Friday, January 1, 2010

1979 - Detetives na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 3/5/1979
Autor: Maria Helena Dutra




MUITO BOFETÃO E POUCO RACIOCÍNIO
Antológicos na literatura, regulares no cinema e, francamente, péssimos na televisão. É a conclusão que se chega ao tentar assistir aos inúmeros seriados estrangeiros, só estes se arriscam, que nos propõem contar histórias de detetives ou policiais. Para registro e esclarecimento, desculpem o tom pessoal, confesso sem apaixonada pelo gênero. Pode ser até uma fraqueza de caráter. Acredito, porém, que o louco amor por estas fascinantes e mirabolantes criações ficcionais seja por muita gente compartilhado.

Mesmo no Brasil, onde este estilo jamais conheceu boa ambientação - é muito difícil mitificar nossa dura realidade, polícia, miséria e impunidades judiciais - é grande o número de adeptos dos sofisticados labirintos de pistas para a descoberta do culpado ou mesmo de histórias mais cruas e brutais da vertente naturalista do gênero. Só que, mesmo nestas, o material impresso, principalmente, não se permite burrices ou falta de charme em seus heróis. Sob pena de perder a cumplicidade dos loucos mansos viciados nesta literatura repleta de estranhos, mas mitológicos detetives e investigadores. Figuras, ao mesmo tempo, implausíveis e familiares que apenas autores muito peculiares e realmente inventivos sabem criar. Habitam Marte e o nosso quarto, com a maior desenvoltura, gente como o abominável Hércules Poirot com seus 200 anos de basófia, Miss Jane Marple que tem em St.-Mary Mead respostas para todos os enigmas do mundo, Lew Archer e sua honestidade inusitada para o ambiente em que vive, Ned Beaumont só agindo e pouco parecendo pensar, Nego Wolfe fazendo exatamente o contrário enquanto come demais e cultiva orquídeas e o afrescalhado Ellery Queen se exibindo em mil e uma visagens.

Muito excêntricos, mas, desde Sherlock Holmes, marcantes personalidades de um mundo ambíguo, composto, em metades perfeitas, de realidade e sonho. Algumas destas queridas figuras e histórias policias conseguiram ser transplantadas para o cinema com extrema felicidade. São clássicos do estilo A Beira do Abismo, O Falcão Maltes, Chinatown, Os Negrinhos (versão René Clair), até o estrelar Crime no Express Oriente e toda a série do Inspetor Maigret interpretado por Jean Gabin.

Apenas alguns títulos de uma cinematografia rica que prova o fato de a imagem não afastar a inteligência de uma boa história policial. Coisa difícil de acreditar para quem trava conhecimento com elas através da televisão. Desde os primórdios, o seriado feito para o veículo, com detetive cooptado da literatura ou criado no filme piloto, nunca apresentou igual charme, nem ultrapassou os limites do entretenimento para a real criação. Raramente, estes enlatados se importam em desenvolver uma história, apenas expõem um tema e o desenvolve de maneira arbitrária e ilógica. Para piorar as coisas, acham que o público de televisão não é afeito a raciocínios e detesta originalidade. Então, tudo é sempre igual, bem restrito ao que chamam de nível médio de entendimento, e 90% dos casos são solucionados na base dos tiros, bofetões, torturas e violências. Nestas produções, não há lugar para pequenas células cinzentas trabalhando e elas são sempre substituídas por tapas e metralhadoras que tudo resolvem. Em lugar de aficionados loucos mansos, só fazem gerar racionais irados com tantas bobagens.

