Friday, January 1, 2010

1981 - Novas Redes de TV

Jornal: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 20/3/1981




AS NOVAS TEVÊS
Em decisão do governo anunciada ontem em Brasília pelo ministro Haroldo de Mattos, das Comunicações, os grupos Manchete (de Adolpho Bloch) e Sistema Brasileiro de Televisão - SBT (ligado a Sílvio Santos) foram os ganhadores da concessão. Em São Paulo, a Manchete ficou com o canal 9 e o SBT com o canal 4.

O ministro Haroldo de Mattos, das Comunicações, anunciou ontem, em Brasília, o nome dos que receberam a concessão dos canais de televisão, aberta em conseqüência do vencimento das concessões dadas à Rede Tupi.

Em nota oficial, o Ministério das Comunicações afirma que "os contratos de concessão conterão, entre outras, cláusulas especiais relativas ao aproveitamento dos empregados da Rede Tupi, em consonância com as exigências dos editais e compromissos assumidos pelos dois concorrentes em suas propostas".

Esses dois concorrentes - os vencedores - são a TV Manchete (à qual couberam os canais 9 (São Paulo), 6 (Rio de Janeiro), 5 (Belo Horizonte), 6 (Recife) e 2 (Fortaleza); e o Sistema Brasileiro de Televisão - SBT (ligado a Sílvio Santos, mas que está em nome de Cármem Abravanel), ao qual couberam os canais 9 (Rio de Janeiro), 4 (São Paulo), 5 (Porto Alegre) e 2 (Belém do Pará).

Segundo a nota do governo, os vencedores não pagarão a dívida do grupo Associado COM o INPS e cada um terá um prazo determinado para colocar em funcionamento os novos canais de televisão.

À tarde, no Rio de Janeiro, o ministro Haroldo de Mattos, negou comentários de que houve caráter político na atribuição das concessões, garantindo que o julgamento se baseou no retrospecto dos candidatos em serviços de radiodifusão, avaliado entre as propostas "que melhor atendiam aos termos do edital".

- Não tem sentido falar-se em decisão política - afirmou o ministro, pois o resultado baseou-se nos termos do próprio edital. Os comentários são livres, mas, infelizmente, é muito raro que sejam acertados, e esse fato é mais uma prova de que estou dizendo.

O ministro comentou ainda que a decisão presidencial é conseqüência de uma prerrogativa do carga, admitindo que houve negociações paralelas "que viabilizaram o resultado nos termos anunciados":

- Em toda licitação desse tipo - disse Haroldo de Mattos - existem negociações paralelas entre os grupos Interessados. Não há nada de mais nisso e não vejo por que o interesse.

Depois de muita insistência dos repórteres, o ministro concordou em revelar os critérios da decisão, garantindo ainda que os funcionários da Rede Tupi serão absorvidos pelos grupos vencedores.

Em Brasília, nos bastidores políticos, os comentários eram de que o governo se utilizou de critérios políticos para fazer a sua escolha.

Lembrava-se que a decisão presidencial sobre a concessão das duas redes de televisão para os grupos Manchete e Sílvio Santos já estava tomada há mais de um mês e que, no entanto, havia interesse oficial em favorecer o grupo Paulista da Rádio Capital (dirigida pelo advogado Edvaldo Alves da Silva).

Como não houve uma composição que integrasse o grupo Capital, ministro Golbery do Couto e Silva, chefe, da Casa Civil, chamou para uma audiência os empresários Oscar Bloch (Manchete) e o próprio Sílvio Santos, durante a qual ficou definida a atribuição das concessões.

Os critérios adotados pelo governo, comenta-se, foram políticos, como inclusive teria admitido o ministro Haroldo de Mattos, há meses atrás, uma vez que tanto o Jornal do Brasil quanto a Editora Abril apresentariam condições técnicas para vencer a concorrência.

Admite-se que o general Otávio de Medeiros, chefe do SNI, teve particular influência na decisão final, favorecendo a tese considerada mais comum no Palácio do Planalto de que redes de televisão, mesmo como concessão do governo suscetível a cassação, não deveriam ser entregues a grupos interessados em Jornalismo informativo e político, com a independência permitida em lei (porque em vista disso poder-se-iam tomar críticas do governo). Ter-se-ia optado então pelo otimismo, pelo descompromisso e pela segurança dos amigos supostamente fiéis ao governo.

Tal como acontecera com as declarações do ministro das Comunicações, ontem pela manhã em Brasília e à tarde no Rio, o porta-voz do Palácio do Planalto, Carlos Atila, horas depois do anúncio da decisão presidencial, não quis fazer comentários sobre especulações de que teria havido um critério político na avaliação do governo.

A pergunta dos repórteres sobre se teria havido uma decisão política (Sílvio Santos foi citado como uma pessoa que "não tem grande preocupação com a cultura"), Átila respondeu: "Eu acho essa avaliação totalmente subjetiva e impertinente".

