Wednesday, January 20, 2010

1988 - Vale Tudo pelo Ibope

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 31/12/1988






VALE TUDO PELAS SOBRAS DO IBOPE
Na hora da novela das oito, as concorrentes brigam pela cota que lhes cabe nesse minifúndio

O sucesso da novela Vale tudo, da Rede Globo, revelou uma nova heroína nacional, a desprezível Maria de Fátima - há pessoas que só saem de casa após saciarem a sua dependência novelesca - e colocou os programadores das demais emissoras de televisão, unia vez mais, diante de uma evidência que já dura quase duas décadas e de um problema quase insolúvel: como concorrer com o horário nobre da novela das oito da Globo, que se mantém há anos como campeã de audiência? Os responsáveis pela programação do SBT e da Rede Bandeirantes, em São Paulo, admitem sem rodeios que não têm meios de enfrentar a liderança da Globo no horário. Mas não se dão por vencidos: há sempre uma estratégia para disputar a sobra de audiência e conquistar alguns pontos no índice de aparelhos ligados.

"Não temos possibilidade de combater com um outro produto a novela das oito da TV Globo, que já se tomou uma tradição brasileira", confessa Luciano Callegari, diretor superintendente do SBT. "A nossa opção é jogar várias séries no ar no mesmo horário, para ganhar o público que não gosta de novela e esquentar o horário nobre do SBT, que começa após o fim da novela da Globo, que hoje é imbatível'', admite Callegari. Este ano, com a programação de seis enlatados no horário das 20h15 às 21h15 de segunda à sábado - Mike Hammer, Karatê Kid O'Har, Esquadrão classe A, Carro comando, Voyagers e Tarzan - o SBT obteve uma média de 10 pontos no Ibope contra os 64 pontos de Vale tudo no mesmo horário, mantendo a sua vice-liderança de audiência.

"Além dessa performance, a única forma de enfrentar o horário da novela da Globo é lançar uma novela própria do SBT", diz Callegari. "É o que vamos fazer em 1990, quando lançaremos três novelas simultâneas no mesmo horário das novelas da Rede Globo", anuncia o superintendente da emissora, lembrando que, em São Paulo, a audiência geral da Globo é de 35 pontos no Ibope contra 16 do SBT, numa disputa até certo ponto equilibrada. "No entanto, o faturamento da Globo é quatro vezes maior que o nosso, sendo que 60% desse faturamento é obtido só com o horário das novelas", aponta Callegari.

Para o diretor de programação da Rede Bandeirantes, Eduardo Lafond, o fato de a Rede Globo liderar a audiência com a novela das oito não quer dizer que a emissora ocupe todo o horário. "Sempre sobra uma audiência, que é dividida com outras emissoras", conforma-se Lafond. "A nossa preocupação nesse horário não é brigar com a Globo, mas ter um bom produto para disputar o restante da audiência e conquistar alguns pontos no índice de aparelhos desligados", afirma.




Na programação deste ano, EL exemplo do SBT, a Rede Bandeirantes colocou várias minisséries no ar no horário da novela e atualmente reprisa o seriado Dona Santa, com uma média de 3 pontos no Ibope. Mas o maior trunfo da Bandeirantes para 1989 é a reprise diária completa da série Dallas, Já exibida no ano passado, aos domingos, pela Globo. "Com Dallas, pretendemos atingir uma média de 7 a 8 pontos no, Ibope", aposta Lafond. "Isto porque a série é considerada unia novela, mas com um estilo diferente, com o charme e o formato de um filme." Esta será a primeira vez que a Bandeirantes colocará no ar um produto diário para brigar pela audiência no horário. E Lafond não está preocupado com o não ineditismo de Dallas. "Na Globo a série não passou com regularidade, era apenas aos domingos. Nós vamos exibir Dallas desde o início, e com capítulos inéditos, de segunda a sexta."




No Rio, a Rede Manchete e a TV Corcovado enfrentam a liderança imbatível da novela Vale tudo com a resignação do concorrente fraco e jamais abusado: "Nossa estratégia é consolidar um público diferente no horário. Nós evitamos a competição frontal e conseguimos bons resultados", explica o diretor geral da Manchete, Expedito Grossi. A tática da emissora, portanto, é jogar no ar, exatamente às 20h30, o Jornal da Manchete 1ª edição, para um público alienado, que não quer descobrir o assassino de Odete Roitman, a vilã da Globo vívida por Beatriz Segall. São 50% de homens e 50% de mulheres, da classe A e B, mais interessados nos assassinos do sindicalista Chico Mendes no Acre, que garantem a audiência média de 6 pontos do noticiário até às 21h30. "É um telespectador de qualidade para os anunciantes, porque são consumidores,de alto poder aquisitivo", destaca Grossi. Foi assim que o espaço publicitário do jornal se transformou no preço mais alto, da casa: Cz$ 800.000 por 30 segundos em rede nacional.

A TV Corcovado, a penúltima audiência carioca (só ganha da TV Rio), ligada informalmente à Rede SBT, do grupo Sílvio Santos, tenta atrair durante o horário mais nobre da Globo um público de interresses ainda mais específicos, como os fanáticos por hipismo que, às 20h30 de toda quarta-feira, se divertem com o Fórmula H. O diretor comercial da TV Corcovado, Amaury Worms, promete Incrementar a programação em 1989 com um novo programa de esporte amador às segundas-feiras, enquanto permanecem no ar as outras alternativas da semana: às terças-feiras Gente como a gente, sobre problemas dos municípios, às sextas-feiras, Recado, uma retrospectiva informativa da semana; e o programa político do ex-vereador Sidney Domingues, atualmente às segundas, ocupará o horário de quinta-feira de O Rio é nosso, um candidato a programa diário em 1989. A Corcovado já enfrenta a novela global de 19h com o Programa da noite (entrevistas feitas pela jornalista Léa Pentheado) e pretende combater em março o Jornal Nacional com um jornal local e outro de notícias exclusivas da Baixada Fluminense.

Daniel Barbará, diretor de mídia da agência paulista de publicidade DPZ, lembra que a Vale tudo, que tem uma média de 64% de audiência, não é a novela de maior audiência da história. da televisão brasileira. "Ela tem, na verdade, muito mais repercussão do que a sua audiência mostra", define Barbará, que confirma a estratégia das demais emissoras para enfrentar a liderança da novela. "O que as outras redes fazem é não programar nada de muito importante para o mesmo horário, que é preenchido com séries frias", diz. "Se a audiência está ligada na novela, a veiculação de produtos e anúncios não pode ser muito forte", justifica Barbará.

"Nas demais emissoras, este é um horário morto, onde o custo dos comerciais é mais barato, porque é proporcional à baixa audiência", explica o diretor de mídia da DPZ. "Enquanto, por exemplo, o custo de um comercial na novela da Globo é de Cz$ 14 milhões, nas outras emissoras, no mesmo horário, ele cai para Cz$ 2 milhões", revela. "Mas não podemos esquecer que, a partir do fim da novela, começa a programação nobre das demais redes, onde as agências programam mais seus anúncios", lembra Barbará. E aí a situação muda, como nas quintas-feiras, onde o programa A praça é nossa, às 21h30 no SBT, com média de 40 pontos no Ibope, lidera a audiência em São Paulo.




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