Monday, July 24, 2017

Bafão na Pampa

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 18/04/1985

PRATES DA SILVEIRA É ESCOLTADO PARA SAIR DE PROGRAMA NA TV
Porto Alegre - Só com proteção policial foi que o ex-presidente do Grupo Sul Brasileiro, Coronel R/1 Hélio Prates da Silveira, conseguiu sair da Televisão Pampa, após participar do programa Pampa Debate, no qual abordou a crise da instituição. Mesmo assim, os bancários do Sul Brasileiro, que faziam manifestação na saída da emissora, jogaram dezenas de ovos e tomates no carro de Silveira, que fugiu rapidamente do local.

O incidente ocorreu no início da madrugada de ontem, após Silveira participar, com outro ex-diretor do Sul Brasileiro, Alceu Francisconi, do programa na Televisão Pampa (afiliada à TV Manchete), coordenado pelo jornalista Rogério Mendelski. No programa, Silveira voltou a responsabilizar o ex-Ministro Delfim Neto pela intervenção no Grupo, já que o Ministro aceitara um aporte de recursos de 62 milhões de dólares, por parte do Citibank, mas, antes que a negociação fosse concluída, divulgou a intervenção.

Na época, um dia antes da intervenção, Delfim Neto disse que o rombo do Sul Brasileiro era de Cr$ 115 bilhões e o Governo federal não aceitou um aporte de 300 milhões de dólares do Citibank, pois daria o controle acionário a um banco estrangeiro. Silveira disse que na reunião ficou acertado o aporte de 62 milhões de dólares, e que Delfim chegou a abraçá-lo dizendo que estava tudo certo. Segundo seu relato, foi, então, ao Rio de Janeiro e acertou com o advogado do banco norte-americano a liberação imediata dos recursos.

Ao tentar comunicar o fato, já acertado, a Delfim, o Coronel Hélio Prates ficou sabendo que o Ministro viajara a São Paulo. Tentou localizá-lo, sem sucesso, em vários locais, inclusive pelo rádio do jatinho em que Delfim viajava. Logo depois, o Governo anunciava a intervenção. Alceu Francisconi, por sua vez, admitiu que somente no primeiro ano, em 1973, o Sul Brasileiro fechou tranqüilamente seu balanço; nos anos seguintes, sempre houve dificuldades no fechamento dos balanços.

Perguntado por Mendelski sobre como via as notícias de que estava sendo solicitada pelo Governo sua prisão preventiva, o Coronel Hélio da Silveira reclamou: "E um absurdo que na Nova República, que fala tanto em direitos humanos, o Governo fale em me prender, se não há nenhuma acusação formal contra mim, não fui chamado, nem fui citado ainda. Mas estou tranqüilo". No final do programa, a Brigada Militar foi obrigada a colocar vários policiais para custodiar a saída do carro do Coronel Silveira e, mesmo assim, foram jogados ovos e tomates contra o veiculo, enquanto os bancários gritavam "ladrão".

TV Pampa X Guaíba em 1981

Revista: Gazeta Mercantil
Data de Publicação: 18/03/1981
Autora: Jane Filipon



A DIVISÃO DA AUDIÊNCIA

Todas as quatro televisões do Rio Grande do Sul neste início de ano estão empreendendo modificações em suas programações e investimentos em novos equipamentos. O alvo das emissoras menores é conseguir, numa primeira etapa, a divisão mais eqüitativa do mercado quase todo concentrado em torno da bem estruturada Televisão Gaúcha (programação da Rede Globo). Durante todo o ano de 1980, a Gaúcha manteve uma média de 60% de audiência, na Grande Porto Alegre, e liderança quase absoluta no interior do estado, onde conta com nove estações retransmissoras e apenas a concorrência da Televisão Difusora (da Rede Bandeirantes). TV Guaíba e TV Pampa, sem ligações com redes nacionais, ainda não atuam em áreas interioranas.

MUDANÇAS - A Guaíba, da Empresa Jornalística Caldas Júnior, foi a emissora que introduz modificações mais substanciais, porque passou a ocupar 45% de sua linha de programas com produções locais (antes era 35%), o restante do espaço ocupado com filmes e desenhos. A Guaíba, que atualmente ocupa a última posição com 4% de audiência, perdendo para TV Pampa que, segundo o IBOPE, tem 24,6% da preferência do público e para a Difusora com 8%, antecipou seu horário de entrada no ar para as 9h30 (durante dois anos a programação iniciava-se às 16 horas).

PERSONALIZAR - "Nesses dois anos de presença no mercado", afirmou a este jornal o diretor de programação, Sérgio Reis, "tivemos como principal objetivo de nosso trabalho personalizar a estação como uma emissora eminentemente local e fora de rede, tendo, porém, como público-alvo o sexo masculino." Nesta nova arrancada e com um faturamento triplicado (Cr$ 24 milhões mensais segundo a empresa), a programação foi estratificada de forma tradicional (pela manhã, infanto-juvenil, do meio-dia às 14 horas, eminentemente feminina; para crianças à tarde; e no começo da noite um programa de informações, comentários e esportes), encerrando com filmes.

