Friday, January 22, 2010

1969 - Como foi o ano na TV

O Cruzeiro
Data de Publicação: 1/1/1970
Autor/Repórter:

OS MELHORES DA TV
Uma grande pesquisa no Rio de Janeiro, escolheu, entre os telespectadores

A pesquisa também revelou que é bastante significativo o número de aparelhos desligados. Em um milhão, pelo menos quatrocentos mil são apenas enfeite.



De um milhão de aparelhos espalhados no Grande Rio, quatrocentos mil, alternando-se, estiveram permanentemente desligados no ano de 1969. As crianças, sobretudo, não atenderam os apelos publicitários dos "capitães" Aza e Furacão, pois os índices do IBOPE chegaram a assinalar até oitocentos e cinqüenta mil aparelhos desligados nos programas vespertinos. O horário nobre, das dezoito às vinte e duas horas, porém, foi disputado palmo a palmo durante o ano: o Show Sem Limite, de J. Silvestre, conseguiu o grande recorde ultrapassando os setenta por cento duas semanas seguidas com a última etapa de respostas e o casamento da Noivinha da Pavuna, enquanto que o "Festival Internacional da Canção", que custou .... NCr$ 2 milhões, atingiu apenas quarenta e oito e meio. As novelas foram, no entanto, a tônica da televisão brasileira no ano que está por se findar: em todas as casas de todas as classes nem mesmo as visitas conseguiram interromper Beto Rockfeller; Nino, o Italianinho, Antônio Maria, A Rosa Rebelde, Véu de Noiva ou A Ponte dos Suspiros, mas não há como se negar que foi Antônio Maria D,Alencastro Figueiroa quem dominou inteiramente as emoções do público telespectador. Ao fim de mais um ano as mesmas criticas de quase duas décadas: a imaginação dos homens que cuidam de "bolar" a TV está em pane, os programas são primários e a técnica desaproveitada - embora as imagens via satélite estejam anulando distâncias, pois assistimos a jogos de futebol na América Latina e a um Festival de Música, de Lucarno, diretamente da Suíça. O humor talvez tenha sido a face mais critica da TV, pois enquanto o show de Chico Anisio no teatro da Lagoa era assistido por quase um milhão de pessoas, Mister Show, da TV Globo, o de maior audiência, não conseguia atingir, na sua contagem máxima de pontos, sessenta por cento de sintonia dos aparelhos ligados. Em síntese, mais uma vez, altos e baixos na TV que os números demonstram com fria eficiência: o que é preciso mudar?

ESCRAVIDÃO DA PESQUISA

Publicitários, público e jornalistas, até mesmo ligados à televisão, estão inteiramente desinformados sobre a estrutura das pesquisas de audiência. A falibilidade das entrevistas domésticas é evidente: ha quem tema dar declarações a desconhecidos, por ignorância, ou quem simplesmente não se recorde do que tenha visto no dia anterior. Pode ocorrer ainda que, quando o entrevistado se libere das perguntes, o dial de seu aparelho já esteja marcando outro canal, pois a luta da família diante do vídeo é constante. Além disso o gosto é variável, pois se em determinado momento o público se entusiasma com uma novela, pode perder o interesse dias depois e passar a assistir a um filme ou a um show na TV vizinha. Muitos telespectadores rodam de uma para outra na expectativa de um bom número musical ou de um fato que mais lhe interesse. Basta citar sobre isso a própria pesquisa do IBOPE, que dá na semana de 27 de outubro a 2 de novembro o segundo lugar em audiência ao programa do Chacrinha, com sua discoteca, e que na semana anterior não chegara sequer ao décimo lugar. Tanto o IBOPE quanto a MARPLAN podem argumentar que o índice de suas médias pode ser comprovado com os resultados eleitorais, já que o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatistica acertou os números da vitória do sr. Negrão de Lima como candidato ao governo carioca, com uma diferença de vinte mil votos, que deve ser considerada como irrisória. Mas é que no voto popular as opções são menos variadas, mais constantes e sobretudo taxativas. O espectador de TV não se interessa, atualmente, nem mesmo por programas, mas sim pelo que pode ver na hora em que liga o aparelho, havendo caso até de quem acompanhe duas novelas ao mesmo tempo, aproveitando-se dos anúncios. Porém o temor da televisão pelos índices é tão grande que, sobretudo nas novelas, vai espichando os programas que agradam mais, como no caso da novela Antônio Maria, que chegou a ser repetida em video-tape no dia seguinte.

VENCEDORES DO ANO

Depois do extraordinário sucesso da TV Tupi com o casamento da Noivinha da Pavuna, a velha fórmula de comunicação parece insurgir-se contra a revolução dos métodos da propaganda: o sonho realizado da classe pobre e média trouxe lágrimas aos olhos e pontos no IBOPE. Sem ordem de colocação, segundo nossa pesquisa, foram os seguintes os dez programas de maior audiência: 1) Show Sem Limite, de J. Silvestre, 2) Discoteca do Chacrinha, 3) Novela Antônio Maria, 4) Novela Beto Rockfeller, 5) Mister Show (Topo Gigio), 6) Bibi ao Vivo, 7) Novela Nino, o Italianinho, 8) Novela Véu de Noiva, 9) Novela A Rosa Rebelde e 10) A Grande Chance, de Flávio Cavalcanti. Também pesquisamos a preferência do público por dia da semana e obtivemos o seguinte resultado: Segunda feira: Show Sem Limite; 3a feira: Alô Brasil; 4a feira: A Discoteca do Chacrinha; 5a feira: Mister Show; 6a feira: Bibi ao Vivo; sábado: Véu de Noiva, e domingo: Blota Jr .

PRÓXIMO ANO

O próximo ano parece estar marcado para ser um dos mais importantes na televisão brasileira. Será o ano da Copa do Mundo no México, provavelmente com transmissão direta, pela primeira vez no Brasil; será o ano primeiro da Década da Educação proposta pelo deputado João Calmon e que a TV Tupi está levando a efeito através da ação de Gilson Amado e de seus cursos de alfabetização, já iniciados, que poderão ensinar a ler e a escrever uma grande parcela de analfabetos. Também em 1970 deverão prosseguir e chegar ao seu climax as novelas que retratam mais direta e menos emocionalmente a realidade, como Beto Rockfeller e Verão Vermelho, tão bem recebidas na TV como o foram as duas maiores "lacrimosas": O Direito de Nascer, de Caignet, e Antônio Maria, com Sérgio Cardoso. Os salários continuarão em ascensão, Chacrinha poderá ultrapassar seus atuais NCr$ 140 mil, Flávio Cavalcanti seus NCr$ 80 mil e assim sucessivamente, pois até em futebol os contratos foram atingidos pela alucinação: Rui Porto dirige a equipe esportiva da TV Tupi com NCrS 12 mil mensais e na TV Globo a Grande Resenha Esportiva não faz por menos com Armando Nogueira, que recebe quase o dobro. Foi assim a televisão brasileira no ano de 1969.



Thursday, January 21, 2010

1979 - Ano Internacional da Criança na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 15/12/1978
Autora: Maria Helena Dutra




A CRIANÇA NUMA MARATONA DE 24 HORAS
Para hoje, a atração única é Brasil Pandeiro, Rede Globo, às 20h 55m. No programa, que está despedindo-se, haverá uma homenagem ao músico brasileiro. Classe representada por Walter Blanco, Joel do Bandolim, Zé Menezes e Quinteto Violado. E se completa com uma Sinfonia Carioca, espécie de colagem de canções em homenagem a cidade. Interpretadas por Dick Farney, Emílio Santiago, Pery Ribeiro, Chico Anísio, Jamelão, Leny de Andrade e Originais do Samba.

Mas amanhã, temos a grande festança. Planejada e organizada aos mínimos detalhes pela Rede Globo, que ficará 24 horas no ar, a partir das 21 horas desta noite, com programação especial sobre o Ano Internacional da Criança. Deverá ter grande audiência, mas é muito desconfiável. Toda a movimentação visa a arrecadar fundos para as criancinhas pobres , nem Pelé ousou tanto. Seus artistas mais famosos estarão em vários pontos de pedágio nas estradas brasileiras utilizando a sua popularidade para vender toda a sorte de coisas. Os compradores serão os habitantes de um país que vivem a pagar taxas e impostos para manter a sociedade. Não seria muito mais prático e acreditável que a toda poderosa estação fizesse ela mesma esta caridade? Por exemplo, destinando 1% de seu faturamento mensal, durante todo o ano infantil, para as obras sociais. A entrega poderia, inclusive, propiciar eventos mensais badalativos. E para melhor compor a imagem, o canal 4 poderia mostrar, por outros meios, o seu súbito carinho aos menores. Organizar uma programação exemplar para eles, em tudo igual ao Globinho que já está no ar. Retirar os desenhos violentos e sem nenhuma qualificação artística já mostraria intenções altíssimas. Sem fazer censura, mas apenas uma seleção, cancelaria comerciais que induzem a criança a hábitos alimentares nada saudáveis através de múltiplos prêmios nas embalagens. Também exterminaria tudo que criasse hábitos apenas consumísticos nas cabeças infantis. Com o seu poder, faria do Ano Internacional um acontecimento sério e não apenas um programa como os outros.

Para quem quer apenas se divertir o especial adequado começa as 21h, comandado por Roberto Carlos, no Rio, e Tony Ramos e Regina Duarte em São Paulo. Todos os cantores, atores e humoristas possíveis estarão presentes. De madrugada terá seresta, já gravada anteriormente, e shows produzidos em outros Estados. A esta hora, 4h30m da madrugada, valem alguns regionalismos. Na manhã de domingo, além dos programas habituais só que engalanados, terá jogo de futebol entre atores e cantores. Engraçadinho. E às 18h30m, chegam ao exagero. Um programa todo dedicado às discotecas pelo muito que fazem à cultura e ao mercado de trabalho nacional. Para o contribuinte do futuro, as presenças magnas de Sidney Magal, Ney Mato-grosso e As Frenéticas apresentando todos os outros. Em meio a balburdia, edições jornalísticas mostrando muita miséria e fome. E vai ter até criança símbolo, uma só, que ganhará tudo da Globo. Será escolhida em Brasília. O encerramento é com Roberto Carlos em São Paulo e o Fantástico dando um balanço geral neste show da vida.

