Monday, January 18, 2010

Jornal do Brasil 16/10/1993





ENTREVISTA COM PEDRO BIAL
O Leste Europeu entrou em convulsão, explodiu a guerra do Golfo, acabou a União Soviética e houve urna tentativa de golpe na Rússia de Boris Yeltsin. O mundo virou e mexeu e lá estava o jornalista da TV Globo, Pedro Bial. Correspondente internacional há 5 anos, Bial apareceu na TV brasileira documentando o curso da história e a Rússia passou a ter a sua cara para todo o Brasil. Aos 35 anos, o repórter viveu ali, ao vivo e a cores, os fatos mais importantes do final do século. Hoje ele ainda quer andar pela Europa, microfone na mão. Mais para a frente, Bial quer chegar a uma síntese de cinema e jornalismo: se embrenhar pelos documentários, sem a correria contra o relógio no passo a passo da história.

- A Rússia acabou atropelando sua vida de forma definitiva, e meio por acaso, não?

- Tenho uma história com Moscou cheia de coincidências. Cheguei à antiga União Soviética pela primeira vez em 18 de agosto de 91. Estava indo para a Sibéria fazer um documentário para ao Globo repórter e acordei no dia seguinte em pleno golpe. Mikhail Gorbachev havia desaparecido e nenhum jornalista podia mais entrar no país. Cobrir o golpe foi profissionalmente uma experiência feliz e pessoalmente intensa.

- Aí, no final do ano, estava você lá de volta, Foi o momento mais importante de sua carreira profissional?

- Voltei em dezembro, quando a União Soviética foi extinta e documentei um dos acontecimentos mais importantes da segunda metade do século XX. Ainda assim, não consigo destacar urna cobertura como a mais importante. Meu papel corno jornalista brasileiro na crise do Golfo, quando estive no acampamento da Mendes Júnior no Iraque, foi mais forte. Narrei o drama de pessoas do meu pais.

- Nas indas e vindas à Rússia, qual foi a maior dificuldade para retratar o curso da história?

- No golpe de 91 estava lá, mas não era credenciado e por isso não tinha acesso a certos lugares. Agora também foi complicado. Quando o estado de sítio foi declarado tudo se tornou mais difícil, não só pelas regras internas da segurança do governo paralelo, como também pelo cerco policial do governo Yeltsin. Tudo acontecia ao mesmo tempo e eu tinha que decidir a cada 15 minutos o que fazer. A maior dificuldade era tomar a decisão certa. Era só eu e um cinegrafista, enquanto a CNN, por exemplo, tinha 300 pessoas lá e a ABC gastou 20 mil dólares para pagar o excesso de peso do transporte de seu equipamento.

- A importância da televisão nessas hora é evidente. A TV te fascina?

A importância da televisão é enorme. O comando armado da rebelião em, Moscou não tomou a TV moscovita por cinco minutos, impedido pelas forças do ministério do interior. Se tivesse havido um pronunciamento em cadeia, a história poderia ser outra. Por outro ângulo, a CNN estabeleceu um novo parâmetro de jornalismo, não só para os profissionais de TV como também para a imprensa escrita. Adoro a televisão, mas é um desafio privilegiar imagens. Nessa prioridade da informação visual você corre o risco de sonegar ou desprezar informações que podem parecer não tão atraentes.

- Afinal, qual a cobertura que foi mais marcante?

- A visita ao acampamento da Mendes Júnior na crise do Golfo foi marcante. Era uma cidade brasileira, cercada de deserto e a única saída era uma estrada construída pelos próprios peões brasileiros. Me senti útil, num daqueles momentos em que a profissão se justifica.

No comments:

Post a Comment

Followers