Friday, January 1, 2010

1972 - Tupi x Globo

O Globo
Data de Publicação: 1/1/1972
Autor: Artur da Távola







AS MIL E UMA ENTREVISTAS DA REDE TUPI FUNCIONAM?
Nada deve ser mais pesado para a Rede Globo que o ônus da liderança. Liderança é fogo, exige sempre mais e melhor. Vira alvo de ataque de tudo quanto é lado. Gera o risco do imobilismo decorrente da fatia de concorrência. Por isso é importante a tentativa de recuperação da Tupi, sem. dúvida, em marcha. Não ponho nisso a TV Rio, pois competição só com filme não é fecunda nem merece maior atenção.




Apesar do esforço, a Rede Tupi não vem percebendo uma coisa relativamente simples: a superposição de vários de seus programas. Nessa base, não vai. No fundo, no fundo, a Rede vive da repetição em escala menor das fórmulas de Flávio Cavalcanti com outros condutores. E todos insistem numa tecla: a entrevista. Um canal não pode viver de entrevistas, por melhores que sejam (e não são).


Vejamos: às segundas-feiras Sérgio Bittencourt, num esforço bacana de telejornalismo e algo de show, entrevistas...; às quintas-feiras, "Cidinha em Ação" na mesma base: entrevistas...; às sextas-feiras, Blota Júnior e suas bem comportadas e sorridentes... entrevistas; aos sábados Aérton Pelingeiro e seu longevo e meritório almoço, onde predominam as entrevistas... ; ainda há um "Correspondente Internacional Via Satélite~' com entrevistas... ; e "Comunicação" de Gílson Amado, útil e bem feito, mas baseado em entrevistas. Isso sem falar no "Domingo Total" carregado de entrevistas... e parte do "Programa Haroldo de Andrade aos sábados, na mesma linha de todos os programas de auditório, pontilhado de... entrevistas...

O parágrafo anterior foi grande. Pudera! Abrange a maioria dos programas semanais da Tupi. Não quero dizer, e deixo-o bem claro, que um programa imita o outro. Não! Os molhos são distintos. Refiro-me a uma estratégia de programação baseada em estilos e quadros que se superpõem, com emoções da mesma natureza e com a repetição de temas, fatos e acontecimentos bizarros, raros, para psicológicos, graciosos, teratológicos, metafísicos, escalafobéticos, sei lá.

Quando os dirigentes estão mergulhados dentro de um canal e afogados na luta por superar atrasos, eles se concentram na análise específica de cada programa. e item sempre tem olhos para o geral. Os mil problemas do dia-a-dia, da recuperação comercial e artista, quase sempre deles afasta a visão de conjunto de seu canal.

É o que está ocorrendo com a atual programação da Tupi. Há uma sobra de talento aprisionada na superposição de fórmulas, gerando um fato curiosíssimo: os programas competem consigo mesmos. A cada semana suas equipes produtoras correm e lutam para não perder o furo, ou a reportagem, ou a entrevista "sensacional", para colegas do mesmo canal. O resultado é um excesso de informação, uma sedimentação de resíduos de comunicação incapazes de renovar as mensagens e as expectativas do público telespectador. É do be-a-bá da comunicação: o excesso de informação inibe o canal.

Deixo o alerta, pois conheço a competência da equipe dirigente da Tupi. De fora, a gente sempre pode ver melhor e contribuir, se é que posso ter a pretensão de ajudar de alguma forma a gente que sabe tanto.

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