Fora disso, há amanhã, 21 horas, na Educativa um programa que merece toda a atenção pela sua constante evolução. E' o Teatro Municipal com boa música e ballet. No domingo, pela mesma estação, mais um Nota Jazz, 18 horas, e às 23 horas a Rede Bandeirantes exibe tape da entrega dos Prêmios Nobel de 1978. Opções bem melhores.



1973 - A Volta da Radionovela

VEJA
Data de Publicação: 1/1/1973

A VOLTA AO RÁDIO




Poderia ser uma gravação de 1957, mas não era: na última segunda-feira, às 14 horas, exatamente como há quinze anos, depois do prefixo musical, a voz do locutor proclamou as virtudes do "sabonete das estrelas" e "orgulhosamente" anunciou o primeiro capítulo de "A Noite do Meu Destino", com o galã Paulo Gracindo.

Numa tentativa de melhorar a sua audiência na Guanabara (está em quinto lugar), a Rádio Nacional, senhora absoluta do público na década de 50, resolveu, aproveitando o sucesso alcançado na TV pelo seu contratado há 25 anos, reapresentar a sua linha de novelas do passado. A idéia foi de Daisy Lucidi, heroína daqueles tempos, que ogora volta a fazer o par romântico com Gracindo. Ela, há pouco mais de um mês, assumiu a direção do departamento de novelas da estação. "A Nacional tem ainda hoje um elenco de mais de quatrocentos atores e a sua tradição em novelas é muito grande. Desde que TV começou a tirar a nossa audiência, deixamos a novela de lado e apelamos para um outro tipo de programação, que, no fim, se revelou infrutífera'' - diz ela. Agora, diante dos apelos saudosistas dos ouvintes, requisitamos o Gracindo."

Lá vai ele - Afastado do rádio desde 1971, Gracindo não esconde o seu entusiasmo. Primeiro, porque trabalhar no rádio é mais fácil que na TV: "Não preciso me maquilar nem estudar o script durante horas". Depois, como Luís Henrique em "A Noite do Meu Destino", ele acredita que poderá reeditar os sucessos dos velhos tempos do rádio (o maior deles como Albertinho Limonta, em "O Direito de Nascer"). A novela é a história de um camponês que vai trabalhar na fazenda dos aristocráticos Marcondes de Romero e se apaixona pela herdeira Paulina, cujo pai, dom Eduardo, não aceita o romance.

"Uma novela como tantas outras, cheia de intrigas, romances e desilusões, que permanece atual e não precisou ser modificada. Vocês vão ver, amanhã ou depois todo mundo estará me apontando na rua - 'Lá vai o Luís Henrique' -, como acontecia com o Albertinho e, mais recentemente, com o Tucão, na TV" - promete Gracindo. Com ele está Péricles do Amaral, o diretor de programação da Nacional: "Novela é o que dá Ibope em TV. E TV só dá audiência depois das 18 horas. Pela manhã e à tarde o público está disponível".




Wednesday, January 20, 2010

1977 - Controvérsia no Sítio do Pica-Pau Amarelo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 6/1/1977
Autor: Alfredo Ribeiro e Paulo Baiano




MONTEIRO LOBATO CONFINADO NA DISNEYLANDIA
O sociólogo Marcos Amazonas, ex-diretor do Departamento Educacional da TV Globo, fala aqui da sua experiência com o programa Vila Sésamo e do motivo que o levou a demitir-se: o desfiguramento da obra de Monteiro Lobato, a ser constatado quando entrar no ar, provavelmente em março, o programa Sitio do Picapau Amarelo.

É muito difícil usar a televisão de uma maneira educacional. A televisão é um meio quente: as pessoas que a assistem têm um envolvimento muito grande com ela e retêm pouco. Por isso, Vila Sésamo é feito em cima de técnicas de propaganda e esse é o seu grande mal pedagógico. Vila Sésamo não e nada mais do que um programa que vende as coisas. Vende a letra A, o número 20, um conceito de higiene, um conceito de interação social, baseando-se em técnicas de publicidade.

- Não se pode negar a Vila Sésamo o seu caráter inovador. Foi a primeira tentativa no Brasil de se fazer televisão educativa. Mas para a criança aprender o que é um triangulo, por exemplo, seria necessário que ela soubesse antes o que é uma figura geométrica. No entanto, a linha pedagógica de Vila Sésamo, baseada na memória, na repetição e na assimilação, não dá importância a relacionar esse fato com as outras coisas que o cercam. Passam 100 vezes a mesma coisa e a criança acaba aprendendo. Se ela não for débil ou mongolóide, tem de aprender.

- Outra crítica: o programa inteirinho é baseado em pesquisas e elaboração sobre a realidade americana. Tem 10 anos de pesquisas e é o programa mais caro já feito no mundo. Usa técnicas interessantes. Por exemplo: jamais, num programa educacional, você deve ter pai e

mãe, porque a criança associa a sua vida real ao que vê na televisão. Do mesmo modo que, ao ver uma novela, você a aceita como real. No caso da programação educacional, não há a figura castradora do pai ou da mãe. Se você tem uma mensagem e quer que uma criança menor a retenha, você a põe na boca do boneco, que é mais lúdico e não lembra nada que não seja do domínio da fantasia da criança. Se eu puser um homem falando, ela o associa ao pai, ao irmão, ao tio. Um boneco, não. Um boneco nunca mentiu, nunca traiu a criança. Em Vila Sésamo, as mensagens fundamentais estão na boca de bonecos.

- Deslumbrado com as possibilidades da televisão educacional, o Governo vem dando apoio a Vila Sésamo, e apoiará o Sítio do Picapau Amarelo, que será uma co-produção TV Globo/TVE, O Governo deu uma verba de Cr$ 6 milhões e mais todas as instalações da TVE. Na verdade, toda a responsabilidade na produção é da TV Globo. Eu era diretor educacional da TV Globo e me demiti porque não concordei com a linha que querem dar ao Sítio do Picapau Amarelo. Acho ótimo que se faça um programa nacional e não há nada melhor do que Monteiro Lobato. Mas resolveram trabalhar com bonecos americanos. o burro tem penas e é. bípede, um horror. Os bonecos não têm nada a ver com o Brasil, uma loucura. Para mim isso é uma nova Disneylândia. Monteiro Lobato vai virar Disneylândia. O grande problema é que Monteiro Lobato é muito terra. Não é Walt Disney, que tem o rato, o casal de patos, os sobrinhos e coisa e tal. Monteiro Lobato, é terra. Todos os preconceitos e estereotipias de Monteiro Lobato mostram ser ele um escritor muito forte, de raízes muito fortes. E isso abandonaram totalmente.

- Educacionalmente, o programa não existe. Era para atingir o pré-escolar, vem a TV Globo e resolve colocá-lo, num horário mais nobre. E, para as pessoas não acharem que o programa era para crianças, transformaram-no em programa educacional para jovens de até 17 anos. A atualização que a Globo fez de Lobato não tem nada a ver com o escritor. Transformaram o texto em novela de televisão: nas histórias, há sempre um suspense no começo, para manter audiência. Então, inventa-se uma história de urnas árabes, que não tem absolutamente nada a ver com Lobato: pessoas que estão atrás de uma urna misteriosa com um tesouro, três detetives que seguem, uma história assim, boas histórias de aventuras, mas Lobato é outra coisa.

- O programa está um ano atrasado. Era para ter estreado em março ou abril do ano passado, mas só irá ao ar em março/abril deste ano, entre as 17h e 18h, com 40 minutos de duração. É um projeto muito ambicioso e vai envolver televisão, revista, gibi, bonequinhos e joguinhos da Estrela. É um negócio de grandes proporções e a tendência é se transformar no Disney brasileiro.

- Acho o seguinte: o Governo depositar na TV Globo uma produção que deveria ser da TV Educativa é o maior absurdo do mundo. A TV Globo está interessada em ganhar dinheiro, vender e ganhar. Por mais que diga da bem-aventurança, da preocupação com as crianças pobres do Brasil, nunca a TV Globo vai fazer um programa educativo.






1988 - Vale Tudo pelo Ibope

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 31/12/1988






VALE TUDO PELAS SOBRAS DO IBOPE
Na hora da novela das oito, as concorrentes brigam pela cota que lhes cabe nesse minifúndio

O sucesso da novela Vale tudo, da Rede Globo, revelou uma nova heroína nacional, a desprezível Maria de Fátima - há pessoas que só saem de casa após saciarem a sua dependência novelesca - e colocou os programadores das demais emissoras de televisão, unia vez mais, diante de uma evidência que já dura quase duas décadas e de um problema quase insolúvel: como concorrer com o horário nobre da novela das oito da Globo, que se mantém há anos como campeã de audiência? Os responsáveis pela programação do SBT e da Rede Bandeirantes, em São Paulo, admitem sem rodeios que não têm meios de enfrentar a liderança da Globo no horário. Mas não se dão por vencidos: há sempre uma estratégia para disputar a sobra de audiência e conquistar alguns pontos no índice de aparelhos ligados.

"Não temos possibilidade de combater com um outro produto a novela das oito da TV Globo, que já se tomou uma tradição brasileira", confessa Luciano Callegari, diretor superintendente do SBT. "A nossa opção é jogar várias séries no ar no mesmo horário, para ganhar o público que não gosta de novela e esquentar o horário nobre do SBT, que começa após o fim da novela da Globo, que hoje é imbatível'', admite Callegari. Este ano, com a programação de seis enlatados no horário das 20h15 às 21h15 de segunda à sábado - Mike Hammer, Karatê Kid O'Har, Esquadrão classe A, Carro comando, Voyagers e Tarzan - o SBT obteve uma média de 10 pontos no Ibope contra os 64 pontos de Vale tudo no mesmo horário, mantendo a sua vice-liderança de audiência.

