Saturday, January 2, 2010

1980 - O Homem do Sapato Branco

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 7/4/1980
Autor: Paulo Maia




O VELHO 'MUNDO-CÃO' NA MÁQUINA DO TEMPO
A TV Record - canal 7 - de São Paulo anuncia em todos os jornais que chegou ao segundo lugar de audiência, só sendo batida atualmente pela TV Globo. Não adiantam os esforços esporádicos e agônicos da Tupi, pouco importam também os investimentos da Bandeirantes nas caras telenovelas e numa programação própria, na área musical e no jornalismo. Ao se ler os anúncios da emissora de Paulo Machado de Carvalho e do grupo Sílvio Santos, se pode ter a ilusão de que ela está voltando aos velhos tempos dos festivais e dos shows humorísticos.

Não. Na realidade, não está. Mas a impressão que o telespectador tem, quando, munido de inesgotável paciência, gira o dial na direção de qualquer emissora da extinta Rede de Emissoras Independentes - REI - é a de que está entrando numa máquina do tempo. Quando a Record anuncia reedições de Quem Tem Medo da Verdade, uma velha expressão sua do "mundo-canismo" e se sabe que seu maior sucesso, além do programa de Sílvio Santos aos domingos, são as incursões do ex-Deputado Jacinto Figueira Júnior pelo submundo da periferia paulistana. O telespectador pode passar e esperar, para qualquer momento, o aparecimento da imagem do Sr Assis Chateaubriand quebrando uma câmara com uma garrafa de champanha na inauguração da primeira emissora de televisão no Brasil.



O caso de Jacinto Figueira é semelhante ao dos filmes empoeirados e de baixa qualidade, que o público crescente da Record engole como sendo uma programação alternativa à monopolista de audiência da Globo: é obsoleto, mas está funcionando. Só que é necessário se ter um estômago a prova de tudo, para se suportar a xaropada que invade o vídeo nos sábados à noite.

Se há alguma tradição de programa "mundo-cão" na televisão brasileira, ela pode se concentrar, sem favor algum, no velho show de mazelas sociais e de feridas comunitárias, expostas sem qualquer pudor pelo ex-Deputado estadual paulista. Já no começo dos anos 60, ainda sem contar com os recursos tecnológicos do video-tape, o Sr Jacinto Figueira apresentava seus shows mostrando aquilo que a televisão não tinha realmente coragem de mostrar: histórias inusitadas tiradas da realidade e atiradas ao rosto do telespectador sem qualquer eufemismo. No programa reinavam prostitutas, proxenetas e marginais com uma sem cerimônia que garantia um enorme sucesso de público, o que terminou levando o apresentador à Assembléia Legislativa do Estado.

O "Homem do Sapato Branco" pode entrar para a história política do Brasil como um dos raríssimos casos de parlamentares cassados pelo regime arbitrário do AI-5 por atentado à moral e aos bons costumes. Mas, nesses tempos de abertura e de recuperação da Record, ele volta, com carga total, anunciando aos quatro ventos que seu programa é visto por "1 milhão 100 mil pessoas".

Num teatro de periferia de São Paulo, Jacinto Figueira, sentado numa cadeira giratória, no meio do palco, calçando seus sapatos brancos, apresenta às câmaras o mesmo tipo de personagem de seu programa do início dos anos 60. A diferença é que, com um equipamento de vídeo-tape, sai às ruas para filmar perseguição a marginais e outras ações policiais. O esquema de televisão-verdade do Homem do Sapato Branco permite a reunião, no mesmo palco, de um vereador de São Paulo, o massagista Mário Américo, um velho jornalista policial, Orlando Criscuolo, e prostitutas, que se dizem massagistas, mascaradas, para a discussão do tema: "Casas de massagem são, na realidade, prostíbulos?".

O impacto com a realidade é constrangedor. Os tipos humanos levados ao ar pelo programa na Record são realmente indescritíveis. Podem ir da mulher que se casou com um homem, mas é sustentada por outro, sob o compromisso de passar, com ele, pelo menos uma noite por mês, até o rapaz acusado de assassínio de uma criança, sua filha adotiva, pelo próprio irmão.

É lamentável que a TV Record esteja atingindo boas audiências apenas acionando seu velho telecine. Mas mesmo os westerns-spaghetti e a seqüência de séries violentas de policiais norte-americanos não conseguem concorrer, em baixo nível, com o velho campeão do "mundo-canismo" no vídeo nacional. Jacinto Figueira ainda é primeiro e único.

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