Saturday, January 2, 2010

1977 - Silvio Santos já perdia dinheiro com novela

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 7/5/1977







O ESPANTALHO QUE ASSUSTOU SÍLVIO SANTOS E DESMANCHOU SEU SORRISO
Mais de quarenta artistas famosos e vários técnico de televisão ficaram sem emprego quando os altos prejuízos de uma novela obrigaram o mais famoso animador de auditórios do Brasil a retificar os rumos de sua organização

SÃO PAULO - O alto preço da novela O Espantalho, que custou ao Estúdio Sílvio Santos de Cinema e Televisão Cr$ 13 milhões 500 mil, os baixos índices alcançados na TV Record de São Paulo, média de 6,2 nas pesquisas do Ibope, e o fraco retorno financeiro (aproximadamente Cr$ 7 milhões), foram os principais fatores que levaram a diretoria da Sílvio Santos S.A., empresa holding de um grupo de 19, que pertence a Senior Abravanel, verdadeiro nome do animador - a demitir 21 funcionários da parte técnica, de apoio e trabalho interno e 50 artistas cujos contratos venceram no último dia 5 e não foram renovados, entre os quais Jardel Filho, Vanda Cosmos e Riva Nimitz.

Ficou decidido, ainda, que Nathalia Timberg e Roland Boldrin, os únicos que tinham contrato de um ano, receberão normalmente os próximos três meses, embora não trabalhem nesse tempo, José Wilker, Renê de Vielmond, Edson Franca e Sueli Franco, que praticamente tinham acertado suas contratações, terão agora que esperar os entendimentos com a TV Tupi para a produção de uma próxima novela. Segundo Moisés Weltman, diretor do Estúdio SS, essa espera pode ser de dois meses, ou mais que isso.

- Todo milionário tem seu esporte. Uns compram castelos, iates. Meu esporte é fazer televisão (Sílvio Santos na revista Veja em maio de 1976).

- Hoje em dia, sou mais empresário do que artista. Talvez por causa ida minha idade. Acho que tenho mais tempo de trabalho como empresário do que como artista. Minha atividade como dono de televisão é mais importante do que a de animador (Sílvio Santos, 1977).

Entre essas duas frases, o pequeno mercada de trabalho dos profissionais de televisão, teatro e comunicações, viveu alguns dias de euforia, com a concessão de um canal de televisão para o animador Sílvio Santos, em dezembro de 1975 e viveu também mais de um ano de decepções. As esperadas contratações sensacionais, que iriam melhorar os níveis salariais e abrir o mercado de trabalho, acabaram não acontecendo, O Estúdio Sílvio Santos, empresa criada para dirigir o programa,Sílvio Santos e produzir toda a programação artística do futuro canal 11 do Rio, a TV Studios, criou suas próprias normas e estabeleceu-se dentro dos padrões da TV Tupi: pagar salários razoáveis, sem grandes desníveis entre os contratados. Na Rede Globo, os grandes astros recebem altos salários, enquanto os outros artistas, pessoal técnico e interno ganham pouco, o que deixa uma enorme faixa entre os dois extremos.

- Nunca havíamos feito novelas. Durante nove meses, tempo em que dá para nascer uma criança, trabalhamos em O Espantalho. Não havia nada. Tivemos de montar um departamento completo e isso custa dinheiro. Não tínhamos know-how e os santos não favoreceram. Gravamos 119 capítulos em nove meses, cada capítulo custou Cr$ 100 mil. Apanhamos e ficamos com as cicatrizes. Agora, sabemos que uma novela deve ser gravada no mesmo tempo de sua duração no ar, ou pouca coisa mais. Cada capítulo deve custar, no máximo, Cr$ 50 ou Cr$ 60 mil. Se tivéssemos feito no mesmo tempo de transmissão, cinco meses, teríamos alcançado lucro.

Moisés Weltman, diretor do Estúdio e ex-diretor da revista Amiga, é a pessoa que atende a imprensa para explicar os motivos e as razões que levaram Sílvio Santos a operar demissões e a não renovar contiatos. Assessorado por Arlindo Silva, ele procura -deixar claro que não houve outra saída.

