Monday, January 4, 2010

1976 - Aula de TV com Boni

VEJA
Data de Publicação: 11/8/1976






"NÃO FAÇO TV PARA MIM"
Idéias e críticas, planos e queixas do todo-poderoso Boni, superintendente da TV Globo

No couro dos móveis, no forro das paredes, a cor negra domina a imensa sala. Os tons alegres sobrevivem apenas em duas tapeçarias de Manabu Mabe e no vídeo sempre colorido da televisão de 22 polegadas permanentemente ligada, sem som, no Canal 4 do Rio de Janeiro. É deste escritório, no 9° andar do moderno prédio da Rede Globo no Jardim Botânico, que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, decide diariamente o que até 30 milhões de telespectadores brasileiros vão ver. Superintendente dos departamentos de produção, programação e engenharia da mais poderosa rede de estações já estabelecida no país — e a nona empresa privada em faturamento da América Latina —, Boni tem plenos poderes para estender o ambiente severo de sua sala a todos os departamentos da emissora. Em memorandos que são o pavor dos responsáveis pelas linhas de shows, noticiários, especiais e novelas da Globo, Boni é capaz de pedir duas fotos 3x4 a um produtor de "Fantástico", para mandar fazer uma "carteirinha de imbecil". Ou de enviar a toda a produção do mesmo programa um recado como este: "Se continuar aparecendo tanto cavalo nos números musicais, mando a equipe inteira para o Hipódromo da Gávea". Boni pode elogiar, também, mas suas exigências tornam o fenômeno tão raro que já se criou uma anedota nos corredores da Globo: "Um diretor de TV, todo orgulhoso, foi apresentar seu filho caçula a Boni. Ele deu uma rápida olhada no garoto e disse secamente: 'Uma droga. Faz outro'".

O que não se discute nos corredores é o papel deste homem de 40 anos, desquitado, dois filhos, paulistano criado no bairro da Pompéia, como responsável pela arrancada da Rede Globo à liderança entre as televisões brasileiras, num trabalho desenvolvido ao lado de Walter Clark, o diretor-geral da emissora. Boni começou sua carreira em 1951, como redator de um humorístico infantil na Rádio Nacional, com 18 anos, já era assessor da direção-geral do Canal 5 de São Paulo, então TV Paulista, nos anos seguintes passou a redator e produtor da TV Tupi, redator de publicidade, fundador da agência Proeme, misturando assim noções de texto, técnica e mercado de televisão que finalmente reuniu e aplicou ao ser contratado pela Globo, em 1967.




Hoje, com um salário insistentemente calculado em torno de 500.000 cruzeiros mensais, Boni tem uma paixão declarada pelos vinhos franceses, a fama de possuir "a maior e melhor adega do Brasil", um horror confesso à poesia e à ficção ("só leio Jung, Skinner e livros técnicos de TV") e o hábito de promover churrascos com carne de um certo tipo de gado americano tratado por massagistas japoneses. E ainda, segundo seus detratores, o costume de tentar conjugar queijo camembert e goiabada. Durante quatro horas, porém, Boni falou a VEJA exclusivamente sobre sua especialidade — televisão.

HORA DE DAR CONTEÚDO A TELEVISÃO

VEJA — Você anda contente com o nível da TV Globo?

BONI — Não estou contente nem com o nível da Globo, nem com o da televisão brasileira. Durante longo tempo, nós trabalhamos para dar à televisão nacional um mínimo de profissionalismo e uma certa qualidade formal. Alcançado isso, estamos entrando numa fase que considero perigosa, mas fundamental para a sua maturidade: é a hora de dar conteúdo à televisão.

VEJA — Por que a fase é perigosa? E como se explica essa falta de conteúdo?

BONI — Eu acho o sistema de televisão no Brasil extremamente complexo. É um produto híbrido. Como concessionária de serviço público, ela está sujeita à ingerência do Estado e, como empresa privada, tem sua autonomia. Mas vem sendo muito difícil fixar os limites dessa convivência. A TV americana, por exemplo, é diferente. Embora também seja concessão do Estado, este não exerce qualquer interferência. Quem influi mesmo na TV americana é a opinião pública. Já na maioria dos países europeus, a TV é estatal. É um sistema sem credibilidade, pois o público sabe que o governo controla totalmente a informação. O nosso não é uma coisa nem outra. O problema começou nos anos 50, quando a televisão chegou ao Brasil. O poder público não teve o cuidado de definir uma política para a implantação de um sistema de televisão no país. Concedia-se canal como se concedia alvará. Passados mais de vinte anos, esse pecado persiste, dificultando todas as medidas de saneamento do veículo. Assim, diversas leis e portarias não tiveram até hoje condições de regulamentar a televisão. E dificilmente o novo Código Brasileiro de Telecomunicações (ainda em discussão) conseguirá harmonizar o sistema que é heterogêneo em todos os seus aspectos — social, empresarial e político,

A CENSURA DA COMADRE

VEJA — Como funciona a censura na televisão?

