Friday, January 1, 2010

1978 - Mundo Cão Eletrônico

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 4/1/1978
Autora: Maria Helena Dutra









FESTIVAL DA MEDIOCRIDADE E CENSURA
Muitos acontecimentos e até alterações substanciais ocorreram na televisão carioca em 1977. Ano em que ela chegou a viver alguns bons programas. Pena, porém, que seu nível médio como informação e entretenimento para todos os tipos de público continuou bastante deficiente porque a preguiça e a incompetência de profissionais acomodados se aliou a muita desorientação provocada pela presença constante da Censura. Dois fatores que não permitem no Brasil que o veículo ultrapasse a barreira do animal doméstico, castrado e alienador cultural.

Condição que não impede nunca entretanto as modificações no elenco e crédito. A mais importante ocorreu na Rede Globo que ficou sem Walter Clark, tendo o cargo de diretor-geral sido acumulado por seu dono e presidente. Embora ninguém confesse, a ausência do maior salário brasileiro da rede de igual audiência baralhou as coisas. Pela primeira vez, em quase sete anos de total dominação, a estação andou improvisando, cancelando e se mostrando incompetente para solucionar os problemas de sua programação de domingo, quartas e sextas. E suas novelas, espinha dorsal das faixas chamadas nobres, envoltas em mil desacertos perderam inegavelmente muito público. A situação não ficou pior pela repetida fraqueza da concorrência.

A Televisão Rio foi chamada e lacrada em 5 de abril, finalizando quase 22 anos de lutas, glórias e penosa decadência. A Tupi está com seu segundo lugar no Ibope a perigo por sua pobre programação atual. Quadro ainda não alterado pelas recentes contratações de Mauro Sales, para a diretoria. geral dos Diários Associados, e de Carlos Augusto de Oliveira - irmão do famoso Boni da Rede Globo - como superintendente de programação de sua rede. Juram que em março dão jeito. Em três meses apenas de vida, a TV Guanabara - pertencente à Rede Bandeirantes - asfixiou com enlatados e antiguidades suas escassas e boas produções nacionais. A TV Studios é quase igual nos defeitos, sem imitar as qualidades. A Educativa desmilingüiu de vez. Sem recursos técnicos, humanos e dinheiro, apenas repete os mesmos trabalhos entre sessões de Gordos e Magros.

Altos e baixos tiveram, porém, os musicais deste ano. O melhor foi feito pela TV Guanabara: Meus Caros Amigos, com Chico Buarque, sob a direção de Roberto Oliveira. Nível não mais atingido pelos outros que enfocaram Ney Matogrosso, Milton Nascimento, Fafá de Belém e mais que lhe seguiram. A Série Documento, que, a GB exibe também, é muito antiga e amadora. Na Globo, o Brasil Especial melhorou bastante mas já acabou. Mesmo destino enfrentado por Sandra e Mieli e Levanta Poeira, que nunca foram bons. Enquanto as paradas de sucessos são duras de agüentar, o sambão pobre de João Roberto Kelly atingiu belos níveis de audiência na Tupi. Fenômeno infelizmente não acontecido com a excelente iniciativa da Globo de levar Concertos Internacionais, com primorosos tapes e uma produção nacional de alto nível, para as nove da noite. Menos gente ainda assistiu ao Festival do Choro, da Guanabara, e do Carnaval, da Tupi. Uma fórmula, portanto, a arquivar.




O domingo ainda não encontrou seu esquema. A Globo tentou múltiplas soluções e teve que retirar enlatados e 8 ou 800 e Moacyr TV por insatisfação geral. O que ficou, porém, continua ruim. Mulher Maravilha faz sofrer, Praça da Alegria, chorar. Fantástico, bocejar e apenas, Os Trapalhões servem a seu público específico. Dizem, por isso, que Sílvio Santos vai voltar. Cruzes. Na Tupi, variedades significam concurso de Miss, entrevistas de J. Silvestre - que começaram bem e se perderam pelo desleixo cultural no trato dos temas - e programas de involuntário humor herdados da falecida Rio. Os vinte anos do AP-Show foram iguais aos anteriores e Chacrinha provou seu inesgotável fôlego ao reconquistar merecidos pontos no IBOPE quando sua discoteca voltou a ser gravada no Rio. O último jogo de Pelé foi a única transmissão marcante e diferente da TVS. Na Educativa, Os Mágicos e Cinemateca lutando contra a maré, às vezes ofereciam interessantes momentos de entrevistas e do cinema nacional.

Justo também de apontar no setor do telejornalismo que melhorou bastante. O Globo Repórter se tornou, no final do ano, o melhor programa do canal por sua insistência em mostrar a realidade brasileira sem retoques, exemplos e seres de exceção. O Painel, apesar de ser à meia noite e quinze, é produção de bom nível e tem até notícia. Algo que também acontecia com o Jornal da Bandeirantes, das 19,15, até que sua direção foi reformulada no mês passado. Entendimentos e pressões fizeram dele um Jornal Nacional de pouca técnica. Informação da mesma Guanabara, seria ótimo se os cariocas pudessem assisti-lo em rede e não um ano depois de gravado. A Educativa, sempre ela, cancelou seu único telejornal Repórter. Está portanto, contra a lei que compulsariamente obriga as estações de televisão a terem informativos. Logo ela que é o do Ministério da Educação.

Embora não sejam impostas, as telenovelas ainda dominam o mercado e dividem com o jornalismo os rigores da Censura. A Globo, este ano, com elas só teve dores de cabeça. No horário das seis, os autores originais foram despachados pelos adaptadores que criaram em Sombra dos Laranjais, D Xepa e Sinhazinha Flô o folhetim rasgado e chato. No horário das sete, a Censura e acusações de plágio agravaram a estupidez do Cupido. Loco-Motivas foi um filme da Metro perdido no túnel do tempo e Sem Lenço, Sem Documento, dizem também, por proibições externas, transformou a empregada doméstica em símbolo de burguesia. Duas Vidas, às oito da noite, foi um espetáculo televisivo convencional de inegável força, Espelho Mágico de absoluta fraqueza. E o recém-iniciado O Astro da mágica Janete Clair não pode sequer ser avaliado e escutado devido à desenfreada gritaria do histérico elenco. Comportamento no entanto preferível à imposta mudez das novelas das dez que tiveram seus roteiros e até capítulos gravados inteiramente vetados pela Censura. De novo, a Globo só conseguiu neste horário montar Nina que começou muito bem como crônica e está acabando, também, como melodrama berrado. Na Tupi, nada melhor. Cinderela 77, foi uma boa idéia derrubada por produção falha no entender a brincadeira. Éramos Seis só teve Nicete Bruno e O Profeta tem medo de suas próprias propostas. E na TVS teve o Espantalho fazendo realmente medo a todos.

Espanto causou porém a boa forma revelada pelos Casos Especiais teatrais da Rede Globo. Depois de período meio cinza, voltaram pelo menos com três bons momentos: Feliz Aniversário, Ordem Natural das Coisas e Ciranda, Cirandinha. A Tupi anunciou, produziu e retirou do ar sua amadora tentativa de focalizar gente de teatro. Exemplo, infelizmente não seguido por Cena Aberta da TVE, e por todos os enlatados de violência e burrice que nos amolam horas nobres e noturnas. Os piores, tranqüilamente, são Swat e Shock.

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