- Temos aqui uma comunidade com mais de 300 empregados. Tivemos que fazer um pequeno sacrifício para evitar problemas maiores. Temos uma televisão para abastecer. O Sílvio me disse que sua televisão não será nunca de enlatados, que para isso ele nunca teria pleiteado o canal. Gostaria de saber nosso próximo passo. O Sílvio tem a mesma coragem ao tentar e ao desistir, e partir para outra. Ele me disse: eu prefiro demitir e pagar tudo certo do que atrasar os salários. Não quero manter ilusão de emprego. E está certo, ora. Ou será que devia fazer, como a TV Rio, que atrasou oito meses de salário e depois fechou?

Na verdade Sílvio Santos está pagando caro as lições recebidas. Seu primeiro contratado, com salário de Cr$ 100 mil mensais, foi o animador Flávio Cavalcanti, cujo programa um instante Maestro, recebeu todos os recursos e não conseguiu sequer dois pontos de audiência, quando foi lançado na TV Record de São Paulo e na TV Studios, que faz suas transmissões ainda em caráter experimental. Flávio foi encostado dois meses depois, mas recebeu seus salários durante um ano: havia uma multa de Cr$ 2 milhões, em caso de rescisão.

- Nós trabalhamos com fatos, não com a fantasia. Vejamos o IBOPE da última segunda-feira, dia 2 de maio. A Tupi teve 5.7, a Globo 47.0, e O Espantalho, na Record, 8,3. A TV Bandeirantes chegou a 13.9. Pois bem, se o nosso índice chegasse aos 10, seria um bom negócio. Com índices baixos, os anunciantes não vêm. Na verdade, não sabíamos quanto a novela ia render. Afinal, era a nossa primeira experiência. Não tivemos condições de fazer merchandising (publicidade indireta, como é feito nas novelas da Globo, quando os personagens entram em um bar, por exemplo, e a câmara mostra o anúncio de um cigarro e eles pedem em bom som uma determinada bebida). Teremos prejuízos e não sabemos de quanto vai ser. A novela está inédita no Rio e em outros sete Estados importantes, mas em São Paulo, onde esperávamos muito, os resultados ficaram aquém da expectativa - diz Weltman.

As gravações terminaram dia 29 de abril, embora em São Paulo a novela fique no ar até meio de julho, e será exibida, no Rio em data incerta, como o principal, programa da TV Studios quando a emissora entrar oficialmente no ar. Lançada em janeiro, em um canal de pouca audiência, cujo preço não é alto e fica bem abaixo dos cobrados pela Globo, teve sua parte comercial prejudicada ainda pelo mês de fevereiro, período de tradicional recesso publicitário. Houve pequena melhora em março e abril mas o retorno só começou a ser maior agora, quando restam apenas 40 dias de exibição. Com isso, falharam as previsões de recuperar-se o investimento feito apenas, em São Paulo.

Foi por causa do fracasso financeiro que paramos com as novelas. Entramos em hibernação, paramos para balanço econômico, artístico e comercial. A realidade da televisão é São Paulo, o Rio é uma incógnita. Por causa da decepção financeira concluímos que seria imprudente partir de imediato para outra. Isso nos levou, realmente, a demitir 21 pessoas da parte técnica e interna. Por eles eu choro, são gente que ganha pouco e que agora, ficarão soltos no espaço, já que o mercado de trabalho está ruim. Artista nenhum foi despedido. Eles tinham contratos que terminaram, e pronto. Foram os que menos sofreram e são os que mais choram. Mas todos receberam em dia, coisa que não é fácil acontecer hoje em dia. E olhe, ainda tentamos arrumar emprego para muita gente.

Entre os demitidos havia pessoas que largaram 11 anos de TV Tupi para trabalhar com Sílvio Santos.