"Além dessa performance, a única forma de enfrentar o horário da novela da Globo é lançar uma novela própria do SBT", diz Callegari. "É o que vamos fazer em 1990, quando lançaremos três novelas simultâneas no mesmo horário das novelas da Rede Globo", anuncia o superintendente da emissora, lembrando que, em São Paulo, a audiência geral da Globo é de 35 pontos no Ibope contra 16 do SBT, numa disputa até certo ponto equilibrada. "No entanto, o faturamento da Globo é quatro vezes maior que o nosso, sendo que 60% desse faturamento é obtido só com o horário das novelas", aponta Callegari.

Para o diretor de programação da Rede Bandeirantes, Eduardo Lafond, o fato de a Rede Globo liderar a audiência com a novela das oito não quer dizer que a emissora ocupe todo o horário. "Sempre sobra uma audiência, que é dividida com outras emissoras", conforma-se Lafond. "A nossa preocupação nesse horário não é brigar com a Globo, mas ter um bom produto para disputar o restante da audiência e conquistar alguns pontos no índice de aparelhos desligados", afirma.




Na programação deste ano, EL exemplo do SBT, a Rede Bandeirantes colocou várias minisséries no ar no horário da novela e atualmente reprisa o seriado Dona Santa, com uma média de 3 pontos no Ibope. Mas o maior trunfo da Bandeirantes para 1989 é a reprise diária completa da série Dallas, Já exibida no ano passado, aos domingos, pela Globo. "Com Dallas, pretendemos atingir uma média de 7 a 8 pontos no, Ibope", aposta Lafond. "Isto porque a série é considerada unia novela, mas com um estilo diferente, com o charme e o formato de um filme." Esta será a primeira vez que a Bandeirantes colocará no ar um produto diário para brigar pela audiência no horário. E Lafond não está preocupado com o não ineditismo de Dallas. "Na Globo a série não passou com regularidade, era apenas aos domingos. Nós vamos exibir Dallas desde o início, e com capítulos inéditos, de segunda a sexta."




No Rio, a Rede Manchete e a TV Corcovado enfrentam a liderança imbatível da novela Vale tudo com a resignação do concorrente fraco e jamais abusado: "Nossa estratégia é consolidar um público diferente no horário. Nós evitamos a competição frontal e conseguimos bons resultados", explica o diretor geral da Manchete, Expedito Grossi. A tática da emissora, portanto, é jogar no ar, exatamente às 20h30, o Jornal da Manchete 1ª edição, para um público alienado, que não quer descobrir o assassino de Odete Roitman, a vilã da Globo vívida por Beatriz Segall. São 50% de homens e 50% de mulheres, da classe A e B, mais interessados nos assassinos do sindicalista Chico Mendes no Acre, que garantem a audiência média de 6 pontos do noticiário até às 21h30. "É um telespectador de qualidade para os anunciantes, porque são consumidores,de alto poder aquisitivo", destaca Grossi. Foi assim que o espaço publicitário do jornal se transformou no preço mais alto, da casa: Cz$ 800.000 por 30 segundos em rede nacional.

A TV Corcovado, a penúltima audiência carioca (só ganha da TV Rio), ligada informalmente à Rede SBT, do grupo Sílvio Santos, tenta atrair durante o horário mais nobre da Globo um público de interresses ainda mais específicos, como os fanáticos por hipismo que, às 20h30 de toda quarta-feira, se divertem com o Fórmula H. O diretor comercial da TV Corcovado, Amaury Worms, promete Incrementar a programação em 1989 com um novo programa de esporte amador às segundas-feiras, enquanto permanecem no ar as outras alternativas da semana: às terças-feiras Gente como a gente, sobre problemas dos municípios, às sextas-feiras, Recado, uma retrospectiva informativa da semana; e o programa político do ex-vereador Sidney Domingues, atualmente às segundas, ocupará o horário de quinta-feira de O Rio é nosso, um candidato a programa diário em 1989. A Corcovado já enfrenta a novela global de 19h com o Programa da noite (entrevistas feitas pela jornalista Léa Pentheado) e pretende combater em março o Jornal Nacional com um jornal local e outro de notícias exclusivas da Baixada Fluminense.

Daniel Barbará, diretor de mídia da agência paulista de publicidade DPZ, lembra que a Vale tudo, que tem uma média de 64% de audiência, não é a novela de maior audiência da história. da televisão brasileira. "Ela tem, na verdade, muito mais repercussão do que a sua audiência mostra", define Barbará, que confirma a estratégia das demais emissoras para enfrentar a liderança da novela. "O que as outras redes fazem é não programar nada de muito importante para o mesmo horário, que é preenchido com séries frias", diz. "Se a audiência está ligada na novela, a veiculação de produtos e anúncios não pode ser muito forte", justifica Barbará.

"Nas demais emissoras, este é um horário morto, onde o custo dos comerciais é mais barato, porque é proporcional à baixa audiência", explica o diretor de mídia da DPZ. "Enquanto, por exemplo, o custo de um comercial na novela da Globo é de Cz$ 14 milhões, nas outras emissoras, no mesmo horário, ele cai para Cz$ 2 milhões", revela. "Mas não podemos esquecer que, a partir do fim da novela, começa a programação nobre das demais redes, onde as agências programam mais seus anúncios", lembra Barbará. E aí a situação muda, como nas quintas-feiras, onde o programa A praça é nossa, às 21h30 no SBT, com média de 40 pontos no Ibope, lidera a audiência em São Paulo.




1977 - Trapalhões vão para a Globo

Revista Movimento
Data de Publicação: 24/1/1977
Autor: Maria Rita Kehl






OS TRAPALHÕES NO PLANETA DOS LOUCOS
O cômico Renato Aragão e seus companheiros Dedé Santana, Mussum e Zacarias passaram da Tupi para Globo, ganharam em técnica, cachê e Ibope. Mas nem por isso o público saiu ganhando em matéria de humor

Quando o cidadão cearense de Macejana, advogado do Banco do Nordeste, saiu escondido da família para prestar um concurso para realizador da TV Ceará - produzindo, dirigindo e redigindo alguns programas - provavelmente não esperava transformar-se num dos maiores cômicos do país.

Anos depois, apesar de praticamente dominar um programa de grande Ibope na TV Tupi, de ter feito 11 filmes que sempre tiveram as salas cheias, Renato Aragão ainda não havia perdido seu jeito de nordestino, seu humor de palhaço (embora ele mesmo negue a influência do circo em sua carreira) e sua figura extremamente acessível para o público. Pelo contrário, parece que é justamente o personagem Trapalhão, o sujeito irreverente que burla as conveniências sociais comentando "no Ceará não tem disso não", o cidadão mal sucedido que dá a volta por cima ridicularizando os próprios padrões de sucesso que, cultivado e aprimorado, é responsável pela popularidade do cômico Renato Aragão, que rendeu à Tupi um de seus poucos horários de grande audiência: o domingo à noite, onde Aragão e seus companheiros chegaram a passar na frente do Fantástico da Globo, na contagem dos pontos do Ibope.

Bobeou, a Tupi. Não tratou bem de sua estrela não quis ou não pode lhe pagar o que seu sucesso merecia, exigia dos Trapalhões às vezes tanto trabalho e em condições tão ruins que ele chegou a desmaiar duas vezes durante as gravações, conforme contou à revista Veja. Claro, esse ritmo pode ser exigido por qualquer emissora. Mas bobeou a Tupi, que se esqueceu de que onde existe monopólio nunca se está garantido, e aconteceu o óbvio: Renato Aragão e seus parceiros Mussum, Dedé e Zacarias se mandaram prá Rede Globo.

O público, aparentemente, nada perdeu. Vai ter seus Trapalhões semanais, passada a fase de "pré-teste", ainda com diversas melhorias que só a rede Globo oferece a você: filmagens externas (por enquanto, 70% do total!), câmara lenta, câmera rápida, repetecos sucessivos das cenas de maior impacto. Tantas novidades, que o próprio Aragão declarou a Visão de janeiro: "se não ficar engraçado, pelo menos haverá muita imagem prá ver"... E que deixam no chinelo os cenários improvisados de papelão e isopor do programa antigo.

No dia da estréia na Globo, a Tupi resolveu botar Aragão para competir consigo mesmo, repesando no mesmo horário "Os melhores momentos dos Trapalhões". Saiu perdendo, como era de se esperar, já que a maior parte do público prefere mesmo a novidade. A Seleção da Tupi teve a média de 2,3 pontos de Ibope ao longo das duas horas em que esteve no ar, contra 71 pontos obtidos pela Globo.






DE PAU-DE-ARARA A SHOW-MAN - Mas nada disso significa, necessariamente, que os Trapalhões mudaram prá melhor. Mudaram sim, ao que tudo indica, para um aproveitamento total da chamada "linguagem da televisão" - a utilização do máximo de possibilidades que o vídeo oferece, a exploração do visual, do tempo e do espaço com a maior agilidade e todos os recursos que a tecnologia eletrônica oferece. Prá isso é necessário material, é preciso dinheiro, e dinheiro que só a Globo tem.

Por outro lado, pelo que se deduz do primeiro programa, o público vai perder bastante do personagem Aragão em troca de um humorista mais versátil, estilo show-man. O Aragão da Tupi não variava muito, mas talvez aí estivesse sua força. Ele representava um tipo que permitia uma forte identificação por parte do público. Na Globo, parece que o humorista profissional Aragão se transformou numa figura múltipla, variando de papel de acordo com o esquete. E também subiu socialmente representando na maioria do tempo o sujeito de classe média cujos conflitos são mais pessoais do que sociais. O humor do absurdo, do non-sense, que às vezes pode ser bom, mas no caso, bastante redundante - substituindo o tipo de gozação da Tupi, que explorava, ainda que sem nenhuma intenção política as situações cotidianas do conflito de classes.

