Friday, January 1, 2010

1975 - TV Sílvio Santos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/10/1975
Editorial




DE MAL A PIOR
A televisão brasileira completou 25 anos em setembro passado. Ao fim deste quarto de século, a TV compreende - ou compreendia até 23 de outubro - 60 emissoras de propriedade privada e 4 de caráter oficial, operando com 10 milhões de aparelhos em preto e branco e 500 em cores que atingem, segundo se estima, cerca de 45 milhões de telespectadores.

As dimensões deste universo estão na origem da preocupação que sempre manifestamos sobre as formas de utilização desse poderoso meio de comunicação de massa. Tal como e Imprensa periódica, o rádio e o cinema, a TV constitui ao mesmo tempo um serviço público e um instrumento de promoção da economia de mercado. Como serviço público, ela é um prolongamento da escola e seu papel consiste em acelerar o processo da civilização mediante a aculturação do particular, do local e do regional no quadro universal da nacionalidade brasileira. Nenhum outro meio pode efetivamente, só praticar uma informação correta, elevada e responsável, conseguir resultados tão rápidos e facundos na formação ética, estética, cultural e cívica da população brasileira. Como instrumento de promoção econômica, a TV contribui ativamente para o alargamento do mercado e, portanto, para o desenvolvimento das forças de produção, gerando não só hábitos e necessidades de consumo mas também estimulando condições de vida social que permitam uma participação ceda vez maior das massas no mercado do consumo interno.

A conciliação de ambos os objetivos exigiria, evidentemente, níveis superiores de julgamento da parte dos empresários e profissionais ligados ao setor, lamentavelmente, a TV brasileira, criada de improviso por homens vindos do teatro de variedades e posta a serviço de um mercantilismo estreito e imediatista, tem esquecido sistematicamente - o que não invalida as exceções - e missão pedagógica que lhe estava destinada. Na sua máxima parte, a programação que oferece àqueles 45 milhões de brasileiros inclui, quase exclusivamente, o conteúdo "recreação", e "recreação" calcada na vulgaridade, o que pode satisfazer mas nunca elevar o senso ético ou estético do vulgo. Com isso é possível obter índices quantitativamente significativos da audiência - e esse ó o equívoco da lógica que acaba aprisionando os diretores de tais programas, também eles incapazes de produzir algo que não seja vulgar. Na realidade, se eles conseguissem apresentar programas de maior índice qualitativo, verificariam um acréscimo seguro tanto do favor do público como do interesse da publicidade. De resto, a melhor prova da plausibilidade deste argumento está no fato de os "comerciais" veiculados pelos anunciantes terem, em média, uma qualidade muito superior à dos programas de autoria das próprias emissoras.






Esta situação sempre mereceu e crítica daqueles que, como nós, concebem ,a comunicação social corro um serviço essencialmente público. Estávamos, aliás persuadidos de que a função educativa da TV somente seria assumida no momento em que os responsáveis por esse lamentável estado de coisas fossem gradativamente substituídos por autênticos profissionais cia comunicação social, isto é, por gente sem os vícios de origem Que estigmatizam o pessoal dirigente da maior parte dos canais, por homens formados e treinados à luz de um critério socialmente valorativo do seu trabalho. Essa persuasão nos abandona a partir do momento em que o governo; mediante decreto de 23 de outubro, outorgou concessão para instalar uma emissora de TV no Rio de Janeiro, utilizando o canal 11, a um dos mais típicos representantes do mercantilismo vulgar da televisão brasileira. Segundo consta do noticiário a respeito, o Ministro das Comunicações declarou que a escolha do Sr Senor Abravanel para dirigir o novo canal levou em conta dois pontos básicos: a sua capacidade financeira para executar o serviço de difusão de imagem e som e o tipo de programação que ele pretende transmitir, "voltada para um grande público com mensagens positivas".

Positivas pro domo sua, com certeza. Positiva para a empresa de captação de poupanças populares do beneficiado pela concessão, e apenas isso. Mas certamente negativas para "grande público" a que se refere o Sr Quandt de Oliveira, que passará e receber em doses maciças, 24 horas por dia, os apelos de um diretor de TV interessado em empurrar-lhe, de mistura com intervenções do mais reles mau gosto, os seus carnês de venda de mercadorias e prestações. Em suma, para o Governo basta que alguém possua capacidade financeira e vontade de fazer fortuna vendendo carnês com "mensagens positivas" para que lhe seja concedido o direito de deseducar o povo. É uma nova certeza, é uma nova persuasão esta que melancolicamente adquirimos.

(Transcrito de O Estado de São Paulo do 28/10/75)

____________________________________________________
........................................................................................................

........................................................................................................


No comments:

Post a Comment

Followers