A pressão sobre os demitidos e os artistas cujos contratos venceram foi exercida naturalmente. Ninguém pode reclamar nada, para não ter dificuldade em arrumar emprego em outra emissora. É o caso de uma continuísta (salário de Cr$ 6 mil) ou de um figurinista (salário de Cr$ 10 mil). A única pessoa que se revoltou foi a atriz e modelo Reny de Oliveira Santana, que na novela faz o papel de Andréa. Depois que suas palavras foram publicadas, ela ficou marcada, como confessou Moisés em sua sala:

- Ela falou demais e agora fica me telefonando para pedir desculpas. Não adianta. Seu nome estava nos planos de nossa próxima novela, agora não está mais. Foi ingratidão. Contratamos gente que não tinha ligações com outros canais, artistas que estavam procurando trabalho. O Hélio Souto, por exemplo, estava esquecido, fez O Espantalho e agora está na Globo.

Procurada depois disso, Reny desculpava-se:

- Foi uma declaração infeliz. Um desabafo que eu não devia ter feito. Não fomos demitidos, nossos contratos é que venceram e pronto. Fui precipitada, apenas isso.




Além de Nathalia Timberg e Rolando Boldrin, os primeiros artistas a serem contratados e os únicos com contratos de um ano (os outros assinaram, por seis meses, com opção de mais 3 meses), o Estúdio Sílvio Santos manteve ainda os diretores José Miziara e David Grimberg e a autora Ivani Ribeiro, cujo contrato vai até 1980. Moisés:

- Não queremos abrir mão de Ivani, o que prova que temos intenções de continuar com novelas no futuro. Fomos forçados a fazer esta economia agora, de aproximadamente Cr$ 1 milhão 500 mil mensais mas continuamos a produzir o programa do Sílvio e a fazer shows, humorismo e musicais. Temos dois estúdios em perfeitas condições de uso, mais dois que podem ser ativados com um mínimo de esforço, caminhão, de externa, sofisticado aparelhamento técnico. Utilizamos parcialmente nossos recursos, e há uma capacidade ociosa. Quando a TV Studio entrar de vez na briga, teremos de alimentá-la. Não jogamos a toalha.

Há três hipóteses para o aproveitamento imediato de Ivani Ribeiro:

1 - Ela está escalada para escrever a próxima novela, caso os entendimentos com a TV Tupi cheguem a uma conclusão;

2 - ela pode escrever programas especiais, como teatro na TV, ou na linha dos casos especiais da TV Globo;

3 - ela pode ser emprestada para a Tupi, que pagaria seus salários durante certo tempo.

Por causa da crise, chegou a haver um pequeno estremecimento entre os assessores de Sílvio Santos e a família Paulo Machado de Carvalho, sócios da televisão Record. E, que nas primeiras explicações para as demissões e a crise, alegou-se a fragilidade da Record em termos de competição no mercado, o que irritou Paulo Machado de Carvalho. José Miziara, diretor da novela tem uma explicação técnica para justificar a enorme oscilação da audiência, que, em determinados dias, apontou 2.7 e, em outros, chegou a a 11.7, mantendo a média de 6,2 que é normal na emissora.

- A flutuação dos índices deve-se à área em que é feita a pesquisa. Há determinados bairros em que a Record não entra bem, em outros, sua imagem é perfeita. Por isso, quando os pesquisadores iam a um bairro em que a Record chega bem, o índice subia, Em outros dias, quando os pesquisadores iam a determinados bairros onde a imagem é fraca, o índice caía.




Cada ponto de audiência corresponde, segundo os cálculos de amostragem, do IBOPE a 20 mil residências sendo que em cada uma delas há três pessoas diante do aparelho de TV; o que dá para o Espantalho uma audiência média de 124 mil residências, ou 372 mil pessoas.

- Os Machado de Carvalho não gostam, mas o que posso fazer? Se a novela fosse exibida na Globo dava mais de 50 de IBOPE. Nós ainda tentamos encontrar um bom horário e descobrimos que às 21 horas, em São Paulo, não há novela. Não' sei se foi bom ou ruim essa nossa escolha, diz Moisés Weltman.

