Monday, November 1, 2010

2010 - Time Lapse da Redação de Zero Hora durante Eleições

Sunday, October 24, 2010

1971 = Incêndio na Globo

O Globo
1/11/1971
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CANAL 4 VOLTA COM TODOS OS PROGRAMAS


Às onze horas de sábado "Big Boy" chegou na TV GLOBO - onde os bombeiros ainda trabalhavam no rescaldo do incêndio da véspera - e comentou: "Nunca mais vou dizer que é uma brasa..."

A essa hora, muitos dos funcionários que tinham passado a noite no local começavam a ir para casa. Outros movimentavam-se para colocar no ar a estação, usando os geradores próprios, pois a energia elétrica ainda não fôra restabelecida.

A perícia estava examinando tudo e fotografando para estudos posteriores. Ficou constatado que não há qualquer perigo de desabamento. Por volta do meio-dia, a força foi religada e a TV GLOBO voltou ao ar. Transmitiu inicialmente um comunicado e um telejornal.

O palco, onde estava sendo feita a gravaçăo do programa Moacyr Franco Especial, quando começou o incêndio, ficou totalmente destruído. Na manhã de sábado os bombeiros ainda permaneciam no local, para a operação de rescaldo. De vez em quando aparecia um novo foco de incêndio e o trabalho dos bombeiros de localização desses focos era dificultado pelo grande volume de fumaça, que invadia tudo pelos corredores.

Não foi possível estimar de pronto os prejuízos em equipamentos. Mas se sabia, na manhã de sábado, que além dos cenários, também o guarda-roupa estava totalmente perdido.

Quanto a causa do incêndio, só a Perícia poderá dar a palavra final, após o exame das numerosas fotografias colhidas. Inicialmente, supunha-se que o incêndio tivesse sido causado por curto-circuito em uma das câmaras. Em seguida, surgiu outra hipótese: um curto nos exaustores do sistema de ar condicionado central.

O auditório, com capacidade para 300 pessoas, não voltará logo a ser usado. Vários teatros e cinemas puseram à disposiçăo da TV GLOBO suas salas, para transmissão de programas de auditório, O programa do Chacrinha, por exemplo, deverá ser feito em São Paulo e transmitido para o Rio.

As novelas e outros programas gravados vão ser examinados, pois não se sabe ainda se o calor afetou as fitas. A aparelhagem de vídeo-tape, bastante delicada, foi sem dúvida a mais atingida. A programação, no entanto, continuará sendo apresentada, transmitida por uma das mesas do segundo andar, que não foi atingida.

Em nota oficial, a TV GLOBO comunicou que os shows de auditórios serão transferidos e a emissora avisará as mudanças de local.

A nota oficial, divulgada sábado, foi a seguinte:

"A REDE GLOBO de Televisão informa ao público que o incêndio irrompido à noite passada em suas instalações não impediu que, num esforço conjunto de diretores e funcionários, a emissora reinicie suas transmissões normais. O incêndio declarou-se às 20h20m e destruindo o palco-auditório e equipamentos de estúdio de vídeo-tape, especialmente o destinado às transmissões à cores. Não houve vitimas. A REDE GLOBO de Televisão manifesta seus agradecimentos ao Governador Chagas Freitas, ao Corpo de Bombeiros e a toda população carioca. Informa também que toda a programação habitual será apresentada ao público e pede atenção para os comunicados referentes a realizaçăo de shows habitualmente apresentados no auditório, que terão que ser transferidos."

DIRETOR AGRADECE SOLIDARIEDADE

O Sr. Wálter Clark Bueno, diretor da Rede GLOBO de Televisão, fez o seguinte pronunciamento ao se reiniciarem as transmissões:

"A Rede GLOBO de Televisão agradece, ardentemente, ao Corpo de Bombeiros da Guanabara pela pronta e decisiva operação de combate ao incêndio ocorrido ontem à noite nas suas instalações, na Rua Von Martius. Não menos expressiva para nós, da Rede GLOBO, foi a solidariedade do povo carioca, manifestada por toda sorte de ajuda e oficialmente representada pelo Governador Chagas Freitas, que compareceu em pessoa à sede da Globo, no momento mais dramático do incêndio.

Nosso reconhecimento público também ao gesto da TV Tupi, incorporando-se à Equipe GLOBO, durante e depois do acidente.

Dependendo ainda do pronunciamento da Perícia, o fogo parece ter começado no setor de ar condicionado do Estúdio A, assumindo logo vulto impressionante, que, em pouco tempo, destruiu por completo o nosso palco-auditório. A operação, de que participaram os infatigáveis funcionários de toda a hierarquia da Rede GLOBO, durou cerca de oito horas e foi muito dificultada pelo excesso de fumaça que bloqueou inteiramente a penosa manobra dos bombeiros para chegar às nascentes do fogo. A fumaça e o calor danificaram sensivelmente as instalações da emissora, atingindo, inclusive, valioso equipamento eletrônico.

Com o testemunho de todos vocês, o incêndio nos atingiu na hora em que a Rede GLOBO de Televisão mais se empenha para oferecer um nível de qualidade técnica e artística à altura de nosso incomparável público, justamente às vésperas da grande realidade da tevê colorida. Tenham, porém, a certeza de que o incêndio de ontem não nos desanima do grande e honroso desafio que representa para nós a liderança. Pelo contrario, a Rede GLOBO, amparada na aplicação profissional de seus funcionários e estimulada pela confiança de seu público, venceu o "round" e continuou no ar com sua programação integral: "shows", novelas, filmes de longa metragem e telejornais, cumprindo, assim, mesmo na adversidade, a regra de ouro de sua vida que é recrear e informar o povo deste respeitável País.

Não nos esquecemos jamais de que há seguramente dois anos a GLOBO de São Paulo, que agora nos socorreu com sua imagem, sofria um incêndio de vulto aterrador e de cujas cinzas partiu a nossa equipe para o grande empreendimento na integração nacional através da imagem. Se agora estamos diante de novo desafio, é sinal de que dias muito melhores haveremos de construir sempre de mãos dadas com você."

1990 = MTV Brasil Saindo do Forno

Folha de S. Paulo
8/3/1990
Ângelo Marsia
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TV ABRIL ESTRÉIA CLIPS DA MTV ATÉ SETEMBRO




A TV Abril é a MTV no Brasil. A emissora brasileira anunciou ontem, oficialmente, que passará a transmitir - e a produzir - programaçăo com a marca da rede mundial Music Television. A meta é inaugurar as transmissőes entre 1.o de julho e 30 de setembro para a Grande Săo Paulo.

A MTV é uma divisão da Viacom International que lançou em 1981 um novo conceito: a TV do videoclip, que transmite prioritariamente música para um público jovem, entre 12 e 34 anos, além de informação ligada aos interesses dessa faixa. A Abril vai seguir a fórmula, com muito videoclip (50% estrangeiro, 50% nacional). Também vai transmitir programas como o noticiário Week in Rock, a comédia ''Saturday Night Live'' e o inédito ''Buzz'' - um show com os principais acontecimentos da semana. Todos serão adaptados e falados em português. Haverá ainda esportes como o surfe e o skate e destaque no jornalismo para temas como ecologia.

A meta inicial é a transmissão de 13 horas diárias (exceto às sextas e sábados, quando serão 16 horas). A emissora quer alcançar no ano que vem 20 horas diárias, para ir progressivamente chegando às 24 horas das demais emissoras no mundo.

O acordo operacional, cujos valores não foram revelados, envolve também a exportação de produtos locais. Roger Karman, vice-presidente corporativo da Abril, tem uma meta ambiciosa (''nossa música vai brilhar lá fora'') e dá um exemplo na área dos quadrinhos: ''A Abril já é a maior produtora de histórias Disney do mundo''. A vice-presidente de Novos Negócios da MTV, Sara Levinson, năo contesta: ''O lançamento da MTV no Brasil levará ao resto do mundo a música vibrante e a cultura brasileira.'' Além dela, veio para o lançamento a vice-presidente de Programaçăo Internacional Liz Nealon, que passará a vir mensalmente para auxiliar na implantação.

A TV Abril transmitirá a MTV pelo seu canal aberto UHF 32 (disponível para todos que tiverem antena receptora UHF e um aparelho de TV UHF-VHF, ou ainda um televisor convencional acoplado a um videocassete, já que estes sintonizam também o UHF). Ela espera, no início, 1 ou 2 pontos de audiTV ABRIL ESTRÉIA CLIPS DA MTV ATÉ SETEMBRO
A TV Abril é a MTV no Brasil. A emissora brasileira anunciou ontem, oficialmente, que passará a transmitir - e a produzir - programaçăo com a marca da rede mundial Music Television. A meta é inaugurar as transmissőes entre 1ş de julho e 30 de setembro para a grande Săo Paulo.

A MTV é uma divisăo da Viacom International que lançou em 1981 um novo conceito: a TV do videoclip, que transmite prioritariamente música para um público jovem, entre 12 e 34 anos, além de informaçăo ligada aos interesses dessa faixa. A Abril vai seguir a fórmula, com muito videoclip (50% estrangeiro, 50% nacional). Também vai transmitir programas como o noticiário - Week in Rock -, a comédia ''Saturday Night Live'' ou o inédito ''Buzz'', um show com os principais acontecimentos da semana. Todos serăo adaptados e falados em portuguęs. Haverá ainda esportes como o surfe e o skate e destaque no jornalismo para temas como ecologia.

A meta inicial é a transmissăo de 13 horas diárias (exceto ŕs sextas e sábados, quando serăo 16 horas). A emissora quer alcançar no ano que vem 20 horas diárias, para ir progressivamente chegando ŕs 24 horas das demais emissoras no mundo.

O acordo operacional, cujos valores năo foram revelados, envolve também a exportaçăo de produtos locais. Roger Karman, vice-presidente corporativo da Abril, tem uma meta ambiciosa (''nossa música vai brilhar lá fora'') e dá um exemplo na área dos quadrinhos: ''A Abril já é a maior produtora de histórias Disney do mundo''. A vice-presidente de Novos Negócios da MTV, Sara Levinson, năo contesta: ''O lançamento da MTV no Brasil levará ao resto do mundo a música vibrante e a cultura brasileira.'' Além dela, veio para o lançamento a vice-presidente de Programaçăo Internacional Liz Nealon, que passará a vir mensalmente para auxiliar na implantaçăo.

A TV Abril transmitirá a MTV pelo seu canal aberto UHF 32 (disponível para todos que tiverem antena receptora UHF e um aparelho de TV UHF-VHF, ou ainda um televisor convencional acoplado a um videocassete, já que todos sintonizam também UHF). Ela espera, no início, 1 ou 2 pontos de audiência em Săo Paulo (1 ponto são 40 mil lares) e estima que só na cidade existam mais de 1,5 milhão de receptores capazes de sintonizar em UHF.

EMISSORA QUER FORMAR REDE - Ainda não há datas, mas a MTV estará disponível também fora da Grande São Paulo. A TV Abril quer formar uma rede e tenta contratos de afiliaçăo no interior de São Paulo e nas capitais (as primeiras são Rio, Belo Horizonte e Brasília). A emissora também estuda o licenciamento de algumas horas de programaçăo para não afiliadas.

Além disso, seu sinal estará disponível para as cem mil antenas parabólicas já existentes no país através do satélite Brasilsat 2.

