Wednesday, January 20, 2010

1977 - Trapalhões vão para a Globo

Revista Movimento
Data de Publicação: 24/1/1977
Autor: Maria Rita Kehl






OS TRAPALHÕES NO PLANETA DOS LOUCOS
O cômico Renato Aragão e seus companheiros Dedé Santana, Mussum e Zacarias passaram da Tupi para Globo, ganharam em técnica, cachê e Ibope. Mas nem por isso o público saiu ganhando em matéria de humor

Quando o cidadão cearense de Macejana, advogado do Banco do Nordeste, saiu escondido da família para prestar um concurso para realizador da TV Ceará - produzindo, dirigindo e redigindo alguns programas - provavelmente não esperava transformar-se num dos maiores cômicos do país.

Anos depois, apesar de praticamente dominar um programa de grande Ibope na TV Tupi, de ter feito 11 filmes que sempre tiveram as salas cheias, Renato Aragão ainda não havia perdido seu jeito de nordestino, seu humor de palhaço (embora ele mesmo negue a influência do circo em sua carreira) e sua figura extremamente acessível para o público. Pelo contrário, parece que é justamente o personagem Trapalhão, o sujeito irreverente que burla as conveniências sociais comentando "no Ceará não tem disso não", o cidadão mal sucedido que dá a volta por cima ridicularizando os próprios padrões de sucesso que, cultivado e aprimorado, é responsável pela popularidade do cômico Renato Aragão, que rendeu à Tupi um de seus poucos horários de grande audiência: o domingo à noite, onde Aragão e seus companheiros chegaram a passar na frente do Fantástico da Globo, na contagem dos pontos do Ibope.

Bobeou, a Tupi. Não tratou bem de sua estrela não quis ou não pode lhe pagar o que seu sucesso merecia, exigia dos Trapalhões às vezes tanto trabalho e em condições tão ruins que ele chegou a desmaiar duas vezes durante as gravações, conforme contou à revista Veja. Claro, esse ritmo pode ser exigido por qualquer emissora. Mas bobeou a Tupi, que se esqueceu de que onde existe monopólio nunca se está garantido, e aconteceu o óbvio: Renato Aragão e seus parceiros Mussum, Dedé e Zacarias se mandaram prá Rede Globo.

O público, aparentemente, nada perdeu. Vai ter seus Trapalhões semanais, passada a fase de "pré-teste", ainda com diversas melhorias que só a rede Globo oferece a você: filmagens externas (por enquanto, 70% do total!), câmara lenta, câmera rápida, repetecos sucessivos das cenas de maior impacto. Tantas novidades, que o próprio Aragão declarou a Visão de janeiro: "se não ficar engraçado, pelo menos haverá muita imagem prá ver"... E que deixam no chinelo os cenários improvisados de papelão e isopor do programa antigo.

No dia da estréia na Globo, a Tupi resolveu botar Aragão para competir consigo mesmo, repesando no mesmo horário "Os melhores momentos dos Trapalhões". Saiu perdendo, como era de se esperar, já que a maior parte do público prefere mesmo a novidade. A Seleção da Tupi teve a média de 2,3 pontos de Ibope ao longo das duas horas em que esteve no ar, contra 71 pontos obtidos pela Globo.






DE PAU-DE-ARARA A SHOW-MAN - Mas nada disso significa, necessariamente, que os Trapalhões mudaram prá melhor. Mudaram sim, ao que tudo indica, para um aproveitamento total da chamada "linguagem da televisão" - a utilização do máximo de possibilidades que o vídeo oferece, a exploração do visual, do tempo e do espaço com a maior agilidade e todos os recursos que a tecnologia eletrônica oferece. Prá isso é necessário material, é preciso dinheiro, e dinheiro que só a Globo tem.

