Friday, January 1, 2010

1973 - A Mulher na TV

O Globo
Data de Publicação: 1/1/1973
Autor: Artur da Távola







A MULHER MODERNA ESTÁ RETRATADA POR NOSSA TV?
Aqui entre nós: a imagem da mulher não é bem tratada na TV brasileira. É só reparar: há pouquíssima relação entre o que vem sendo a mulher contemporânea na multiplicidade de suas características e sua expressão na TV. Novelas, humorísticos, júris etc. projetam apenas a mulher tradicional.

Nos humorísticos a situação é lamentável (com exceções, é claro)! Aí a mulher objeto, objeto total, a mulher coisa, é a única que aparece. Ou burra ou boazuda, visão deturpada, grosseira na maioria dos casos. E o pior, sem graça.

Nas novelas o panorama melhora um pouco. Mesmo assim, não tem sido a inteligência, a sensibilidade, o trabalho, a conquista de seu verdadeiro lugar num mundo de todos, a imagem da mulher projetada nas telenovelas.

Dois elementos caracterizam a presença da mulher na sociedade moderna: o trabalho e a liberação de preconceitos antigos e tacanhos. Claro, há os exageros, as confusões de liberdade existencial com exibicionismo, como relacionamentos desenfreados. Não é a eles que me refiro, nem seria lícito num meio envolvente como a televisão glorificar exceções de influência perigosa no comportamento do público e das novas gerações.

Falo da mulher emancipada num sentido humanista do termo. Da mulher que elege seus caminhos de vida, que luta por sua afirmação, por sua ética de comportamento, por seu direito de ser. Esta pouco está representada na TV.

Podem crer: grande parte dos aparelhos desligados reflete a inexistência da representação de novos comportamentos, ditados pela evolução do mundo, na psicologia da mulher.

Temos hoje um país repleto de mão-de-obra feminina em todos os setores. Universidades preparando mulheres para rendimentos eficazes nos campos da produtividade, da ciência, da tecnologia, das artes. Sua contribuição é tão grande, e dado sociológico de tal relevância, que me permito sugerir, aos dirigentes e responsáveis pelos canais, permanentes estudos, debates internos entre estudiosos da sociedade contemporânea e seus autores, atores, produtores, redatores, para a busca da representação da mulher moderna, na complexidade fecunda de sua posição na sociedade contemporânea.

Um setor da TV destaca a mulher moderna: o telejornalismo. Seja porque nele trabalham profissionais mulheres da melhor categoria, seja porque, tratando com a matéria viva do comportamento humano, o telejornalismo acompanha a nova mulher nas mil e uma faces de seus novos contornos: dos exagerados e doentios aos equilibrados e úteis.

Desburrificar personagens femininos, transformá-los em seres vivos e sensíveis, em fatores de produtividade e talento, é um bom tema a cogitar para a programação de nossa televisão em 1973. Quanto às potencialidades do caminho, basta verificar o que "Viva Marília", apesar de seu pouco tempo no ar, já fez vislumbrar.

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