Monday, March 29, 2010

1973 - Primeira Rosa com Amor

Revista: Cartaz
21/2/1973
Gracinha Caldas
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ELE SABE DAS COISAS


Com apenas 22 anos, ele é um dos mais promissores atores do país. Mas năo quer se limitar ao sucesso como ator e pretende, um dia, ficar conhecido como diretor. Este é Marcos Paulo, um rapaz inteligente.

Ser um ator famoso é o grande desejo da vida de Sérgio (Marcos Paulo) e que terá sua primeira chance do mundo do cinema ao ser indicado pela famosa atriz Roberta Vermont (Tônia Carrero) para o principal papel do filme "Mulher do Outono". Nele é contada a história de uma mulher volúvel, que se apaixona perdidamente por um rapaz 20 anos mais moço que ela. A paixăo é correspondida até um dia que o moço resolve partir da cidade, em busca de novas aventuras.

Esta é a história do filme que envolverá Marcos Paulo e Tônia Carrero, pela primeira vez, numa transa amorosa. Tudo isso vai acontecer na novela "Uma Rosa, Com Amor" (Rede Globo, 19 horas), de Vicente Sesso. Mas isto é apenas a história do filme, já que seus personagens, Sérgio e Roberta, tem relaçőes estritamente comerciais.

Ele quer dirigir - A ambiçăo vivida por Marcos Paulo através de seu personagem na novela "Uma Rosa, Com Amor", embora com características diferentes, também faz parte de sua personalidade, já que seu sonho é ser diretor.

- Até os 15 anos, ser ator para mim era uma brincadeira. Acredito que isso acontecia, porque meu pai, Vicente Sesso, me ajudou muito. Mas aos 18 anos resolvi parar um pouco. Pensei inclusive em entrar para a Aeronáutica. Como todo mundo, tive minha fase de insegurança profissional. Até que entendi que meu negócio era teatro.

Com quase 22 anos e um sucesso que chega a assustá-lo, Marcos Paulo tem muita conscięncia de seu trabalho e pretende aperfeiçoá-lo cada vez mais.

Ser ator é genial, já que vivendo personagens diferentes, passamos a conhecer um pouco de cada pessoa. Isso dá uma experięncia de vida muito grande. Só que, em alguns momentos, isso chega a atrapalhar, pois percebo que cada pessoa pode ser vivida como uni personagem e resolvo fazer unia análise. Isso năo é bom, pois a gente acaba dissecando o ser humano e muitas vezes até cortando unia amizade.

Curioso como todo mundo que pretende vencer em seu trabalho, Marcos Paulo está sempre atento no estúdio de gravaçăo:

- Mesmo depois que termino minhas cenas, permaneço no estúdio. Observo muito o trabalho de direçăo do Walter Campos e o comportamento dos demais atores, pois mais tarde sei que ele me servirá, já que meu sonho é a direçăo. Para isto, pretendo fazer este ano um curso de teatro, mas năo para interpretaçăo.

Marcos Paulo acredita que o ator só se desenvolve com prática e açăo, mas um curso de direçăo lhe fará muito bem.

Quero fazer também Faculdade de Psicologia, já que considero isso fundamental para dirigir algumas coisas futuramente.

Nas ruas, o assédio - Embora considere o assédio que os atores sofrem na rua como um efeito normal do trabalho na TV, Marcos Paulo ainda se assusta um pouco, já que năo consegue mais andar normalmente como há algum tempo:

- Antigamente, minha curtiçăo era ficar parado num sinal e observar as pessoas andarem. Em cada tipo físico, gesticulaçăo e linguagem, eu imaginava o comportamento individual. Era um exercício de cuca que eu gostava de fazer. Mas depois do Rafa, de "O Primeiro Amor", o negócio ficou difícil, pois os outros é que me observam.

