Friday, January 1, 2010

1986 - Marcelo Tas como Ernesto Varela

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 23/9/1986
Autor/Repórter: Joaquim Ferreira dos Santos




A CÂMERA BEM-HUMORADA
Vida inteligente no telejornalismo

Repórter: Atrás de que os pilotos de Fórmula 1 estão correndo?

Nélson Piquet: - Atrás da grana, meu chapa. Tá todo mundo correndo atrás da grana. Você tá correndo atrás de que?

Repórter: - Eu tê correndo atrás da reportagem.

O repórter que corre atrás da reportagem usa óculos de aro vermelho, roupas comportadas, chama-se Ernesto Varela e é uma das atrações da mostra que o Centro Cultural Cândido Mendes, Ipanema, está fazendo sobre a produtora independente Olhar Eletrônico, de São Paulo. Assim como a Olhar Eletrônico realiza os programas mais criativos "off off Globo'', Varela despeja nos seus entrevistados as perguntas mais inesperadas e chocantes. No dia da votação das diretas, por exemplo, depois de ouvir pacientemente o deputado Nélson Marchezan lhe dizer que estava ali no plenário representando o povo brasileiro, Varela perguntou com cinismo do mesmo tamanho:

- E o sr. acredita que o povo acredita no que o sr. acabou de dizer?

Toda noite, antes de dormir, políticos, cartolas, esportistas, artistas pedem ao bom Deus que não lhes ponha Ernesto Varela pela frente no dia seguinte. No México, o cartola Nabi Abi Chedid não teve essa sorte. Proibiu toda a delegação da seleção brasileira de falar sobre futebol e debateu, raivoso, com Varela a importância desse ato para os destinos do escrete.

- Só falo sobre futebol - afirmou o cartola-deputado.

- Então tá, seu Nabi - admitiu candidamente Varela, para logo mostrar os dentes. Qual é a sua próxima jogada?

Todos esses momentos, impagáveis e já clássicos numa nova maneira, menos reverente, de o jornalista encarar a fonte, estarão na seleta de reportagens, musicais, publicidade e dramas, uma geral nos seis anos de vida da Olhar. É uma empresa de porte quase médio para o setor, pois acabou de investir 150 mil dólares em equipamentos e estúdio próprios. Num ranking em que se medissem apenas idéias, certamente estaria entre as primeiras (no Fest Rio 85, ganhou o prêmio de melhor vídeo jornalístico com Do outro lado da sua casa, sobre mendigos paulistas).

São quatro sócios - Marcelo Machado, Fernando Meireles, José Roberto Salatine e Paulo Moreli - mais 25 empregados, numa média de idade em tomo dos 24 anos, e produzindo Para clientes tão diferentes como o Fantástico, da Rede Globo (alguns clips e reportagens em 85), o PT e o PMDB, (propaganda política), a Vasp, a Telesp e a Estrela (comerciais). Quando o assunto é vídeo, não têm preconceitos. Já brincaram com os experimentalimos da edição e acabam de aprontar um pequeno teledrama (Tragédias, em exibição hoje) que roça - e deixa pra trás - os seriados da Globo.

No ano passado a Olhar Eletrônico teve um de seus produtos em cartaz por alguns meses no Rio, quando a Record exibiu o programa Crig-Rá, uma curtição em cima dos programas para juventude. Animado por um disck-jóquei que chamava seu público de "telepessoinhas", apresentava também reportagens inteiramente falsas, mas armadas com empostação séria, sobre o monstro que vivia numa lagoa do Paraná, ou o estranho fenômeno físico que fazia desaparecer pessoas na Avenida Paulista. Era um sarro em cima das reportagens do Fantástico, mas nem todos entenderam assim - e até hoje chegam cartas ao Olhar pedindo - e dando - mais informações sobre os assuntos.

Muitos dos vídeos que serão apresentados durante toda a semana (sempre às 16h, 18h20min e 22h, sendo que hoje há um debate com o pessoal da Olhar às 20h30min) têm como figura central o ator Marcelo Tas no papel do repórter Ernesto Varela. Maluf já o conhece bem. Varela uma vez - está na Mostra - chegou ao seu ouvido e perguntou - candidamente como sempre - se eram verdadeiras essas histórias que circulavam dando o deputado como um grande corrupto e ladrão. Havia uma porta milagrosa nas proximidades e Maluf escafedeu-se por ela, sem responder palavra.

Os outros repórteres da Olhar Eletrônico também pegaram o estilo de Varela, de desprezar qualquer questão que o entrevistado já esteja predisposto a ouvir, e indagar dos que lhes surgem à frente se os átomos estão vivos ou mortos, a droga que mais consomem. Aureliano Chaves teve de responder se gostava de heavy metal. E uma jovem paulista, depois do espanto inicial, respondeu à altura se ainda era virgem.

- Até onde sei, sou - disse. - Nunca fui penetrada por nada.

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