Os repórteres, insistindo, perguntaram ainda se o grupo Sílvio, Santos teria contribuído de alguma forma, com os seus programas, para o bem da cultura brasileira. A resposta foi a de que o programa modelo de Sílvio Santos tem grande audiência:

- Há pessoas interessadas de maneira que eu acho que esse tipo de avaliação que você (o repórter) está fazendo é antipopular e elitista. Eu acho, inclusive, que é uma orientação, em matéria de pensamento sobre comunicação, extremamente perigosa. Você pressupõe que você julgue pelos outros; que as pessoas não têm capacidade de opção. Se você levar um pouco adiante esse tipo de raciocínio, você chega à convalidação da idéia de censura - afirmou o porta-voz do Palácio do Planalto.

LUTO

A manifestação do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão do Estado de São Paulo foi de duras críticas à decisão do governo.

De uma janela do prédio do sindicato (na rua Conselheiro Ramalho) ficou estendida uma tarja negra, "em repúdio à concessão feita pelo governo". Em sua nota oficial, o sindicato diz:

"O Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo vem a público para manifestar a sua mais profunda estranheza com a decisão adotada pelo governo federal em relação às duas novas redes de televisão. O Ministério das Comunicações anunciou a entrega de uma rede para o sr. Adolpho Bloch e outra ao grupo da sra. Cármem Abravanel, do Sistema Brasileiro de Televisão que, na realidade, é a máscara onde se esconde o sr. Sílvio Santos. Muito embora o sr. Ministro Haroldo de Mattos tenha afirmado que os dois grupos ganhadores possuem experiência no ramo, a verdade é que o titular da pasta das Comunicações não percebeu que o vencedor da rede referente à licitação 35/80 foi dona Cármem Abravanel e não Sílvio Santos e que, portanto, ela jamais esteve ligada a qualquer órgão dessa área, enquanto o sr. Adolpho Bloch é proprietário de uma não muito promissora editora de revistas. Foram ganhadoras as duas piores propostas. A rigor, um dos dois ganhadores nem deveria estar participando da licitação, porque era impedido por lei. Mas, o sr. Sílvio Santos burlou a lei e entrou na concorrência com testa-de-ferro. O Sindicato dos Radialistas está de luto como de luto estão todos os trabalhadores desta área de comunicações audiovisual. Um dos ganhadores, o sr. Adolpho Bloch, já fala numa rede para exibir filmes, enquanto que o outro está preocupado com o seu Baú de Felicidade para a venda de carnês. Lamentamos profundamente a insensibidade do governo na hora de tomar essa decisão. Mais uma vez, o trabalhador brasileiro foi marginalizado a um plano secundário; mais uma vez os interesses dos trabalhadores foram esmagados pela ganância e ambição dos poderosos. O governo decidiu sem pensar no problema do mercado de trabalho. Falamos que o sr. Sílvio Santos não vai absorver essa mão-de-obra proveniente da antiga Tupi. Por conveniência política, ele poderá contratar inicialmente; mas, em seguida, iniciará processo de dispensa".

No final, a nota faz uma enumeração de itens em razão dos quais não acredita que Sílvio Santos observará as leis trabalhistas e o mercado de trabalho. No item d (o final), a nota declara:

"O sr. Sílvio Santos através do que nos tem demonstrado na emissora do Rio de Janeiro, ao invés de contratar trabalhadores se vale de enlatados".

No Rio Grande do Sul, existe preocupação em relação à concessão da TV Piratini a Sílvio Santos. Essa preocupação ficou expressa ontem, em declarações feitas por Ciro Machado, presidente do Sindicato dos Radialistas e por Estácio Ramos, ex-diretor-presidente do canal cassado.

Visivelmente irritado, o representante dos Diários e Emissoras Associados em Porto Alegre, Estácio Ramos, e hoje responsável somente pela rádio Farroupilha (também do grupo Associados), disse ontem que "a situação financeira da TV Piratini interessa apenas à direção da empresa e a seus credores".

Apreensivo, Ciro Machado declarou, por sua vez, que considera Sílvio Santos "um mau empresário, que não assume responsabilidades com o trabalho e, todos sabem, só trabalha mediante prestação de serviços e cachês". O mercado de trabalho, com a concessão a Sílvio Santos, não deverá melhorar: "Sílvio Santos só trabalha com enlatados disse Ciro Machado - e já temos a TV Pampa que não ocupa mão-de-obra e não faz nenhuma programação local".

Roberto Jares Martins, diretor-superintendente da TV Marajoara, garantiu que o grupo Sílvio Santos (que ficou com o esse canal de TV, o 2) poderá colocá-lo em, funcionamento "no mais curto prazo possível, porque a TV Marajoara saiu do ar funcionando e temos dado toda a manutenção possível ao seu equipamento, ligando-o diariamente".

Para jornalistas e empresários do setor, a decisão do governo foi essencialmente política e não técnica. Comentava-se ontem em Belém que boa parte dos canais ganhos por Sílvio Santos e pelo grupo Manchete seriam transferidos para a Rede Capital, inclusive a TV Marajoara, atendendo-se com isso a interferência do governador Paulo Maluf.

Em Minas Gerais, os 239 empregados demitidos pelos Diários Associados em julho do ano passado, com o fechamento da TV Itacolomi, de Belo Horizonte, receberam com reservas a decisão do governo quanto à concessão dos canais a Sílvio Santos e Manchete.