Para os últimos capítulos, há possibilidade de que a novela mude de horário e passe para o das 23 horas. É que houve um curioso jogo triplo de audiência: a Record, que exibia, no horário, filmes de bang-bang, cheios de violência para atrair o público masculino, mudou para novela e procurou melhorar sua audiência entre o público feminino, Manteve a média. Em compensação, o público da Globo, que no horário exibe humorísticos, Globo Repórter ou especiais, caiu em cinco ou seis pontos (publico feminino tem passado para a Record)

Bandeirantes, que manteve sua programação de filmes e seriados policiais, ganhou o público que era da Record e subiu 5/6 pontos.

José Miziara não se julgou atingido profissionalmente com o fracasso financeiro de sua novela. Para ele, as críticas foram boas e o produto final agradou em 80%. Ele não tem contrato com o estúdio Sílvio Santos e, ao mesmo tempo, que mostra seu desgosto com o corte feito, elogia Sílvio Santos.

- Ele está tentando criar um mercado de trabalho. E Os outros, que só exibem filmes importados e enlatados? Nossa luta, aqui, era criar empregos, abrir condições para o artista brasileiro. Trabalhei 12 anos em dublagem e sei tudo. o filme vem de fora e o que os importadores conseguem cobrar é lucro. Só custa mesmo é a dublagem. Cada capítulo da novela ficou caro, bem mais do que custa o Kojak, que é de Cr$ 60 mil ou uma reprise, que não fica mais do que Cr$ 15 mil. Este sim é o drama do profissional brasileiro, não o que está acontecendo aqui com a gente. Assim que acabar O Espantalho a Record vai botar em seu lugar uma linha de filmes ao custo de Cr$ 300 mil por mês (ao seu lado Moisés lembra: a novela custou, por mês, Cr$ 1 milhão 500 mil, cinco vezes o custo da futura programação de filmes da Record).

Sílvia Santos evitou durante a semana inteira tocar no assunto. Por ordens suas, ou por própria vontade, seus assessores o esconderam da imprensa e vigiaram todos os seus passos, para ''evitar problemas de imagem". Isso não impediu que ele viesse a ser entrevistado por uma emissora de rádio, a jovem Pan, e desse ali uma pequena amostra do seu modo de pensar e agir, bem como uma idéia de seus planos para a TV Studio.

- Minha atividade como dono de televisão é hoje mais importante do que a de artista ou animador. Levei 10 anos aprendendo como animador e acho que vou levar cinco ou seis para aprender a organizar uma televisão. Inaugurada a TVS ela vai mostrar, até dezembro, a novela O Espantalho e filmes. o que vai acontecer depende dos resultados. Se o carioca quiser shows, teremos shows. Se o carioca quer futebol, teremos futebol, se o carioca quiser jornalismo, teremos jornalismo. Se o carioca quiser novela, teremos novela. Nós fazemos experiências, o público aprova ou não. Isso de dizer que a Máquina faz o gosto do público é errado. Se a gente coloca no ar um programa cultural, ou educativo, ele muda de canal e o nosso no caso, dá zero, e temos que mudar tudo.

Esse homem que detesta poeira (irrita sua garganta e o impede de falar hora seguidas) e pessoas que se perfumam em excesso; que não costuma sorrir longe das carnaras, com a facilidade, já não está mais tão entusiasmado com seu próprio canal de televisão.

- Eu pensava que o maior problema fosse o artístico, a mercadoria que você dá ao telespectador. Mas a parte técnica é muito mais delicada. Um telecine demora trinta diais para ser ajustado. Com as câmaras acontece a mesma coisa. Se eu soubesse, não me metia em televisão. Uma estação de TV dá mais trabalho do que 20 empresas juntas. É mais fácil ser artista do que empresário - disse à TV Guia, ano passado, o animador e empresário Sílvio Santos.

______________________________________________________
............................................................................................................
............................................................................................................

No comments:

Post a Comment

Followers