1981 = Novo Jornal Bandeirantes

Jornal do Brasil
26/4/1981
Maria Helena Dutra
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DAS INEVITÁVEIS COMPARAÇÕES


Está mais para Itararé. A anunciada batalha e confronto sangrento entre as hostes da Globo e da Bandeirantes no campo do jornalismo ainda năo aconteceu e acredito muito pouco que realmente se travará algum dia. Porque este campo especifico da televisăo brasileira é muito mais para escaramuças do que guerras de verdade. Isso porque apenas uma reduzida elite liga o veículo ou muda de canal à procura de informações, e o Jornal Nacional só é há anos campeăo de audiência no Canal 4 por estar estrategicamente situado no meio das duas novelas mais nobres da casa.

A bem da verdade mais absoluta, apenas estas e mais os programas popularescos, sensacionalistas ou doses cavalares de filmes têm feito alterar os quadros normalmente monolíticos de uma audiência totalmente dominada em todo o país pela Rede Globo. Mas a precavida estaçăo, mesmo sabendo disso, andou reformulando sua linha jornalística admitindo que um bom serviço nesse setor, embora năo renda grandes audiências, confere prestigio e adesăo das faixas mais aquisitivas da naçăo. Por, que apenas a entrada pouco mais forte da Bandeirantes no ramo já causou um certo tititi entre os notáveis que fazem algumas cabeças.

E, justiça se faça, está bom o Jornal da Bandeirantes em seu comprido horário das sete meia às oito da noite. Mil furos acima de seus pequenos bolentins  'Atenção' e da apenas esforçada 'Primeira Ediçăo'. É verdade que luta contra as desvantagens de ter numericamente pequena equipe de repórteres e editores e equipamentos técnicos precários. Entăo se torna muito difícil a este noticioso furar concorrentes até impressos ou dar informaçőes de primeira măo. Acredito que o milagre só uma vez aconteceu e foi no atentado ao Presidente Reagan. Mas compensa estas deficiências - que esperamos sejam brevemente sanadas na forma de maior investimento no setor pelos donos da estaçăo - com análises e criticas às noticias. Coisa que muito raramente acontecia em qualquer canal. Márcio Guedes e Newton Carlos săo especialistas mesmo em seus campos, esporte e noticiário internacional, e analistas concisos e bastante confiáveis. No setor de política ainda năo conseguiram encontrar um profissional que alie, como os outros, bastante conhecimento com os requisitos objetivos da televisăo. O locutor principal, Ferreira Martins, é bastante seguro mesmo nos longos minutos em que suas informaçőes năo têm apoio de qualquer imagem. Falha que muito se repete por lá como também é lacuna a falta de noticiário e análise sobre eventos culturais. Qualquer jogo de futebol ou cricket recebe honras de horário nobre, mas os artistas que năo matam companheiros, ou mulheres ou vizinhos, se restringindo a escrever livros, debates idéias ou transformá-las em música, apenas surgem na parte da tarde. Mostrar e criticar esta parte importante de nosso cotidiano seria um ponto a mais da estação na sua procura de repercussăo.

Alguma ela já tem conseguido pela sorte de ter como centro do seu jornal ou sua âncora o excelente Joelmir Betting. Há muito tempo reconhecido como o melhor analista econômico da televisăo pelas suas participaçőes anteriores nos noticiosos da casa. Agora elevado a comentarista geral continua com a mesma forma irônica, idioma impecável, conhecimento lúcido de todos os assuntos e capaz sempre de dizer a coisa certa no tempo adequado. Sendo especialista é lógico que seja mais forte em seu setor, mas tem sempre a coragem de estabelecer relaçőes e prever conseqüências de todos os fatos. Suas conclusões, por exemplo, sobre os aumentos alucinados do álcool como combustível automotivo, foram perfeitas por somar as razões com coerência, explicar as culpas e tudo realizar em linguagem totalmente acessível a qualquer cidadão brasileiro, mesmo não alfabetizado sobre economia.

Enquanto a Bandeirantes vai, portanto, bem nas escaramuças, a sua concorrente Global tem altos e baixos no seu campo de ação. Mudou alguma coisa, para melhor e para pior, mas na essência permanece fazendo um telejornalismo de muita cautela política, preocupaçăo marcante com o visual e de otimismo raramente crítico. Enfim, continua a mesma apesar de algumas modificações de mesas. Mas é impossível não constatar que se agilizou bem mais. O Hoje, por exemplo, que igualmente aos outros noticiosos da casa era furado pelos jornais do dia anterior, em 81 está em bem melhor forma. Deixou de ser ontem, para ser de manhã e dar aspectos novos das histórias já focalizadas. A outra reformulação, colocar na mesma mesa seus apresentadores Berto Filho, Leda Nagle e Lígia Maria é que até agora năo funcionou como fator de descontraçăo. Segundo os padrões da casa, é compulsório olhar a câmara de frente, por isso o trio fica como três fregueses de pub que só dão atençăo ao homem do bar e jamais encaram os companheiros.

Até agora sozinho (dizem que em breve terá a companhia de mesa de Sérgio Chapelin) Cid Moreira não tem ainda este problema. Mas o bom locutor, coitado, foi colocado numa mesa que é um espanto ou, como dizem agora, uma bobagem. Parece coisa de deuses astronautas ou uma visăo espacial das construçőes egípcias. Mas o monstrengo atrapalha menos do que a terrível parcialidade do Jornal Nacional para as coisas e graças do governo. Não tem ministro ou autoridade bancária que não ganhe tapes, repórteres de barbas ou moças bem vestidas e ar de simpatia do Cid.

Mas a oposição só recebe o mesmo tratamento quando é chefiada pretensamente por Ivete Vargas e Jânio Quadros. Líderes sindicais, políticos fora do PTB, críticos avulsos, só merecem bonecos quando têm acesso ao diálogo. No mais são esquecidos ou viram notícias rápidas sem imagens. Importante mesmo continua o otimismo nacional: noventa por cento das notícias dão conta de soluções para tudo, a euforia do apresentador com o constante aumento do rateio da loteria esportiva e o sangue e a dor internacional. Pena isto continuar a acontecer com estação tão bem equipada e de profissionais rigorosamente competentes. Conforme demonstram na cobertura, completa e detalhada, do caso Ronald Biggs, inclusive com o brilho técnico do telefonema internacional dele para seu filho. Imaginem que coisas não poderiam fazer se tratassem o povo brasileiro com o mesmo carinho dispensado ao famoso ladrão.

O mesmo estilo é seguido na segunda edição do Jornal Nacional, uma redução infeliz do anterior Jornal da Globo que, ao menos, informava melhor e mais as pessoas que só à noite têm tempo para a televisão. Um horário em que a preocupação obsessiva da estação com a audiência abrangente, justa por sinal, poderia ser trocada pela caça ao prestígio maior e menos visual. Mas preferiram fazer isto apenas uma vez por semana, segunda-feira, com o Globo Revista. Até agora ainda muito amarrado às regras da casa e a um ancoreiro, Ennio Pesce, bem aquém da expectativa. O esquema do programa é bom mas,à exceçăo de Paulo Francis e José Augusto Ribeiro, ainda não foi totalmente dominado pelos apresentadores. De qualquer forma, um avanço analítico em uma estação que antes tinha horror a isso.

1976 = Bolshoi Censurado no Brasil

Jornal do Brasil
29/3/1976
Paulo Maia
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CENSURA NĂO É CULTURA
O lastimável episódio da proibiçăo da transmissăo do balé Romeu e Julieta, dançado pelo grupo do Teatro Bolshoi, de Moscou, para todo o Brasil, pela Rede Globo de televisăo, só serve para reafirmar um velho teorema: a arbitrariedade năo tem limites no seu senso de ridículo e se deixa expor com a mais espantosa facilidade. Poder-se-ia até dizer: "O que é bom para 111 países nem sempre é bom para o Brasil''. Pelo menos; o que é útil para 111 países ditos civilizados năo é cultura para os zelosos censores do Ministério da Justiça da República Federativa do Brasil.

Nas lendas vivas que correm na boca da populaçăo, consta que essa mesma instituiçăo já foi responsável por atitudes surrealistas como apreensăo de livros como a Enciclopédia Barsa, porque continha a barbuda efígie de Fidel Castro ou a colorida boina de Che Guevara. Pode ser levada pela conta do exagero num país de exageros ou nas sobras da exceçăo (comum demais num regime de exceçăo) a automática ligaçăo do romance O Vermelho e o Negro, de Stendhal, com o vermelho da bandeira da Uniăo Soviética, primeira naçăo a adotar o marxismo como filosofia de constituiçăo do Estado. A proibiçăo do Balé Bolshoi entra nessa relaçăo de absurdos como uma confirmaçăo da regra, uma prova insofismável de que essas lendas vivas estăo mais vivas do que săo lendas.

O Balé Bolshoi, sabem os menos incultos, é uma respeitável e secular instituiçăo internacional de dança. É tăo marxista como o seria Leon Tolstoi, e o germe da subversăo comunista está tăo presente nos compassos de sua dança como poderia estar vivo nas barbas do Czar Nicolau II. Sem medo de exagero, pode-se garantir que ele é tăo soviético como Shakespeare é inglęs. Quer dizer: trata-se de um patrimônio cultural da Humanidade que nem pode ser aprisionado pelo realismo socialista lucakseano nem vai deixar de falar a linguagem universal da dança por vontade de uma política, seja a nossa tropical, seja a temperada nas estepes da Uniăo Soviética.

Ao programar o espetáculo internacional gerado em Moscou para o domingo, ŕs 22 horas, a Rede Globo e, principalmente, a televisăo brasileira deram mostras de bom senso e maturidade até surpreendentes no momento atual. A descoberta de que televisăo também é cultura năo vai mal em qualquer momento. A constataçăo de que erudiçăo pode ser vendida como um produto sofisticado e caro no sistema televisivo de imagem e som só pode ser aplaudida e considerada.

A proibiçăo da transmissăo para o Brasil redime (ou pelo menos justifica) a televisăo da culpa de muitos erros entre os que ela vem cometendo nesse quarto de século em que precariamente está instalada aqui no lado Sul do Hemisfério, no chamado país do carnaval. A censura está chamando a si a responsabilidade cada vez maior pela violęncia das ruas, aprendida nos coloridos enlatados norte-americanos trazidos da Califórnia, pela fragilidade intelectual de uma populaçăo que se imbeciliza em doses diárias no doce veneno da telenovela e sobretudo pela debilidade mental galopante que ameaça tomar conta da Naçăo inteira, como um cavalo de Tróia penetrando numa cidade sitiada.

Năo vale a pena chorar um vale de lágrimas porque a televisăo năo pôde sequer comunicar que năo levaria ao ar o programa porque ele havia sido censurado. Nada é mais arbitrário do que a própria arbitrariedade e ela năo conhece regras, nem códigos de ética. Caso conhecesse, năo seria suficientemente arbitrária. A televisăo é uma concessăo precária e, como tal, é obrigada e treinada para ser paciente, covarde e passiva, oferecer sempre a outra face, quando atingida, para simplesmente năo morrer. A censura, logicamente, năo quer correr o risco de se assumir, preferindo utilizar aqueles métodos de Stalin quando expurgou a elite do regime soviético, nas décadas de 20 e 30, ao obrigar que a televisăo confesse um erro quando tinha cometido um raro acerto. Ao imputar o erro que cometeu 'a televisăo, a censura está sendo lógica em seu próprio absurdo: afinal, a arbitrariedade é elemento vital em suas veias e a violęncia năo seria completa se fosse autocrítica.

