Friday, March 26, 2010

1979 - Concertos Para a Juventude

Jornal do Brasil
15/4/1979
Maria Helena Dutra
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O DIREITO DE AVALIAR





Muitas histórias na televisăo, como sabe até o público que jamais foi aos seus bastidores, carecem de qualquer lógica. Entre estas, por ser bastante típica, vale registrar a que é contada pela jornalista e empresária Maria de Abreu.

Ela diz que, em 1974, Roberto Szidon, pianista de enormes méritos e prestígio incontestável, gravou dois tapes na Alemanha com música de Villa-Lobos, dentro de um convęnio da Rede Globo com a Rádio Sudoeste Alemă.

Num dos tapes, Szidon atuou com a Orquestra de Baden-Baden, tocando a Bachiana n° 3 de Villa-Lobos, sob a regęncia de Júlio Medaglia. No outro, faz apenas solos, entre os quais o Rudepoema do compositor brasileiro. Ambos foram exibidos na Alemanha, Áustria e Países Baixos com grande ęxito e críticas excelentes.

As cópias, chegadas ao Brasil, foram engavetadas. Maria chegou a procurar o Superintendente de Programaçăo da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, e este respondeu, por escrito, explicando năo ter autorizado a transmissăo porque, se a execuçăo era esplęndida, a qualidade dos tapes estava ultrapassada tanto para os Concertos Internacionais como para os da Juventude.

Tudo bem, ele é quem sabe e manda. Mas surpreende a decisăo, porque năo se acreditava que esses dois programas fossem tăo exigentes. Já vimos muito artista pouco dotado se exibir através de imagens corriqueiras e vacilantes nos Concertos para a Juventude. A série internacional, mais bem cuidada, visivelmente carece de objetivos culturais mais importantes, porque apenas transmite, uma vez por ano, recital com artistas nacionais, sempre a Orquestra Sinfônica Brasileira, tocando repertório que inclui compositores estrangeiros. E, igualmente, sempre gravado ao vivo na Quinta da Boa Vista, o que resulta em som impuro e visual bem pouco adequado ŕ melhor informaçăo e formaçăo musical.

Mesmo assim, admite-se que a estaçăo năo queira - e está em seu direito - exibir alguma coisa pela qual pagou e năo gostou. Mas, em lugar de apagar ou jogar no lixo, poderia, num ano em que se comemora o 20° aniversário da morte de Villa-Lobos, ceder esses tapes, por exemplo, ŕ TV Educativa. E entăo caberia ao público corretamente avaliar se mereceram tanto tempo de prateleira ou năo.

Afinal, a grande música e os bons intérpretes săo moeda rara em nossa televisăo, e năo nos devem ser negados, mesmo que o padrăo năo seja o de absoluta qualidade técnica. É pecado grave contra nossa pobre cultura negar-nos o păo, mesmo pensando que nos estăo fornecendo brioches.

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