Apesar da pouca idade, ele tem visăo do que isso significa:

- Estou na pior fase, aquela de manter a popularidade conquistada. E isto só pode perdurar com meu trabalho de ator, cada vez mais elaborado. Sei que a cara bonitinha do Rafa vai acabar. Vou envelhecer e entendo que tenho que ser reconhecido por meu trabalho. Comparando as condiçőes de trabalho do ator brasileiro, com o nível de nossa TV, ele acha o saldo positivo:

- Só năo tenho saúde para agüentar pseudo-intelectual malhando TV Esses caras pensam que o ator só faz TV pra ganhar dinheiro, como se fôssemos uma mercadoria qualquer. Quem tem essa opiniăo prova que está completamente por fora do negócio. Gostaria que o cinema nacional tivesse o nível das novelas e especiais da Globo. É claro que existem exceçőes, mas de um modo geral, a TV é bem melhor. Só năo fazemos um trabalho mais elaborado, porque o tempo é curto e o que vale é a açăo.

Friday, March 26, 2010

1995 - Nasce a TV COM

Meio & Mensagem
8/5/1995
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EMISSORAS TENTAM INOVAR NA PROGRAMAÇĂO


Apoiada no profissionalismo do Grupo RBS, foi inaugurada no dia 15 de maio a TV COM, com transmissăo para 11 municípios da Grande Porto Alegre através dos sistemas UHF, canal 36, MMDS e 71/ a cabo pela Net Porto Alegre. O Grupo RBS investiu US$ 2 milhőes no negócio, dando prova de que a regionalizaçăo do meio TV é viável e trata-se de uma tendęncia em desenvolvimento. De acordo com Fernando Miranda, diretor de operaçăo da RBS, somente nas primeiros seis meses de vida a TV COM deverá faturar US$ 1,6 milhăo, mesmo esbarrando na limitaçăo de oito horas para transmissőes ao vivo. As imagens geradas pela emissora também serăo distribuídas para a Net, que fará retransmissăo por MMDS na regiăo.

A programaçăo é totalmente voltada comunidade local e atinge 3 milhőes de pessoas moradoras numa regiăo que representa 32% do potencial de consumo do Rio Grande do Sul. Todos os dias a partir das 17h, 19h e 23h serăo transmitidos noticiários de meia hora e ŕs 18h, 20h, 24h entram noticiários de 10 minutos a cada meia hora. As informaçőes tratam de acontecimentos da Grande Porto Alegre, explorando vários segmentos, como cultura e lazer, política e economia.

O projeto da TV COM originou-se de pesquisas feitas pelos profissionais da RBS nos últimos dois anos sobre programas como o NYU e o Chicago Land, nos Estados Unidos, e o LCI, da França, todos voltados para as comunidades locais.

A concessăo do canal 36 para o Grupo RBS foi dada para transmissăo por UHF em canal fechado e 33% de operaçăo aberta, o que possibilita um melhor aproveitamento comercial da emissora. O restante do tempo será utilizado para a veiculaçăo de um "jornal eletrônico" por meio de lettering.

Miranda afirma que mesmo com a restriçăo de horário, já foi possível negociar cotas de patrocínio para programas que estăo em fase de execuçăo.

A TV COM vai inaugurar editoriais ainda năo-exploradas por outras emissoras de TV, como um programa de defesa do consumidor, marketing e negócios, mercado imobiliário e construçăo civil, terceira idade, fitness e automobilismo. Esses programas foram definidos a partir de pesquisa junto ao telespectador. A emissora também inova na apresentaçăo de opçőes para exploraçăo dos espaços publicitários, como a colocaçăo de recursos de interatividade que văo permitir ao telespectador solicitar e obter maiores informaçőes sobre os produtos anunciados via fax ou viva voz.

Grupo de apoio - É certo, porém, que a TV COM nasce apoiada na estrutura operacional da RBS TV, afiliada da Rede Globo, e do jornal do Grupo, o Zero Hora, onde foi instalado um estúdio da TV COM. Esses fatores certamente contribuem para o início das operaçőes. "As emissoras comunitárias tęm de ser apoiadas por grupos de comunicaçăo já consolidados", orienta Alberto Freitas, diretor comercial e de marketing da RBS TV e TV COM.