Tuesday, September 21, 2010

1989 - Estreia de Leda Nagle na Manchete e Origem do "Com Certeza"

1983 - Sandra Bréa na Bandeirantes

Jornal do Brasil
3/4/1983
Alberto Beuttenmuller
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SABOR DE MEL 
Sandra Bréa, Raul Cortez, Carmen Silva, Eva Todor, Zaíra Bueno e até o costureiro Clodovil - grande arrecadador de Ibope - fazem parte do elenco milionário contratado pela Rede Bandeirantes para Sabor de Mel, estréia de amanhă ŕs 20h. Os dois artistas principais - Sandra e Raul - assinaram contrato de Cr$ 2 milhőes mensais para trabalhar nessa novela com que a emissora paulista pretende desbancar a Globo no nobre horário das oito, aproveitando o vácuo deixado pelo fim prematuro de Sol de Verăo e sua substituiçăo por uma reprise.



''Laura, esfinge do Morumbi, tem um enigma para lhe propor. Se adivinhar, ganhará Cr$ 50 milhőes. Venha e encontre sua sorte e seu verdadeiro caminho. Mas com uma ressalva: posso revelar a resposta ŕquele ou ŕquela que tiver o olhar do tempo, portanto o da verdade. Tel: 211.3011". Este é o anúncio que Laura (Sandra Bréa) coloca na imprensa, propondo um enigma a todos que quiserem aventurar-se a entrar no jogo. Na novela Sabor de Mel a situaçăo năo é diferente: a Bandeirantes pretende oferecer uma quantia ainda năo determinada para quem desvendar o enigma de Laura, misterioso personagem de Jorge Andrade.

O autor de ''Sabor de Mel diz que Laura propőe uma charada partindo de seu próprio mistério: "É preciso descobrir o segredo de Laura para desvendar o enigma proposto no anúncio e, assim, ganhar o pręmio. É uma novela que se tem de acompanhar desde o inicio; caso contrário será difícil. desvendar o enigma de Laura."

Édipo desvendou o enigma da esfinge de Gizeh: qual o animal que nasce de quatro, vive com dois e morre de tręs". A resposta é o homem, que ao nascer engatinha, depois cresce andando sobre duas pernas e na velhice anda de bengala. O enigma de Laura começa assim: "Năo existiu, mas aprisionou e torturou..." Só no sábado, dia 9, o enigma será proposto aos telespectadores e aos próprios personagens da novela, dando assim um, clima de romance policial a Sabor de Mel.

- Tudo nasceu de um anúncio que eu li num jornal paulista - conta Jorge Andrade. Dizia: "As bonecas Laura e Evita convidam vocęs para virem ao apartamento e vocęs jamais esquecerăo". Curioso, ele ligou para o número publicado: tratava-se de oferta de prazeres sexuais em grupo. Assim nasceu Laura, no texto de Jorge, e o anúncio serviu-lhe para compor o enigma que causará, segundo ele mesmo, "um mistério jamais visto nas novelas de TV". Além disso, pela primeira vez o Departamento de Marketing estará trabalhando junto com o autor, criando uma campanha que, por ser inusitada, deverá dar bom, Ibope, segundo o diretor da Divisăo de Comunicaçăo da Bandeirantes, Geraldo Tassinari.

Atraídos pelos Cr$ 50 milhőes, reúnem-se em torno de Laura personagens dos mais diferentes tipos e classes sociais: é Albertina (Karin Rodrigues), mulher divorciada de um portuguęs que vę no dinheiro a possibilidade de ir a Portugal seqüestrar a filha que ficou com o pai; é Pedro (Gianfrancesco Guarnieri), operário aposentado, que luta contra a família para tentar o desafio e acaba se apaixonando por Laura; săo os tręs universitários do Instituto de Física da Universidade de Săo Paulo que se apresentam por desejarem uma bolsa de pós-graduaçăo no exterior.

Laura, no centro da trama, é uma mulher fina e elegante, proprietária de uma metalúrgica herdada.do marido Samuel (Odilon Wagner) que se suicidou cinco anos antes para evitar a falęncia de sua empresa. Rica (propiciando cenários luxuosos, bem ao gosto de Jorge de Andrade, também autor de Ninho da Serpente) propőe: "Se vocę năo descobriu seu próprio enigma, como quer descobrir o meu?"

Alberto (Raul Cortez) é o diretor executivo da metalúrgica. Apaixonado por Laura há anos, ele se torna a alma da empresa para se aproximar mais dela. Mas năo consegue conquistá-la, nem decifrar alguns de seus enigmas. Quem é realmente Laura? Aonde ela vai? Por que esconde certas facetas de sua vida? Por que, jovem e bonita, recusa todos os homens?

Clodovil Hernandes fará seu próprio papel ele é o costureiro de Laura, além de seu amigo e confidente - e sua biografia é a única coisa năo-ficçăo na novela de Jorge Andrade."Se ele deixar, eu desvendo o seu enigma" - diz Jorge referindo-se ao costureiro famoso. Na verdade, Jorge acredita que Clodovil repete a história de Cinderela, pois "nasceu numa pobreza da mais miserável, saiu daquele buraco infecto onde passou a infância, chegando hoje ao topo do sucesso". Sabor de Mel deverá ter 120 capítulos, se depender do autor: "Năo acredito muito em textos com mais de 120 capítulos, mas tudo dependerá da emissora".

Uma história de suspense com momentos hilariantes, na definiçăo de Jorge de Andrade, Sabor de Mel tem a direçăo de Roberto Talma, que, assim como muitos atores da novela, foram capturados ŕ Globo pela Bandeirantes nesta guerra de audięncia. Com o mesmo objetivo, a emissora está oferecendo pręmio aos telespectadores que decifrarem o enigma de Laura, ao final da novela.

ENIGMÁTICA, COMO A ESFINGE

Toda de branco, contrastando com os cabelos negros, cortados ŕ moda egípcia Sandra Bréa está completamente envolvida com seu novo personagem, Laura, ''uma mulher forte, marcante, determinada feliniana, frágil só diante dos homens''. Para a atriz, 32 anos, esse é o melhor papel que já lhe foi dado em seus 15 anos de carreira.

- Lembra um pouco a Telma, de O Bem Amado, forte, enigmática, mas sem o elemento lúdico que existe em Laura - diz.

Sandra Bréa vę também, em Sabor de Mel, a oportunidade de contracenar, pela primeira vez, com Raul Cortez: "só me interessa trabalhar com atores melhores que eu, pois a minha escola vem deles", diz. E considera positiva a mudanças para a Bandeirantes, depois de 13 anos Globo fazendo de tudo - musicais, velas, apresentaçăo de programas, humor.

- Encontrei um bom ambiente de trabalho, inclusive o Roberto Talma, dirigindo novelas. As mudanças săo pequenas e boas - diz.

Essa atriz, que na juventude queria ser médica, faz questăo de declarar que Jardel. Filho, recentemente falecido, foi definitivo para a sua carreira. Jardel foi seu padrasto quando ela era criança e vendo-o no palco apaixonou-se pela profissăo. O ator disse-lhe entăo que ''teatro era uma brincadeira, como uma casa de bonecas''. Coincidęncia ou năo, foi na peça Casa de Bonecas, de Ibsen, que Sandra estreou no teatro, aos 17 anos.

Sua măe, Aurora, trabalhava como comissária, de bordo, no tempo dos velhos aviőes Constellation. Seu pai, Joseph Brito Filho, é um aviador norte-americano. Sandra nasceu em um aviăo americano em espaço aéreo brasileiro - "é por isso que vivo no ar" - e tem dupla nacionalidade. Declara-se sem enigmas em sua vida particular e disponível, no momento, para viver intensamente o de Laura, ponto crucial de toda a trama do texto de Jorge Andrade, autor a quem a atriz dedica especial carinho, pois foi com ele que fez um de seus melhores trabalhos, em Ossos do Barăo.

UM EXECUTIVO APAIXONADO.

Raul Cortez se prepara para deixar o palco teatral onde faz temporada com a peça Amadeus, de Peter Shaffer, em cartaz há um ano e tręs meses - trocando-o pelo vídeo em Sabor de Mel. Segundo o ator, é impossível conciliar o personagem desgastante do compositor Salieri, de Amadeus, com Alberto, o moderno executivo da novela da Bandeirantes.

Voltando com alegria ŕ televisăo - para ele, um divertimento - Cortez acha, entanto, que no teatro é que o ator se encontra e onde tem possibilidade de posicionar-se por inteiro.

- Tive, no passado, preconceito contra telenovelas, mas agora sinto que representar é minha profissăo e tenho de aproveitar o mercado existente - declara.

Preconceito ou năo, Raul Cortez é um veterano no gęnero. Nos idos de 1966, participou das primeiras novelas da extinta TV Excelsior. Mas foi na Globo e com Roberto Talma, diretor de Sabor de Mel, que fez seus melhores trabalhos em TV: em Água Viva, de Gilberto Braga, e em Baila Comigo, de Manoel Carlos. Como Alberto, na nova novela da Bandeirantes, o ator quer dar a seu melhor desempenho.

Sinto muita lealdade em Alberto. Apesar de ninguém ter dito nada, sinto que é uma pessoa do nosso tempo, um executivo de boa capacidade profissional. Neurótico pelo trabalho, como qualquer paulista profissional e sóbrio, Alberto pode ser de uma frieza cortante, mas também tem seus momentos de rara emotividade. Possui também o seu enigma - uma filha de um casamento mal-sucedido busca em Laura a mulher de sua vida, ainda que esta pouco ou nada lhe deixe de esperança - diz.

Satisfeito com sua opçăo pela Bandeirantes, Raul Cortez acha que a emissora está certa ao contratar grandes atores e diretores, com altos salários, formando unia equipe competente. "Estamos sentindo que há mudanças na Bandeirantes. E para melhor", afirma.

PRINCIPAIS PERSONAGENS

- Rebeca - (Françoise Fourton) - filha de Alberto, jovem de 18 anos, alegre, moderna e sem preconceitos

- Albertina (Karin Rodrigues) - 42 anos, dona de uma loja de artigos para homens, em Săo Paulo. Sua obsessăo é seqüestrar a filha, que vive há 10 anos em Portugal com seu ex-marido.

- Beatriz (Júlia Lemmertz) - filha de Albertina, 18 anos, estuda Direito. Na casa de Laura conhece Sérgio, por quem se apaixona.

- Sérgio, William e Paulo (Carlo Briani, Taumaturgo Ferreira e Giuseppe Oristânio) - recém-formados em Física, tęm o sonho de fazer o curso de pós-graduaçăo nós Estados Unidos.

- Jojô (Carmem Silva) - uma senhora de 70 anos com mentalidade de jovem. Alegre, comunicativa, moderna, se entende ŕs mil maravilhas com os personagens jovens da novela, atacando os mais velhos.

- Marta (Eva Todor) - filha de Jojô. viúva de 45 anos, trabalha muito, numa agęncia de Turismo e vendendo jóias, para sustentar as filhas. Quer desvendar o enigma para poder conhecer o mundo.

- Teresa (Cláudia Alencar) - filha de Marta, 23 anos, dentista, decide morar sozinha, chocando sua măe.

