Monday, January 4, 2010

1979 - Ana Maria Tahan reporta volta de Fernanda Montenegro em novela de Vicente Sesso

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/4/1979
Autora: Ana Maria Tahan






CARA A CARA COM A MISTERIOSA INGRID
SÃO PAULO - Ela está no cinema, em Tudo Bem, com Paulo Gracindo. Está também no teatro, com a peça É..., de Millor Fernandes, e a partir das 20h, desde ontem, na residência de milhões de brasileiros, como a misteriosa e rica Ingrid, da novela Cara a Cara, a primeira produzida pela TV Bandeirantes. Uma novela que marca o retorno de Fernanda Montenegro ao vídeo, nove anos e três meses após seu afastamento "não intencional" da televisão.

"Deixei de trabalhar na televisão apenas pelas circunstancias. Não sou contra ela, como meio de expressão, mesmo porque trabalhei 20 anos seguidos na TV, de janeiro de 1951 a janeiro de 1970. Apenas não dava mais tempo de conjugar minhas outras atividades, principalmente o teatro, com a TV. Nesse intervalo, fiz apenas dois teleteatros: Joana D'Arc na Tupi e Medéia, na Globo", explica a Prima Donna do teatro brasileiro, em seu camarim no Maria Della Costa, enquanto se prepara para entrar em cena, mais uma vez, com Fernando Torres, para apresentar a peça de Millor.

Ela deixa claro que não existe "nenhuma explicação surrealista" para seu retorno.

As coincidências é que ajudaram: a peça É..., está em cartaz há bastante tempo, estreava em São Paulo, não eram necessários os ensaios. Sobrava tempo, "achei que seria bom aceitar a proposta de trabalhar em Cara a Cara, na medida em que o salário era bom e que acertamos os horários das gravações: 30 horas por semana, de quarta a sexta. Eu poderia ficar no Rio na segunda, terça e metade da quarta. A peça é apresentada de quarta a domingo. Enfim, tudo contribuiu".




Fernanda expõe suas idéias com rapidez, assim como os pensamentos lhe vêm à cabeça: "Essa novela é importante porque abre um novo mercado de trabalho, de forma muito limpa e esperançosa. Espero que dê certo em termos de Ibope. As pessoas não devem esperar uma novela renovadora, e nem acho que esse seria o momento de tentar algo novo. O principal é o mercado de trabalho que se está abrindo. O Vicente Sesso conhece muito bem o gosto do público. Já fiz dele Sangue do Meu Sangue, que foi um grande sucesso popular. Espero e acredito que essa novela dará certo".

Ela repete, sempre, que seu papel não é o mais importante dentro de Cara a Cara: "A novela não está em cima de mim, sou apenas parte de um elenco de qualidade. Não me vejo liderando a novela, não me vejo segurando nada, principalmente porque tenho profunda desconfiança de que não conseguiria segurar nada. Trabalho com gente de qualidade como Débora Duarte, Wanda Kosmos, Luis Gustavo, Rolando Boldrin, tanta gente."

"A TV continua, para mim, apenas um campo de trabalho onde exerço o meu ofício. Fora disso, não tem nada mais a ver comigo. Estou torcendo para que essa novela seja um sucesso, porque se der certo outras virão e, talvez, o outro tipo de programa ligado à arte dramática. Durante a competição pela audiência, pode ser que alguma coisa se renove realmente na TV e surja um maior campo de trabalho para autores, atores, pessoal técnico", comenta Fernanda Montenegro, enquanto espalha a base sobre o rosto e olha pensativamente para o espelho.

Lembra que o autor Vicente Sesso costuma caracterizar os personagens de uma telenovela como bons, maus e misteriosos. Seu personagem, Ingrid, é misterioso: "Talvez ela se bandeie para o lado bom ou para o mau. A novela está diretamente ligada ao papel do folhetim, que usa muito essas máscaras populares. Os papais são perfeitamente claros. Não acredito que ela possa influir na minha imagem junto ao público, pois elas divulgam mais o personagem que o ator. O público fica mais envolvido no nome do personagem do que no ator ,que o interpreta. O que é normal, já que ele recebe quase uma hora de espetáculo diário, que incorpora à sua vida".

"A novela não me vai dar nada em relação ao teatro. Apenas um adestramento técnico de uma nova realidade: o relacionamento com a máquina. No contrato, ficou claro que fui contratada apenas para fazer essa novela. Depois vou continuar no terreno onde tenho um pouco de independência, que é o teatro. Onde tenho independência para criar, produzir, ter um certo domínio sobre meu destino".




Agora, Fernanda Montenegro explora o campo que realmente gosta: teatro. "No palco, tenho todo um envolvimento de paixão que não tenho com a televisão, que está muito industrializada. Nela não existe o artesanato, que é a eterna mola do teatro. Para mim, realmente, o teatro vem em primeiro lugar. Cada peça é algo novo e altamente instigador. Sempre se carrega muito da gente para o personagem e muito do personagem para a gente. Um ator precisa, pelo menos, 10 anos de experiência no palco para se considerar um bom ator. Na TV e no cinema, não precisa disso, porque a técnica está a seu serviço. Por isso, não me considero uma pessoa segura cio que faço. Ao contrário, tenho total insegurança daquilo que faço. Sinto-me correndo um risco diário para dar conta daquilo que acho que devo levar ao personagem que interpreto. A paixão que devo demonstrar, o gesto que pretendo fazer".

Fernanda Montenegro tem multas críticas a fazer à censura no teatro, e muita esperança de que ''essa abertura que houve na imprensa seja também levada ao teatro". Enfaticamente, afirma que "autor brasileiro não falta, o que falta é liberdade para poder expressar e colocar o homem brasileiro em cena. Até o presente momento, existe tal censura, que o que passa é uma pálida idéia do que os autores têm nas suas cabeças e corações".

"Seria bom que essa abertura nos permitisse discutir posicionamentos de um homem público, por exemplo, no palco, de um alto executivo, de um militar. Discutir a classe privilegiada que comanda os destinos da nação. Mostrar a Inquietação de outras classes, a divisão íntima de um indivíduo diante de uma hora difícil, como os momentos que antecederam a morte de Getúlio Vargas, que se seguiram ao derrame de Costa e Silva. Não ter a pretensão de fazer um teatro histórico, mas mostrar certas comoções nacionais, que devem vir para o grande público. O autor nacional existe, está aí, o que não existe é campo para esse autor se expressar".

Fernanda deixa claro que "televisão e cinema são facetas do meu ofício. Assim que tenho um convite que me estimula, eu aceito. Mas, minha grande paixão será sempre o teatro, onde posso mostrar minha Independência, criar, produzir e manter a autonomia do meu destino".

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