Friday, January 1, 2010

1970 - Embratel

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 31/12/1970
Autor: Valério Andrade




NA TELEVISÃO O PROGRESSO E O DOMÍNIO TECNOLÓGICO
Em 1970 a televisão brasileira fez a sua grande e sensacional demonstração de força junto ao público de todo o país.

A cobertura da Copa do Mundo não foi apenas o principal acontecimento do ano. Ficará como o novo marco de uma nova era. O impacto provocado pelas transmissões do México glorificou o poder da TV em termos absolutos e, até então, inéditos no Brasil.

É evidente que tal fenômeno só ocorreu em virtude do progresso tecnológico verificado no setor das telecomunicações. Graças ao grande salto dado pela Embratel, colocando o Brasil junto às nações desenvolvidas nesse setor, já podemos requerer nossa inscrição como membro efetivo da Aldeia Global.

A magia do futebol e o progresso via Embratel testaram com absoluto êxito o poderio da televisão como veículo de informação e formação da opinião pública, aumentando, consideravelmente, a responsabilidade das emissoras e dos homens que conduzem os destinos da TV brasileira.

A LIÇÃO DE NOVEMBRO

Se a cobertura futebolística registrou recordes de audiência, atraindo milhões de telespectadores, a campanha eleitoral provocou resultado inverso. Houve uma espécie de rejeição coletiva. A freqüência de aparelhos ligados durante o horário reservado ao Tribunal Regional Eleitoral chegou a cair mais de 50% do nível habitual.

Na realidade, a TV derrotou inúmeros candidatos que, longe dos olhos da câmara, talvez pudessem iludir o eleitorado. Sob esse aspecto, a televisão prestou louvável serviço de utilidade pública, mostrando, em sua fria imparcialidade, a desastrosa atuação de um elenco de atores medíocres e de maus políticos.

Levando-se em conta que a televisão será cada vez mais um veículo indispensável às campanhas políticas, tal qual ocorre nos Estados Unidos, resta a esperança de que os candidatos tenham aprendido a lição de novembro e de que o próximo desfile eleitoral seja mais charmoso para os telespectadores.

AS CORES DO GALO

Transmitido ao vivo para todo o Brasil através via Embratel, o Festival da Cancão deste ano apresentou sensível progresso técnico em relação aos anteriores, no tocante à visualização do espetáculo. Excluindo a cobertura da noite de estréia, onde se observaram certas falhas, o Festival da Canção apresentou um trabalho de primeira categoria em transmissões do gênero.

O Festival da Canção introduziu uma inovação no campo das transmissões locais. Ao contrário do que aconteceu com a Copa do Mundo, que só poderia ser vista em cores através de circuitos fechados, a cobertura do Maracanãzinho poderia ser captada por qualquer aparelho que estivesse munido para capitar imagens coloridas.

UM VÍCIO DE MILHÕES

A novela incorporou-se definitivamente no cotidiano do brasileiro. É raríssimo, ou mesmo impossível, encontrar um telespectador que não esteja acompanhando determinada novela. Por outro lado, de acordo com os números do IBOPE, elas se mantêm à frente dos campeões de audiência.

A temporada de 70 registrou o advento de uma série de novelas de grande apelo popular e indiscutível progresso artístico. Tecnicamente bem feitas plasticamente cuidadas, novelas como Irmãos Coragem, A Próxima Atração, Assim na Terra como no Céu trouxeram para o vídeo uma série de recursos cinematográficos que lhes têm dado um dinamismo fora do comum.

Os dias de glória e lagrimas de O Direito de Nascer já pertencem ao passado. A novela evoluiu e o público acompanhou a sua evolução intelectual.

O fracasso de Simplesmente Maria que pelos cálculos da Tupi deveria ter sido a novela de 1970, vem comprovar que as coisas mudaram e que a magia da dupla Ioná Magalhães e Carlos Alberto perdeu o seu encanto após a demolição encabeçada por Beto Rockefeller.

DUELO AOS DOMINGOS

De repente, cessou o tédio dominical. Flávio Cavalcânti, num golpe audacioso e inesperado, resolveu acabar com a alegria do Velho Palhaço, tocando fogo na sua tenda.

A rivalidade entre Flávio Cavalcânti e Chacrinha transformou-se no acontecimento do ano, no vídeo carioca. A guerra do IBOPE, a luta desesperada pela conquista dos pontinhos, mobilizou a opinião pública que passou a encontrar nesse duelo de campeões uma nova e fértil fonte de interesse.

As apelações do Flávio e as loucuras do Chacrinha continuarão atraindo e irritando o telespectador em 71. É uma guerra a longo prazo e sem limites.

A REBELIÃO DO RISO

Coube a Chico Anísio a honra de ter comandado a rebelião humorística em 1970. Com sua admirável série de especiais, produzidos pela TV Globo, Chico despejou o humor do edifício Balança mas Não Cai, dando-lhe uma nova dimensão.

Livrando- se da piada radiofônica, introduzindo a gag visual, Chico Anísio passou a explorar as ilimitadas possibilidades oferecidas pelo video-tape, inovando, melhorando e fazendo escola: Faça Humor, Não Faça Guerra.

REPULSA CONSAGRADORA

Produzido em Si!io Paulo pela TV Recorde, apresentado no Rio pelo canal 13, Quem Tem Medo da Verdade? conseguiu uma proeza inusitada: reunir uma legião de telespectadores fora da órbita monopolizadora dos canais 4 e 6.

Unindo o mínimo de imaginação criativa ao máximo de sensacionalismo, quase sempre pré-fabricado, Quem Tem Medo da Verdade? fez sucesso, inclusive pelo seu baixo custo de produção e a sua capacidade de atrair audiências. E o mais curioso é que, de acordo com a grande maioria dos telespectadores, o programa era simplesmente detestável, gratuitamente impiedoso.

O fato é que Carlos Manga conseguiu em torno de seu programa, a repulsa que consagra.

A VOLTA QUE NÃO HOUVE

Anunciado com grande alarde após anos de ausência, tivemos este ano o retorno do Grande Teatro Tupi. Com a direção a cargo de Sérgio Brito, Fernanda Montenegro no papel de Joana d'Arc, o canal 6 apresentou a versão de O Canto da Cotovia.

A peça de Jean Anouilh foi saudada com entusiasmo pela crítica especializada e apresentava um bom trailer das futuras encenações. Curiosamente, apesar das perspectivas otimistas, das promessas da Tupi, o seu Grande Teatro não foi além da estréia, saindo do vídeo prematuramente e sem dar qualquer satisfação ao público.

Som de exportação

A exemplo do que ocorreu com a série de especiais idealizados por Chico Anísio, a equipe da TV Globo realizou neste fim de ano, um programa sobre musica popular que veio revolucionar tudo o que até então fora feito no gênero.

A exibição dos primeiros especiais de Som Livre Exportação, realizados com excepcional cuidado técnico e dentro de um clima de absoluta independência musical, credencia-o como um programa de primeira classe, que veio preencher a lacuna existente e~ nossa TV, pagando uma velha dívida para com o público interessado nas múltiplas faces de nossa musica popular.

ASCENSÃO E QUEDA

Com a cassação do canal 2, registrou-se o fim da lenta agonia financeira que há tempos vinha sufocando a TV Excelsior. Um desfecho melancólico para uma emissora que havia desfrutado o sucesso e conhecido a decadência, antes do ato final que encerrou suas atividades, eduzindo para quatro o número de emissoras cariocas.



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