Wednesday, January 20, 2010

1992 - Jornal de Vanguarda

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 4/4/1992
Autor: Rose Esquenazi





HUMOR E OUSADIA NA VANGUARDA DA NOTÍCIA
Certa vez o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, resolveu entrevistar o colunista Jeff Thomas, uma figura folclórica da imprensa. "Você fala muito bem inglês". "Oh, yes", respondeu Jeff. "Você fala muito bem francês". "Três bien", exultou o colunista. "Quer dizer que você é um troglodita?", cutucou Sérgio Porto. "É claro", concluiu Jeff Thomas.

Este era o clima do Jornal de vanguarda, que misturava irreverência, bom humor e furos jornalísticos, de segunda a sexta, às 22h. Criado em 1962 na TV Excelsior, o "show de notícias", como era chamado, reunia uma equipe de primeiríssima qualidade. "Foi um jornal que modificou a estrutura do jornalismo da TV", explica seu criador, Fernando Barbosa Lima. Antes do Jornal de vanguarda todos os outros tinham o mesmo formato. O locutor lia as notícias, recortadas dos jornais e, como pano de fundo, tinha apenas uma cortina.

Fernando e sua equipe de talentosos profissionais da imprensa ousaram em todos os sentidos. Célio Moreira, por exemplo, o irmão mais novo de Cid Jornal Nacional Moreira, fazia o Sombra, um personagem que só dava notícias terrificantes, como a lista dos cassados. Célio, apelidado de "gogó de ouro", imitava as vozes das mais conceituadas figuras políticas, dando vida aos bonecos falantes desenhados por Borjalo. Certa vez recebeu um bilhete do então nomeado presidente Costa e Silva, com as seguintes palavras. "Célio, você está engrossando muito a minha voz". O locutor adorou. Na primeira oportunidade leu o bilhete engrossando a voz mais ainda.

"O Jornal de vanguarda teve duas fases. Uma, durante o governo Jango, quando tínhamos absoluta liberdade, e uma outra em que sofremos forte pressão da censura", conta Borjalo, que dirigiu na TV Globo o Jornal de verdade, filho do Vanguarda. Hoje Borjalo cuida da qualidade de todos os textos da emissora, mas houve um certo dia em foi obrigado a engatinhar pelo estúdio para salvar o programa. Quando Otto Lara Resende soube que o governo havia fechado o Congresso, ficou tão chocado que sofreu um branco diante das câmeras. O censor que circulava pelo estúdio considerou aquele silêncio uma provocação. Agarrando a perna de Otto, Borjalo ameaçou: "Ou você fala agora ou não fala nunca mais". E o jornalista falou.

DIRETOR LAMENTA A ATUAL FALTA DE CRIATIVIDADE - Newton Carlos sofria para fazer o noticiário internacional, já que a maior parte das notícias chegava muito atrasada. Além disso, quase todas as telefotos eram compradas pelo Repórter Esso, o maior concorrente do Jornal de vanguarda. "Não havia Embratel nem satélite. As câmeras eram de cinema, pesadíssimas, com microfone acoplado. Sem falar que era preciso revelar o negativo", conta Fernando Barbosa Lima, que preferia usar a criatividade na falta de recursos. Se havia uma briga no Congresso, a solução era colocar uma cena de luta livre. "Era muito mais divertido e mais inteligente dos que os jornais de hoje", compara Barbosa Lima, que atualmente dirige o Programa de domingo, da Manchete.


A atriz Odete Lara provocava os políticos, com um jeito sensual, como se tivesse acabado de sair da "alcova" de algum deles. Villas-Boas Corrêa, com suas inteligentes análises políticas, aumentava a ira da censura e foi diversas vezes ameaçado de prisão. Fernando Barbosa Lima cita uma dessas entrevistas em que a equipe misturou humor e irreverência. Na primeira vez que Jarbas Passarinho apareceu no Jornal de vanguarda, Sérgio Porto se escondeu atrás do estúdio e durante todo o tempo fez a sonoplastia, imitando um passarinho com perfeição.

Luiz Jatobá lia as notícias ao lado de Tarcísio Holanda e Fernando Garcia, que Stanislaw Ponte Preta adorava chamar de "catedral submersa", por causa de sua poderosa voz. O Jornal de vanguarda oferecia ainda Gilda Muller, a colunista que falava de mulher, João Saldanha, Reinaldo Jardim, Millôr Fernandes. Os jornalistas das redações colaboravam espontaneamente telefonando para o estúdio e passando as notícias mais quentes.

"Quando surgiu o AI-5 sentimos que o jornal ia ficar, a cada dia, pior. Reunidos no bar Imperator, em Copacabana, discutimos o fim do programa. E eu disse que cavalo de raça a gente mata com um tiro na cabeça", revela Fernando Barbosa Lima, que colocou no ar, no dia 1° de abril de 1964, a cena de um menino sendo assassinado na frente do Clube Militar, na Cinelândia, por um homem de bigodinho. Mesmo com toda a censura e toda pressão, Jornal de vanguarda ganhou o prêmio Ondas, de melhor telejornal do mundo.





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