Saturday, January 2, 2010

1982 - Agnaldo Rayol por Silvio Lancelotti

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 31/1/1982
Autor: Sílvio Lancelotti






A SUAVE AVENTURA DAS VALSAS E SERESTAS
Todos os sábados, das 19h30 até pouco mais de 23 horas, perto de cinco milhões de pessoas na cidade de São Paulo, no Interior do Estado, no Sul de Minas e no Norte do Paraná têm o gratíssimo prazer de dançar ao som das mais lindas valsas e serestas jamais cometidas neste Pais.

A suave aventura começa nos vídeos sintonizados na TV Record e suas estações retransmissoras, através do programa "O Grande Baile", comandado pelo cantor Francisco Petrônio e pela atriz Márcia Maria. E depois, às 21h30, engata na "Festa Baile", da TV Cultura, e suas subsidiárias, apresentada por Agnaldo Rayol e Branca Ribeiro. A "Festa" da TV estatal, aliás, também pode ser acompanhada sem imagens na co-irmã Rádio Cultura.

Idéia de Francisco Petrônio, que há década e meia vem exibindo a sua voz mansa de tenor em clubes e clubes deste Brasil adentro, o encontro nostálgico de casais, nem sempre tão idosos, quanto acreditam os preconceituosos e os falsos modernosos, transformou o ex-motorista de táxi numa das personalidades mais saudavelmente populares de toda a Nação. Petrônio sempre foi o mesmo desde que largou os volantes pelos microfones. Canta com uma naturalidade de espantar, é afinadíssimo, muito simpático, e não sente nenhuma vergonha por se enraizar no passado e não fazer qualquer -espécie de revolução cultural. Os mais jovens e os mais inquietos, gente que torce o nariz só de imaginar um intérprete musical que ainda se veste de smoking, com certeza nunca ouviram alguém entoar, por exemplo. "Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda", obra-prima de Lamartine Babo e Chico Matoso.

Petrônio sempre pensou simplesmente. Nada mais prosaico do que conseguir o espaço de um clube capaz de abrigar uma pequena orquestra, duas centenas de mesas e uma pista de danças. Depois,. nada menos complicado do que preencher esse espaço com casais dispostos a bailar de rosto colado, uma instituição bem mais gostosa e -menos piegas do que supõem as vãs filosofias da política do corpo e outros modismos extemporâneos.

O sucesso da invenção foi tão imenso que ela acabou aterrissando na televisão. Melhor: tornou-se, em 1981, o programa de maior audiência da RTC - com picos surpreendentes de 15, 20 pontos de Ibope, marcas dignas do inabalável poderio global. Ocorre que, por ser estatal, a RTC não permitia que Petrônio usasse o seu programa para fazer o merchandising de que ele necessitava para a sua própria promoção. Dizer aos telespectadores, por exemplo: "Atenção, pessoal, no próximo dia 22 estarei dando um show em Matão.''

Sem alternativa, e. também sem nenhum rancor, fique bem claro, Petrônio abandonou a Cultura em troca da Record. A Cultura, porém, não se abalou. Imediatamente resgatou o barítono Agnaldo Rayol, nos tempos recentes mais ator do que cantor, protagonista da novela "Os Imigrantes", da Rede Bandeirantes. E Agnaldo, com menos de um mês de programa, volta a sentir todo o-gosto da idolatria, da popularidade que possuía 15 anos atrás, nos idos do "Corte-Rayol Show'', da TV Record.

Bela briga, de que todos saíram ganhando. Em especial a música brasileira dos anos 30 e 40, ponto forte das preferências do público que vê tanto a "Festa Baile"'como o "Grande Baile". Sim, os dois programas não competem diretamente entre si. Atrelam-se meigamente, como bons amigos separados apenas pelas contingências do serviço e que, no meio da noite, se reúnem na mesa de bar para uma cerveja e a delícia do papo furado. Se a "Festa", da Cultura, na pior das hipóteses Já pegava os seus 15 pontos de Ibope, agora tem chances de subir na numeração. Pois recebe de graça todo o impulso do fiel espectador que vê Petrônio na Record e depois vai buscar Agnaldo na RTC.




Os dois programas são gravados em salões de baile da Capital paulista, e as produções da "Festa Baile" e do "Grande Baile" só fazem uma espécie de exigência aos eventuais freqüentadores: entram na brincadeira apenas os casais, homens de terno e gravata, damas (sim, damas, pois nesses ambientes fica Inadequado o uso do mero substantivo "mulheres") de vestido longo.

Os críticos eternos, os radicais opositores do passadismo, os fanáticos da novidade permanente, ah, esses detestam os dois programas e seus apresentadores. Como se Petrônio e Agnaldo, em seus estilos, não fossem muito bons, eficientes, competentes e gentis. Como se Petrônio e Agnaldo estivessem cometendo algum crime de lesa-cultura ao sustentarem a vida das valsas e das serestas. Nenhum dos dois tem a ambição de reviver tempos que já morreram. Apenas sustentam, com respeito e carinho, algumas sensíveis memórias.

Com semelhante talento, embora sem a mesma fama, por enquanto, começa a despontar um outro cantor, digamos assim, de repertório acadêmico, dentro da música brasileira. Seu nome é Dino Di Nardi, uma das revelações dos elencos da ópera no Pais durante o começo dos anos 50. A ópera, todavia, jamais deu comida a ninguém neste pais tão Interessante. E Dino Di Nardi, como tantos outros em seu gênero, foi tentar o milagre italiano.

Ficou dois anos na "vecchia peninsola", estudou com o mágico Tito Schippa, mudou-se para os Estados Unidos, por lá ficou seis outros anos e até se apresentou no ''Ed Sullivan Show", um dos mais prestigiosos programas de TV da América do Norte. Voltou ao Brasil e abandonou o canto. Há cerca de seis meses, porém, decidiu correr de novo o risco do palco, um risco enorme para quem havia ficado quase 20 anos sem o contato da crítica e das platéias. Quem estuda, porém, Jamais desaprende. Em seus tempos de menino Dino aprendera canto com um dos maiores maestros preparadores que este país já teve, don Alfredo Sarda. E sem esforço algum a voz de tenor voltou a fluir, a encorpar - a ponto de a RCA oferecer-lhe a oportunidade de um retorno também ao disco, um compacto duplo que inclui uma preciosidade, uma versão cantada, pela primeira vez, do "Abismo de Rosas", um sucesso antológico no violão de Dilermando Reis.

Dias destes, uma terceira emissora de TV ainda vai procurar Dino Di Nardi com um convite para estrelar uma terceira grande festa baile. Nas noites de sábado repletas de enlatados há muito lugar para as valsas e as serestas. Mesmo que elas soem melosas e sentimentais, piegas e alienadas.

O roqueiro mais empedernido também tem direito à sua gota de romance. Afinal, Já foi dito, ninguém é de ferro.

______________________________________________________
............................................................................................................
............................................................................................................

No comments:

Post a Comment

Followers