Na Globo, ele é o homem azarado por exemplo, que sempre atrai chuva para cima dele onde quer que esteja (recurso técnico perfeito), mas que não consegue água no chuveiro quando quer tomar banho. Ou é o sujeito que pediu a mão da noiva e recebeu só a mão, e aparece em sua casa convivendo com essa mão sem corpo com a qual se casou (mais técnica no capricho). Nessas cenas curtas a graça, quando existe, está na idéia, na concepção de uma situação absurda e não na exploração do lado cômico do comportamento humano.

Numa das cenas de "Os melhores momentos dos Trapalhões" (Tupi), por exemplo, Aragão é um nordestino que quer alugar apartamento pra se casar, em pouco tempo. Na imobiliária ele é mandado de uma mesa para outra, lhe exigem tanta papelada e ele tem que voltar tantas vezes no dia seguinte que quando consegue alugar o apartamento a noiva já se casou com outro. Se o desfecho da estória é velho e não tem muita graça, as situações na imobiliária são bem exploradas no sentido de contrapor a lógica, a linguagem e os valores do Trapalhão aos dos vendedores de imóveis formais e burocráticos. O confronto é aberto.

O Trapalhão sabe que vai ser enganado com o apartamento que lhe alugarem, interpreta e desmente os clichês dos anúncios imobiliários, mas também se vê atrapalhado com a linguagem da burocracia. Quando lhe pedem uma caução como garantia ele volta no dia seguinte com seu calção de banho, e depois comenta: "na minha terra dinheiro tem um monte de apelido - grana, tutu... - mas esse de calção eu nunca vi. "E muita gente da terra dele ou de outra, também nunca viu. A linguagem é outra.

Dá para notar também uma grande dose de improvisação por parte de Renato Aragão, no seu antigo programa. De repente, no meio de uma cena, os figurantes começam a rir, e fica na cara -ele soltou lá uma piada fora do script. Brinca inclusive com as situações criadas pela própria tevê: "Votes nunca trocam de roupa? Eu venho aqui todo o dia e vocês tão sempre com a mesma roupa"? O pessoal disfarça e morre de rir.

MUITA AÇÃO, POUCO HUMOR - No programa novo ele está mais ensaiado e as cenas mais complicadas, onde a câmara joga um papel mais ativo e a base está mais na movimentação do que no diálogo, não permitindo improviso. Ele é, por exemplo, o sósia do dono da casa que chegou para vender uma caneta e foi confundido com o aniversariamente. Na festa, o vendedor e o aniversariante, Aragão e Aragão, contracenam em situações típicas da comédia clássica americana onde se cria suspense em cima de um, mal entendido, provocando a partir daí uma trama de situações nem sempre cômicas, mas carregadas de tensões e confusão. Depois atravessa uma janela de vidro para fugir do verdadeiro marido/aniversariante (dá-lhe "slow-motion", "replay"! e foge pela rua - rua de verdade!) vestido só com um abajur. Se não tem graça, pelo menos tem ação, como ele próprio disse.




Se foi para seu próprio bem, como ele mesmo declara, que Renato Aragão e seus companheiros saíram da Tupi, seria bom para o público que ele tentasse reproduzir, no esquema Globo, algumas de suas características mais satíricas, de uma certa crítica ingênua e extremamente popular. E o caso, por exemplo, de um quadro relativamente antigo em que o pracinha-Trapalhão simplesmente cantava "Prá frente Brasil"... andando de costas.




1975 - Os Trapalhões na Tupi

Revista Amiga TV Tudo
Data de Publicação: 26/5/1975
Autor: Rogaciano de Freitas




TRAPALHÕES: UM SUCESSO QUE FAZ RIR
Eles já estão entre os campeões de audiência do Brasil

Renato Aragão, Dedé Santana, Muçum e Mauro Gonçalves se divertem trabalhando. Eles são Os Trapalhões, um dos programas de maior audiência da TV Tupi. Estão felizes com o sucesso que fazem, são amigos e procuram, ajudando uns aos outros, proporcionar o melhor em humor aos telespectadores. Para Renato Aragão, o sucesso de Os Trapalhões é atribuído "aos cuidados que tenho de produzir um programa limpo que pode ser visto por crianças e adultos. Semanalmente procuro diversificar a apresentação dos quadros, modificando as situações humorísticas. Além dos integrantes normais e Sílvia Massari, que apresenta o programa, canta, dança e participa de alguns quadros de humor, coloco sempre musicais com Vanderlei Cardoso, Jerry Adriani, Ronnie Von e outros cantores. Convido gente famosa, sem falar no balé de Aládia Centenaro, que considero um dos melhores." Muçum, também integrante do conjunto Os Originais do Samba, acha que "ser um dos "trapalhões" é muito divertido e bom para o conjunto." Para Mauro Gonçalves, o Zacarias, um dos pontos mais positivos de Os Trapalhões, "é nos colocar sempre em contato com a criançada. O interessante é que não acreditam que eu "encarne" o Zacarias, dada a diferença de um para outro".

Pa ra Dedé Santana, o importante é trabalhar ao lado de Renato Aragão. "Ele é mais um amigo sincero do que um colega de trabalho." Muito entusiasmada com o programa, Sílvia Massari acha que Os Trapalhões é tudo que ela sempre sonhou fazer em televisão: "É a primeira vez que me encontro porque minha participação é bastante eclética." Devido ao sucesso em Os Trapalhões todo o grupo é constantemente convidado para apresentações no país inteiro.




1971 - Desenhos-tampão já naquela época...

VEJA
Data de Publicação: 24/11/1971





REAÇÃO COM HUMOR
Em situação difícil no terreno das novelas - "Hospital" saiu do ar par falta de audiência e "A Fábrica" foi tão espichada, que caiu de 20 para 4 pontos no Ibope, a rede Tupi reage com humor. Desde a semana passada, transmite a série de desenho animado "A Pantera Cor-de-Rosa", dez minutos diários depois da novela das 8. E a partir desta segunda-feira as trapalhadas da panterinha americana se emendam com "Dom Camilo e os Cabeludos" (um capítulo diário de 45 minutos), baseada no último livro de Giovanni Guareschi.

A pantera chega depois de vários anos de êxito nos Estados Unidos, onde é transmitida pela NBC (National Broadcasting Corporation) e Dom Camilo, sucesso de cinema e TV na Itália, já é conhecido da TV brasileira: uma série antiga de suas aventuras esteve em cartaz durante dois anos na Tupi, em 1958. 



Além disso, a direção da Tupi se apóia no bom resultado de todos os programas humorísticos atualmente no ar - desde "Balança mas não Cai", "Faça Humor não Faça a Guerra", na Globo, incluindo "Bronco Total", com Golias, uma das maiores audiências da Record, que nas últimas semanas tem superado inclusive a "Discoteca do Chacrinha" nas quartas-feiras.

Horário nobre - Dom Camilo é um padre simples e impulsivo, sempre às voltas com o seu inimigo fraterno Peppone, prefeito comunista de uma cidadezinha do interior da Itália. Eles correram o mundo através dos filmes, que tinham Fernandel como Dom Camilo e Gino Cervi como Peppone, e das traduções feitas para 27 idiomas. A série lançada pela Tupi baseia-se em "Don Camilo e I Giovanni d'Oggi", publicado após a morte de Guareschi, em 1968. As brigas entre o pároco (Otelo Zeloni) e o líder comunista (Elias Gleizer) continuam, com um novo ingrediente: dois jovens transviados, uma sobrinha de Dom Camilo e o filho de Peppone.

A pantera também chegou ao público brasileiro através do cinema, na comédia de Blake Edwards "The Pink Panter", com Peter Sellers. Ela aparecia na apresentação do filme, brigando com os letreiros, e fez um sucesso tão grande, que seus criadores, David H. De Patie e Fritz Freleng, lançaram a série, com os dois personagens do filme - a pantera e o inspetor Clouseau. A Tupi comprou um lote de 64 desenhos da pantera e doze do inspetor, para o horário infantil. Os diretores da estação se empolgaram tanto com os desenhos, que resolveram testá-los no horário nobre. E, dando certo a experiência, reprisarão à noite a série de "O Gordo e o Magro", atualmente à tarde.




1971 - A Praça da Alegria

VEJA
Data de Publicação: 21/4/1971





A MESMA PRAÇA
"Uma boa fórmula para o humor é repetir o óbvio", disse certa vez o humorista americano Art Buchwald. No Brasil, a receita é sucesso desde o início do século, quando os teatros de revista da praça Tiradentes, no Rio, importaram-na de Paris. E, para confirmar a sua extraordinária capacidade de sobrevivência, a TV Record de São Paulo fez voltar aos vídeos da REI (Rede de Emissoras Independentes) a "Praça da Alegria", após sete meses de uma interrupção que seus produtores afirmavam definitiva. Mas esse propósito não pôde ser mantido: todas as semanas, a Record recebia dezenas de cartas de telespectadores, reclamando a falta do programa ("Não tenho mais programa humorístico sadio para assistir com meus filhos", afirmava um chefe de família mineiro). Esses comentários mudam agora radicalmente ("Ninguém segura a nova 'Praça'", escreve de São Bernardo do Campo uma senhora com 62 anos). E a própria Câmara Municipal de São Paulo, rompendo a aparência grave de sua função legislativa, escreveu a Manoel da Nóbrega, 58 anos, redator, produtor e diretor da "Praça" há catorze anos, comunicando que na sessão do dia 26 de março lavrou ata "com voto de júbilo e congratulações pela volta da 'Praça da Alegria' e seu humor sadio e fiel às nossas tradições". Afinal, nessa fidelidade ao gosto popular brasileiro é que parece estar o motivo do sucesso da "Praça".

