Friday, January 1, 2010

1977 - Enlatados, Violência & Censura

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 20/5/1977




A RESPOSTA AO DOSSIÊ QUANDT
Os homens que dirigem a televisão brasileira - os que puderam ser ouvidos - reconhecem: o Ministro Quandt de Oliveira tem razão, a TV apresenta uma programação de violência importada. Reconhecer que exibem a violência não implica, porém, a iniciativa de substituí-la e à ausência desse ânimo tentam justificá-la aqui de várias formas. Alguns não querem falar sobre o assunto. Na TV Globo, por exemplo, informou-se que sua direção estava toda, ontem, em São Paulo, onde quem a procurasse ficaria sabendo que acabara de viajar para o Rio. A diretoria da TV Educativa não viajou: passou todo o dia em uma reunião que não podia ser interrompida. A TVS excluiu-se da crítica feita pelo Ministro: considera amena a sua programação de filmes, vale dizer, a sua programação.

O DENTEL E AS FACILIDADES

BELO HORIZONTE - O diretor-geral do Dentel, Coronel Idalécio Nogueira Diógenes, disse ontem, depois de rápida palestra no Encontro da Radiodifusão do Centro-Oeste, que concorda com pronunciamento do Ministro Quandt de Oliveira sobre a necessidade de se conter a violência na TV. Mas assinalou que o país terá muitas dificuldades para exterminá-la, pois nações mais ricas só conseguiram, com muito esforço, amenizá-la, não eliminá-la.

Anunciou que no próximo dia 25 será realizada a primeira reunião do Conselho Nacional de Comunicações. Na oportunidade já será estudado o problema das programações da televisão brasileira. Soluções que possam melhorar o nível atual serão examinadas.

O diretor do Dentel acha que a grande dificuldade se encontra no fato de que a programação que se condena pelo abuso da violência e justamente a mais fácil de se obter, a mais barata e a mais vendável. "Fazer filme de qualidade em quantidade, não é fácil" -disse.

O Coronel Idalécio Nogueira concordou também com a parcialidade atribuída pelo Ministro das Comunicações ao noticiário de televisão no pais, mas não quis admitir que ela se deva à censura ou à autocensura. No seu entender, o telejornalismo perdeu a imaginação.

EM VEZ DE TIROS, IMPORTAR BENS DE CAPITAL

SÃO PAULO - O diretor artístico da TV Bandeirantes, canal 13 de São Paulo, Sr Cláudio Petráglia, se manifestou ontem contrário à criação de uma empresa estatal para cuidar da programação tia televisão, em substituição aos enlatados estrangeiros. Mas acredita que uma empresa privada poderia suprir essa necessidade de produção, "desde que não houvesse tantas restrições às importações de bens de capital".

O presidente da Fundação Padre Anchieta, que controla a TV Cultura, canal 2, órgão ligado à Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia do Governo do Estado, professor Soares Amora, acha que atualmente a televisão brasileira já pode se tornar auto-suficiente em programação. "Em São Paulo, por exemplo, o índice de enlatados na televisão não chega a ser tão alto. As seis emissoras aqui instaladas produzem cerca de 150 programas por dia pelo menos 75 são por elas mesmas produzidos".

- Quando se fala em violência, é preciso lembrar que existe uma grande diferença entre violência e conflito. Qualquer espetáculo ou história não pode existir sem um conflito, até mesmo um conto de fadas. Para se estabelecer o interesse do consumidor, é preciso justamente que se atinja aquela seqüência de conflito-relaxamento natural. Não se pode ver a cena de um ponto-de-vista isolado. Um filme, um programa de televisão, tem começo, meio fim, mas normalmente os críticos mais acerbos da televisão procuram ver apenas sua instantaneidade. Ora, alguns psicólogos e psiquiatras modernos até fazem terapia usando histórias como a do Chapeuzinho. Vermelho, que não deixa de conter violência para as crianças - diz Cláudio Petráglia.

Segundo o diretor artístico do canal 13, "o essencial é observar o contexto. Sempre que se escreve sobre o assunto é comum que se usem números, estatísticas de cenas isoladas. São tantos tiros, tantos raptes, tantas tapas por tarde. Esse tipo de número, como aliás o próprio índice de audiência, do IBOPE, define muito pouca coisa. É preciso ir além e verificar o significado e a representatividade do número e não apenas uma quantidade isoladamente. Os noticiários nos jornais, com enchentes, catástrofes e acontecimentos policiais não são violentos, por acaso?"

