Friday, January 22, 2010

1969 - Como foi o ano na TV

O Cruzeiro
Data de Publicação: 1/1/1970
Autor/Repórter:

OS MELHORES DA TV
Uma grande pesquisa no Rio de Janeiro, escolheu, entre os telespectadores

A pesquisa também revelou que é bastante significativo o número de aparelhos desligados. Em um milhão, pelo menos quatrocentos mil são apenas enfeite.



De um milhão de aparelhos espalhados no Grande Rio, quatrocentos mil, alternando-se, estiveram permanentemente desligados no ano de 1969. As crianças, sobretudo, não atenderam os apelos publicitários dos "capitães" Aza e Furacão, pois os índices do IBOPE chegaram a assinalar até oitocentos e cinqüenta mil aparelhos desligados nos programas vespertinos. O horário nobre, das dezoito às vinte e duas horas, porém, foi disputado palmo a palmo durante o ano: o Show Sem Limite, de J. Silvestre, conseguiu o grande recorde ultrapassando os setenta por cento duas semanas seguidas com a última etapa de respostas e o casamento da Noivinha da Pavuna, enquanto que o "Festival Internacional da Canção", que custou .... NCr$ 2 milhões, atingiu apenas quarenta e oito e meio. As novelas foram, no entanto, a tônica da televisão brasileira no ano que está por se findar: em todas as casas de todas as classes nem mesmo as visitas conseguiram interromper Beto Rockfeller; Nino, o Italianinho, Antônio Maria, A Rosa Rebelde, Véu de Noiva ou A Ponte dos Suspiros, mas não há como se negar que foi Antônio Maria D,Alencastro Figueiroa quem dominou inteiramente as emoções do público telespectador. Ao fim de mais um ano as mesmas criticas de quase duas décadas: a imaginação dos homens que cuidam de "bolar" a TV está em pane, os programas são primários e a técnica desaproveitada - embora as imagens via satélite estejam anulando distâncias, pois assistimos a jogos de futebol na América Latina e a um Festival de Música, de Lucarno, diretamente da Suíça. O humor talvez tenha sido a face mais critica da TV, pois enquanto o show de Chico Anisio no teatro da Lagoa era assistido por quase um milhão de pessoas, Mister Show, da TV Globo, o de maior audiência, não conseguia atingir, na sua contagem máxima de pontos, sessenta por cento de sintonia dos aparelhos ligados. Em síntese, mais uma vez, altos e baixos na TV que os números demonstram com fria eficiência: o que é preciso mudar?

ESCRAVIDÃO DA PESQUISA

Publicitários, público e jornalistas, até mesmo ligados à televisão, estão inteiramente desinformados sobre a estrutura das pesquisas de audiência. A falibilidade das entrevistas domésticas é evidente: ha quem tema dar declarações a desconhecidos, por ignorância, ou quem simplesmente não se recorde do que tenha visto no dia anterior. Pode ocorrer ainda que, quando o entrevistado se libere das perguntes, o dial de seu aparelho já esteja marcando outro canal, pois a luta da família diante do vídeo é constante. Além disso o gosto é variável, pois se em determinado momento o público se entusiasma com uma novela, pode perder o interesse dias depois e passar a assistir a um filme ou a um show na TV vizinha. Muitos telespectadores rodam de uma para outra na expectativa de um bom número musical ou de um fato que mais lhe interesse. Basta citar sobre isso a própria pesquisa do IBOPE, que dá na semana de 27 de outubro a 2 de novembro o segundo lugar em audiência ao programa do Chacrinha, com sua discoteca, e que na semana anterior não chegara sequer ao décimo lugar. Tanto o IBOPE quanto a MARPLAN podem argumentar que o índice de suas médias pode ser comprovado com os resultados eleitorais, já que o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatistica acertou os números da vitória do sr. Negrão de Lima como candidato ao governo carioca, com uma diferença de vinte mil votos, que deve ser considerada como irrisória. Mas é que no voto popular as opções são menos variadas, mais constantes e sobretudo taxativas. O espectador de TV não se interessa, atualmente, nem mesmo por programas, mas sim pelo que pode ver na hora em que liga o aparelho, havendo caso até de quem acompanhe duas novelas ao mesmo tempo, aproveitando-se dos anúncios. Porém o temor da televisão pelos índices é tão grande que, sobretudo nas novelas, vai espichando os programas que agradam mais, como no caso da novela Antônio Maria, que chegou a ser repetida em video-tape no dia seguinte.

VENCEDORES DO ANO

Depois do extraordinário sucesso da TV Tupi com o casamento da Noivinha da Pavuna, a velha fórmula de comunicação parece insurgir-se contra a revolução dos métodos da propaganda: o sonho realizado da classe pobre e média trouxe lágrimas aos olhos e pontos no IBOPE. Sem ordem de colocação, segundo nossa pesquisa, foram os seguintes os dez programas de maior audiência: 1) Show Sem Limite, de J. Silvestre, 2) Discoteca do Chacrinha, 3) Novela Antônio Maria, 4) Novela Beto Rockfeller, 5) Mister Show (Topo Gigio), 6) Bibi ao Vivo, 7) Novela Nino, o Italianinho, 8) Novela Véu de Noiva, 9) Novela A Rosa Rebelde e 10) A Grande Chance, de Flávio Cavalcanti. Também pesquisamos a preferência do público por dia da semana e obtivemos o seguinte resultado: Segunda feira: Show Sem Limite; 3a feira: Alô Brasil; 4a feira: A Discoteca do Chacrinha; 5a feira: Mister Show; 6a feira: Bibi ao Vivo; sábado: Véu de Noiva, e domingo: Blota Jr .

PRÓXIMO ANO

O próximo ano parece estar marcado para ser um dos mais importantes na televisão brasileira. Será o ano da Copa do Mundo no México, provavelmente com transmissão direta, pela primeira vez no Brasil; será o ano primeiro da Década da Educação proposta pelo deputado João Calmon e que a TV Tupi está levando a efeito através da ação de Gilson Amado e de seus cursos de alfabetização, já iniciados, que poderão ensinar a ler e a escrever uma grande parcela de analfabetos. Também em 1970 deverão prosseguir e chegar ao seu climax as novelas que retratam mais direta e menos emocionalmente a realidade, como Beto Rockfeller e Verão Vermelho, tão bem recebidas na TV como o foram as duas maiores "lacrimosas": O Direito de Nascer, de Caignet, e Antônio Maria, com Sérgio Cardoso. Os salários continuarão em ascensão, Chacrinha poderá ultrapassar seus atuais NCr$ 140 mil, Flávio Cavalcanti seus NCr$ 80 mil e assim sucessivamente, pois até em futebol os contratos foram atingidos pela alucinação: Rui Porto dirige a equipe esportiva da TV Tupi com NCrS 12 mil mensais e na TV Globo a Grande Resenha Esportiva não faz por menos com Armando Nogueira, que recebe quase o dobro. Foi assim a televisão brasileira no ano de 1969.



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