Sem novidades - Programa sem muitas pretensões, que não exige do espectador nenhum esforço para entendê-lo, a "Praça" tem, inclusive, algumas semelhanças formais com o teatro de revista, que foi até a década de quarenta o mais popular espetáculo nos grandes centros urbanos do país: sentado num dos lados do cenário (dois bancos de jardim e- uma enorme tela onde há uma praça pintada), um homem gordo, careca e simpático (Manoel da Nóbrega) lê jornal e assiste impassível, ou participando com piadas rápidas, ao desfile de quadros humorísticos sem qualquer unidade entre si e à chegada de visitantes que se encontram acidentalmente. Os personagens também são os mesmos: o chato (Rony Rios) que para tudo pede explicação, o tímido (Durval de Souza) que foge das mulheres, a esposa deslumbrada (Consuelo Leandro) com o marido rico, o garoto (Simplício) que faz perguntas e conta histórias irreverentes, o mendigo (Borges de Barros) que diz ter chegado de Washington, onde deu fiança para o ministro Delfim Netto, entre outros. Com esses ingredientes a "Praça" está de volta há um mês e já alcança uma audiência tão surpreendente (acima de 20%) que a TV Record está relançando alguns dos programas que também tinham sido retirados do ar (exemplo: "É Proibido Colocar Cartazes", de Pagano Sobrinho), porque pretendia reformular a sua programação e evitar que a saturação do público com os velhos esquemas da TV brasileira influísse nos índices do Ibope. 






Com a cara larga, onde deixou crescer a barba branca, e a tranqüilidade que preserva inclusive nas situações cômicas, Manoel da Nóbrega explica com certo orgulho que a "Praça" voltou "porque o público exigiu e sentia falta de um programa que, embora antigo, não agride ninguém, não mostra feridas, não faz mundo cão e é quase infantil". Uma confissão verdadeira, mas capaz de confirmar que, para ter sucesso, os veículos de comunicação de massa só podem mesmo é trazer novidades em proporções limitadas.





1969 - Ibope, o espião eletrônico

Revista Realidade
Data de Publicação: 1/9/1969




IBOPE VERSUS TEVÊMETRO
Foi em 1935 que quatro americanos, entre eles George Horace Gallup, fundaram o Instituto Americano de Opinião Pública, com base em conhecimentos de estatística, psicologia e sociologia. Gallup dizia que era perfeitamente possível saber a opinião de toda uma comunidade sem entrevistar todos os seus membros. Afirmava que a teoria da probabilidade era aplicável aos cálculos estatísticos, refletindo a opinião media da população através de uma amostragem ponderada das preferências manifestadas.

Criado nos moldes do Instituto Gallup (como é popularmente chamado nos Estados Unidos o instituto Americano de Opinião Pública), o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatistica (IBOPE) adota os mesmos métodos de pesquisa.

O primeiro cuidado é a escolha dos representantes de cada grupo social, porque a opinião deles deve refletir a opinião média da população inteira. Esta escolha é feita ao acaso, exatamente para que não haja interferência na lei matemática das probabilidades. Em seguida, é preciso que o número de entrevistas seja significativo.

No Grande São Paulo, por exemplo, há cerca de 1,2 milhão de televisores. Doze mil entrevistas significariam 1% do total, o suficiente, dentro da técnica de amostragem, para uma boa previsão. Mas o IBOPE informa que entrevista cerca de 36 mil telespectadores semanalmente (3%) antes de declarar os tão temidos e respeitados índices de audiência.

Fundado em 1942, o IBOPE é uma organização particular que presta serviços de pesquisas comerciais, especialmente nos setores de opinião pública, mercado e veículos de propaganda (audiência de tevê, rádio, revistas e jornais). Como as pesquisas são sempre realizadas pela técnica da amostragem, utilizando relativamente poucas consultas, ninguém conhece muitas pessoas que já tenham sido entrevistadas.

Apontado como o grande ditador da televisão comercial, capaz de fazer e desfazer sucessos, riqueza, fracassos e pobreza, o IBOPE não patrocina, produz ou dirige qualquer programa, limitando-se a verificar os índices de audiência. Se os índices são usados para atrair patrocinadores, é por conta da estrutura comercial, não do IBOPE. Se funcionam como argumento junto às emissoras, é por conta das emissoras, não do IBOPE. Se são um incentivo à mediocridade, ao pauperismo mental, ao subdesenvolvimento, a responsabilidade é dos medíocres, dos pobres de espirito, dos subdesenvolvidos, tanto dos que exploram a passividade como dos que vêem televisão passivamente.

O problema é que, de vez em quando, certas pesquisas (mesmo feitas com toda correção), não revelam a verdade, por culpa dos pesquisados que respondem erradamente. Uma emissora de rádio que conseguiu o primeiro lugar de audiência em determinado horário estava fora do ar...

Em março do ano que vem, começa a funcionar o tevêmetro, um espião eletrônico, 40 centímetros de comprimento, 17 de largura e 20 de altura, exato e silencioso, ligado diretamente aos televisores escolhidos como base para a pesquisa (ainda segundo a técnica da amostragem). É um aparelho aperfeiçoado pelo publicitário brasileiro Hélio Silveira da Mota, que quer ter o registro eletrônico, em fita, de tudo o que foi sintonizado por centenas de aparelhos naquela semana. Essas fitas, analisadas por computadores, determinarão os índices (tal como o IBOPE), com a vantagem de estarem livres da falha humana..

A principal vantagem, segundo Silveira da Mota: ninguém pode dizer que viu o que não viu. E vice-versa.

De qualquer forma, dentro da atual estrutura comercial da tevê, os índices continuarão ditando ordens. Por exemplo: foram eles que fizeram de Ilia Kuriaki o mocinho principal, passando para trás o herói Napoleon Solo. É que, segundo os índices, as mulheres americanas preferiam, entre os agentes da UNCLE, o loiro alto e bonitão.




1992 - Jornal de Vanguarda

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 4/4/1992
Autor: Rose Esquenazi





HUMOR E OUSADIA NA VANGUARDA DA NOTÍCIA
Certa vez o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, resolveu entrevistar o colunista Jeff Thomas, uma figura folclórica da imprensa. "Você fala muito bem inglês". "Oh, yes", respondeu Jeff. "Você fala muito bem francês". "Três bien", exultou o colunista. "Quer dizer que você é um troglodita?", cutucou Sérgio Porto. "É claro", concluiu Jeff Thomas.

Este era o clima do Jornal de vanguarda, que misturava irreverência, bom humor e furos jornalísticos, de segunda a sexta, às 22h. Criado em 1962 na TV Excelsior, o "show de notícias", como era chamado, reunia uma equipe de primeiríssima qualidade. "Foi um jornal que modificou a estrutura do jornalismo da TV", explica seu criador, Fernando Barbosa Lima. Antes do Jornal de vanguarda todos os outros tinham o mesmo formato. O locutor lia as notícias, recortadas dos jornais e, como pano de fundo, tinha apenas uma cortina.

Fernando e sua equipe de talentosos profissionais da imprensa ousaram em todos os sentidos. Célio Moreira, por exemplo, o irmão mais novo de Cid Jornal Nacional Moreira, fazia o Sombra, um personagem que só dava notícias terrificantes, como a lista dos cassados. Célio, apelidado de "gogó de ouro", imitava as vozes das mais conceituadas figuras políticas, dando vida aos bonecos falantes desenhados por Borjalo. Certa vez recebeu um bilhete do então nomeado presidente Costa e Silva, com as seguintes palavras. "Célio, você está engrossando muito a minha voz". O locutor adorou. Na primeira oportunidade leu o bilhete engrossando a voz mais ainda.

"O Jornal de vanguarda teve duas fases. Uma, durante o governo Jango, quando tínhamos absoluta liberdade, e uma outra em que sofremos forte pressão da censura", conta Borjalo, que dirigiu na TV Globo o Jornal de verdade, filho do Vanguarda. Hoje Borjalo cuida da qualidade de todos os textos da emissora, mas houve um certo dia em foi obrigado a engatinhar pelo estúdio para salvar o programa. Quando Otto Lara Resende soube que o governo havia fechado o Congresso, ficou tão chocado que sofreu um branco diante das câmeras. O censor que circulava pelo estúdio considerou aquele silêncio uma provocação. Agarrando a perna de Otto, Borjalo ameaçou: "Ou você fala agora ou não fala nunca mais". E o jornalista falou.

DIRETOR LAMENTA A ATUAL FALTA DE CRIATIVIDADE - Newton Carlos sofria para fazer o noticiário internacional, já que a maior parte das notícias chegava muito atrasada. Além disso, quase todas as telefotos eram compradas pelo Repórter Esso, o maior concorrente do Jornal de vanguarda. "Não havia Embratel nem satélite. As câmeras eram de cinema, pesadíssimas, com microfone acoplado. Sem falar que era preciso revelar o negativo", conta Fernando Barbosa Lima, que preferia usar a criatividade na falta de recursos. Se havia uma briga no Congresso, a solução era colocar uma cena de luta livre. "Era muito mais divertido e mais inteligente dos que os jornais de hoje", compara Barbosa Lima, que atualmente dirige o Programa de domingo, da Manchete.


A atriz Odete Lara provocava os políticos, com um jeito sensual, como se tivesse acabado de sair da "alcova" de algum deles. Villas-Boas Corrêa, com suas inteligentes análises políticas, aumentava a ira da censura e foi diversas vezes ameaçado de prisão. Fernando Barbosa Lima cita uma dessas entrevistas em que a equipe misturou humor e irreverência. Na primeira vez que Jarbas Passarinho apareceu no Jornal de vanguarda, Sérgio Porto se escondeu atrás do estúdio e durante todo o tempo fez a sonoplastia, imitando um passarinho com perfeição.

Luiz Jatobá lia as notícias ao lado de Tarcísio Holanda e Fernando Garcia, que Stanislaw Ponte Preta adorava chamar de "catedral submersa", por causa de sua poderosa voz. O Jornal de vanguarda oferecia ainda Gilda Muller, a colunista que falava de mulher, João Saldanha, Reinaldo Jardim, Millôr Fernandes. Os jornalistas das redações colaboravam espontaneamente telefonando para o estúdio e passando as notícias mais quentes.