Cláudio Petráglia se defende da acusação comum de que a TV Bandeirante, que agora está construindo um moderno e grande estúdio de produção, baseia sua programação nos enlatados. "Quem diz isso está apenas considerando o horário nobre. Veja: do meio-dia às 16h30m, só temos programas próprios e depois, até a meia-noite, temos mais duas horas de programação própria. No horário em questão, ou seja, o vespertino, temos procurado dar opções ao telespectador. Em Reino Selvagem, defendemos a ecologia, mostramos à criança da cidade grande o que são a flora e a fauna. Balança é outro programa que apresenta curiosidades cientificas e tecnológicas, com uma roupagem leve. Logicamente, esses programas não se baseiam na violência".

- Na faixa vespertina, procuro não usar enlatados violentos, dentro de um critério de bom senso. E' claro que o telespectador daquele horário, a criança, o adolescente, o jovem, precisa de aventura e nós lhe damos programas com lutas e conflitos, mas não matanças com facadas violentas. Aliás, acho que a maior violência é a do jovem ou de seus pais, que não lhe dão outras opções de ocupação, a não ser a televisão. Tudo o que é usado em excesso não é bom. A televisão pode ser usada, mas nunca ser a única opção de lazer. Essa é uma grande responsabilidade do pai, da família brasileira. A televisão está solta dentro de um espaço social mais genérico. Não se vai deixar de usar gasolina só porque ela pode incendiar - diz Petráglia.

O diretor artístico da TV Bandeirantes acredita que "a tendência atual da televisão brasileira é substituir o enlatado estrangeiro. Mas é preciso que fique com a iniciativa privada esse ramo industrial. Eu, aliás, não acredito que o Ministério das Comunicações, que não tem dado qualquer demonstração de pretender estatizar o ramo, esteja pensando em criar uma empresa estatal para suprir esse tipo de produção de filmes e séries, inclusive para evitar o "dirigismo" da programação".

- As emissoras de televisão, a indústria cinematográfica brasileira e os estúdios de gravação de vídeotapes são capazes de entrar num mercado de fabricação de uma produção autóctone para a televisão. O problema é que as indústrias de bens de capital estão tendo dificuldades sérias para importar equipamentos indispensáveis para se montar uma indústria assim, pretende-se de um lado estimular a produção nacional de televisão, para a substituição do enlatado, enquanto, de outro se impede a importação de equipamentos básicos, eletrônicos, para essa produção própria. Deveria haver talvez uma coordenação nesse sentido - acha ele.

Cláudio Petráglia cita o exemplo da TV Bandeirantes, que está construindo seu estúdio. "Gastamos Cr$ 7 milhões só para construir o teto do novo estúdio. Logicamente, quem está investindo isso vai usar esse estúdio mesmo, você não acha?"

O professor Soares Amora, presidente da fundação Padre Anchieta, acha, de qualquer maneira, o enlatado uma má solução para preenchimento normal da programação, seja vespertina, seja noturna. "Na TV Cultura, tínhamos um elevado dispêndio mensal em matéria de enlatados. Gastávamos Cr$ 1 milhão por mês para importar filmes, proporcionalmente às verbas gastas em produção própria, um número muito elevado. Afinal, não gastávamos Cr$ 1 milhão na produção brasileira de programas. Esse tipo de investimento não fazia sentido, por interesses econômicos e de meios de produção".

- Estávamos disseminando o hábito, no telespectador, de ver o produto importado. Na verdade, a importação é apenas uma solução mais fácil, mais cômoda e dá uma idéia, nem sempre muito precisa, de que reduz os custos da emissora, pois prescinde de uma estrutura de produção para exigir uma estrutura de edição apenas. Além disso, teoricamente, é programação de fácil apelo popular. Afinal de contas, filme é um produto testado, agrada há 20, 30 anos. A médio prazo, essa é uma péssima solução, contudo. Primeiro' porque desvia os recursos que seriam empregados normalmente numa produção própria. Agora seria também pouco viável, do ponto-de-vista econômico, pois é provável que aumentem as restrições para importações. E' que esse tipo de produto, os enlatados, entre na lista dos supérfluos altamente taxáveis. Quer dizer, já não seria mais uma solução barata. Então podemos entrar num círculo vicioso: não investindo em programação própria, logicamente também não estaríamos preparados para ter essa linha própria de produção - diz o professor.

