como lhe indagassem se ia prosseguir fazendo filhos, a resposta: "Vou me privar de coisa tăo gostosa?

Planejamento familiar ou, antes dele planejamento de uma postura moral condizente com a dignidade humana em face de brasileirinhos que, ou morrem ao nascer, ou tém por causa mortis o desamor? Que se aplauda o documentário "Filhos, ter ou năo ter".

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Neto de uma jornalista, que trabalhou muitos anos para Assis Chateaubriand, de nome Celina Pipernat de Carvalho, Goulart de Andrade nasceu no Rio de Janeiro, em 06 de abril de 1933. 


Seu avô era major do Exército. O casal teve vários filhos, entre eles Elisinha Coelho, que foi cantora de bastante renome em seu tempo, e que lançou a música "Rancho Fundo", executada até os dias de hoje. Nascido em Copacabana, Goulart Felipe de Andrade veio então de uma família culta, arrojada, pra frente. Sua avó foi a primeira mulher a se desquitar. E sua mãe também veio a se separar. 


Goulart teve uma infância criativa, indo constantemente do colégio interno, onde estudava, para a casa dos tios. Viajou com um tio, por diversas vezes. Quando ficou maiorzinho, resolveu que queria ser "piloto comercial". Bastou ter idade, para entrar para essa profissão. Já escrevia para um jornal de Copacabana. 


Logo passou para a "Última Hora", de Samuel Weiner. Começou ainda a fazer roteiros de filmes. Fez um trabalho sobre Brasília e logo começou a andar pelas salas da Televisão Tupi e TV Rio. Fernando Barbosa Lima foi o primeiro, porém, a perceber o valor de Goulart e o chamou para o programa "Preto no Branco", ao lado de Oswaldo  Sargentelli. 


Depois esteve na TV Continental. Tudo era feito ao vivo e o rapaz irrequieto, vivo e inteligente, logo despontou. E foi multidisciplinar. Colocou-se também como ator, participando de "Hair",peça de teatro e imenso sucesso.  


Foi ainda diretor de programas. Conseguiu, de forma mirabolante, trabalhar ao mesmo tempo em Sào Paulo e no Rio. Fez parceria com Nicete Bruno e Paulo Goulart.Oswaldo  Sargentelli continuava a seu lado. Fase romântica e maluca, em que eles tinham de tudo, menos dinheiro. Tanto que, às vezes, Goulart de Andrade dormia dentro de um cemitério. 


Foi na TV Tupi, porém, que marcou definitivamente seu estilo. Começou com o programa "Três Leões apresenta o cartaz". Depois "Grandes Atrações Pirani". Aí foi para a Globo, para o "Globo Repórter" e "Globo Shell Especial". À seguir lançou o "Comando da Madrugada", que existe há mais de 20 anos. 


Observando que as grandes capitais fervilham em plena madrugada e que há muita gente insone, trabalhando, atenta, a noite inteira, para essa gente Goulart de Andrade se dirigiu, durante todos esses anos. E marcou definitivamente seu nome e seu estilo. Esteve na TV Globo, Tupi de SàoPaulo, Gazeta, Bandeirantes, SBT, Manchete. Sempre entrevistando pessoas, descobrindo coisas curiosas, bonitas, trágicas, inusitadas, Goulart de Andrade nunca esteve fora do ar. Foi ele, portanto, o descobridor desse filão, que é a madrugada, até então relegada. Daí para a frente, seguindo seu rastro, as demais emissoras foram atrás.  


Sempre irrequieto e caloroso, casou-se por quatro vezes, e desses casamentos nasceram cinco filhos. 

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