O secretário do Sindicato dos Radialistas em Minas, Romeu Queiroz, explicou que o sindicato já começou a mobilizar, desde ontem os demitidos, "para orientá-los quanto às negociações com o grupo Manchete sobre o aproveitamento de pessoal estabelecido pelo edital".

No Recife, o ex-superintendente da TV Tupi, Ricardo Pinto, disse que a confiança na decisão do presidente Figueiredo deve ser ressaltada - comparando aqueles "que duvidaram da volta do canal 6 com aqueles que duvidaram e duvidam do projeto de abertura do mandatário máximo da nação brasileira".

BLOCH, EMOCIONADO. E FAZENDO PROMESSAS.

A notícia de que o grupo Manchete ganhou a concessão, junto com o grupo ligado a Sílvio Santos, foi recebida pelo empresário Adolpho Bloch durante o almoço em que ele homenageava Regine Chokrown (discutida personalidade do jetset internacional). Bloch recebeu a notícia por intermédio de um telefonema do sobrinho Oscar Bloch, que se encontrava em Brasília.

E o próprio Adolpho Bloch se encarregou de transmitir às demais pessoas presentes a informação recebida de Brasília.

A direção da empresa negou que Adolpho Bloch houvesse viajado logo em seguida para Brasília, em um táxi aéreo a fim de agradecer pessoalmente ao presidente Figueiredo.

Os jornalistas que foram ao prédio da Bloch Editora em busca de informações do como fora recebida a notícia da concessão, não puderam entrar no prédio da Manchete, localizado na praia do Russel, no Rio. Barrados pela segurança, os repórteres receberam ao mesmo tempo, de uma recepcionista, a informação de que a empresa divulgaria mais tarde uma nota oficial pelo telex, diretamente para a redação de cada jornal.

À tarde, ontem, funcionários da revista Manchete revelaram que a direção do jornalismo da TV Manchete seria entregue a Roberto Paulino e a direção geral a Alexandre Garcia, ex-porta-voz do Palácio do Planalto (demitido pelo ex-ministro Said Faraht, depois de ter dado uma entrevista à revista Ele e Ela, da Bloch).

Apesar da emoção revelada por Adolpho Bloch, durante o almoço oferecido a Regine Chokroum, funcionários do grupo Manchete afirmaram que a decisão do governo já era esperada e tida como certa a concessão só ontem oficialmente confirmada. Citaram como exemplo a presença quase diária, no prédio da praia do Russel, de vários técnicos especializados que a Rede Globo colocou à disposição da Manchete.

Entre esses profissionais encontra-se o coronel Herbert Piuza, considerado um dos técnicos mais qualificados da área de engenharia da TV Globo, no Rio de Janeiro.

Na nota oficial divulgada ontem à noite, o grupo Manchete se diz honrado e grato ao governo, nas pessoas do presidente Figueiredo e do ministro Haroldo de Matos, das Comunicações. A nota, assinada por Adolpho Bloch, Oscar Bloch e Pedro Jack Kapeller, afirma que a Manchete, através das suas emissoras de TV, "trabalhará para a cultura, informação e o lazer do povo", e termina assegurando: "Produziremos uma televisão que será motivo de orgulho para todos os brasileiros".

A REDE CAPITAL, AINDA DENTRO DAS NEGOCIAÇÕES

Embora tenha sido eliminada da concorrência oficial, a Rede Capital, que participou de várias negociações no Palácio do Planalto, poderá negociar diretamente com as novas concessionárias. Por algum tempo, a Rede Capital foi considerada como uma das escolhidas e, somente nas últimas negociações, acabou eliminada. O presidente do grupo, Edvaldo Alves da Silva, considerou a concorrência "limpa", afirmando que o "governo é sábio e sabe o que faz", acrescentando: "As negociações foram paralisadas, nós fizemos uma proposta e agora o governo decidiu".

Agora, a expectativa de negociação é entre os próprios participantes do Sistema Brasileiro de Televisão, o empresário da Paulo Machado de Carvalho (da TV Record) e o empresário Sílvio Santos.

Os dois participam da SBT, através de representantes, já que são concessionários de canais no Rio e em São Paulo e que, por lei, não teriam direito a um segundo canal em uma só, localidade.

Conforme explicou ontem Paulo Machado de Carvalho (que divide com Sílvio Santos a TV Record), o seu interesse era ganhar um canal no Rio de Janeiro e, o de Sílvio Santos, o canal em São Paulo.

Sílvio Santos ficará com o canal 4 de São Paulo (que tem uma dívida a ser assumida com a Caixa Econômica, em tomo de 400 milhões de cruzeiros, segundo Machado de Carvalho) e sairá da sociedade que mantém com a Record.

- Isso já estava previsto quando entramos na licitação - explicou Machado de Carvalho - e provavelmente Sílvio Santos terá preferência na escolha de dois outros canais da rede que conseguiu em Porto Alegre e Belém, porque ele ficou com o "osso" (o canal endividado e os funcionários antigos) e eu com um canal novinho e sem problemas no Rio de Janeiro.

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