- Flávia (Zaíra Bueno) - filha de Marta, 21 anos, estudante de Direito.

- Ângela (Cristina Prochaska) - filha de Marta, 19 anos, romântica e sonhadora, pretende fazer a Faculdade de Letras.

- Pedro (Gianfrancesco Guarieri) - 48 anos, metalúrgico aposentado que só quer aproveitar bem o resto da vida, passada em sua, maior parte na fábrica. Encantador, vibrante, é o rei da Boca do Lixo de Săo Paulo.

- Guilherme (Flávio Galvăo), - filho de Pedro e Isolina, 30 anos, é o metalúrgico mais atraente da fábrica. Honesto e competente no trabalho, depois que viu Laura nunca mais se aproximou de nenhuma outra mulher.

- Isolina (Célia Helena) - mulher de Pedro, cinco anos mais velha do que ele. Pudica em excesso, é o espelho do fracasso como mulher e amante, para desgosto do marido, que a despreza.

- Terezinha (Mayara Magri) - filia de Pedro e Isolina, 18 anos, trabalha nos escritórios da metalúrgica e sonha ascender socialmente. - Humberto (Luiz Serra) - 36 anos viúvo, técnico em computaçăo: acha. que com auxílio das máquinas vai conseguir a soluçăo do enigma.

- Valquíria. (Maria Helena Imbassahy) - solteirona, irmă de Humberto, tem por ele verdadeiro amor materno, com grande dose de ciúme.

- Luba Assunçăo (Mila Moreira) - 25 anos, modelo de alta costura, desfila para Clodovil Hernandez. Sonha ter sua própria butique.

- Samuel (Odilon Wagner) - marido de Laura, falecido há cinco anos, aparece sempre em flashback.

Clodovil Hernandes - o figurinista interpreta a si mesmo, em determinada fase de sua vida. Aparece como grande amigo e confidente de Laura.

1983 - O Povo na TV

O Estado de S. Paulo
1/1/1983
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A PARTICIPAÇĂO PLANEJADA
"O programa ajuda a pessoa, é uma utilidade pública, mas apenas para uma ou outra pessoa e năo muitos".

A colocaçăo de Carla, de 15 anos, moradora de Nova Cachoeirinha, define, com sabedoria, a natureza do programa "O Povo na TV", levado ao ar pela TV-S. de segunda a sexta, de uma as seis da tarde, em oito Estados brasileiros.

Da mesma forma que Carla, milhares de telespectadores assistem ao desenrolar dos quadros, que tratam desde a perda de animais de estimaçăo, parentes, até mortes e violęncias.

Como confessa um assíduo espectador, "é um programa de muita utilidade, porque traz para fora muita coisa que está no fundo da terra. Se năo houvesse este programa, năo tínhamos a quem reclamar".

'O POVO NA TV'

"A televisăo estava alienada da vontade do povo, mas agora está voltando para servir ao povo".

"O 'Povo na TV" é a procuradoria geral do povo".

Através de expressőes como estas, o programa procura autodefinir-se, sugerindo até ser o responsável pelo acesso ŕ TV daqueles que até agora foram impedidos de nela participar.

Como é possível constatar, a populaçăo responde a esses apelos: diariamente săo milhares as pessoas que se acotovelam nas imediaçőes do estúdio, na tentativa de levar ao programa seus dilemas: desde a ausęncia absoluta dos direitos mínimos até conflitos familiares afetivos e sociais, em geral.

Além disso, também é grande o número de pessoas que procura o programa em busca das curas milagrosas do professor Lengruber, ou simplesmente em busca de participaçăo no auditório.

Entretanto, como esta alta demanda de causas populares é tratada pelo programa, pelos apresentadores, pela produçăo?

REIVINDICAÇŐES

Quando os casos caracterizam-se por reivindicaçőes, geralmente já levadas ao poder público inutilmente, os apresentadores acionam as mesmas autoridades procurando soluçăo.

As instituiçőes manifestam-se publicamente e comprometem-se a atender ŕs solicitaçőes, justificando a inoperância anterior como um pequeno desajuste do sistema. Com isso, o programa tenta, reiteradamente, recuperar o crédito ŕs instituiçőes, já desmoralizadas diante da populaçăo. Os erros săo atribuídos a indivíduos "incompetentes" ou "preguiçosos", nunca ao caráter verdadeiro e classista das instituiçőes.

Assim, o programa tenta ser uma ponte de conciliaçăo entre o "povo" e as autoridades. Os antagonismos de classe săo camuflados e substituídos por uma falsa fraternidade, denominada pelo programa como "legiăo de amigos".

OS AMIGOS

Entre os mais ilustres amigos do programa, estăo o presidente Figueiredo, a Rota, a presidente da LBA, o delegado do Deops paulista, os ministros e autoridades em geral, até as pessoas mais simples, trabalhadores e outros.

Os momentos iniciais da apresentaçăo săo coroados pela "Cançăo da Fraternidade", como tentativa de irmanar a todos. Wilton Franco, o apresentador principal, comanda a música e todos cantam de măos dadas, enquanto o apresentador expressa votos de esperança aos desvalidos e agradece ao presidente pelo direito de expressăo, concedido por sua benevolęncia.

A aproximaçăo do programa com o poder é tăo flagrante que săo rotineiros os elogios ao PDS, os ataques ŕs oposiçőes e a disposiçăo das autoridades em comparecer ao programa.

O PROGRAMA E A POLÍCIA

Wagner Montes, o "chicote do povo", é o responsável pela apresentaçăo dos casos relacionados com a "justiça". Pessoas simples levam ao programa os mais variados dramas, envolvendo brigas familiares, roubos, violęncias cometidas por vizinhos, desconhecidos e pela polícia.

Assumindo o papel de juiz das causas, Wagner Montes chega ao ponto de sugerir a morte para aqueles que julga criminosos irrecuperáveis, e de convocar a Rota para agir mais rigorosamente no combate aos crimes. Săo também constantes as manifestaçőes silenciosas em apoio ao esquadrăo da morte, quando, por exemplo, o seu símbolo é localizado pelas câmeras.

Ao som de um rugido de metralhadoras, o apresentador apropria se de valores caros ŕs classes populares como a honestidade, a solidariedade, a justiça, para transformá-los em artifícios emocionais e distorcę-los com argumentos em favor de puniçőes drásticas para os "criminosos" Em nenhum momento, o programa contempla as razőes mais profundas da violęncia.

Quando a violęncia parte da polícia, o programa tenta resgatar a imagem da instituiçăo, transferindo os erros aos indivíduos. As autoridades superiores săo chamadas para manifestar sua discordância com tais atos e prometem providęncias imediatas. O programa, como se vę, poupa a instituiçăo maiores críticas e evita desmascaramento do seu caráter ostensivamente repressivo.

O PROGRAMA E A RELIGIĂO

Se por um lado, "O Povo na TV" utiliza um discurso muito próximo ŕquele utilizado pelas CEBs, ele é acompanhado por uma prática que o nega, como por exemplo, no que se refere ao direito dos pobres.

Na sua intençăo de dar voz aos pobres, as CEBs priorizam o coletivo e a organizaçăo das classes trabalhadoras, enquanto o programa destitui a reivindicaçăo do seu caráter coletivo e transforma-a em concessăo ao indivíduo isoladamente.

A linguagem do programa é penetrada pela religiosidade popular, que se manifesta através de provérbios, citaçőes bíblicas, apelos a outras crenças, além dos quadros destinados ŕ devoçăo e fé do povo, como a hora da Ave-Maria, e as curas do professor Lengruber.

O programa recupera a visăo de que a ordem natural e social decorrem da vontade divina e só por ela podem ser modificadas. Assim, perante as dificuldades, só resta rezar a Deus.

Ao contrário desta prática, as CEBs buscam atingir uma nova linguagem, intrinsecamente libertadora e reveladora do real, que possibilite a conscientizaçăo do povo enquanto agente de mudança social.

O programa capta a importância e a relaçăo que as classes populares mantęm com os "santos", para reforçar a idolatria e adoraçăo das imagens.

No momento da reza, uma imagem de Nossa Senhora é colocada no palco para ser beijada e consagrada com flores, ao som da Ave-Maria e das reflexőes do apresentador, Wilton Franco tenta impor uma relaçăo de mediaçăo entre o povo e o sagrado, procurando impedir que as pessoas relacionem com o seu cotidiano.

Săo também constantes as criticas ŕ igreja mais progressista, responsável, segundo programa, pelo abandono das pessoas ŕ igreja".

PARTICIPAÇĂO PLANEJADA

Tais pressupostos, combinados com uma visăo dos direitos dos pobres, permite compreender o caráter estratégico do "Povo na TV" no atual momento político brasileiro.

Justamente no momento em que toda sociedade se organiza e reivindica um espaço maior de expressăo e participaçăo nas decisőes do poder e nos meios de divulgaçăo, surge um programa autodenominando-se "porta-voz do povo".

Exatamente quando se cristaliza a necessidade de solidariedade da grande maioria, como caminho fundamental para a construçăo de uma nova sociedade surge o programa.

Baseando-se na retorica da defesa dos direitos humanos coletivos, o programa continua a perseguir o cumprimento dos direitos individuais, tentando, assim, dissolver a força do coletivo.

Ao tentar constituir-se como ponte entre o poder e a populaçăo, o programa está, na verdade, dissimulando a compreensăo da desigualdade social, que produz os conflitos levados ao palco. Suas soluçőes (obtidas através de um perfeito entendimento com o poder) săo individuais quando os problemas săo coletivos; sua resposta aos dramas familiares é o julgamento moral e condenaçăo de pessoas; sua receita para a violęncia é a puniçăo drástica para os envolvidos.

A articulaçăo das lutas comunitárias para a conquista de uma sociedade mais justa, é uma questăo intocada pelo programa.

"O Povo na TV" coloca-se como espaço aberto para a antecipaçăo (para isso faz uso do esquema de auditório, de grande peso popular), mas faz deste espaço a tradicional prática assistencialista e paternalista, fundada numa fraternidade que esconde os antagonismos de classe.

A RECEPÇĂO POPULAR

No entanto, tal projeto de manipulaçăo popular, năo pode ser entendido de forma absoluta. Se o poder pode controlar a emissăo das mensagens, ele năo pode controlar a sua recepçăo. Neste sentido, o "Povo na TV", como qualquer outro programa, apresenta contradiçőes.

Observa-se, em cada programa, por exemplo, a evidente inoperância das instituiçőes, o descrédito e a revolta do povo em relaçăo ŕ forma como elas estăo constituídas.

Nos freqüentes apelos do programa ŕ "legiăo de amigos", vemos que se exploram determinados valores eminentemente populares, como a solidariedade. As pessoas se mobilizam motivadas por um valor que lhes pertence e năo por desejo do programa. O apelo ao espírito comunitário traz em si um potencial organizativo, cuja liberaçăo pode ocorrer a qualquer momento.

Embora o programa use todos os seus recursos para minimizar as reivindicaçőes coletivas, os grupos que dele participam usam o programa para expor suas queixas e fazer suas críticas, e assim manifesta o seu descontentamento.