BONI — A TV é submetida a quatro tipos dc censura: a de diversões públicas, a política, a autocensura e a censura indireta. A primeira, de diversões públicas, é inspirada num regulamento de 1946, quando nem existia televisão no Brasil. Esse regulamento discrimina as platéias de cinema e teatro por faixa etária. Mesmo para o rádio, que já existia na época, essa legislação era iníqua, pois comparava a programação do veículo a auditórios de teatro, cinema, circo e associações esportivas. Esse absurdo, em vez de ser corrigido, vem sendo agravado, pois o público de televisão é hoje classificado em seis categorias de idade, que variam de hora em hora, a partir das 7 da noite, como se os telespectadores também variassem de hora em ho ra. Como existem normas rígidas do que pode e do que não pode ser exibido em cada horário, os autores acabam recebendo uma cartilha como modelo, resultando na padronização das histórias. A segunda é a censura política, que não existe legalmente, mas que ho dia-a-dia é atuante de fato. Ela interfere na programação de entretenimento e até na de jornalismo, onde deveria ser exercida a posteriori conforme determina a lei. Essa censura é de tal maneira subjetiva, que acaba gerando o terceiro tipo da censura: a autocensura. O quarto tipo, enfim, indireto, e eu o chamaria de censura: social. Existe em todo o mundo e é fruto do grande poder de penetração do veículo. Esta censura é exercida através da pressão de grupos e até de indivíduas. Vai de associações a comadres. É claro que todos têm o direito de opinar. Mas no Brasil, infelizmente, leva-se a sério uma reclamação da tia do vizinho do primo de uma figura ocasionalmente influente — e censura-se até por ouvir dizer.

VEJA — Diante de tantas frentes qual seria o primeiro caminho para eliminação da censura?

BONI — Não, espera aí, o caso, não é acabar com a censura. Eu acho que a televisão, como veículo de massa, deve ser controlada de alguma forma. O mecanismo de vigilância, como eu já disse, é que ainda não se encontrou no Brasil. E tenho a impressão de que só será encontrado quando os órgãos de controle perderem o medo do veículo e conhecerem as suas características. Do ponto de vista social e politico, não é justo ter esse medo. A televisão atua superficialmente sobre o indivíduo; pode modificar alguns hábitos, e impor modismos, mas não pode jamais influir no seu livre arbítrio. Mecanicamente, a TV pode condicionar pessoas a assistirem a uma novela, mas não pode fazer com que elas pensem como o João Máciel de "O Casarão". A televisão habitua o telespectador a ver o "Jornal Nacional", mas não pode convencê-lo a adotar esta ou aquela posição em relação ao fato noticiado. Na verdade, a TV bombardeia o telespectador com um volume imenso de informações e estímulos, não dando tempo para reflexões enquanto ele está recebendo as mensagens. E ele vai buscar em outras fontes, como o jornal, a revista, o livro e o seu próprio grupo, dados mais profundos para tirar suas próprias conclusões. A televisão desperta, assim, novos interesses no campo do conhecimento humano. Não se trata de abolir a Censura, mas de modernizá-la, simplificando a legislação. Talvez apenas um código de ética. Com isso, o veículo poderia respirar melhor. Quando digo que não estou satisfeito com a nossa televisão, é porque gostaria de vê-la refletindo mais fielmente a realidade brasileira. E não considero que refletir essa realidade seja apenas a abordagem de temas nacionais, mas fundamentalmente a discussão dos problemas do país, através do jornalismo, do serviço público e mesmo do entretenimento.

VEJA — Um exemplo prático: estamos num ano eleitoral. Por que a Globo, dentro dessa preocupação de se aprofundar na realidade brasileira, não promove debates políticos? Aliás, por que a emissora não discute coisa alguma? `

BONI — Para que se faça um debate, é preciso que ele seja para valer. Isso é ainda não é possível. É verdade que estações de menos audiência começam o agora a promover alguns debates relativamente livres. Mas é verdade também que elas fazem esse gênero de programa por causa de sua pequena repercussão. Elas desfrutam de um privilégio parecido com o da imprensa underground. Na Globo daria galho, na certa.

