Monday, January 4, 2010

1979 - Carlos Imperial e a baixaria na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 12/6/1979
Autor: Paulo Maia





O SUBPRODUTO DA ESCÓRIA
Sábado à noite, ver televisão é um exercício de tortura intelectual, em todos os canais. O telespectador que não gosta de música erudita (ou mesmo quem gosta e não se dispõe a tentar identificar suas obras preferidas no som deficiente dos concertos transmitidos pela televisão brasileira) e não opta por Opus, da TV Educativa, é obrigado a procurar desesperadamente em seu seletor qual o filme mais tragável no meio do lixo importado pela Globo, pela Guanabara e pela Studios. Entre O Conquistador de Corinto e O Incrível Hulk: Um Outro Caminho é difícil saber qual o xarope mais amargo.

O telespectador nacionalista prefere consumir o produto confeccionado no Brasil, inclusive porque, então, estará dando emprego certo a produtores, redatores, técnicos, apresentadores, cantores, músicos e bailarinas, e por isso capta os sinais transmitidos diretamente do antigo Cassino da Urca e acompanha a programação sabatina da Rede Tupi de Televisão. Se for esclarecido e houver lido os jornais, ficará sabendo que Walter Avancini, Júlio Medaglia e mais uma porção de gente tida e havida como entre os mais positivos talentos da televisão tupiniquim mudaram para a Rede Associada, e terá então mais um motivo para sintonizar o Canal 6.

Luzes psicodélicas piscam insistentemente num cenário de discoteca suburbana, e a primeira reação de qualquer pessoa normal é se levantar e baixar o volume, pois o som é insuportavelmente alto e cheio de apitos, sirenes e ruídos pretensamente de nave espacial. O apresentador se esgoela, berrando a todos os pulmões, para tentar se fazer ouvir no meio daquela parafernália de sons e movimentos. Moças bonitas e esculturais, vestidas de branco, com ar de enfado, fazem movimentos automatizados que, teoricamente, acompanham o ritmo da música. O prezado telespectador estará então ligado no "Programa Carlos Imperial", teoricamente apresentado como um show de variedades. mas na prática o mais eficaz veículo de divulgação da onda do momento, o Som-Discothéque.

Se sobreviver ao verdadeiro massacre das idas e vindas da lente Zoom (pois o diretor de imagem pensa que não basta ensurdecer o telespectador com sirenes de carros de policia e aquele Baticum monocórdio e irritante da percussão, mas é preciso também causar-lhe tonturas com seus próprios delírios visuais), o pacato cidadão que, com a melhor das intenções, liga seu televisor no horário "nobre" dos sábados á noite certamente sucumbirá à lixívia cultural desabada sobre sua já então confusa cabeça. Esse cidadão se sente transportado para o Cap Country (Clube de Caxias) e conhecerá todo o submundo do Show Business Nacional. Diante de seus olhos apáticos ou perplexos, desfilarão as mais ilustres mediocridades do universo da fonografia, e ele tomará conhecimento de tudo o que de pior se produz na música chamada popular brasileira.




Os passos desajeitados das Lebres dançarinas serão confundidos com coreografia, e os créditos atribuirão aquele jogo desinteressante a um cidadão alto e magro chamado Edson Phar. As luzes que piscam no palco com intermitência cavalar farão parte daquilo que Fred Toledo diz ser cenografia. E Carlos Imperial constantemente atribui a um cidadão chamado Carvalhinho os dons de agressão aos nossos tímpanos com a monotonia ruidosa de todos aqueles sons repetidos com mediocridade insistente. Velho, gordo, cabelo pintado de acaju, o apresentador é a própria imagem da decadência, e está muito distante do estereótipo do jovem que pretende vender. O resultado de tudo isso, em cores e via satélite para o Brasil inteiro, é sem dúvida o pior programa jamais produzido na televisão nacional em todos os tempos, Carlos Imperial - diz Cidinho Cambalhota, um cidadão encarregado de empurrar a discothèque garganta dos jovens brasileiros adentro - tem "aquele gosto que o povo gosta". E Edson Phar, ao receber o troféu conferido pelos 4 mil 272 membros da Associação Brasileira dos Chefes de Equipe de Som, aconselha emocionado: "Dance, porque só faz bem". Ninguém deve esperar algo mais sólido do que essa filosofia, de um solene Kitsch, na maratona de 2 horas e meia a que é submetido o honrado cidadão brasileiro sintonizado com a Tupi nos sábados á noite. E, pela primeira vez na história da televisão, o comercial é recebido como uma bênção para os olhos e para os tímpanos, inclusive porque a vinheta de pontuação do programa é uma corrida de seu apresentador pela praia, felizmente cercado de belas cariocas.

De todos os modismos internacionais, impulsionados no mercado brasileiro por interesse das multinacionais de disco, o Som Discothèque é, sem qualquer dúvida, o mais pobre. E pobreza, indigência até, é o substantivo mais adequado para adjetivar um programa com Carlos Imperial, levado ao ar semanalmente para apresentar o subproduto tupiniquim da escória da música de consumo norte-americana. Dudu França, Corneliue, Zé Luis, The Fevers, Harmony Cats, Renato e seus Blue Caps, Banda Black Rio, Sônia Santos, Rosana, Regina (Deed D. Jackson), Bianca, Lilian, Pau-linho Camargo, Lady Zu e o próprio Carlos Imperial, entre tantos outros, são personagens de uma galeria de autores e intérpretes musicais, certamente insuperáveis em sua mediocridade artística. E essa galeria é exposta num programa que dificilmente será, um dia, superado em pobreza na história da televisão nacional.

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2 comments:

  1. Sempre procurei ver os filmes mais criticados, porque com certeza eram os que mais me agradavam. Impressionante a posição deste crítico, malhando a qualquer custo um programa visto e popular. Como a elite repudiava o que era popular!

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