Os limites deste projetos de manipulaçăo dos anseios populares no entanto, săo muito claros: apesar do majestoso planejamento de uma famosa agęncia de propaganda e da presença de Sérgio Malandro e Wagner Montes (apresentadores do programa), no comício do presidente Figueiredo, no dia 8 de novembro, no Rio de Janeiro, as cem mil pessoas presentes năo deixaram por menos - manifestaram-se com estrondosas vaias.



1976 - Dias Gomes

Jornal do Brasil
6/9/1976
Lena Farias
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UMA EXPLOSĂO CRIATIVA OU PLAGIÁRIA?
"Saramandaia" no ar

Primeira pergunta: o personagem Joăo Gibăo, com suas asas de escândalo e esta dúvida de ele ser anjo ou demônio - isto é criaçăo de Dias Gomes ou de Garcia Marquez, no conto Um Homem, muito Velho com Suas Asas Enormes?

Segunda: aquela Dona Redonda, explodindo de tăo gorda em cima do povo de uma cidade - isto aconteceu na Saramandaia de Dias Gomes ou na Cajazeiras reinventada por Zé do Norte (o músico premiado de Muié Rendęra; em 1973, ele entregou seus originais de O Lobisomem de Cajazeiras numa emissora de TV, e nunca mais conseguiu encontrá-los - a năo ser em certas situaçőes que a novela Saramandaia está mostrando)?

Terceira: após a explosăo de Dona Redonda, ficou um cheiro de rosas. Autoria de Dias Gomes ou ainda Garcia Marquez, em O Mar do Tempo Perdido? Quarta: o linguajar do Odorico Bem Amado, sucesso das telenovelas de anos atrás, é muito diferente do usado pelo mesmo personagem em 1960, ano em que ele foi criado para o teatro. O Odorico da novela e sua engraçada fala regionalista é criaçăo de Dias Gomes ou de José Candido de Carvalho que, em 1964, publicou O Coronel e o Lobisomem?

Um acusador de Dias Gomes diz: "O Brasil é um pais engraçado, onde o sujeito anoitece burro e acorda gęnio".

Dias Gomes: "Sabe de urna coisa? A televisăo tem o estranho poder de ativar neuroses. A novela faz sucesso e logo aparecem acusaçőes assim".

Voz calma, pausada, gestos contidos, é mesmo Dias Gomes quem dá o tom da entrevista. Mais um encontro que uma entrevista, ŕ noite, no casarăo de uma ladeira que desemboca na Lagoa Rodrigo de Freitas. -"Prefiro falar da minha viagem (dia 9) aos Estados Unidos. É mais importante para mim, que esses assuntos que trouxeram vocę aqui."

É' natural que seja. Seria para qualquer autor, de qualquer parte do mundo: uma vez por ano, a Pennsylvania State University convida um escritor, um dramaturgo de qualquer parte do mundo, cuja obra seja de reconhecida importância universal para, durante 10 semanas, ele realizar um seminário, dar aulas. Seminário cujo tema é a própria obra do artista convidado.

Seria o Teatro de Dias Gomes, que o próprio dramaturgo conseguiu transformar em Dias Gomes e o Teatro Brasileiro, com a intençăo de abrir uma panoramica sobre o assunto e se deter na obra de outros autores brasileiros. Como fim de curso, a sua peça O Berço do Herói, censurada e proibida nos palcos brasileiros, fará a estréia mundial na Pensilvânia, em montagem profissional.

E a televisăo, Dias Gomes? E os problemas de acusaçăo de plágio que vocę vem sofrendo desde a época de O Bem-Amado, e agora mais intensa com Saramandaia?

Dias Gomes exibe urna expressăo cansada ("estou, inclusive fisicamente, cansado, escrevendo tręs capítulos de Saramandaia por dia. Tenho que deixar a novela pronta antes de ir para os Estados Unidos, quinta-feira que vem"). "Sempre que a gente escreve uma novela de sucesso - e Saramandaia é sucesso absoluto - aparecem, pelo menos, uns 30 doidos alegando autoria".

"O Brasil é um país realmente engraçado", diz o jornalista Carlos Silva, estudioso da obra de José Candido de Carvalho, especialista em falares regionais. "O único pais onde, segundo conhecido humorista, o sujeito anoitece burro e acorda gęnio. O caso do Sr Dias Gomes é típico. De engenhoso autor de novelas, passou, nos últimos tempos, a ser considerado um inovador de linguagem nacional, uma ediçăo melhorada e ampliada do saudoso Guimarăes Rosa. E o pior é que o Sr. Dias Gomes acredita piamente nisso. E tanto acredita, que ao expelir a sua conhecida novela O Bem-Amado (1973) deu entrevista a Artur da Távola, dizendo que o linguajar do prefeito Odorico era uma pesquisa sua levada a efeito no Sul da Bahia. Acontece que essa é precisamente uma regiăo trabalhada ficcionalmente por dois grandes romancistas baianos, Jorge Amado e Adonias Filho. E nem Jorge Amado nem Adonias, em nenhum dos seus admiráveis livros, usou em nenhum momento, esse pretenso dizer baiano. E năo usaram, pelo simples motivo de năo existir no Sul da Bahia nem no Sul de coisa alguma um falar corno o de Odorico. Que só existe no livro O Coronel e o Lobisomem, do fluminense José Candido de Carvalho".

Dias Gomes nega que, em qualquer momento, tenha feito tal declaraçăo.

"Eu nunca disse que a linguagem de O Bem-Amado ou de Saramandaia eram faladas em qualquer parte do Brasil, ou, especificamente, no Sul da Bahia. Eu é que estou sempre encontrando pessoas que dizem: "Sabe que vocę fez um trabalho felicíssimo, captou muito bem aquela linguagem do interior. Conheço gente que fala exatamente como o Odorico. E eu respondo que é apenas uma questăo de coincidęncia, que a linguagem de Odorico, o Bem-Amacio, como de Saramandaia é invençăo minha, mesclada com termos do linguajar popular".

"Antes de fazer a novela (Saramandaia era uma peça de teatro que eu estava começando a escrever e se chamava Subitamente os Homens Voaram. Comecei logo depois da interdiçăo do Roque Santeiro)". Dias Gomes esteve no interior de Pernambuco fazendo uma pesquisa. "Tive por cicerone um autęntico senhor de engenho, que se expressava de maneira muito peculiar. Ouvi dele, por exemplo, um verbo inusitado: espingardar.

- Eu uma vez espingardei um cabra safado...

Foi o mote para neologismos corno pistolar, que usei e uso".

Carlos Silva diz, porém, que na primeira versăo de O Bem-Amado, aparecida em 1960, "antes do surgimento da grande mina, O Coronel e o Lobisomem, que o Sr Dias explora até hoje", Odorico falava diferente, sem. invençőes, portuguęs sem distorçőes''.

Citando exemplos:

"Odorico: Diz muito bem D Cotinha Monçăo, dedicada professora do nosso Grupo Escolar; é incrível que esta cidade, orgulho do nosso Estado pela beleza de sua paisagem, por seu clima privilegiado, por sua água radioativa, pelo seu azeite de dendę, que é o melhor do mundo, até hoje năo tenha onde enterrar seus mortos... (Teatro de Dias Gomes, Ed. Civilizaçăo Brasileira, 1972)".

Odorico, o personagem, falava em sono eterno, seio da terra, e haveremos de tę-lo, sem-vergonhice (e năo sem-vergonhista), bem, eu entendi premiá-lo pelo seu trabalho na minha campanha.

"Como se vę", prossegue Carlos Silva, "a linguagem do Sr Dias Gomes era comum, lisa, sem atrativos, quase de relatório. Anos depois com O Coronel e o Lobisomem nas măos, Dias Gomes mudou de tom. Deu para falar em sem-vergonhistas , ladronismo, donzelas militantes, moças de sofá e saleta, finalmęncias. Era um Dias Gomes novo em folha, cheio de novidades, inventivo como ele só. É que o novelista, sem dúvida engenhoso, havia descoberto a mina, na literatura de José Candido de Carvalho. Dessa leitura nasceu um Dias Gomes diferente, que passa, agora, por um inovador da língua portuguesa, fazendo conferęncias sobre o que ele chama de linguagem nova. Rateando um livro que tem hoje mais de 50 ediçőes, além de traduçőes em línguas estrangeiras, o Sr Dias Gomes quer passar um vasto atestado de incultura neste país".

Saramandaia, para Carlos Silva, nada mais é que uma continuaçăo de O Bem-Amado, com todos aqueles achados que fizeram de O Coronel e o Lobisomem um clássico da literatura no Brasil.

"É incrível como um livro tăo popular seja copiado impunemente por novelistas que só săo importantes porque pirateiam a obra alheia. Esses bucaneiros precisam ser contidos através de medidas de proteçăo ao autor nacional. Se em Odorico já havia uma indisfarçável extraçăo de linguagem, em Saramandaia vemos todos os personagens falando do Coronel. Sem a graça do Coronel. Ainda assim, Ponciano de Azeredo Furtado poderia entrar em cena sem se sentir de todo deslocado. Tudo é legitimamente seu e semvergonhistamente copiado pelo Sr Dias Gomes."

Nelson Werneck Sodré, escritor e crítico literário nega esses argumentos:

"A questăo me parece inteiramente descolocada. O Guimarăes Rosa é, aliás, um exemplo raríssimo de fusăo do ficcionista com o lingüista. Ele usa, na formaçăo de palavras novas, quer a fonte erudita, quer a fonte popular. É' o caso também de José Candido de Carvalho. Năo é o caso de Dias Gomes, que usa apenas a fonte popular. Eu năo vejo, entăo, nenhuma semelhança entre um caso e outro caso. Quanto ŕ questăo dos tipos, ainda muito menos. Os tipos de Saramandaia săo inteiramente diferentes daqueles criados por Guimarăes Rosa. E diferentes do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, criaçăo de José Candido de Carvalho. A distinçăo fundamental deveria ser procurada no conteúdo dessas obras de arte e năo na forma. Eu considero Dias Gomes o maior criador no teatro nacional e, na novela de televisăo, está realizando inovaçőes de profundo interesse."

"Fez de conta o sem-vergonhista que era galo sem rumo, perna sem força, bico caído. Um caçoista, do fundo do terreiro, largou deboche na praça... e especial atençăo prestei a uma pendęncia de terras que sustentou a poder de rabulice, dando ganho de causa ao que era torto. Em duas penadas limpou a escritura de toda a impureza. E o demandista seu amigo ficou possuído de chăo que era seu e que năo era... A velha muito prezou o meu severismo." (O Coronel e o Lobisomem, José Candido de Carvalho, Ed. José Olympio).

O escritor fluminense José Candido de Carvalho năo gosta de falar a respeito de um assunto que parece até incomodá-lo bastante. Ainda assim revela as suas impressőes:

"O que é preciso saber é se o Sr Dias Gomes escreve assim antes do aparecimento de O Coronel e o Lobisomem, lançado na praça em 1964. Repito: se era esse o seu jeităo de dizer, năo há nada a reclamar. Eu é que devo pagar pedágio por ter transitado sem licença pelos falares e escreveres do Sr Dias Gomes. Se a primeira versăo de O Bem-Amado, que é de 1960 e fonte, na forma televisada, da atual linguagem da novela Saramandaia, já trazia essas novidades e invencionices o Sr Dias Gomes está de parabéns. Se, ao contrário, essas novidades săo recentes, pesquisadas na obra alheia, meus pęsames. O ilustre produtor de televisăo escolheu o largo caminho do facilitário, que năo leva a nada."

