Wednesday, January 20, 2010

1971 - A Praça da Alegria

VEJA
Data de Publicação: 21/4/1971





A MESMA PRAÇA
"Uma boa fórmula para o humor é repetir o óbvio", disse certa vez o humorista americano Art Buchwald. No Brasil, a receita é sucesso desde o início do século, quando os teatros de revista da praça Tiradentes, no Rio, importaram-na de Paris. E, para confirmar a sua extraordinária capacidade de sobrevivência, a TV Record de São Paulo fez voltar aos vídeos da REI (Rede de Emissoras Independentes) a "Praça da Alegria", após sete meses de uma interrupção que seus produtores afirmavam definitiva. Mas esse propósito não pôde ser mantido: todas as semanas, a Record recebia dezenas de cartas de telespectadores, reclamando a falta do programa ("Não tenho mais programa humorístico sadio para assistir com meus filhos", afirmava um chefe de família mineiro). Esses comentários mudam agora radicalmente ("Ninguém segura a nova 'Praça'", escreve de São Bernardo do Campo uma senhora com 62 anos). E a própria Câmara Municipal de São Paulo, rompendo a aparência grave de sua função legislativa, escreveu a Manoel da Nóbrega, 58 anos, redator, produtor e diretor da "Praça" há catorze anos, comunicando que na sessão do dia 26 de março lavrou ata "com voto de júbilo e congratulações pela volta da 'Praça da Alegria' e seu humor sadio e fiel às nossas tradições". Afinal, nessa fidelidade ao gosto popular brasileiro é que parece estar o motivo do sucesso da "Praça".

Sem novidades - Programa sem muitas pretensões, que não exige do espectador nenhum esforço para entendê-lo, a "Praça" tem, inclusive, algumas semelhanças formais com o teatro de revista, que foi até a década de quarenta o mais popular espetáculo nos grandes centros urbanos do país: sentado num dos lados do cenário (dois bancos de jardim e- uma enorme tela onde há uma praça pintada), um homem gordo, careca e simpático (Manoel da Nóbrega) lê jornal e assiste impassível, ou participando com piadas rápidas, ao desfile de quadros humorísticos sem qualquer unidade entre si e à chegada de visitantes que se encontram acidentalmente. Os personagens também são os mesmos: o chato (Rony Rios) que para tudo pede explicação, o tímido (Durval de Souza) que foge das mulheres, a esposa deslumbrada (Consuelo Leandro) com o marido rico, o garoto (Simplício) que faz perguntas e conta histórias irreverentes, o mendigo (Borges de Barros) que diz ter chegado de Washington, onde deu fiança para o ministro Delfim Netto, entre outros. Com esses ingredientes a "Praça" está de volta há um mês e já alcança uma audiência tão surpreendente (acima de 20%) que a TV Record está relançando alguns dos programas que também tinham sido retirados do ar (exemplo: "É Proibido Colocar Cartazes", de Pagano Sobrinho), porque pretendia reformular a sua programação e evitar que a saturação do público com os velhos esquemas da TV brasileira influísse nos índices do Ibope. 






Com a cara larga, onde deixou crescer a barba branca, e a tranqüilidade que preserva inclusive nas situações cômicas, Manoel da Nóbrega explica com certo orgulho que a "Praça" voltou "porque o público exigiu e sentia falta de um programa que, embora antigo, não agride ninguém, não mostra feridas, não faz mundo cão e é quase infantil". Uma confissão verdadeira, mas capaz de confirmar que, para ter sucesso, os veículos de comunicação de massa só podem mesmo é trazer novidades em proporções limitadas.





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