"Quando surgiu o AI-5 sentimos que o jornal ia ficar, a cada dia, pior. Reunidos no bar Imperator, em Copacabana, discutimos o fim do programa. E eu disse que cavalo de raça a gente mata com um tiro na cabeça", revela Fernando Barbosa Lima, que colocou no ar, no dia 1° de abril de 1964, a cena de um menino sendo assassinado na frente do Clube Militar, na Cinelândia, por um homem de bigodinho. Mesmo com toda a censura e toda pressão, Jornal de vanguarda ganhou o prêmio Ondas, de melhor telejornal do mundo.





1970 - Véu de Noiva e a Censura

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/3/1970
Autor: José Carlos Oliveira




PROIBIÇÃO 70
Andei investigando quem matou Luciano. Ora, por que me interessaria descobrir quem matou Luciano? - Já me explico.

Interessa-me a sorte de Renato. Estou convencido de que Renato é um santo, ou melhor - ou a mesma coisa - um idiota, no sentido dostoievskiano da palavra. Nele reaparece o Príncipe Mishkin. Bondade e sacrifício são as únicas obrigações que conhece. Moralmente mutilado, como um burro, uma criança ou um deus, obedece apenas ao que lhe sugere o Bem, não por escolha própria, e sim por ser congenitamente surdo à voz do Mal. Surdo e cego - incapacitado que nasceu igualmente, para contemplar o Mal quando projetado por outra pessoa. Ele simplesmente desconhece a contrapartida das virtudes teologais .

Pois bem: Renato está preso, e na iminência de ser julgado pelo assassinato de Luciano. Sei que ele não mataria uma simples mosca - embora, paradoxalmente, matar mosca seja uma ação praticada de preferência pelos homens bons... Pouco importa; o fato é que está preso, vai ser julgado e possivelmente confessará um homicídio que não cometeu, recebendo em troca um longo castigo, que não merece.

Que Renato seja condenado, admito, já que nasceu com a vocação do sofrimento; mas que isto resulte na prevalência do verdadeiro culpado... não! Mil vezes não! Como poderia eu dormir com a consciência tranqüila? Se Renato não matou Luciano, quem matou Luciano? Eis a razão da minha pesquisa: sou contra os soníferos, prefiro dormir em paz comigo mesmo.

Lamentavelmente, não vi os primeiros capítulos da novela Véu de Noiva, escrita por Janet Clair e apresentada de segunda a sábado na TV Globo. Sendo assim, nada tenho da vitima além deste nome: Luciano. E com o tempo venho colecionando as circunstâncias em que ocorreu o assassínio. Luciano era - seria? - amante de Andréia (Regina Duarte), mulher de Marcelo (Cláudio Marzo), e de Flor (Miriam Pérsia), que dele teve um filho póstumo. Enfim, Luciano era um craque - que Deus o tenha. Mas, em telenovela, sendo a vida um assunto local - o que deve fazer a felicidade da poeira em que se encontra hoje a aparência do velho Aristóteles; no que, aliás, estamos citando o Chaplin da fase derradeira. . . - bom, sendo então a vida um assunto local, outros conflitos interferem, para desgraça de Renato, e impunidade, ao menos até agora, do verdadeiro homicida. Tais conflitos sso, pela ordem - e nem todos serão - mencionados:

1. Renato é irmão de Cláudio Marzo - mas os pais, principalmente a mãe (Glauce Rocha) - o repudiaram em tempo hábil.

2. Renato foi perfilhado pelos pais de Andréia - o que tem por consequência uma curiosa relação incestuosa: é irmão do filho de seu pai e da filha de seu pai adotivo, filho e filha que por sua vez sso marido e mulher. . . O incesto, se me entendem, está na cabeça dos mal-pensantes, o que não deixa de ser salutar.

3. Quando a telenovela iniciava sua luta pelos pontos do IBOPE, Luciano (Geraldo del Rei) foi contratado pela TV Tupi. Nos bastidores, então, começou outra luta. Quem dá mais? A Globo ou a Tupi? Ganhou a TV Tupi.

Recapitulemos. Geraldo del Rei era uma figura de capital importância em Véu de Noiva, de Janet Clair. Mas, antes que as situações se delineassem, para compreensão dos espectadores, Glória Magadan conseguiu aliciar Geraldo del Rei para outra novela, em outro canal. Cuja novela tem um nome bastante sugestivo: E Nós... Aonde Vamos? E eis que Geraldo del Rei é assassinado no Canal Quatro, para reparecer, não apenas vivo, mas vivíssimo, no Canal Seis!

Respondam-me agora: quem matou Luciano? Janet Clair, para não prejudicar a continuidade de seu trabalho, ou Glória Magadan, para atrair, juntamente com o IBOPE, o falecido Geraldo del Rei?

Quanto a isto, sou indiferente; só não quero que Renato seja condenado. E para que tal injustiça não se cometa, dou o nome do assassino. Senhores jurados, só pode ter sido o Censor!

(Escândalo. O Acusador protesta. A Defesa se inflama. O Réu está perplexo. Mas não desliguem agora a televisão, que esta é uma novela de um só capitulo).

Senhores jurados: - diz a lógica dos fatos que o Censor matou Luciano. Muitos meses depois do assassinato de Luciano, e algumas semanas depois da estréia de E Nós... Aonde Vamos?, o Censor, o Indigitado Criminoso, reincidiu. Imaginem os senhores que foi lançada, aliás com grande e merecido estardalhaço, uma terceira novela, intitulada Pigmalião-70. E nessa novela há um personagem que, a fim de pagar dividas de jogo, torna-se ladrão da própria irmã! Até aqui, tudo me parece real. . . Mas o desfecho, ou anticlímax, dá vontade de chorar. Ouçam: o Censor impugnou a situação, a menos que, em quatro capítulos sucessivos, o irmão fosse punido pelo delito! Ouçam bem: quatro capítulos, e não três, nem 27, nem 432 mil!

Razão pela qual denuncio: quem matou Luciano foi o Censor. E se não foi, esperemos que seja castigado assim mesmo.


1969 - O Fim de Beto Rockefeller

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/11/1969






A NOVELA NÃO É MAIS A MESMA
Beto Rockefeller acabou ontem, em São Paulo; chega ao fim a primeira experiência brasileira da novela-verdade. Inovou, quase revolucionou, regenerou a telenovela que a crítica não poupava desde o estrondoso sucesso (na sua área intelectual) de Direito de Nascer. Com o Beto aconteceu o fenômeno que a Sociologia chama de permissão social, ou seja: quem assistia novelas às escondidas passou a ter o direito de proclamá-lo, de discutir em publico o tema que de repente se tornou inserido no contexto e, portanto, válido. Agora, sem correr o risco de se ver epitetado de pobre de espírito e alienado todo mundo pode ver novela. Mas a televisão no Brasil é eminentemente comercial e, a partir do momento em que se começa a falar muito de boa telenovela, os empresários se entusiasmam com os números mais ou menos misteriosos do IBOPE. Aí e que está o problema - a telenovela não acaba mais; os tantos capítulos previstos são aumentados n vezes. Como diz a atriz, Marília Pêra, "ninguém consegue mais levar aquilo a sério." Nem o autor, Bráulio Pedroso, que entrou em férias e deixou a responsabilidade de muitos capítulos a um substituto; nem o diretor, Lima Duarte, idem; nem o ator principal, Luís Gustavo, idem.

No entanto, um dia tem que acabar - e, finalmente, um ano, um mês e nove dias depois de iniciada, a história do mau-caráter Beto Rockefeller chega ao fim. Apesar dos senões, considera-se que foi uma boa experiência. Tanto que, de acordo com uma pesquisa especial JB/Marplan, 27% dos cariocas estão acompanhando a novela que aqui continua até janeiro ou fevereiro.

A INVASÃO VEIO DE CUBA

Talvez o maior responsável seja Felix Caignet, que escreveu em 1946, o dramalhão mais identificado pelo brasileiro com o estilo mexicano do que com o cubano que ele é. Mas quem lançou O Direito de Nascer na televisão, em dezembro de 1964, foi Válter Clark, então na TV Rio, hoje na Globo, como diretor-geral.E ele continua fiel à linha que lançou: ''A grande propaganda desenvolvida ao redor da propalada nova linha de telenovelas não tem maior consistência (embora sem negar o valor de Bráulio Pedroso). É, no entanto, preciso deixar bem claro que há fatores indispensáveis a uma telenovela, sem os quais não se consegue de fato atingir o público. Acredito que o dramalhão, a história essencialmente marcada pelo sofrimento, pela dor humana, seja condição indispensável à estruturação de uma novela. À medida que tais ingredientes sejam negligenciados, creio que o público será afastado pelo fato mesmo". 



Nélson Rodrigues (que escreveu A Morta Sem Espelho, sob o pseudônimo de Verônica Blake) já dizia que "a telenovela é feita à nossa imagem e semelhança e tem que ter o nosso mau gosto; o padrão tem que ser este mesmo que os intelectuais acham hediondo".Injustiça: não são apenas os intelectuais que acham hediondo o padrão lácrimo-alienado da televisão brasileira; quase todos os atores estão procurando lugar nessa canoa batizada Beto Rockefeller e que procura novos caminhos no oceano de mediocridade, no qual quase todos mergulham quando teatro indigente os afoga em problemas financeiros. São eles que dizem:"A TV é uma engrenagem monstruosa. Assim que puder escapar de la, volto ao teatro", (Sérgio Cardoso, criador de Antônio Maria, o ator mais bem pago da televisão nacional)."Sei que a TV vive dentro de um esquema comercial. O sujeito quer vender salsichas e você trabalha num espetáculo que tem público e as pessoas são convidadas a comprar salsichas", (Cláudio Marzo, o índio Robledo de A Rainha Louca, que já fez teatro sério — Os Pequenos Burgueses — enquanto o dinheiro deu).