"Pessoalmente, considero a linguagem do Coronel superada, pois estou trabalhando em novos caminhos da ficçăo. O que sempre me amedrontou, e por isso năo persisti na linha do meu segundo romance, era acabar sendo plagiário de mim mesmo. O que seria um triste fim de carreira."

"Abrindo a janela rapidamente, Maria Redonda despeja sobre eles o conteúdo fétido de uma laca de dez quilos - urina e fezes - acumulado durante trinta dias...

Menino, quem é seu pai?

Meu pai é Nosso Senhor.

Menino quem é sua măe?

Minha măe é a măe do Criador.

Menino, diga onde vai?

Pelo mundo eu vou girar.

Tenho muito que aprender

E o tempo vai me ensinar...

Quem será que está virando bicho aqui em Cajazeiras? - o sofisma recaia sobre algumas pessoas que sofriam de amarelidăo" (O Lobisomem das Cajazeiras, Zé do Norte, 1971).

O paraibano das Cajazeiras, Alfredo Ricardo do Nascimento, só tem esse nome comprido para efeitos civis, administrativos e protocolares. Para efeitos artísticos, ele é Zé do Norte, autor das músicas do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, que ganhou, em Cannes, em 1952, o pręmio de melhor trilha sonora. Entre elas, a estilizaçăo do tema folclórico Mulher Rendeira, regravado 82 vezes, com quase 300 mil cópias vendidas só nos Estados Unidos. É também autor do livro Brasil Sertanejo, histórias sertanejas, curiosidades sertanejas, cantigas do sertăo, mentiras e anedotas, poemas, dialeto sertanejo (Ed. Asa, 1948).

A repórter foi encontrar Zé do Norte na sua casa carioca, o Hotel Primor, na Rua dos Andradas, onde seu Ismael da portaria o apresentou na base do "ô cangaceiro, olha aqui essa moça procurando por ti". Chapéu curto, de feltro, uma pena pequena enfiada no lado direito, uma cruz de ouro grande, cravejada de pedras coloridas, ele começa a falar.

"Olha, eu nunca acusei o Dias Gomes de plágio, nem pensei nisso. E essa história que eu vou entrar na Justiça é mentira. Năo tem isso năo. E olha que eu mesmo nem tinha reparado no caso de Saramandaia parecer com o meu livro. É que eu nem assisto ŕ novela. É um capítulo ou outro, distraído. Aí os amigos começaram a me dizer: olha, Zé, vocę precisa ver isso, seu lobisomem, sua Maria Redonda está tudo na novela."

Espia a repórter com os olhos vivos, alegres, que se apertam quando observam a gente com maior cuidado.

- Comecei a escrever meu livro em 1959, acabei em 1965. Aqui mesmo no Rio, incentivado pelo Roberto Corte Real, que era diretor artístico da CBS.

Ele achava que năo tinha capacidade para escrever um romance de fôlego, "coisa para pessoas de instruçăo superior", conforme pensava na época. Quando ponderou isso com Corte Real, ele limitou-se a responder que "pra essa finalidade é bastante saber ler e escrever, conhecer o que vocę conhece e viver o que vocę viveu".

Foi assim que se iniciou O Lobisomem de Arapiraca. Por que de Arapiraca? "Por nada. Depois eu pensei que era mais interessante contar mesmo o caso de Cajazeiras e fiz O Lobisomem de Cajazeiras, pois esse era um assunto muito farto, que eu conhecia desde menino".

"Os lobisomens" - continua Zé do Norte - ŕs segundas e sextas-feiras cruzavam a cidade. Eles vinham do alto do Cabelăo - hoje bairro do Alto Belo Horizonte - para as capoeiras. E do Boi Morto para a Curicaca."

As andanças dos personagens de Zé do Norte ainda năo estăo editadas. Mas ele dispunha de um original e quatro cópias. Uma delas está na casa da filha Josefina, em Vila Isabel; a segunda, no Conselho Estadual de Cultura da Paraíba, que deverá editar o livro: a terceira, presentemente com a repórter. A quarta cópia desapareceu. Como foi isso, Zé?

"Eu entreguei a cópia para um conhecido meu, de uma rede de jornais e televisăo. Foi em 1973. Eu queria saber se prestava pra novela. Pedi que ele lesse. Um męs depois, voltei, perguntei pelo livro. A resposta me estarreceu: tinha sumido. Seis meses depois, a mesma resposta: nada do livro."

"Todo trabalho de recriaçăo literária de uma linguagem parte da mesma fonte", argumenta Dias Gomes". E o processo de recriaçăo de neologismos é semelhante. Entăo é evidente que tende a cair em resultados semelhantes, em palavras parecidas. No caso de Guimarăes Rosa, no caso de José Candido de Carvalho, no meu ou de outro qualquer autor, a fonte é o linguajar popular, é a criatividade natural do povo, que nós manipulamos. A linguagem de José Candido é criada, como a minha linguagem também é, mas a fonte é o povo. Estou cansado de ouvir, até mesmo em programas populares de televisăo, pessoas dizerem emboramente, até por horamente já escutei. Minhas personagens, antes de 64, falavam de modo diferente, porque, a partir de entăo fui tentado a fazer uni trabalho de recriaçăo de linguagem. E só vim a ler O Coronel e o Lobisomem quando já havia escrito mais da metade de O Bem-Amado para a televisăo. Quanto a Guimarăes Rosa eu conhecia anteriormente e há quem me acuse de sofrer influęncias dele."

"Sabe de uma coisa?" - é Dias Gomes quem pergunta - "a televisăo tem o estranho poder de ativar neuroses. Entăo, toda novela que vai para o ar, tem sucesso, provoca o aparecimento de situaçőes assim. Năo só de pessoas que se julgam autoras, como outras, que se imaginam retratadas nos personagens. Na época de O Bem-Amado, o cronista Mister Eco publicou o estudo de uma filóloga provando que năo havia qualquer semelhança entre o trabalho que eu realizava, o de José Candido e o de Guimarăes Rosa, e cita uma série de 1 mil neologismos que năo aparecem nem em um nem em outro."

A "questăo Saramandaia" fez voltar ŕ tona o velho problema do plágio pela televisăo. O escritor Guilherme Figueiredo cita, entre outros muitos exemplos, dois particularmente significativos:

A minha traduçăo do Tartufo, de Moličre foi totalmente camuflada e apresentada na TV Globo como sendo de outro cavalheiro. Reclamei com a SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais - e trataram imediatamente de me pagar. Pagamento feito até ŕ minha revelia, para evitar que a SBAT movesse açăo. E quem assistiu ŕ novela Fogo Sobre Terra, da Sra Janete Clair, mulher de Dias Gomes, reconheceu ali cenas, personagens, fatos e acidentes de minha peça Maria da Ponte (construçăo e derrubada de represa, construçăo e derrubada de urna estátua, e assim por diante). Infelizmente, năo me foi possível colher provas para uma açăo em juízo, pois nem mesmo a Censura guarda os textos de cada capitulo e sim unicamente resumos e sinopses, que năo fazem prova de plágio."

"Cada caso de plágio é um caso. Assim que o autor perceba, que se dirija ŕ sua sociedade arrecadadora. Acredito que a prova testemunhal valha para açăo. Agora, os órgăos oficiais de direitos autorais e a Censura - para isso é que deve existir a Censura, para proteger e năo para castigar os autores - essa comissăo que criaram aí, essa que tem até o Roberto Carlos metido no meio, deveriam exigir que os textos das novelas ficassem registrados, para que o autor ou seus advogados pudessem consultá-los e tirar cópias autenticadas, em caso de necessidade."



Sunday, August 29, 2010

1978 - Hoje, é um novo dia, de um novo tempo...

O Globo
26/11/1978
Lea Penteado
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UMA SUPERPRODUÇĂO INTERCONTINENTAL PARA A MENSAGEM DE NATAL DA REDE GLOBO
Quarenta e cinco dias de filmagens nas cidades de Săo Paulo, Rio, Nova York, Londres e Paris, mobilizando uma equipe de 17 técnicos da Blimp Filmes, 230 artistas e 800 crianças, foram necessários para a realizaçăo de quatro filmes com um minuto e 30 segundos de duraçăo cada um, que a partir do dia 1ş serăo exibidos com os votos de feliz ano novo da Rede Globo de Televisăo.

"Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou... "



A música de Marcos e Paulo Sérgio Valle já se tornou tradiçăo nos comerciais de Natal da Rede Globo. As imagens se modificam a cada ano, mas os abraços, sorrisos, a confraternizaçăo entre os artistas permanecem como marcas registradas de alegria.

Este ano a música ganhou novo ritmo. E a época das discotecas, e assim foi feito o arranjo, para a interpretaçăo dos Canarinhos de Petrópolis.

Como nos anos anteriores, esta mensagem também foi produzida pela Blimp Filmes, responsável pela idéia. Baseada na campanha do Ano Internacional da Criança, que a emissora prepara para 1979, o roteiro foi escrito, mesclando artistas e crianças em diversas situaçőes. Para isso, durante um męs e meio uma equipe de 17 profissionais trabalhou, filmando em 18 locaçőes no Rio, oito em Săo Paulo, mais Nova York, Londres e Paris. Há ainda a filmagem reunindo todo o elenco da emissora.

Primeiro foram filmados pequenos grupos de artistas, em creches, asilos, favelas, orfanatos, parques, praças e colégios. Utilizaram-se 400 crianças contratadas da Star Produçőes e outras 400 que já pertenciam a esses locais.

Pela primeira vez os correspondentes internacionais - Sandra Passarinho, Hermano Henning, Roberto Feith, Hélio Costa e Lucas Mendes - foram inseridos neste comercial, com imagens nos locais onde estăo trabalhando e com a participaçăo de crianças de diversas nacionalidades.

Nestes novos dias as alegrias serăo de todos, é só querer... "

Sem sincronismo, as imagens foram captadas. Cabe aos Canarinhos de Petrópolis, na abertura e fechamento dos quatro comerciais, cantar. Artistas e crianças se libertaram, sem preocupaçăo, com câmaras estrategicamente colocadas. A ordem era naturalidade. Segundo o diretor de produçăo, Sérgio Bentes, "o importante era mostrar os artistas em situaçőes infantis. Com isso, năo houve obrigatoriedade de montar som em cada locaçăo, como foi feito nos anos anteriores".

Os artistas năo cantam como nos antigos comerciais, mas em contrapartida o encontro de todos numa manhă de sábado foi surpreendente. Ligados a seus núcleos de trabalho, a gravaçőes, poucas vezes há possibilidade para confraternizaçăo geral. Maria Augusta de Mattos, coordenadora de elenco da emissora, foi a responsável por reunir os 230 artistas que disseram presente ŕs nove horas de uma manhă quente.

Nos lagos do Jardim Botânico, foram realizadas algumas filmagens. Duas câmaras fixas foram instaladas - uma sob um quiosque, outra numa enorme torre de madeira construída especialmente. Esta câmara daria o plano geral do cenário. Muito verde, um lago, uma escadaria e o contraste das roupas coloridas dos artistas. As outras duas câmaras foram usadas na măo, permitindo planos mais próximos.