A TV Guaíba é outro exemplo de sucesso entre emissoras com operaçăo regional. A TV funciona há 16 anos pelo canal 2 (VHF) com oito horas de programaçăo ao vivo e oito horas para veiculaçăo de filmes. A programaçăo ao vivo é voltada ŕ comunidade da Grande Porto Alegre e trata de assuntos femininos, culturais, esportivos e jornalísticos. De acordo com Helena Ribeiro, diretora da TV Guaíba, a emissora chega a atingir o terceiro nível em faturamento entre as emissoras do Estado e em audięncia local.

O superintendente da Rede Mulher (SP), Percival Palesel, afirma que desde agosto do ano passado, quando partiu para programaçăo independente, a emissora tem registrado crescimento entre 10% e 15% ao męs. Empresas como Nestlé, General Motors, Procter&Gamble, Uemura, Sé Supermercados, Bom Marche já figuram na lista de anunciantes com inserçőes de merchandising nas programas .

A programaçăo é formada por assuntos de interesse do público feminino e tem como principais telespectadores mulheres com idade entre 25 e 40 anos das classes A e B.

Pela manhă é exibido um programa de ginástica, em seguida entra o Condiçăo de Mulher, voltado a assuntos ligados ŕ saúde da mulher. Ŕs 10h começa o programa de maior sucesso de audięncia e, por conseqüęncia, de anunciantes. É o Com Sabor, programa de culinária com duas horas de duraçăo apresentado por seis profissionais da área. Ŕ tarde, săo apresentados seis blocos de 15 minutos cada com sugestőes de atividades para as donas de casa e ŕs 17h30 entra talk show Coffe Break com o Leăo Lobo. Toda a programaçăo é gravada em estúdio em Săo Paulo.

Segundo Palesel, pesquisa do Datafolha mostrou que entre 10% e 15% da populaçăo da Grande Săo Paulo tem o hábito de sintonizar emissoras em UHF, sendo que 65% dos lares da regiăo já estăo capacitados para assistir a essa freqüęncia de canais. Em Săo Paulo, a emissora operava como retransmissora da TV Manchete, pelo canal 42 em UHF. "A receptividade das agęncias de propaganda para nossa programaçăo tem sido muito boa", diz Palesel. Em Săo Paulo, o canal 42 da Rede Mulher passou a ser o retransmissor do canal 9, gerador em Araraquara.


1979 - Concertos Para a Juventude

Jornal do Brasil
15/4/1979
Maria Helena Dutra
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O DIREITO DE AVALIAR





Muitas histórias na televisăo, como sabe até o público que jamais foi aos seus bastidores, carecem de qualquer lógica. Entre estas, por ser bastante típica, vale registrar a que é contada pela jornalista e empresária Maria de Abreu.

Ela diz que, em 1974, Roberto Szidon, pianista de enormes méritos e prestígio incontestável, gravou dois tapes na Alemanha com música de Villa-Lobos, dentro de um convęnio da Rede Globo com a Rádio Sudoeste Alemă.

Num dos tapes, Szidon atuou com a Orquestra de Baden-Baden, tocando a Bachiana n° 3 de Villa-Lobos, sob a regęncia de Júlio Medaglia. No outro, faz apenas solos, entre os quais o Rudepoema do compositor brasileiro. Ambos foram exibidos na Alemanha, Áustria e Países Baixos com grande ęxito e críticas excelentes.

As cópias, chegadas ao Brasil, foram engavetadas. Maria chegou a procurar o Superintendente de Programaçăo da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, e este respondeu, por escrito, explicando năo ter autorizado a transmissăo porque, se a execuçăo era esplęndida, a qualidade dos tapes estava ultrapassada tanto para os Concertos Internacionais como para os da Juventude.

