Friday, January 1, 2010

1977 - Xênia Bier

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 21/12/1977
Autor: Paulo Maia






ELITISTAS E MARGINAIS
A graciosa Xenia, que, como a revista Cruzeiro, está na máquina do tempo, abrasada em algumas décadas, reclamou, um dia desses, em seu programa diário, que invade os lares cariocas, todas as tardes, pela TV Guanabara, Canal 7, que os críticos de televisão são todos "filhinhos do papai" que têm nojo do povo e querem implantar o elitismo na televisão. Uma senhora de tão altos predicados, pregadora da moral vitoriana com pitadas salgadinhos do laissez-faire, moderninho apesar de utilizar a televisão como se andasse de liteira, não poderia deixar de ficar sem razão. E é para não deixá-la despida de razão que aqui estou para praticar um ato do mais puro elitismo, segundo o conceito de todos quantos defendem os pendores popularescos do veiculo-tevê neste pais tropical. Senhoras e senhores, estou aqui para reivindicar a volta urgente dos programas com música erudita, em nossos canais comerciais de televisão.

Em primeiro lugar, porque esse preconceito de que o consumidor normal de televisão não aceita a música erudita simplesmente porque ela é uma expressão artística de elite pode ser refutado até com alguma facilidade. Afinal — e aí estão as figuras de Cristina Ortiz e Eliane Rodrigues que não me deixam mentir — como é o país do futebol, o Brasil é, também o país dos pianistas. E apesar de esses pianistas — gente do quilate de Arthur Moreira Lima e Nelson Freire — não terem público de Fla-Flu ninguém poderá afirmar sem risco de incorrer em inverdade que a televisão — tão abarrotada que está de filmes caquéticos para todas as idades apenas para preencher seus muitos horários mortos — não possa achar um horariozinho para enfiar um programa que reproduza um recital de piano, por exemplo. Aí, nem mesmo o velho defeito de não saber colocar os microfones no lugar exato — comum demais na transmissão de concertos orquestrais — poderia ser empecilho fatal. E a televisão estaria bem, levando uma sonata como Aurora de Beethoven para o ar ou reproduzindo a obra de Chopin, que faz tantos jovens românticos desmaiarem, até hoje.

Que me perdoe a maternal Xenia, que preenche os pequenos horários dedicados pela TV Guanabara à programação nacional, com suas receitas de vida feliz, à dona Benta, transferindo-se do campo de culinária para a psicanálise frívola, corrente em horóscopos, mas a música erudita é essencial. E até que nos, pobres e marginalizados elitistas deste país do popularesco, nos sentiríamos recompensados, mesmo sendo massacrados pelo lixo cultural de Hollywood ou pelos textos comoventes de Janette Clair, desde que em algum horário, em algum dia da semana, fossemos recompensados com um programa sequer como aqueles esquecidos concertos internacionais, que a Rede Globo de Televisão esqueceu de apresentar nas sextas-feiras.

Sem querer nunca ofender os brios populistas da mui conhecida apresentadora da Rede Paulista de Televisão, eu gostaria de reivindicar a volta ao ar daqueles programas incríveis que nos fazem odiar as visitas e interromper nossa conversa mole com a mulher e os filhos simplesmente para seguir, com a respiração presa e o coração aos pulos, a genialidade e o talento do mestre Wagner ou o incrível senso de delicadeza do velho Johann Sebastian Bach. Mesmo decepcionando a amável conselheira pseudo-psicanalitica das modorrentas tardes da classe média carioca, não somos nós filhos de uma burguesia ociosa que vai à Europa ou aos Estados Unidos para acompanhar os passos das orquestras regidas por Herbert Von Karajan, Leonard Bernstein ou Pierre Boulez. Justamente por isso também porque achamos que muita gente, que não pode sequer pagar o depósito compulsório de Cr$ 16 mil para ir ao exterior, teria o direito de, pelo menos, ouvir, uma vez na vida, a Nona Sinfonia ou até, quem sabe (será que temos o direito de sonhar tanto?), o Pierrot Lunaire do eternamente tão novo Arnold Schoemberg.

Nós também sabemos que a televisão tem índices de audiência e que os clientes anunciam mais nas emissoras mais vistas e acompanhadas pelo público sequioso de lágrimas e emoções fortes. Até aí tudo bem. Mas a televisão, que traz tantos enlatados dos Estados Unidos, sem qualquer apelo ao homem comum brasileiro, bem que poderia trazer no meio desses contrabandos de cultura, um pouquinho dos aproveitabilíssimos tapes das grandes orquestras e dos grandes instrumentistas internacionais, sem — é claro — desperdiçar a oportunidade de mostrar mais ainda o que aqui temos e aqui acostumamos esconder. Com sua licença, Xenia.





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