Friday, January 1, 2010

1977 - TV Guanabara, da Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 13/8/1977
Autora: Maria Helena Dutra






DE ROUPA DE CHITA, MAS DECENTE, SEM LANTEJOULAS
O primeiro sinal teste foi para o ar no dia 7 de julho de 1977. As transmissões experimentais começaram em 1° de agosto passado, mas a TV Guanabara, Canal Sete, a estação carioca da Rede Bandeirantes só inaugura mesmo às sete da noite de 9 de setembro próximo. Quarenta e cinco minutos com as solenidades de praxe e depois seu primeiro programa Meus Caros Amigos, musical especial com Chico Buarque de Holanda, já exibido em São Paulo pela TV Bandeirantes. Cinco minutos antes das nove da noite apresenta o filme Lawrence da Arábia, de David Lean, com quase quatro horas de duração. A partir daí, ela é mais uma opção para a televisão nesta cidade que contará então com cinco canais, sendo que agora três estarão integradas em redes nacionais.

Mesmo tendo cabalísticos números em suas estações, em São Paulo seu canal é 13 e aqui é sete, a Rede Bandeirantes canta pouco com magias. "A implantação de nossas emissoras", afirma Marcos Saliver, assistente de direção da TV Guanabara, "está sendo feita com os pés no chão e sem deslumbramentos de glórias. Estamos vestidos com roupas de chita, mas decentes, asseados e de unhas cortadas. Sem nenhuma lantejoula". E também sem amadorismos ou muitas aventuras porque a estação pertence a uma organização que tem mais de 30 anos de experiência em radiodifusão, uma centena de emissoras de rádio, principalmente em São Paulo, e quatro concessões próprias de TV. A mais antiga entre estas últimas é a Bandeirantes de São Paulo com mais de 15 anos de atividades; a segunda é a TV Vila Rica em Belo Horizonte, há cerca de dois anos em operação; a terceira é a do Rio; e a quarta está sendo implantada em Salvador. Além disso possuem convênios com estações em Porto Alegre, Santa Catarina, Amazonas, Pernambuco, Goiás e Mato Grosso. A Rede Bandeirantes pertence à família Saad, sendo seu presidente João Jorge Saad e vice José Saad.

Uma organização muito paulista que sempre teve no rádio seu principal destaque. Começou em televisão na Capital com uma estação como as outras que oferecia novelas, teatros, liderados por Cacilda Becker, e shows. Durante algum tempo, contou com a colaboração de José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o famoso Boni da atual Rede Globo, em sua administração. Disputava o segundo lugar em audiência até que um incêndio, catástrofe perene em nossas estações e causadora de multas reformulações na história da televisão brasileira, ocorrido há cerca de 11 anos, mudou sua estrutura. Sem poder mais enfrentar os custos elevados da programação nacional, e graças também à implantação definitiva do tape, que barateava o enlatado, ela passou a se limitar a jornalismo, esporte e eventos especiais. O grosso ficou mesmo com filmes e séries que acabaram Me dando um terceiro lugar de audiência na cidade. Um raio de ação, porém, muito estreito e sem perspectivas que não proporciona opções maiores aos espectadores, nem alargamento do mercado de trabalho.

Um impasse que só poderia ser solucionado através da criação de uma rede nacional que lhe diluiria os custos. A primeira etapa para a expansão foi a construção de um grande prédio no bairro do Morumbi em São Paulo com condições para gerar programação mais conseqüente. Este, porém, ainda não ficou pronto e não era mais possível adiar a implantação das afiliadas devido ao prazo das concessões. O remédio foi então começar a expansão com o material existente. No Rio, quase o mesmo problema sucedeu. Iniciou-se a construção de prédio próprio em Vila Isabel que ainda engatinha por múltiplos embaraços. A alternativa foi então comprar os estúdios da Somil, laboratório de som, em Botafogo e adaptá-los à televisão. A parte de equipamentos é que não podia ser improvisada. O transmissor do Sumaré - sua torre é em conjunto com a TV Educativa - o controle Master, as câmeras, as máquinas de videotape, e telecine e demais necessidades técnicas vitais para operação foram todas importadas, nade disso é aqui fabricado, e custaram acima de 2 milhões de dólares.

Não um gasto exagerado, apenas necessário. Para Marcus Saliver, a quantia exata para colocar no ar "uma estação que não pretende brigar com ninguém ruas que visa a atingir a população que matem seus aparelhos desligados." Só que no seu primeiro estágio a TV Guanabara oferecerá poucas coisas a este grupo, limitando-se a manter como de hábito programação ao vivo apenas em jornalismo, esporte, musicais especiais e, possivelmente, produções para o público feminino e infantil. Persistirá na linha de muitos filmes e seriados. Resta ver a qualidade dos produtos a serem oferecidos.

Sob a direção geral de Renato Teixeira Bastos, a estação terá 130 funcionários depois de inaugurada. Seu elenco artístico se restringirá a alguns apresentadores ainda não escolhidos para o telejornalismo, que será dirigido por Sílvio Júlio Nassar, responsável por uma edição diária de 40 minutos a ser iniciada às 19h20m. O esporte, sob a responsabilidade de Darcy Reis, já tem equipe definida e formada pelo veterano locutor. Avelino Dias e os comentaristas Márcio Guedes, Galvão Bueno e Paulo Stein. Farão boletins diários e programas no domingo à tarde, uma hora, e à noite, 21h20, sobre o indefectível futebol. Este também terá as imagens de sempre gerada pela TV Educativa, enquanto não possuem caminhão de externa. Mas o grupo se propõe, como fez a TV Bandeirantes, a cobrir mais e melhor as atividades amadoras. As novelas estão fora da linha da emissora, "para oferecer alternativas", e por semana sempre haverá programas nacionais inicialmente apenas importados da matriz paulista. São eles: Balanço, variedades para o público jovem; Circo, para as crianças; Bolinha, de auditório e Informação, de entrevistas, "Só quando os estúdios paulista e carioca estiverem prontos é que a programação sofrerá alterações profundas", promete Saliver.

Por determinação da lei, as suas transmissões experimentais não podem ter anúncios. Mas todas as tabelas já estão prontas, "abaixo dos preços cobrados pela Globo, mas superiores aos da Tupi", sendo que um comercial de trinta segundos no dia da inauguração de trinta Cr$ 18 mil 750. Depois será mais barato ficando em Cr$ 350 o segundo no horário nobre. Um importantíssimo detalhe de planejamento a primeira vista bastante racional é que a TV Guanabara cerca sua entrada no perigoso mercado de televisão carioca. Os outros são testar aparelhos, arrumar seus pequenos mas bem equipados estúdios, cuidar da manutenção adequada das caríssimas máquinas e fazer projetos para conseguir o público qualificado que pretende. Já estão seguros de que curiosidade existe, pois ainda em experimentação pouco divulgadas e, surpreendentemente, exibindo um tape do velhíssimo jogo de futebol entre a Polônia e Alemanha Oriental pela Copa do Mundo de 1974, atingiram a 3 pontos no Ibope. Mesmo não sendo ainda captada em muitas residências por falta de instalação da antena adequada, ela foi vista às oito e meia desta noite de quarta-feira por 180 mil pessoas. Num horário que a Globo tinha 60%, a TVS 14,3, a Tupi 5%, a TVE 1,3 e os cobiçados aparelhos desligados chegavam a 16,1%.

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