''Não pretendo fazer carreira de ator, em caráter definitivo. Considero isso um simples episódio em minha vida", (Carlos Alberto, o Federico Aldama de Eu Compro Essa Mulher, professor formado nos Estados Unidos.)Não foi, porém, por força de qualquer posição revolucionária e de desprendimento intelectual que se resolveu lançar a experiência de Beto Rockefeller. O motivo foi absolutamente comercial (sem que se dê ao termo qualquer sentido pejorativo): a TV Tupi de São Paulo estava nos últimos lugares de audiência e precisava fazer alguma coisa para subir.O diretor-artístico Cassiano Gabus Mendes acreditou na palavra do padre Ozanã, diretor do Curso de Sociologia e Política da PUC (''Acho que programas como esses subestimam o povo; ele merece coisa muito melhor e tem capacidade para compreendê-la"), e partir para algo mais inteligente. Foi ele quem imaginou o personagem Beto Rockefeller, observando na boate de que é sócio, na Rua Augusta, o bicão, um tipo que a freqüentava assiduamente acompanhando grupos de pessoas mais ricas, embora fosse modesto comerciário.


— A personalidade de Beto enquadra-se no quadro genérico de personalidade psicopática. São aquelas personalidades anormais, que sofrem e fazem sofrer a sociedade — diz o neuropsiquiatra Washington Loyello, do Serviço Nacional de Doenças Mentais.


— Tais tipos são chamados desequilibrados psíquicos, caracteriopatas ou condutopatas. Beto se aproxima mais dos denominados psicopatas necessitados de estima, ou pseudólogos, aqueles que falseiam seus valores para o mundo exterior, seja por vaidade, por carência de afeto ou pela tendência a aparentar mais do que aquilo que realmente são. Sempre insatisfeitos, tentam subir demais e geralmente são desmascarados .Bráulio Pedroso, teatrólogo, ex-crítico literário, jovem, foi encarregado de desenvolver o tipo, em texto simples mas bem elaborado, que permitisse aos intérpretes a inclusão de cacos sem perda da linha original. Lima Duarte (que já dirigira O Direito de Nascer — ''só 26 capítulos; depois não agüentei mais") assumiu a direção, imprimindo à telenovela um ritmo ágil, alegre, quase de cinema, aproveitando-se das muitas cenas externas.





Veio o sucesso e o estica-estica, até que os dois cansaram, inclusive por causa da censura — afinal, não se podia permitir a apresentação daquele mau exemplo para a juventude, um personagem que vivia da mentira (aí a novela passou para aquele horário após o aviso: ''Senhores pais, já passa das tantas horas, etc").Com a palavra, novamente, o Dr. Loyello:— E' na juventude que o personagem Beto tem maior repercussão. A própria condição de insegurança, de busca de auto-afirmação, e a necessidade de estima, que são características da situação juvenil, despertam admiração pelas conquistas fáceis e sucessos momentâneos obtidos por Beto. 


Mesmo assim, ele será sempre um marginal. Beto não é um herói tradicional, porque mais cedo ou mais tarde a sociedade o irá desmascarar e afastar (como se vê no último capitulo da novela: o bem tem que vencer o mal). Tampouco é um anti-herói na verdadeira acepção do termo, porque não nega nem é indiferente aos valores da sociedade em que vive. Pelo contrário, quer penetrar nela e sair vencedor sem modificar-lhe as estruturas.


Então, qual é a vantagem de Beto Rockefeller? Meia hora depois de terminada a gravação do último capítulo, todo o elenco concluída que a realização marcou um ponto na história da televisão brasileira, porque elevou seu nível cultural.


Demonstrado que um bom programa também pode fazer sucesso — os índices de audiência fornecidos pelo IBOPE estiveram sempre entre o máximo de 39%, e o mínimo de 20%, no horário nobre, considerados muito bons numa cidade em que há seis emissoras de televisão — todos estão entusiasmados com a possibilidade de continuar realizando alguma coisa de mais interessante que a mediocridade reinante. 


O interesse puramente comercial transbordou até os artistas, os profissionais, que não podem largar a mina da televisão mas desejam fazer alguma coisa que lhes dê realização pessoal, em nível intelectual. O autor Bráulio Pedroso analisa sua criação:— A grande vantagem de Beto Rockefeller foi ter mostrado que as verdades não são tão verdades assim. Geralmente, os meios de comunicação de massa estabelecem alguns padrões como definitivos Assim, até o surgimento do Beto ninguém poderia admitir a existência do anti-herói e os personagens não podiam ser nem bons nem maus. O que Beto Rockefeller mostrou é que o público não quer apenas a suposta verdade dos velhos esquemas .


— Beto mostrava o comportamento das classes sociais com grande dose de realidade, na medida em que a maior parte de seus personagens existe, alguns mesmo com nomes iguais.E as andanças de Beto entre as classes sociais são a razão intrínseca do sucesso e da aceitação do personagem na classe média, segundo o sociólogo Carlos Alberto de Medina.


— O atrativo principal é a multiplicidade de papéis sociais que o personagem é chamado a desempenhar. Isso porque a classe média é sociologicamente indefinível, não tendo uma posição social fixa. Normalmente, o indivíduo da classe média se reveste de várias formas ou desempenha vários papéis, de acordo com o ambiente em que se encontra. Existe assim uma identificação entre Beto e o telespectador da classe média.Nas novelas convencionais, ao contrário, os personagens principais são tipos sociais fixos: o galã, o galã feio, o vilão, a mulher fatal, a ingênua, etc. As camadas mais baixas, financeira e intelectualmente aceitam essa rigidez porque não expressam, como as classes média e alta, um processo de mobilidade social.


''A novela — dramalhão — alienante causa impacto apenas epidérmico, as pessoas atingidas profundamente já são predispostas a isso pela própria natureza, de modo que qualquer outra coisa, por mais boba que seja, exerce nelas uma grande influência", acrescenta o já citado padre Ozanã a tese do professor Carlos Alberto de Medina. Continua o sociólogo:


— Beto Rockefeller demonstra ainda que a classe alta oferece uma possibilidade de abertura ao aventureiro decidido que nela queira penetrar. Os espectadores são levados a crer que o acesso às mulheres, ao dinheiro e ao sucesso social não é assim tão difícil. Neste ponto o encontro de Beto (Luís Gustavo) com Nélson Rockefeller (o Governador de Nova Iorque, que esteve no Brasil como emissário do Presidente Richard Nixon) teve uma importância fundamental para quem acompanhava a novela. Ficou provado, por meio desse símbolo, que o acesso às mais altas esferas é possível e pode passar da ficção à realidade .


(E o Departamento de Estado norte-americano, preocupado, mandou perguntar à Embaixada americana no Brasil se aquele encontro era uma gozação ou coisa parecida. Responderam que não; era só propaganda, a alma do negócio).Além dos aspectos intrínsecos, este fator á propaganda bem dirigida — justifica o sucesso de Beto Rockefeller. Através dela se conseguiu a dita permissão social para assistir à novela avançada, moderna, pra frente. ''Por si só — conclui o sociólogo Carlos Alberto de Medina — Beto Rockefeller não tinha condições de conquistar um público que não gostasse de novelas."

VERDADE E FANTASIA CUSTAM QUASE O MESMO

custo de produção de uma telenovela oscila entre NCr$ 600 mil e NCrS 800 mil; não há diferenças sensíveis entre um texto de época e um atual. A despesa maior é a do lançamento: publicidade, produção de cenários e figurinos, eventuais viagens do elenco para gravações externas.



Na contabilidade, a novela de texto moderno deveria ser mais cara. Nas novelas de época, os trajes são quase todos fornecidos pelo guarda-roupa da própria televisão. O público não é exigente quanto à ambientação em uma época que não conhece; por isso, os atores passam quase toda novela variando pouquíssimo as roupas. Também o cenário é fácil: um mesmo tapete na parede, aquela janela - está criado o palácio. No texto atual, não. O público sabe o que está vendo e exige fidelidade nos cenários, muito caros quando se trata de uma casa de gente rica. Também os figurinos são mais caros, pois o ator e a atriz não podem aparecer com a mesma roupa, que todo mundo repara. A solução, que impede o encarecimento, é a permuta de publicidade, o guarda-roupa e o mobiliário são cedidos por lojas comerciais, creditando-se as ofertas nos letreiros que antecedem cada capítulo. Quanto à sonoplastia, requer-se muito mais sentimento e sensibilidade do que conhecimentos profundos de música.


— O importante é saber escolher o tema que se coadune com os personagens e que se identifique com as imagens apresentadas — diz um sonoplasta da TV Globo.





A música é tão importante que, às vezes, o autor se inspira no tema para criar novos quadros e até capítulos. Geralmente a trilha sonora compõe-se de um tema composto especialmente para cada novela, de músicas que sublinhem o estado dos atores em determinado momento (suspense, tensão, medo, espanto), o que às vezes é conseguido com simples acordes, sempre escolhidos pelo sonoplasta.Nos textos de época a sonoplastia é mais difícil; não se pode colocar música de guitarra num castelo do século XVII.


A mecânica da telenovela baseia-se toda no trabalho de equipe. Escolhido o tema-base pela direção artística da emissora, a encomenda é feita aos escritores (entre outros, Dias Gomes, Janete Clair, Glória Magadan). Em seguida, diretor, autor, produtor, cenógrafo, figurinista e sonoplasta se reúnem para decidir os detalhes. O autor sugere muita coisa, mas a última palavra é sempre do diretor, que controla atores, figurantes, maquiladores, operadores de câmara, técnicos de vídeo-tape, eletricistas, carpinteiros, pintores.


Segundo a escritora Glória Magadan ( exilada cubana que vive no Brasil há cinco anos) , esta mecânica é a mesma para qualquer tipo de novela, seja de época ou moderna.— Em estrutura não existe diferença. Volto a repetir que o processo de construir um personagem — que tenha um denominador comum com gente que existe — é o mesmo. A imperatriz foi traída pelo marido, coitada; mas qualquer mulher moderna também vai sofrer com a traição do marido. A mecânica é a mesma, sempre, com exceção de Beto Rockefeller, que não segue os caminhos tradicionais, pois fotografa a realidade tal qual é. É um desses fenômenos que marcam fortemente, mas não conseguem ser imitados. E, muito especial.