Tudo bem, ele é quem sabe e manda. Mas surpreende a decisăo, porque năo se acreditava que esses dois programas fossem tăo exigentes. Já vimos muito artista pouco dotado se exibir através de imagens corriqueiras e vacilantes nos Concertos para a Juventude. A série internacional, mais bem cuidada, visivelmente carece de objetivos culturais mais importantes, porque apenas transmite, uma vez por ano, recital com artistas nacionais, sempre a Orquestra Sinfônica Brasileira, tocando repertório que inclui compositores estrangeiros. E, igualmente, sempre gravado ao vivo na Quinta da Boa Vista, o que resulta em som impuro e visual bem pouco adequado ŕ melhor informaçăo e formaçăo musical.

Mesmo assim, admite-se que a estaçăo năo queira - e está em seu direito - exibir alguma coisa pela qual pagou e năo gostou. Mas, em lugar de apagar ou jogar no lixo, poderia, num ano em que se comemora o 20° aniversário da morte de Villa-Lobos, ceder esses tapes, por exemplo, ŕ TV Educativa. E entăo caberia ao público corretamente avaliar se mereceram tanto tempo de prateleira ou năo.

Afinal, a grande música e os bons intérpretes săo moeda rara em nossa televisăo, e năo nos devem ser negados, mesmo que o padrăo năo seja o de absoluta qualidade técnica. É pecado grave contra nossa pobre cultura negar-nos o păo, mesmo pensando que nos estăo fornecendo brioches.

1981 - Goulart de Andrade no Globo Repórter

Folha de S. Paulo
8/1/1981
Helena Silveira
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BOA REPORTAGEM SOBRE A MISÉRIA BRASILEIRA



Meus Deus, enquanto o coronel Sidne Gimenez Palácios era preso por denunciar negligęncia em altos escalőes e corrupçăo desviando o dinheiro do público no Detran, o Globo Repórter exibiu um documentário com a chancela de um de nossos melhores profissionais no âmbito do telejornalismo: Goulart de Andrade.

O enfoque era a problemática da criança brasileira, do planejamento familiar. Um repórter, Dácio Nitrini, ficou morando quinze dias numa das maiores favelas de Săo Paulo, a de Vila Prudente, onde vivem cerca de 9 mil pessoas em mil barracos. E nos chegavam cifras estarrecedoras, uma panorâmica năo somente dos Estados mais ricos da Federaçăo, como das regiőes menos favorecidas.

Entăo, como os telejornais haviam anunciado a prisăo do coronel, juntava-se, e era impossível que năo fosse assim — duas calamidades: o pauperismo nacional e o esbulho sofrido pelo povo dos dinheiros públicos. Fez-se uma Revoluçăo contra movimentos possivelmente anti-regime e, também, contra os corruptos. Professores e estudantes foram presos, banidos, torturados, mortos. E que conta se presta dos corruptos? Quem pegou cadeia, mas pegou, mesmo?

Quando há uma denúncia, em lugar de inquéritos prende-se o denunciante? Pais surrealista, este. E tudo poderia ser até muito engraçado, oferecer elementos para que escritores se lançassem no teatro do absurdo, se a criança năo estivesse envolvida, e como? Trinta milhőes de crianças carentes para uma faixa de 45 milhőes contando-se até os quinze anos de idade. Uma criança morrendo a cada minuto nestes Brasis de meu Deus até os cinco anos de idade.

A cada fim de ano, poder-se-ia juntar para macabra cidade, uma populaçăo imensa de crianças mortes, habitantes de órbitas com um esvaziado olhar acusador.

E os filhos de măes solteiras, a maior parte domésticas, sem creches e tendo diante delas o recurso único do abandono ao orfanato? Fileiras de leitos gradeados, semelhantes a grades de prisőes. Os pequeninos insinuavam a măo entre grades, pegavam na măo adulta, estendida. Carentes. De comida, de agasalho, mas sobretudo de amor.

