Monday, January 4, 2010

1972 - Elke Maravilha e Pedro de Lara

VEJA
Data de Publicação: 18/10/1972






A DUPLA
Ele é o "defensor da moral e da família". Ela, excessivamente maquilada, é uma sedutora, com todos os gestos e trejeitos que o papel exige. A idéia de colocar uma dupla de contrastes tão estereotipados num júri de programa de auditório é o que se costuma chamar de uma das fórmulas óbvias do sucesso. Tão óbvia que realmente Pedro de Lara e Elke são no momento as maiores atrações da "Buzina do Chacrinha" (Rede Globo, domingo, 20 horas).

Elke, Elke Maravilha, 27 anos, manequim profissional, loira, ruiva ou morena, ao sabor das tinturas e da catequese de cabeleireiros do Rio e de São Paulo, durante os programas, sempre debruçada sobre o próprio decote, e provocando Pedro de Lara, "idade certa desconhecida" - mas perto dos 48 anos -, cabeleira ao que tudo indica castanha, própria para anúncios de xampu, antes do tratamento. Ela, maliciosa, ele, irascível - o script não é extremamente original, mas atinge o alvo. Para Vicente Rodrigues de Medeiros, de 41 anos, porteiro de edifício em Copacabana, Rio, e fã do programa, "as brigas dos dois são gozadas". "Pedro de Lara'', diz ele, "é um palhacento. Só fala bobagens; Elke parece maluca com toda aquela pintura. Mas não é, não, ela diz muita coisa certa."

Palhaço por dinheiro - O estudante Dante Mário da Silva Filho, de 22 anos, também carioca, concorda com o porteiro e acha absurdas as pregações de Pedro de Lara contra o biquíni, a míni-saia e demais modas reveladoras: "Para mim, ele é um recalcado, que longe das câmaras deve adorar mulheres peladas e shows da praça Tiradentes.''

A opinião da costureira Marieta Alves, de 51 anos, apesar de idêntica às anteriores, vai um pouco além e provavelmente se aproxima, pelo menos no que diz respeito a Pedro de Lara, da verdade: "Elke é uma moça bonita, exótica, que fala doce e cativa a gente. Pedro! Um homem velho daquele jeito só pode fazer palhaçada por dinheiro".

Nascido em Bom Conselho de Papacaca, Pernambuco, Pedro Ferreira dos Santos não tem queixa de reações como essas. Seu pai vendia pães, montado em lombo de burro; ele tinha vinte irmãos e conta ter passado uma infância difícil, carregando água para ajudar a família. Com doze anos, arrumou o emprego de faxineiro num consultório médico onde aprendeu a ler e a sonhar que o Rio era o lugar ideal para se viver.

Os sonhos alheios - Emigrou aos dezesseis anos e descobriu que eram apenas sonhos: estreou no meio artístico muito discretamente, escrevendo peças sacras ("Sagrada Luz" foi solitariamente encenada por amadores do subúrbio carioca de Madureira). Ganhava a vida vendendo cocadas nos trens da Leopoldina e da Central, e de um amigo ganhou o apelido Lara - "Para ver se dava sorte como Agustin Lara, o compositor mexicano de 'Granada"'. Sua grande chance chegou em 1965, quando, convidado por um amigo, participou de um programa da TV Continental, como cômico. Atração que ele conseguiria depois um programa na rádio o Rio de Janeiro ("Tribunal do Lara'') até transformar-se em conselheiro e analista de sonhos - o que faz em seus programas da Rádio Tupi do Rio ("Justiça do Povo", "Sonhos" e o "Tribunal de Lara") e nas revistas que escreve. Conta que só então se dedicou ao estudo dos sonhos, que leu "Freud e Alan Kardec". Casou-se com Abigail, viúva mãe de três filhos, "minha maior inimiga no mundo artístico, minha companheira há 23 anos, e que ainda hoje seus vestidos três dedos abaixo dos joelhos''. De sua colega Elke, ele tem uma opinião definida: "É uma exibicionista, tão vazia como uma garrafa sem líquido e rótulo''.




Um louco que fala - De família aristocrática antes de 1917, "daquelas que só falavam russo com os cavalos", Elke Evremidis nasceu em Leningrado. Passou por Alemanha e França, antes de seu pai decidir-se a vir para o Brasil. Cresceu e estudou no Rio. Fala francês inglês, alemão, espanhol, russo e italiano e, em 1968, na Europa, casou-se com jornalista grego Alexandro Evremidis voltando com ele pouco depois para Brasil. Foi ele que a incentivou a entra para a carreira de manequim: "Foi sem pensar. Não planejo nada, não sou nem um pouco racional. Me pintei como queria e saí pelas ruas achando que poderia abalar um pouco os padrões estabelecidos no mundo da alta moda".

Separou-se de Alex, hoje em dia sente-se odiada pelas pessoas mais velhas "que me xingam nas ruas" e amada pelas crianças, "que me dão balas e chicles".

Famosa, não se sente completamente feliz: "É difícil encontrar um homem para mim atualmente. A maioria tem medo de me encarar por causa da minha imagem, e os outros se mostram interessados apenas em sair com a Elke". E o Pedro de Lara? "Ali, o Pedro é sensacional. Ele assume diante do Brasil as palhaçadas que diz. É um louco que fala, fala, mas no fundo não deve acreditar no que diz."




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