Basta verificar as ofertas do gênero agora transmitidas na televisão carioca para concordar. Na Bandeirantes, terça-feira, temos a série Persuaders. De origem inglesa, e já meio antiga, pois é de 1971, tenta nas impingir Tony Curtis e Roger Moore como galantes aventureiros, plenos de piadas e golpes. As situações são, entretanto, tão previsíveis e repetidas, que os dois atores apenas parecem réplicas de Abbot e Costeio em comédia atrapalhada por crimes. Repugnante é a atração da quarta-feira, Starsky e Hutch. Dois policiais que poderiam integrar o nativo Esquadrão da Morte pela violência e ignorância que alardeiam. Em tramas indigentes e com um relacionamento recíproco muito ao estilo Batman e Robin. Na mesma noite, São Francisco Urgente, muito antigo, desperdiça o cenário da mais cinematográfica cidade americana com criminosos tolos e detetives ocos. Karl Malden se esforça, mas não consegue humanizar seu veterano policial que é por demais robotizado. Na quinta-feira, Havaí 5-0 permanece como um dos recordistas mundiais de exibição global. Façanha devida, acredito, multo mais ao cenário do que às suas aventuras também pouco entusiasmantes. Um disfarçado racismo, de quando em vez sobe à tona, e provoca maior antipatia ainda pelo seriado. Missão Impossível, também na quinta, só deu para agüentar nos tempos da TV Excelsior, desaparecida há cerca de 20 anos. As brincadeiras tecnológicas do enlatado são igualmente antigas e já não despertam a menor curiosidade. Na sexta-feira, porém, está na mesma estação o melhor da atual safra em exibição. E' o Arquivo Confidencial, que estreou na Globo, e continua a dar mostras de saúde no canal 7. E' o que apresenta histórias com princípio, meio e fim e bem variadas. Seu astro e produtor, James Garner, não usa armas e raramente bate, apenas apanha. Mas tem também a peculiaridade de parar para pensar e realmente parece um detetive e não um Capitão América abobado feito os outros.

Na TVS, óbvio, tem destes seriados aos potes. Terça-feira é noite de Toma, com Tony Musante. Um policial, tipo Baretta, cheio de disfarces e com nome muito perigoso em português. E merece. Na quinta-feira, exumaram Barnaby Jones com o veteraníssimo Buddy Ebsen, que já foi até bailarino. Por ser um velho detetive, usa pouco a violência. Mas é totalmente destituído de charme e de deduções brilhantes. Soporífero. Sexta-feira, Sérpico. Mais um policial metido a moderninho, mas de aventuras mais antigas do que as escritas por Edgar Wallace ou Sax Rohmer. No domingo, o melhor do canal no gênero Cannon. Seriado velhíssimo que o tarimbado ator William Conrad faz menos rançoso.

A Globo, agora, ataca de poucos exemplos. Mas de nenhuma qualidade. Baretta, terça-feira, é um horror. O policial feito por Robert Blake rebola, tem crises existenciais, cria cacatua, chora muito, mas não convence ninguém de ser alguma coisa mais do que um chato. Suas falsas insubordinações dão engulhos e é apenas capaz de desventuras policiais. Se fosse criminoso, a gente torcia pela polícia. Vegas, quarta-feira, começou agora, mas já vem de jeito antigo e num cenário apenas deprimente. Reveza com as já veteranas Panteras que apenas desfilam modas. E muito ridículas quando, no alto de enormes sandálias, correm atrás de criminosos, com roupinhas de milhões de dólares perseguem bandidos sem serem notadas ou não os perdem de vista atrás de quilos de cílios postiços e montes de cabelos esvoaçantes nos olhos.

A Tupi, no momento, está plena de seriados policiais. Na segunda, dose dupla. O Mágico é muito antigo e perde para qualquer Mandrake de antanho. Também nesta noite, o ator James Franciscus começa sua saga na estação como Hunter, um espião sem nenhuma credibilidade e feitos próprios. Quarta-feira, noite de Petrocelli que por ser advogado acredita mais em leis do que em socos. Dá, portanto, para vê-lo embora as histórias sejam pouco imaginosas. Na mesma noite, volta o cansado James Franciscus agora como um cego investigador em Longstreet.

Apesar da deficiência física, ele e seu cachorro são imortais e descobrem até a cor dos olhos dos criminosos. Até este detetive, bom exemplo da indigência mental imperante nos seriados, em lugar de ser posto para pensar é coloca para correr. Pode?

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