Sua opinião é no sentido de "um esforço para habituar o público comum à produção nacional. Não seria impossível se produzir bom cinema nacional, bom show nacional para televisão, e digo isso sem qualquer apelo a patriotadas, Atualmente, por exemplo, graças ao esforço empreendido na TV Cultura para eliminar, ou melhor, substituir o enlatado, temos produções próprias até às 23 horas, quando entram dois filmes por semana. Ou seja, importamos 50 filmes, clássicos do cinema, por ano, apenas."

A respeito da violência, como educador, o professor Soares Amora, que é também chefe do Gabinete do Secretário de Cultura do Estado, acha que "o teorema simplista, violência dos filmes gera violência na vide real, precisa ser considerado de forma relativa e não absoluta. A violência e originada de fatores alheios ao filme, que entra apenas como um componente, talvez menos importante. Ela está contida em algo mais profundo, na personalidade, em complexos psicológicos e condicionamentos sociais.

Quando se fala em elevação dos índices de violência urbana, é preciso se falar de tudo, dos problemas sociais, e não apenas do cinema. Afinal, há fatores mais ponderáveis, como a educação, por exemplo."

No entanto, o professor Soares Amora concorda com o Ministro Quandt de Oliveira quanto à programação infantil, principalmente os desenhos animados vespertinos: "A maioria, casos de distorção; alguns, de má formação mesmo."

O Sr Gustavo Tupinambá Freire, superintendente da TV Tupi, depois de alegar que não daria entrevista pelo telefone, marcou horário para receber pessoalmente os jornalistas. Na hora marcada, sua secretária informou que infelizmente o Sr Tupinambá fora obrigado a se retirar para uma reunião fora da emissora e do alcance de telefones.

Nilton Travesso, diretor artístico da TV Record, depois de confessar que sua emissora não tem estrutura para produzir a própria programação, disse que ela nada pode fazer contra a violência, "pois os filmes enlatados já a trazem". Considerou que o pronunciamento do Ministro Quandt de Oliveira "é um assunto delicado" e pediu meia hora para pensar. Findo o prazo, não foi mais encontrado. Seus assessores se desculparam: ele estava com sérios problemas para levar ao vídeo o telejornal da emissora.

A ALTERNATIVA NÃO É O BOLSHOI

BELO HORIZONTE - Otávio Luis Reis, diretor comercial da TV Alterosa, aplaudiu a recomendação do Ministro Quandt de Oliveira: "Estou de pleno acordo com ele".

- Sou pai, tenho filhos e não quero para os dos outros o que não quero para os meus. Por isso nos antecipamos ao Ministro, procurando apresentar uma programação sem violência. Não completamente sem violência, que ela é uma realidade como a guerra ou o desquite. Mas estamos procurando nos tornar uma emissora humana, sobretudo voltada para as coisas mineiras.

Otávio Reis está também de acordo com o Ministro, quando ele, citando o francês Louis Lepringe-Ringuet, disse que as informações são transmitidas pela TV com malícia e irresponsabilidade.

- O jornalismo é receoso, na medida em que as emissoras estão tentando agradar ao Governo e, na verdade, não agradam. TV é concessão, e concessionário é mero procurador. Temos de dar reciprocidade ao Governo. Não vamos ganhar canal para fazer campanha contra o Brasil. Temos de ser realistas. Isso não quer dizer que vamos nos submeter inteiramente ao Governo, pois há uma margem em que podemos produzir jornalismo informativo da melhor qualidade. Basta ter tempo. E as emissoras independentes têm tempo. A Globo, a Tupi e a Bandeirantes, que operam em rede, não têm tempo porque têm custos altos.

Voltando ao tema violência na TV, Otávio Reis disse que não considera uma contradição do Governo estimular a não violência na TV e proibir, por exemplo, a apresentação de um espetáculo cultural ou educativo, como o Balé Bolshoi.

- Proibir o Balé Bolshoi foi uma posição do Governo e não se deve discuti-la. Há muita coisa na linha da não violência além do Bolshoi. Não entro no mérito. Apenas acho certa a atitude do Governo, de alertar os responsáveis pela TV no sentido de amenizarem a violência. Nós, empresários do setor, temos de nos conscientizar da importância da TV co mo veículo de cultura e informação.