"Todos os nossos sonhos serăo verdade, o futuro já começou... "

Os Canarinhos de Petrópolis eram as vedetes da festa. O público que os aplaudia era selecionado - atores e atrizes de novelas, comediantes, bailarinos, locutores, apresentadores, enfim, todos os que compőem o elenco de programaçăo da emissora. Sob uma escada de pedra os meninos com gestos largos cantaram a trilha sonora, e esta imagem era intercalada com as cenas de aplausos e ainda com as cenas gravadas nas seis cidades e em diversos locais.

Cerca de 40 minutos de filme foram utilizados nesses 45 dias de trabalho da equipe dirigida por Rui Agnelli. As câmaras utilizadas foram de cinema Arriflex 35mm, para possibilitar melhor acabamento.

Durante quase tręs horas os artistas estiveram a postos embaixo do sol quente, sem texto decorado nem marcaçăo de diretor. Só lhes exigiam os aplausos e os sorrisos.

A equipe foi dirigida por Getúlio de Oliveira, com supervisăo geral de fotografia de Walter Carvalho Correa, direçăo de fotografia de Carlos Eduardo Silva, Hermano Penna e Getúlio Alvez; técnico de som, Miguel Sagatio, assistentes de câmara, Gilson Brandini, Osmar Heleno e Walter Batista; direçăo de produçăo de Sérgio Bentes, produçăo de Rosana Laporta.

O resultado estará no ar durante o męs de dezembro, em todos os intervalos da programaçăo. Pois, para todos os que trabalharam nesse comercial, como na música, "hoje a testa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem vier, quem quiser... "





Wednesday, August 18, 2010

1977 - Ministro X TV

Jornal do Brasil
20/5/1977
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O DOSSIÊ QUANDT
A cada seis minutos alguém é violentado na tela pequena brasileira

Belo Horizonte - O Ministro das Comunicaçőes, Euclides Quandt de Oliveira, discursando quarta-feira numa reuniăo de empresários de radiodifusăo, criticou os excessos de violęncia na televisăo brasileira, principalmente em séries importadas dos Estados Unidos, e pelas quais o Brasil paga "milhőes de dólares". Ontem, o Ministério das Comunicaçőes liberou para a imprensa o texto do discurso do Ministro. É o seguinte:

''As ocasiőes em que os radiodifusores brasileiros se reúnem para discutir seus problemas, e delinear os rumos a serem seguidos, săo de grande utilidade para toda a classe, mas, além disso, săo também o momento oportuno para um diálogo mais amplo com o próprio poder concebido. Assim, é com satisfaçăo que participo de mais um desses encontros, procurando dar minha contribuiçăo para o melhor entendimento entre os homens do Governo e da radiodifusăo.

Em seguimento ao que já fiz em ocasiőes anteriores, trago-lhes hoje um assunto que, creio, deve merecer a atençăo especial de todos. Năo haveria melhor oportunidade, para mim pessoalmente ,e para a Pasta que dirijo, de trazer ŕ classe nossas preocupaçőes com um tema muito delicado, e que no momento é alvo de estudos dentro do Ministério das Comunicaçőes: a violęncia constante dos programas de televisăo.

Há pouco tempo, justificando moçăo apresentada na Comissăo de Comunicaçőes da Câmara Federal, um deputado usou dados colhidos numa pesquisa realizada em Los Angeles durante "sete dias de programaçăo de televisăo". É estarrecedor: 114 assassinatos, 128 assaltos e 49 mortes, que tal pesquisa classificou como "justificáveis", além disso, nove raptos, dois suicídios e seis torturas físicas.

Outra pesquisa realizada na mesma época, também nos Estados Unidos, revela que a cada seis minutos do tempo de programaçăo alguém é violentado fisicamente, sendo que, paradoxalmente, nos programas infantis, a situaçăo é ainda mais preocupante: em cada hora foram constatados 38 atos agressivos ou ameaças.

Em pronunciamento feito na Assembléia Legislativa gaúcha, outro deputado, também preocupado com os efeitos das cenas violentas, principalmente sobre as crianças e adultos imaturos, em especial aqueles desfavorecidos socioeconomicamente, observou que "o Brasil está pagando milhőes de dólares, a cada ano, para liquidar a nossa juventude".

Este năo é um problema apenas nosso, especifico do Brasil. É matéria de preocupaçăo nas naçőes desenvolvidas, produtoras de informaçőes, mas é, sobretudo, nos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento que a questăo se mostra mais crítica, devido ao grande volume dos programas importados e, em conseqüęncia, com um conteúdo alheio ŕ sua realidade, e cuja produçăo está fora do alcance de qualquer tentativa de correçăo ou de ajustagem ŕs necessidades do povo.

É sabido e notório que o mercado norte-americano é o maior exportador de mensagens televisivas para o mundo.

O relatório anual de 1966, de uma das grandes cadeias da televisăo americana, concluiu que seus programas săo distribuídos por 94 países em todo o mundo. A situaçăo nas outras duas redes americanas é semelhante.

Esses programas, em quase todos os países que os recebem, constituem a maioria da programaçăo transmitida. Dentre esses, os países mais desenvolvidos muito se preocupam com essa situaçăo, e estăo buscando promover a preparaçăo de programas próprios ou restringindo o número de horas de transmissăo diária.

É urgente que passemos da condiçăo de consumidores para produtores de informaçăo.

As estatísticas mostram que somos o nono importador mundial de filmes e seriados americanos. Essa constataçăo é alarmante e merece reflexăo, principalmente se a somarmos a outros dados, revelados por pesquisas realizadas em território norte-americano, e que se referem ŕquilo que é importado por nós.

- Quando uma criança média atinge a idade de 14 anos, já testemunhou 11 mil crimes, năo incluídos ai contrabandos, combates, estupros, assaltos, raptos e espancamento que resultem em morte.

Até os 15 anos de idade, essa mesma criança já se expôs a 14 mil horas de recepçăo de televisăo. Isso, notem os senhores, em plena época de formaçăo do seu caráter e da sua personalidade, e de maturaçăo de seus esquemas mentais.

- Em cada 100 horas de programaçăo infanto-juvenil, o expectador americano assiste a 12 assassinatos, 21 fuzilamentos, 20 acidentes com arma de fogo, 20 lutas, nove facadas, seis tentativas de suicídio, quatro quedas, nove incęndios, dois atropelamentos, seis batidas propositais, dois linchamentos, uma explosăo, nove chantagens e 32 ameaças veladas.

A preocupaçăo com o tema năo ocorre apenas nos Estados Unidos. Em 1975, Louis Leprince-Ringuet, professor da École Polytecnique du College de France, membro da Academia Francesa e da Academia de Cięncias, demonstrou, no pronunciamento de abertura dos trabalhos da exposiçăo da Telecom/75, sua preocupaçăo com os efeitos da televisăo sobre os indivíduos. Denunciou o abuso da violęncia no conteúdo dos meios de comunicaçăo de massa, ao qual chamou de "um processo de crescente formaçăo do homem".

Para ele, as informaçőes năo estăo mais sendo corretamente assimiladas pelo público, porque estăo essencialmente deformadas. Devido a só apresentarem uma parte da noticia ou do acontecimento. Esse fato pode năo decorrer de um propósito intencional, mas o resultado é o mesmo. Em comparaçăo com a amplitude e o impacto da notícia, a curto espaço de tempo dedicado aos noticiários é uma dias principais causas desta situaçăo. Finalmente, ressaltou a sistemática distorçăo dos fatos decorrentes da apresentaçăo de imagens pinçadas, ŕs vezes com malícia e irresponsabilidade. "Em 1968", diz ele, referindo-se ŕs agitaçőes ocorridas na França, "eu sabia o que estava realmente acontecendo no Quartier Latin, porque vivia lá e podia julgar os fatos, mas as imagens transmitidas pela TV davam, no final de contas, uma visăo artificial e distorcida da crise".

É evidente que a televisăo năo é a única responsável pelos males que assolam a criatura humana, nas últimas décadas. Ela também oferece uma gama de contribuiçőes positivas ŕ sua audięncia. Meu propósito, hoje, é apenas discutir um entre os muitos aspectos específicos da televisăo, dentro da mesma linha de preocupaçăo seguida pelo professor Ringuet em seu mencionado pronunciamento.

É claro que as crianças também aprendem a ser violentas com os próprios pais, através dos processos desenvolvidos no seu relacionamento familiar; da mesma forma, aprendem a ser violentas quando a violęncia é aplicada como meio de reforçar comportamento - quando ela lhes é mostrada, de forma permanente e contínua, como caminho, como maneira de solucionar problemas; também, tendem a ser violentas quando năo săo estabelecidas medidas atenuadoras de suas tendęncias de agir com violęncia em relaçăo a outras crianças ou de destruir coisas; e até mesmo quando é reprimida sua agressividade normal. Além do mais, năo é possível negar que elas tornam-se violentas quando o império da utilizaçăo da violęncia lhes é mostrado a cada momento, como soluçăo para os problemas individuais e coletivos. A violęncia passa entăo a ser para elas uma atitude normal, e năo uma exceçăo.

E vejam os senhores que esse panorama de violęncia continuada é a tônica dos programas de seus canais de televisăo, e dos canais de seus concorrentes, quase năo deixando margem de escolha ou opçăo ao telespectador.

Para as crianças ou jovens que possuam um nível médio ou superior, tanto de informaçăo como de formaçăo, é possível que a violęncia que lhes é mostrada permaneça ao nível de fantasia, podendo ser diluída ou negada por sua própria experięncia pessoal, em casa, na vizinhança ou na escola. Mas, para aqueles que vivem em um meio familiar ou cotidiano em que os padrőes de experięncia pessoal, em casa, na vizinhança ou na escola. Mas, para aqueles que vivem em um meio familiar ou cotidiano em que os padrőes de comportamento săo desprezados ou inexistentes, e para aqueles carentes de uma formaçăo humanística dentro de seu próprio lar, a liçăo de força bruta năo permanece jamais no plano de fantasia; pelo contrário, ela até vem confirmar o embrutecimento da sensibilidade. Essas criaturas passam a praticar a violęncia em uni grau superior ao que seria normal apenas pela vivęncia no seu meio.

Duas săo as características psicológicas do público que é mais afetado pelas demonstraçőes externas de violęncia: o seu grau de maturidade, que é a mais importante, e o seu nível de instruçăo e conhecimentos. Acredito que a maior incidęncia do efeito negativo da violęncia encontra-se nos indivíduos imaturos e nos que possuem nível de conhecimento inferior ao da média. Tal afirmaçăo năo deve, no entanto, ser consideraria como regra geral.

Na adolescęncia, fase evolutiva onde a personalidade do ser humano recebe seus últimos e mais decisivos contornos, as mensagens divulgadas, minuto após minuto, hora após hora, dias após dia, incorporam-se aos hábitos normais dos jovens. Já houve, no passado, controvérsias quanto a esse efeito, mas hoje săo muito poucos os que discordam dessa tese. Para a maioria dos pesquisadores é na juventude que os indivíduos săo mais suscetíveis a identificarem-se com os personagens ao alcance de sua percepçăo. Se o pai, a măe, a família, năo oferecem uma boa matriz para essa identificaçăo, a criança ou o jovem vai se projetar nos seus heróis.