VEJA — A polêmica, então, não entra na Globo?

BONI — A polêmica está em todos os nossos programas. A polêmica política, no entanto, aguarda melhor oportunidade.




QUEM ACREDITA EM SÍLVIO SANTOS?

VEJA — Qual é a falha básica do sistema brasileiro de televisão?

BONI — A televisão americana, que deveria ser o nosso modelo, pois também não é estatal, tem três redes nacionais: ABC, NBC e CBS. Todas as três se dirigem a macropúblicos, isto é, fazem comunicação de massas. Paralelamente, em todas as cidades existem seis, oito canais, incluindo do UHF a TV a cabo, que se dirigem a micropúblicos, isto é, a minorias específicas. É possível ter assim emissoras dedicadas à colônia de fala espanhola em Los Angeles, Nova York e Miami. Todas as cidades têm também emissoras da rede cultural da PBS, com programas sobre literatura, musica clássica, balé, etc., além do sistema educativo. Bem, e no Brasil? Existem duas redes, que seriam suficientes para o mercado de comunicação de massas, Globo e Tupi. Elas devem se dirigir a todas as camadas sócio-econômicas, a todas as faixas de idade. A programação que ignorar qualquer uma dessas classes estará discriminando —- e perderá parte do mercado, com reflexos na sua vida empresarial. As emissoras dirigidas à massa, por seu custo operacional, são obrigadas a fazer um coquetel, procurando um gosto médio que lhes garanta qualidade e audiência. Segundo a fórmula americana, só se concedem novos canais a empresários capacitados a explorar serviços paralelos. No Brasil, recentemente, perdemos uma excelente oportunidade de introduzir esse sistema. Em vez de estimular a programação alternativa das minorias, concedeu-se um canal ao empresário Sílvio Santos, homem que por interesses comerciais que nada têm a ver com televisão corteja ostensivamente as camadas mais populares. Pela luta do Sílvio Santos, fica-se até feliz, mas pela grande luta da televisão brasileira é decepcionante, pois não estamos precisando de mais emissoras dirigidas à massa. A Globo atinge níveis de audiência de 80%, por exemplo, para uma novela, 60% para um show e 70% para um informativo como o "Jornal Nacional", programas que considero de qualidade apreciável. A Tupi tem horários de grande aceitação também. Mas o nível da televisão brasileira só pode melhorar melhorando-se o nível do sistema. E eu pergunto: qual a contribuição que Sílvio Santos trará? A resposta é: acredito que nenhuma. Nem o Sílvio acreditou no seu canal — assinou contrato com a Tupi. Quem vai acreditar?

VEJA — A Globo adota um esquema fixo de programação; de segunda a sexta-feira depois das 18 horas são quatro novelas, três noticiários filmes e alguns especiais que variam entre musicais humorísticos e documentários. De todas essas áreas quais as mais problemáticas como produção?

BONI — Todas essas áreas têm um problema comum: a criação. Pressionados pelos diversos mecanismos da censura e fascinados pela imagem, os nossos profissionais acabam desviando para os aspectos formais todo o talento que deviam concentrar no conteúdo. Corrigir essa deformação é uma batalha diária. Ao lado disso, há uma tremenda escassez de profissionais nessa área. Uns não aceitam as limitações do veículo e muitos tém medo do veículo. É importante considerar ainda que o criador para a televisão tem que ser necessariamente um estivador. Um autor de novelas, por exemplo, é obrigado a escrever trinta páginas por dia, ou seja, praticamente um livro a cada quinze dias.

DO OUTRO LADO DO VÍDEO

VEJA — Essa carência de mão-de-obra não exigiria uma formação de profissionais dentro das próprias emissoras?

BONI — Na área da engenharia eletrônica a Globo tem um centro de treinamento, hoje operando em convênio com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que já formou profissionais para diversas emissoras do país. Na área de produção de jornalismo, os profissionais aprendem fazendo, são formados no front. Mas estamos organizando programas de preparação de profissionais para esse setor. Na verdade, essa também é outra falha do sistema brasileiro. Quando emissoras como a Bandeirantes, Gazeta, Record e Rio exibem praticamente em 90% da sua programação filmes importados, profissionais estão deixando de ser formados. O pior é que se pensa constantemente em limitar a distribuição da programação nacional em rede, sob as mais primárias legações, quando o importante mesmo seria obrigar todas as emissoras a exibir um mínimo de 40% a 50% de programação de origem nacional.

VEJA — Qual é a porcentagem da programação nacional da Rede Globo?