A miséria gera um singular e triste cinismo. Assim o homem que declarava ter feito 45 filhos em tręs mulheres. Muitos tinham morrido, restavam quinze. E como lhe indagassem se ia prosseguir fazendo filhos, a resposta: "Vou me privar de coisa tăo gostosa?

Planejamento familiar ou, antes dele planejamento de uma postura moral condizente com a dignidade humana em face de brasileirinhos que, ou morrem ao nascer, ou tém por causa mortis o desamor? Que se aplauda o documentário "Filhos, ter ou năo ter".

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Neto de uma jornalista, que trabalhou muitos anos para Assis Chateaubriand, de nome Celina Pipernat de Carvalho, Goulart de Andrade nasceu no Rio de Janeiro, em 06 de abril de 1933. 


Seu avô era major do Exército. O casal teve vários filhos, entre eles Elisinha Coelho, que foi cantora de bastante renome em seu tempo, e que lançou a música "Rancho Fundo", executada até os dias de hoje. Nascido em Copacabana, Goulart Felipe de Andrade veio então de uma família culta, arrojada, pra frente. Sua avó foi a primeira mulher a se desquitar. E sua mãe também veio a se separar. 


Goulart teve uma infância criativa, indo constantemente do colégio interno, onde estudava, para a casa dos tios. Viajou com um tio, por diversas vezes. Quando ficou maiorzinho, resolveu que queria ser "piloto comercial". Bastou ter idade, para entrar para essa profissão. Já escrevia para um jornal de Copacabana. 


Logo passou para a "Última Hora", de Samuel Weiner. Começou ainda a fazer roteiros de filmes. Fez um trabalho sobre Brasília e logo começou a andar pelas salas da Televisão Tupi e TV Rio. Fernando Barbosa Lima foi o primeiro, porém, a perceber o valor de Goulart e o chamou para o programa "Preto no Branco", ao lado de Oswaldo  Sargentelli. 


Depois esteve na TV Continental. Tudo era feito ao vivo e o rapaz irrequieto, vivo e inteligente, logo despontou. E foi multidisciplinar. Colocou-se também como ator, participando de "Hair",peça de teatro e imenso sucesso.  


Foi ainda diretor de programas. Conseguiu, de forma mirabolante, trabalhar ao mesmo tempo em Sào Paulo e no Rio. Fez parceria com Nicete Bruno e Paulo Goulart.Oswaldo  Sargentelli continuava a seu lado. Fase romântica e maluca, em que eles tinham de tudo, menos dinheiro. Tanto que, às vezes, Goulart de Andrade dormia dentro de um cemitério. 


Foi na TV Tupi, porém, que marcou definitivamente seu estilo. Começou com o programa "Três Leões apresenta o cartaz". Depois "Grandes Atrações Pirani". Aí foi para a Globo, para o "Globo Repórter" e "Globo Shell Especial". À seguir lançou o "Comando da Madrugada", que existe há mais de 20 anos. 


Observando que as grandes capitais fervilham em plena madrugada e que há muita gente insone, trabalhando, atenta, a noite inteira, para essa gente Goulart de Andrade se dirigiu, durante todos esses anos. E marcou definitivamente seu nome e seu estilo. Esteve na TV Globo, Tupi de SàoPaulo, Gazeta, Bandeirantes, SBT, Manchete. Sempre entrevistando pessoas, descobrindo coisas curiosas, bonitas, trágicas, inusitadas, Goulart de Andrade nunca esteve fora do ar. Foi ele, portanto, o descobridor desse filão, que é a madrugada, até então relegada. Daí para a frente, seguindo seu rastro, as demais emissoras foram atrás.  


Sempre irrequieto e caloroso, casou-se por quatro vezes, e desses casamentos nasceram cinco filhos. 

1977 - Novo Ano na TV

Jornal do Brasil
8/1/1977
Paulo Maia
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FELIZ ANO NOVO

Entre profético e desejoso, começo este 1977 tentando fazer uma previsăo do que vai acontecer na televisăo brasileira durante o ano. Certamente novidades haverá, poucas.