Recentemente, a Escola de Jornalismo da Universidade Nacional Autônoma do México divulgou relatório, após estudar os conteúdos simbólicos, especialmente nos desenhos animados. O símbolo mais usual encontrado foi o da atitude de grupos de pessoas que delegam suas obrigaçőes a uma só, ou seja, ao super. O segundo conteúdo simbólico mais marcante é o da vingança, que chega a ter caráter funcional. Depois vem a violęncia propriamente dita. Ou vęm cenas violentas com a lei do revólver, a eterna perseguiçăo ao pica-pau, as armas que o sábio louco fabrica, a luta contra os monstros e a interminável caça ao rato pelo gato. Isso quando năo săo apresentadas corridas de automóvel, em alta velocidade, com acidentes provocados internacionalmente, colisőes e mortes.

A partir do quadro de análises simbólicas, a mesma pesquisa foi aplicada numa amostra realmente significativa, com a finalidade de obter dados estatísticos sobre a identificaçăo das crianças com esses símbolos. Esses dados revelam que 46% delas se mostraram identificadas com personagens super-humanos, que voam, săo invisíveis, possuem poderes extra-sensoriais ou força física inverossímil; 25% optaram pela exaltaçăo ŕ violęncia e ŕ capacidade de dominar bandido pela astúcia e força física; e apenas 25% destacaram qualidades como a solidariedade e o altruísmo.

Há dois anos, um colunista da imprensa brasileira escrevia em seu jornal, sob o título As Crianças Indefesas Diante da Violęncia: "Quem paga mais caro por tudo isso? A criança, espírito aberto curioso. Năo formado, despreparada para definir, separar, aparar os excessos, entender perfeitamente".

E continuava: "O problema năo é específico da televisăo americana, mas praticamente do mundo. Torna-se mais evidente num país como o Brasil, onde o nível de educaçăo, alfabetizaçăo e informaçăo de massa está muito longe do que seria desejável".

Citando o anúncio de um chocolate, afirmava: "Para mostrar que o chocolate faz crianças fortes e saudáveis, usam um desenho animado em que um menino consumidor do citado produto derruba, a ponta-pés e bofetőes, outros meninos. Um exemplo de violęncia altamente condenável, e que envergonha o produto e a agęncia que o produziu, além de envergonhar emissoras e órgăos responsáveis. Enquanto esta for a rentabilidade reinante na televisăo brasileira, coitadas das crianças", concluía o jornalista.

Em abril do ano passado, a agęncia noticiosa brasileira, ao comentar a traduçăo para o Portuguęs do livro How To Parent - Como Criar Nossos Filhos - observou que, em geral, os horários infantis săo preenchidos com as velhas perseguiçőes de gatos e ratos, a constante luta dos super-heróis, com os quais a maioria das crianças se identifica, ou por velhas comédias antigas e desbotadas que já estăo a caminho do arquivo e, antes de serem descartadas, servem para preencher o horário da tarde. Comentava também a observaçăo do autor a respeito da influęncia da TV, principalmente sobre as crianças que entram na fase da linguagem ativa, ou seja, fase em que aumentam seu vocabulário. Dodson, o autor do citado livro ,observa que a TV poderia ser usada como um professor complexo e versátil, ao invés de servir apenas como brinquedo de má qualidade, demonstrando que o grande problema năo está na imensa influęncia que exerce, mas sim na qualidade do material que transmite.

A essas observaçőes, acrescento a de que a televisăo năo pode, de forma alguma, ser tratada da mesma forma que os espetáculos de cinema e teatro, assistidos por um público imensamente menor, raramente com repetiçăo diária, e que se desloca de seu lar, por sua vontade, para assisti-los.

Quero deixar bem claro minha conscięncia de que a violęncia sempre esteve presente na história da humanidade. Os indivíduos sempre viveram as guerras e as lutas, seja pessoalmente, seja através dos livros, dos jornais e das telas de cinema. Sei, ainda, que ela existe independente da televisăo.

Năo estou querendo mascarar a realidade, subtraindo do vídeo essa afirmaçăo que, infelizmente, corresponde ŕ verdade. "Eliminá-la de nosso processo de informaçăo seria o mesmo que desfigurar a realidade", como anotou há pouco tempo o Vice-Reitor da Universidade de Brasília, numa entrevista concedida a um semanário. Mas, lembra ele que "a repetiçăo que é uma das regras da propaganda, somada ŕ passividade do telespectador, pode fazer com que seus efeitos sejam bastante nocivos".

A questăo reside na maneira de se tratar a violęncia, e esse é um problema a ser solucionado pelos senhores, concessionários de radiodifusăo responsáveis pela produçăo e veiculaçăo das mensagens de seus canais; em outras palavras, responsáveis pelos efeitos, transitórios ou mais permanentes, de sua programaçăo sobre os que a assistem.

Compreendo, também, as constantes reclamaçőes dos programadores de suas estaçőes, quanto ŕ dificuldade de adquirirem filmes sem violęncia, tendo em vista as poucas opçőes do mercado exportador que alimenta nossas emissoras. Mas, perguntamos: já năo é hora de questionar essa caręncia, haja visto o aperfeiçoamento da nossa măo-de-obra especializada no setor? Temos um mercado de trabalho que já se mostra adulto em suas realizaçőes, ainda que até hoje seja subutilizado.

Nos Estados Unidos, associaçőes de pais e mestres vęm-se preocupando com os efeitos mais permanentes da programaçăo de TV sobre o público. Eles pressionaram as empresas comerciais que faziam publicidade em programas considerados muito violentos. Houve sucesso na providęncia e foram retirados os patrocínios de muitos desses programas, que em conseqüęncia foram retirados do ar pelas emissoras. Mas continuam a ser exportados e a serem adquiridos para exibiçăo no Brasil.

Cabe também acrescentar que, em conversa com os dirigentes de uma sociedade importadora de filmes rara televisăo, afirmou-me ele categoricamente que os homens de TV no Brasil dăo preferęncia aos filmes mais violentos. Declarou-me, ainda, que a escolha é dos programadores brasileiros, que inclusive optam pelas séries que tenham sido retiradas dos vídeos americanos por excesso de violęncia.

Essa é uma acusaçăo feita, desculpem, aos senhores.

Creio que se os programadores das emissoras reclamam e o mercado produtor ainda é subutilizado, isto se deve em grande parte ao fato de que é mais rentável comprar enlatados estrangeiros, cujo custo já está coberto no país produtor, do que investir na produçăo nacional.

Mas devemos evidenciar que existem enlatados com muito material de alta qualidade e pouca ou nenhuma violęncia.

Cabe também lembrar que a atividade dos senhores está definida por lei como educativa e cultural, e, portanto, năo se restringe meramente ao aspecto comercial. A sua responsabilidade é grande junto: ao público e, em especial, junto ŕ Pátria, ŕ Naçăo brasileira.

Há tempos, quando lancei um apelo e um alerta aos senhores aqui presentes, sobre a preocupaçăo do Governo com a programaçăo alienígena, com o nivelamento dos programas pela média de gosto, houve receptividade para minhas palavras e obtive resposta. Embora năo fosse a ideal, pude sentir um interesse da maioria em atender a esse apelo.

Agora, mais uma vez, dirijo-me aos senhores e solicito-lhes sua máxima atençăo para os dados que foram colhidos em Brasília por uma equipe do Ministério das Comunicaçőes, no decorrer de um męs de observaçăo da programaçăo transmitida naquela cidade por dois canais de televisăo. Por questăo ética, năo cito o nome da rede a que pertence cada canal de TV observado:

- A violęncia no Canal "A" năo corresponde quantitativamente ŕ detectada no ''B''.

- A programaçăo vespertina de cada canal observado, durante o período de um męs, e que perfaz um total médio de 200 horas apresentou:

Canal A:

. Mortes - 19

. Lutas - 660

. Uso de armas - 484

. Acidentes - 2 mil 640 (um acidente para cada quatro minutos)

. Roubos - 23

. Raptos ou seqüestros - 41

. Desafios - 528

. Trapaças - 218

. Chantagens - 61

. Aparecimento de monstros e animais ferozes - 197

CANAL B:

. Mortes - 11

. Lutas - 358

. Uso de armas - 132

. Acidentes - 952 (um acidente para cada 11 minutos)

. Roubos - 9

. Raptos ou seqüestros - 16

. Desafios - 291

. Trapaças - 192

. Chantagens - 25

. Aparecimento de monstros e animais ferozes - 124

Se, durante a programaçăo vespertina, a violęncia é manifestada - mostrada de maneira clara, física e crua, quase sempre (90% das vezes) através dos enlatados norte-americanos - durante a programaçăo no horário nobre, revelaram as pesquisas que a violęncia se transforma, dentro de sua própria linguagem, para entăo se mostrar presente no campo das idéias.

Aqui năo é mais possível - ou melhor, quase impossível - a quantificaçăo de atos agressivos externados. As agressőes săo veladas, latentes; trazem nova embalagem que necessita estudo mais acurado, a fim de detectarmos o grau de correspondęncia entre violęncia e realidade.

Depois das 23 horas, a pesquisa revela o retorno ŕ mesma tônica da programaçăo vespertina, com uma única diferença: a emissora B, que até as 19 horas năo alcançara os índices de violęncia da emissora A, iguala-se agora ŕ sua concorrente.

A política de radiodifusăo vigente no Brasil segue o mesmo modelo da adotada pelos Estados Unidos. Naquele país, no entanto, existe uma grande conscięncia popular de acompanhamento e aferiçăo da qualidade dos programas transmitidos e de sua compatibilidade com as necessidades do público. Nos Estados Unidos, as associaçőes comunitárias e de defesa do interesse popular săo numerosas, e há participaçăo ativa de grande porcentagem da comunidade em conscientizar o público quanto ŕs agressőes a seus interesses e comunidades.

No Brasil, năo existe esse tipo de atividade. Por isso, pretende-se que o seu papel seja desempenhado pelo Conselho Nacional de Comunicaçőes, onde os senhores também tęm participaçăo, palavra e voto.

Como é do conhecimento dos senhores, o Conselho Nacional de Comunicaçőes, agora reformulado e com suas atribuiçőes ampliadas, dedicará grande parte de sua atençăo aos conteúdos veiculados pelo rádio e televisăo brasileiras, visando ao estabelecimento de diretrizes e orientaçőes relativas ao assunto. Năo se pretende intervir na livre escolha dos programas pelos homens de televisăo, mas serăo discutidos os problemas levantados, pelo próprio Conselho ou por qualquer interessado.

Os dados aqui citados, que podemos taxar como alarmantes, serăo encaminhados ao Conselho Nacional de Comunicaçőes, para que nele sejam aprofundados os estudos a seu respeito.

No próximo dia 25, com suas novas atribuiçőes e constituiçăo, o CNC reiniciará suas atividades. Tenho grande esperança na sua atuaçăo, através de discussőes francas e objetivas, buscando o melhor para o grande público. Ele é o fórum adequado para os debates dessa natureza. Meu desejo é que os senhores, concessionários de radiodifusăo, participem ao máximo e encaminhem propostas de soluçőes adequadas ao problema - este ou outro qualquer - no âmbito de suas empresas, no sentido de lutarmos juntos pelo aperfeiçoamento desse poderoso instrumento de comunicaçăo, que é a televisăo.

Confio nos senhores e em uma televisăo menos violenta, mais adequada aos nossos compatriotas. Confio em uma televisăo que năo venha a interferir negativamente na formaçăo dos nossos adolescentes, filhos e netos: a televisăo que o Brasil necessita e anseia.

Muito obrigado.''

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