Já a atriz Regina Duarte acha que Beto Rockefeller não é uma novela ''é uma crônica muito bem-feita".Talvez isso explique o sucesso da novela-verdade: não é novela, embora aparente por ser dividida em capítulos.

LUÍS GUSTAVO, O BETO

Luís Gustavo, casado, 35 anos, é o ator que criou o personagem Beto Rockefeller. Foi seu maior sucesso, mas — para ele — não seu papel mais importante.— Se me perguntam se este é o trabalho que mais me significou, digo que não. Acho que meu papel de Raskolnikoff no Crime e Castigo, de Dostoievsky, foi mais precioso, artisticamente falando. Beto me exige muito, à medida que é muito arisco, sempre por dentro, essencialmente móvel e dinâmico, traços que chegam a me cansar bastante.Beto Rockefeller já não entusiasma tanto Luís Gustavo — "não tem para mim sentido tão atual, pois comecei a gravá-la há mais de um ano; para falar a respeito preciso mesmo recorrer à memória.



"Luís Gustavo reconhece que desde então todo o cenário das telenovelas evoluiu, mas nem tanto quanto gostariam ele e seu grupo.


— O plano original era fazer o trabalho com base apenas em exteriores, de modo a reagir violentamente contra o esquema fechado que então predominava. Todavia, o fator tempo e o alto custo decorrente fizeram com que os interiores ganhassem relevo. Não havia condições para sermos tão fiéis a nossos objetivos quanto queríamos.No entanto, ele destaca coisas importantes que ficaram da experiência com a primeira novela-verdade:


— Muito importantes me parecem as tendências evidenciados pela ambientação das tomadas de cenas nos lugares da moda e pela utilização constante das músicas mais em voga no momento, o que sem dúvida muito contribui para atrair a juventude. Esse público jovem sente-se em foco e reage muito bem. As moça s deixam-se conquistar por Beto, cuja fundamental boa intenção é muito acatada; os rapazes sentem-se mais ou menos retratados, ao menos nos traços de Beto que constituem um arquétipo do jovem brasileiro dos grandes centros urbanos.Luís Gustavo, porém, não considera que este seja o único caminho para a telenovela, admitindo a permanência da linha melodramática.


— Acredito que as novelas de época, ou desengajadas nos pontos-de-vista tempo e espaço, continuarão a ter sentido, ao mesmo tempo em que a linha de Beto também será cada vez mais enriquecida por iniciativas semelhantes e ainda mais pra frente. É nesse sentido que Bráulio Pedroso está preparando o Super-Plá, novela na qual represento um personagem de histórias em quadrinhos, que fica superpoderoso quando toma determinado refrigerante fabricado pela namorada (sem ciclamato).

ÚLTIMO CAPÍTULO

E aqui está o último capitulo (o .. 298°) de Beto Rockefeller, cuja gravação demorou quase oito horas.Cena 1: Beto no escritório de Otávio. O pai de Lu estende-lhe um contrato de casamento com cláusula de separação de bens Beto espanta-se; imediatamente faz das "ótimas relações" entre seus pais o assunto da conversa. Otávio corta e pergunta se Pedro, o pai de Beto, sabe escrever.



— Quem, papai? Já escreveu dois livros de psicologia e muitos artigos para jornais e revistes — responde Beto com cinismo .— Eu pergunto porque vi uma carta escrita por seu pai — diz Otávio. 


— Émuito mal redigida, embora o conteúdo seja excelente.Beto se cala, olha para os lados, ten ta sair pela tangente: a carta é falsa. Otávio estoura:


— Beto, você é um moleque, mentiroso, sem-vergonha, de quem todos já estão cansados.— Ora, Otávio, você não precisava me insultar.


— Você está acima do insulto, Beto, você é o próprio insulto - reafirma Otávio com um sorriso no canto dos lábios.Beto pega o contrato de casamento, diz que vai fazer uma consulta a seu advogado, e sai.


Otávio telefona a Manuela contando a novidade: Beto é mentiroso, um duro que não tem onde cair morto. Manuela ri e, pouco depois, numa cena rápida, em conversa com Otavinho, filho de Otávio e recém-chegado de uma bolsa-de-estudos nos Estados Unidos, torna-se evidente que eles são amantes. Otávio perde Beto, um grande amigo, Manuela, amante potencial, e Neide, sua ex-amante, que fica com um jornalista carioca.Uma cena na sala de visitas, entre Beto e Lu. Ela está satisfeita em encontrá-lo; ele, não muito. Lu chora quando ouve Beto confessar que não a ama e que tudo era uma farsa, mas ainda tenta prendê-lo. Não adianta; Beto se despede e sai pela varanda. Carlucho torna-se namorado oficial de Lu.


Vitório e Cida, num diálogo, anunciam seu casamento. Foi ela quem entregou a Carlucho e este a Otávio, a carta de Pedro cheia de erros de português. Isso não importa para Vitório, que promete não dar muita importância às advertências que Cida he faz sobre o próprio temperamento; acha que assim mesmo serão felizes e que vale a pena tentar. Cida beija-o na boca; Vitório explode: "Gooool".


Beto tem um encontro com Renata, amiga de Lu, que já sabia de tudo, antes mesmo de surgir a carta. O diálogo mostra que Renata era a grande amiga de Beto. No sofá, ele deitado, ela sentada, a mala pronta para uma viagem, os dois se despedem rapidamente.Antes, ele já havia passado pela casa dos pais, mas não conta que pretende desaparecer de São Paulo sozinho A mãe percebe que talvez não o veja mais e ten ta mais um abraso, mais um beijo.Beto sai rapidamente e nem fica sabendo que Otávio e Maitê se reconciliaram para viver felizes por muitos e muitos anos.

NOVELAS EM CARTAZ NO RIO

Novela Canal Dia Hora
Antônio Maria (reapresentação) 6 segunda a sexta 11h30m
Rosa Rebelde (reapresentação) 4 segunda a sábado 13h30m Algemas de Ouro 13 segunda a sexta 18h
A Menina do Veleiro Azul 2 segunda a sexta 18h30m
Enquanto Houver Estrelas 6 segunda a sexta 18h30m
Nino, o Italianinho 6 segunda a sexta 19h
Vidas em Conflito 2 segunda a sexta 19h10m
A Cabana do Pai Tomás 4 segunda a sábado 19h10m
Dez Vidas 2 segunda a sexta 20h
Véu de Noiva 4 segunda a sábado 20h
Verão Vermelho 4 segunda a sábado 21h30m
Beto Rockefeller 6 segunda a sexta 22h

Monday, January 18, 2010

Jornal do Brasil 16/10/1993





ENTREVISTA COM PEDRO BIAL
O Leste Europeu entrou em convulsão, explodiu a guerra do Golfo, acabou a União Soviética e houve urna tentativa de golpe na Rússia de Boris Yeltsin. O mundo virou e mexeu e lá estava o jornalista da TV Globo, Pedro Bial. Correspondente internacional há 5 anos, Bial apareceu na TV brasileira documentando o curso da história e a Rússia passou a ter a sua cara para todo o Brasil. Aos 35 anos, o repórter viveu ali, ao vivo e a cores, os fatos mais importantes do final do século. Hoje ele ainda quer andar pela Europa, microfone na mão. Mais para a frente, Bial quer chegar a uma síntese de cinema e jornalismo: se embrenhar pelos documentários, sem a correria contra o relógio no passo a passo da história.

- A Rússia acabou atropelando sua vida de forma definitiva, e meio por acaso, não?

- Tenho uma história com Moscou cheia de coincidências. Cheguei à antiga União Soviética pela primeira vez em 18 de agosto de 91. Estava indo para a Sibéria fazer um documentário para ao Globo repórter e acordei no dia seguinte em pleno golpe. Mikhail Gorbachev havia desaparecido e nenhum jornalista podia mais entrar no país. Cobrir o golpe foi profissionalmente uma experiência feliz e pessoalmente intensa.

- Aí, no final do ano, estava você lá de volta, Foi o momento mais importante de sua carreira profissional?

- Voltei em dezembro, quando a União Soviética foi extinta e documentei um dos acontecimentos mais importantes da segunda metade do século XX. Ainda assim, não consigo destacar urna cobertura como a mais importante. Meu papel corno jornalista brasileiro na crise do Golfo, quando estive no acampamento da Mendes Júnior no Iraque, foi mais forte. Narrei o drama de pessoas do meu pais.

- Nas indas e vindas à Rússia, qual foi a maior dificuldade para retratar o curso da história?

- No golpe de 91 estava lá, mas não era credenciado e por isso não tinha acesso a certos lugares. Agora também foi complicado. Quando o estado de sítio foi declarado tudo se tornou mais difícil, não só pelas regras internas da segurança do governo paralelo, como também pelo cerco policial do governo Yeltsin. Tudo acontecia ao mesmo tempo e eu tinha que decidir a cada 15 minutos o que fazer. A maior dificuldade era tomar a decisão certa. Era só eu e um cinegrafista, enquanto a CNN, por exemplo, tinha 300 pessoas lá e a ABC gastou 20 mil dólares para pagar o excesso de peso do transporte de seu equipamento.

- A importância da televisão nessas hora é evidente. A TV te fascina?

A importância da televisão é enorme. O comando armado da rebelião em, Moscou não tomou a TV moscovita por cinco minutos, impedido pelas forças do ministério do interior. Se tivesse havido um pronunciamento em cadeia, a história poderia ser outra. Por outro ângulo, a CNN estabeleceu um novo parâmetro de jornalismo, não só para os profissionais de TV como também para a imprensa escrita. Adoro a televisão, mas é um desafio privilegiar imagens. Nessa prioridade da informação visual você corre o risco de sonegar ou desprezar informações que podem parecer não tão atraentes.

- Afinal, qual a cobertura que foi mais marcante?

- A visita ao acampamento da Mendes Júnior na crise do Golfo foi marcante. Era uma cidade brasileira, cercada de deserto e a única saída era uma estrada construída pelos próprios peões brasileiros. Me senti útil, num daqueles momentos em que a profissão se justifica.

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