E AS MULTINACIONAIS?

PORTO ALEGRE - O diretor da TV Difusora de Porto Alegre, Frei Ozébio Borghetti, afirmou que é impossível a substituição de filmes importados para apresentação nas emissoras de televisão brasileiras: "O assunto é muito discutido em altas esferas mas não desceu a realidade, porque as próprias autoridades desconhecem o assunto. Uma grande rede como a Globo pode produzir um filme como Antônio Conselheiro e correr o risco de tê-lo cortado pela Censura, mas uma empresa independente não pode correr esse risco."

Dos filmes nacionais, diz ele, somente os antigos podem ser levados ao ar: "Os novos, ou porque abordam problemas políticos ou sexo, são proibidos. Critica-se muito a programação importada, mas ninguém critica os temas explorados nas novelas: amor livre, sexo e mesmo violência. Se o Governo tomar alguma medida contra a programação importada, as emissoras independentes, desvinculadas das grandes redes nacionais, serão as mais prejudicadas.

Frei Borghetti acredita, entretanto, que o Governo não intervirá na programação procedente do exterior: "A programação importada é distribuída por empresas multinacionais e, logicamente, elas não vão ficar paradas se houver intervenção do Governo em seu negócio. Todo mundo sabe que o Brasil despende milhões de dólares para trazer filmes dos Estados Unidos. O próprio Governo favorece esse comércio".

- Até o presente, a Embrafilme não promoveu nenhuma série nacional para a televisão. E ela é uma empresa estatal com grande disponibilidade financeira.

Por outro lado, as televisões educativas também utilizam filmes importados em larga escala, muitos deles tanto ou mais violentos do que os utilizados pelas emissoras comerciais.

O diretor da TV Difusora acrescentou que sua emissora tentou, há dois anos, ampliar sua faixa de programação própria introduzindo um programa de duas horas, das 18 às 20 horas, O Show de Mulher, que redundou num grande fracasso: "O prejuízo foi enorme, a audiência caiu tanto que passou a prejudicar a emissora nos demais horários. O problema não é apenas brasileiro: Argentina, México, a própria Europa são invadidos pelo império norte-americano de comunicações. Esta é uma realidade. A outra, também difícil de ser ignorada, é que violência tem público. O problema é muito sério e nos preocupa muito".

OS ARTISTAS E AS OUTRAS VIOLÊNCIAS

O Sindicato dos Artistas e Técnicos m Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro, a Associação dos Atores e Dublagem, Cinema, Rádio, Televisão e Propagando, o Clube de Criação do Rio de Janeiro, a Associação Brasileira de Cineastas e a Sombras emitiram ontem a seguinte declaração conjunta sobre pronunciamento do Ministro Quandt de Oliveira:

"Os artistas e criadores brasileiros, representados por suas entidades de classe, vêm manifestar-se publicamente sobre a crítica formulada pelo Exmo Sr Ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira, à televisão brasileira e seus concessionários, com a oportuna denúncia da violência que veiculam, pela qual "o Brasil está pagando milhões de dólares a cada ano para liquidar a nossa juventude" e a defesa da produção de programas nacionais, com o conseqüente abandono dos enlatados.

Lamenta igualmente a nossa classe essa situação, que a faz vítima desse processo, interfere em seu trabalho de criação e compromete a sua própria existência já tão sacrificada.

Teríamos a acrescentar nossa indignação, ao constatar que tal matéria é tolerantemente tratada pelos órgãos incumbidos da fiscalização, outorgada por lei, mas por eles mesmos descumprida, com obstinada regularidade. A violência mais do que oportunamente reconhecida pelo Sr Ministro, poderíamos acrescentar outras mais, igualmente nocivas e desalentadoras: a descaracterização progressiva da fisionomia cultural brasileira; o apagamento da memória nacional, através do beneficiamento e da valorização de padrões importados, totalmente estranhos à nossa verdade histórica; e a preterição sistemática de uma criação originalmente calçada em valores brasileiros, com danos irreversíveis às novas gerações. Tudo isso é gerenciado por uma parcela que manipula, com "malícia e irresponsabilidade" - ressalta o Sr Ministro -"o gosto público, favorecendo o consumo, no Brasil, da produção residual estrangeira".

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