Se a Lei Falcăo, por exemplo, năo vai atuar é porque năo haverá eleiçăo, esse sadio hábito democrático de expressăo política. E é muito difícil que a Censura bata seu próprio recorde de ridículo (ainda em suas măos, com a proibiçăo da exibiçăo do Balé Bolshol), mas quem duvida que a tragicomédia de 1976 vai continuar?

Quem viu televisăo no último dia do ano de 1976 sabe o que nos espera: aquele show de artificialismo e mundanidade exibido no reveillon de Sandra e Mielle, na Globo, vai ser repetido diariamente, sempre, em todos os canais, em todos os horários, pelo menos em seu espírito, se năo for possível haver a mesma dose de luxo, técnica e tolice. Muita cor, alegria, muito otimismo e todos realizando seus velhos sonhos... É isso aí.

A Globo está anunciando o Jornal da Manhă para cedinho, em Săo Paulo, todo santo dia. Como breakfast, certamente esse novo telejornal năo terá assuntos indigestos. Sílvio Santos anuncia O Espantalho, mais uma novela na tentativa de roubar pontinhos na audięncia maciça que vem sendo dada ŕ Globo nos últimos anos. Apesar dos pesares, é pouco provável que os passarinhos coloridos da Globo deixem de arrasar os arrozais da Record, em Săo Paulo, da TV Studio, no Rio, e de toda a rede para a qual a nova série telelacrinrosa está sendo programada ainda em janeiro.

O arrozal da Globo, de seu lado, está bem protegido e já promete novos grăos, com a programada estréia da chanchada infanto-juvenil dos Trapalhőes que, na Tupi, comprometiam a liderança de audięncia do Fantástico de todos os domingos. O pastelăo de Renato Aragăo e seus companheiros terá outro sabor agora, submetido ao forno do "padrăo Globo de qualidade?" É esperar para ver. A Tupi promete telenovelas, com a bela Sandra Barsotti que, vestida de espartilhos e vestidos antigos, demonstrou talento na novela de Lauro Cesar Muniz, talento aliás insuspeitado na nudez de nosso tupiniquim cinema erótico. Agora; nenhuma emissora está anunciando musicais, música brasileira e muito menos Chico Buarque de Hollanda.

Quer dizer: aqueles votos de feliz Natal e próspero Ano Novo eram todos hipócritas e nem toda hora é hora de confiar. Desejo, mas năo tenho qualquer esperança, que o telejornalismo dę uma guinada na direçăo do competente trabalho de aproximar o público de sua realidade cotidiana. O horóscopo diz que a realidade vai continuar mais longe do vídeo do que Bombaim de Nova Iguaçu que as crianças văo continuar sendo obrigadas ao hábito do consumo e do doce envenenamento progressivo de uma programaçăo parva e pouco condizente com o apregoado talento de seus diretores. Infelizmente. Aí năo é encenada a tragicomédia, mas apenas a tragédia. Com a formaçăo de uma criança năo se pode fazer ironia.

Se o Coríntians năo for campeăo paulista e o Flamengo năo vencer o Campeonato Nacional, aí, meu Deus, vai ser o fim. Porque aí sim năo haverá esperanças de melhorar a programaçăo esportiva de nossa televisăo. Leda esperança. Ledos enganos de desejos mil. Só ficarăo nos desejos os artistas brasileiros desempregados pelos programas enlatados norte-americanos, tăo cheios de violęncia tăo massacrantes de nossa cultura e da tradiçăo cabocla cá do Brasil. Para que ter esperanças em contrário. E' muito difícil confiar.

Bom, resta agora desejar a todos os colegas críticos um feliz 1977. Que tenham o direito de expressar suas opiniőes, por menos elogiosas que elas possam ser. Aos produtores e empresários de televisăo que façam de tudo e do melhor para substituir o (mau) cinema norte-americano. E ao público que, pelo menos, como em 1976, năo seja obrigado a ver Flávio Cavalcanti no vídeo nosso de cada dia.

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