Friday, March 26, 2010

1977 - Novo Ano na TV

Jornal do Brasil
8/1/1977
Paulo Maia
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FELIZ ANO NOVO

Entre profético e desejoso, começo este 1977 tentando fazer uma previsăo do que vai acontecer na televisăo brasileira durante o ano. Certamente novidades haverá, poucas.

Se a Lei Falcăo, por exemplo, năo vai atuar é porque năo haverá eleiçăo, esse sadio hábito democrático de expressăo política. E é muito difícil que a Censura bata seu próprio recorde de ridículo (ainda em suas măos, com a proibiçăo da exibiçăo do Balé Bolshol), mas quem duvida que a tragicomédia de 1976 vai continuar?

Quem viu televisăo no último dia do ano de 1976 sabe o que nos espera: aquele show de artificialismo e mundanidade exibido no reveillon de Sandra e Mielle, na Globo, vai ser repetido diariamente, sempre, em todos os canais, em todos os horários, pelo menos em seu espírito, se năo for possível haver a mesma dose de luxo, técnica e tolice. Muita cor, alegria, muito otimismo e todos realizando seus velhos sonhos... É isso aí.

A Globo está anunciando o Jornal da Manhă para cedinho, em Săo Paulo, todo santo dia. Como breakfast, certamente esse novo telejornal năo terá assuntos indigestos. Sílvio Santos anuncia O Espantalho, mais uma novela na tentativa de roubar pontinhos na audięncia maciça que vem sendo dada ŕ Globo nos últimos anos. Apesar dos pesares, é pouco provável que os passarinhos coloridos da Globo deixem de arrasar os arrozais da Record, em Săo Paulo, da TV Studio, no Rio, e de toda a rede para a qual a nova série telelacrinrosa está sendo programada ainda em janeiro.

O arrozal da Globo, de seu lado, está bem protegido e já promete novos grăos, com a programada estréia da chanchada infanto-juvenil dos Trapalhőes que, na Tupi, comprometiam a liderança de audięncia do Fantástico de todos os domingos. O pastelăo de Renato Aragăo e seus companheiros terá outro sabor agora, submetido ao forno do "padrăo Globo de qualidade?" É esperar para ver. A Tupi promete telenovelas, com a bela Sandra Barsotti que, vestida de espartilhos e vestidos antigos, demonstrou talento na novela de Lauro Cesar Muniz, talento aliás insuspeitado na nudez de nosso tupiniquim cinema erótico. Agora; nenhuma emissora está anunciando musicais, música brasileira e muito menos Chico Buarque de Hollanda.

Quer dizer: aqueles votos de feliz Natal e próspero Ano Novo eram todos hipócritas e nem toda hora é hora de confiar. Desejo, mas năo tenho qualquer esperança, que o telejornalismo dę uma guinada na direçăo do competente trabalho de aproximar o público de sua realidade cotidiana. O horóscopo diz que a realidade vai continuar mais longe do vídeo do que Bombaim de Nova Iguaçu que as crianças văo continuar sendo obrigadas ao hábito do consumo e do doce envenenamento progressivo de uma programaçăo parva e pouco condizente com o apregoado talento de seus diretores. Infelizmente. Aí năo é encenada a tragicomédia, mas apenas a tragédia. Com a formaçăo de uma criança năo se pode fazer ironia.

Se o Coríntians năo for campeăo paulista e o Flamengo năo vencer o Campeonato Nacional, aí, meu Deus, vai ser o fim. Porque aí sim năo haverá esperanças de melhorar a programaçăo esportiva de nossa televisăo. Leda esperança. Ledos enganos de desejos mil. Só ficarăo nos desejos os artistas brasileiros desempregados pelos programas enlatados norte-americanos, tăo cheios de violęncia tăo massacrantes de nossa cultura e da tradiçăo cabocla cá do Brasil. Para que ter esperanças em contrário. E' muito difícil confiar.

Bom, resta agora desejar a todos os colegas críticos um feliz 1977. Que tenham o direito de expressar suas opiniőes, por menos elogiosas que elas possam ser. Aos produtores e empresários de televisăo que façam de tudo e do melhor para substituir o (mau) cinema norte-americano. E ao público que, pelo menos, como em 1976, năo seja obrigado a ver Flávio Cavalcanti no vídeo nosso de cada dia.

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