Por outro lado, pelo que se deduz do primeiro programa, o público vai perder bastante do personagem Aragão em troca de um humorista mais versátil, estilo show-man. O Aragão da Tupi não variava muito, mas talvez aí estivesse sua força. Ele representava um tipo que permitia uma forte identificação por parte do público. Na Globo, parece que o humorista profissional Aragão se transformou numa figura múltipla, variando de papel de acordo com o esquete. E também subiu socialmente representando na maioria do tempo o sujeito de classe média cujos conflitos são mais pessoais do que sociais. O humor do absurdo, do non-sense, que às vezes pode ser bom, mas no caso, bastante redundante - substituindo o tipo de gozação da Tupi, que explorava, ainda que sem nenhuma intenção política as situações cotidianas do conflito de classes.

Na Globo, ele é o homem azarado por exemplo, que sempre atrai chuva para cima dele onde quer que esteja (recurso técnico perfeito), mas que não consegue água no chuveiro quando quer tomar banho. Ou é o sujeito que pediu a mão da noiva e recebeu só a mão, e aparece em sua casa convivendo com essa mão sem corpo com a qual se casou (mais técnica no capricho). Nessas cenas curtas a graça, quando existe, está na idéia, na concepção de uma situação absurda e não na exploração do lado cômico do comportamento humano.

Numa das cenas de "Os melhores momentos dos Trapalhões" (Tupi), por exemplo, Aragão é um nordestino que quer alugar apartamento pra se casar, em pouco tempo. Na imobiliária ele é mandado de uma mesa para outra, lhe exigem tanta papelada e ele tem que voltar tantas vezes no dia seguinte que quando consegue alugar o apartamento a noiva já se casou com outro. Se o desfecho da estória é velho e não tem muita graça, as situações na imobiliária são bem exploradas no sentido de contrapor a lógica, a linguagem e os valores do Trapalhão aos dos vendedores de imóveis formais e burocráticos. O confronto é aberto.

O Trapalhão sabe que vai ser enganado com o apartamento que lhe alugarem, interpreta e desmente os clichês dos anúncios imobiliários, mas também se vê atrapalhado com a linguagem da burocracia. Quando lhe pedem uma caução como garantia ele volta no dia seguinte com seu calção de banho, e depois comenta: "na minha terra dinheiro tem um monte de apelido - grana, tutu... - mas esse de calção eu nunca vi. "E muita gente da terra dele ou de outra, também nunca viu. A linguagem é outra.

Dá para notar também uma grande dose de improvisação por parte de Renato Aragão, no seu antigo programa. De repente, no meio de uma cena, os figurantes começam a rir, e fica na cara -ele soltou lá uma piada fora do script. Brinca inclusive com as situações criadas pela própria tevê: "Votes nunca trocam de roupa? Eu venho aqui todo o dia e vocês tão sempre com a mesma roupa"? O pessoal disfarça e morre de rir.

MUITA AÇÃO, POUCO HUMOR - No programa novo ele está mais ensaiado e as cenas mais complicadas, onde a câmara joga um papel mais ativo e a base está mais na movimentação do que no diálogo, não permitindo improviso. Ele é, por exemplo, o sósia do dono da casa que chegou para vender uma caneta e foi confundido com o aniversariamente. Na festa, o vendedor e o aniversariante, Aragão e Aragão, contracenam em situações típicas da comédia clássica americana onde se cria suspense em cima de um, mal entendido, provocando a partir daí uma trama de situações nem sempre cômicas, mas carregadas de tensões e confusão. Depois atravessa uma janela de vidro para fugir do verdadeiro marido/aniversariante (dá-lhe "slow-motion", "replay"! e foge pela rua - rua de verdade!) vestido só com um abajur. Se não tem graça, pelo menos tem ação, como ele próprio disse.




Se foi para seu próprio bem, como ele mesmo declara, que Renato Aragão e seus companheiros saíram da Tupi, seria bom para o público que ele tentasse reproduzir, no esquema Globo, algumas de suas características mais satíricas, de uma certa crítica ingênua e extremamente popular. E o caso, por exemplo, de um quadro relativamente antigo em que o pracinha-Trapalhão simplesmente cantava "Prá frente Brasil"... andando de costas.




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