BONI — Entre 18 e 24 horas, a Globo exibe 76,4% de programação nacional, produzida com nossos próprios recursos. Isso é uma loucura em termos de produção, nem a televisão americana faz isso. Em alguns programas, como o "Globo Repórter", telejornais e o "Fantástico", usamos com certa freqüência material importado, mas totalmente reformulado pelas nossas equipes, com o acréscimo de informações visuais na edição e com um texto dirigido ao público brasileiro.

VEJA — E comum você vetar um programa por sua má qualidade?

BONI — Não é comum, mas acontece.

VEJA — Recentemente você vetou dois especiais de música brasileira e o primeiro capítulo de O Casarão. Quais os critérios que adota quando entra na sala de edição para julgar um programa?

BONI — Não faço televisão para satisfazer o meu gosto pessoal, senão já teria saído da televisão há muito tempo. Reajo profissionalmente, o que me obriga a me imaginar sentado ao lado do telespectador, do outro lado do vídeo. Quando faço o julgamento, dirijo minha atenção para três pontos diferentes. Em primeiro, analiso o valor da mensagem, a proposta do programa. Em segundo lugar observo a técnica de comunicação, isto é, se o meio está sendo corretamente usado a serviço da mensagem. Nisso se incluem todos os aspectos audiovisuais, ambientação, cortes adequados, interpretação, sonoplastia, qualidade técnica de som e imagem. E em terceiro lugar, tento prever a reação do mercado. Mesmo com a nossa preocupação de qualidade, ele poderá competir com um programa de apelo mais fácil? Qualquer um desses aspectos pode eventualmente determinar a modificação parcial ou o veto do programa. Quanto aos memorandos quero incomodar as pessoas com a minha insatisfação.

VEJA — Nos musicais por exemplo qual foi o problema principal?

BONI — Eu queria um musical despojado. Criou-se na Globo um carimbo, uma forma de musical muito repetida, um monte de cenário, um monte de gente em volta uivando. Por que tanta gente, tanta luz, tanta lantejoula? Mas de repente eu cheguei de férias e encontrei dois programas já gravados da série "Brasil, 60 Anos de Samba". O primeiro tinha mais ou menos o despojamento que eu pedi, mas visivelmente com uma informalidade intencional de direção que passava por coisa ensaiada. Ora, o informal ensaiado é pior que o formal. Além. disso, estava ruim em texto, cortes, luzes, mal elaborado, mas estruturado. No en^ tanto, quando o pessoal da produção viu esse primeiro programa, achou que o errado era a falta de calor humano. Gravaram então o segundo numa concha acústica, com público. Ficaram satisfeitíssimos com o resultado, achando que o programa estava sujo do ponto de vista formal, mas justamente com a sujeira que dava um ambiente de verdade ao musical. Tudo errado: saíram do cenário bonitinho, do paetê e da pluminha, mas colocaram em troca alto-falantes, sistema de som, vassouras, enfim, coisas que também não tinham nada a ver, criando a mesma interferência que atrapalha a atenção do espectador na figura do cantor. Quer dizer, não se criou uma nova matriz, parecia um musical da Record dos anos 60. E eu aposentei o programa, até a hora de conseguirmos fazer algo diferente.

JORNALISMO, O FUTURO DA TELEVISÃO

VEJA — Qual deve ser o papel da televisão?

BONI — O papel da televisão é entreter e informar, mas a TV que me fascina é a da informação. É para esse campo que caminha a TV em todo o mundo. Houve recentemente uma revolução no campo da microonda, quase tão grande quanto a ocorrida com a introdução do satélite de comunicação. Se os satélites ligam diversos pontos do mundo instantaneamente, os novos microondas portáteis e de polarização circular ligam qualquer ponto de uma cidade à emissora também instantaneamente. Mais simples e mais rápido até do que o rádio. Com isso, o meio (TV) fica finalmente à altura da mensagem (jornalismo). Assim, a TV pode transformar-se, fazendo do acontecimento e do evento suas atrações principais. Esse sistema denomina-se ENG-Eletronic News Gathering, ou seja, receptor eletrônico de notícias. Em 1974, apenas três emissoras tinham aderido ao sistema. Em 1976, 104 estações utilizam câmaras em miniaturas e microondas portáteis. No Brasil, as primeiras experiências começaram no ano passado e em outubro de 1976 a Globo terá implantado esse sistema em São Paulo, Rio, Brasília, Salvador e Porto Alegre. Com a notícia direta, com a programação mais intensa de eventos, a TV tem o seu futuro assegurado. Só que a gente volta ao problema: e o que é que o jornalismo vai poder mostrar?

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