A briga pela audiência feminina no horário das 12 horas se dará basicamente entre três emissoras: TV Gaúcha, TV Guaíba e TV Difusora. Programas neste horário se mantêm em bons níveis de audiência no interior e em Porto Alegre, porque o hábito de a família se reunir em casa, ao meio-dia, ainda permanece. Reis acha, porém, que na capital a presença maior neste horário é fundamentalmente feminina e por isto entra com programa exclusivamente nessa linha. "Nas demais emissoras se justifica porque cobrem todo o estado. Pode ser, portanto, um programa bem mais variado que o nosso, pois os homens do interior ainda almoçam em casa", explicou ele. A Televisão Gaúcha, segundo seu diretor executivo, Fernando Miranda, pretende mexer no seu jornal do almoço, buscando novos cenários e maior descontração, pois está no ar há 10 anos, praticamente sem alterações fundamentais.

PÚBLICO - O público-alvo da programação da Gaúcha não será, porém, modificado. Isto porque a pesquisa encomendada à Marplan, para introduzir inovações, caso fossem necessárias, constatou que, das 12 às 13 horas, 49% de seus telespectadores são homens e 51%, mulheres, e "a Gaúcha das 13 às 14 horas, 45% do público é masculino e 55%, feminino. A Gaúcha pretende, este ano, produzir, ainda, pelo menos dois casos especiais com artistas gaúchos e há uma idéia, ainda embrionária, de fazer um noticioso pela manhã. A linha de programação da TV Difusora não sofrerá grandes ajustes, estando reservada para a emissora a transmissão dos novos programas da Bandeirantes.

EQUIPAMENTOS - A TV Pampa parece ter encontrado sua linha: desenhos e filmes. Mas o diretor presidente, Otávio Dumet Gadret, e o diretor de programação, Gilberto Lessa, também estão pensando em alterar a fórmula, embora tenha dado certo, pois, com menos de um ano de atuação, ficaram com a segunda posição. Enquanto em dois anos a Pampa anuncia que estará cobrindo todo o estado e a Guaíba, ainda este ano, 70% do Rio Grande do Sul, com este tipo de expansão superado, a Gaúcha parte para outros investimentos: um novo prédio de 1.700 m2 para instalação da área técnica e operacional; compra de cinco câmaras portáteis mais atualizadas e três unidades de microondas portáteis.

Programação Antiga 1974








Pout-pourri































1968 - Censura na TV

Revista: Realidade
Data de Publicação: 01/06/1967
Autor: José Carlos Marão e Afonso de Souza



ISTO É PROIBIDO

Em Brasília, 17 funcionários públicos decidem que filmes crianças podem ver, o que os adultos podem ver e o que ninguém pode ver. Com esses 17 homens está o poder de decretar...

Ele aparece todos os dias, em todos os filmes - desde um desenho animado até uma tragédia mexicana.

Ele trabalha atrás de uma mesa de aço, no quarto andar de um edifício de paredes de vidro, em Brasília.

Mais criticado que elogiado, é ele quem determina o que o brasileiro pode e o que não pode ver no cinema.

Ele é o censor, e nas telas seu nome e assinatura nunca falham: "A. Romero do Lago, chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas".

- Trabalho de censor desperta curiosidade muito grande - comenta um pouco vaidoso.

Romero do Lago chefia uma equipe de 16 homens, encarregada de cortar, dos filmes, cenas que - segundo eles - chocam, despertam violência, ofendem o decoro público ou subvertem. Com nível de cultura de média para baixo, esses 16 cidadãos têm o poder de proibir filmes para menores, cortar cenas e até interditar uma fita inteira.

Já houve tempo que se limitava um filme "impróprio para menores até..." só pelo título. Hoje não. Todas as fitas, nacionais ou estrangeiras são vistas.

O chefe Romero do Lago, porém, não gosta de cinema. Quase nunca entra na sala de projeções do departamento. Sem confessar sua indiferença, explica que não assiste aos filmes para poder opinar posteriormente, em grau de recurso, sobre qualquer dúvida surgida entre os censores.

A equipe agüenta ver quatro filmes de longa metragem por dia, mais um tanto de documentários e jornais cinematográficos. A ordem de exibição é a de chegada, mas os nacionais têm preferência. Os censores trabalham em grupos de dois, três ou quatro. No subsolo do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (onde a Censura ocupa metade do quarto andar), eles têm uma sala de projeção: 300 lugares, luz e som perfeitos.

Depois de visto o filme, cada censor dá seu parecer por escrito. Se houver empate, Romero do Lago, ou um segundo grupo de censores, desempata. Se não houver, Augusto da Costa, que já teve seu nome conhecido no Brasil inteiro, pois foi o beque da Seleção Brasileira na Copa de 1950 - recebe os pareceres, prepara os certificados, passa ao chefe para assinar e despacha aos distribuidores.

Funcionários federais (dos níveis 17 e 18), os censores ganham no máximo NCrS 356,50 por mês e só podem ter outro emprego se forem jornalistas.

O CENSOR NASCEU DE UM BEIJO

A censura do cinema começou um pouco antes do cinema. Em 1896, no filme A Viúva Jones (do tempo da lanterna mágica), Mary Irvin e John C. Rice assustaram o público americano com um beijo mais ou menos longo. Membros do clero, escandalizados, denunciaram a fita como a lyric of the stockyards (um lirismo de matadouro).

Estava criada a censura. O censor oficial foi a conseqüência.

No Brasil, 71 anos depois, o censor é um funcionário público que ainda faz restrições aos beijos:

- O beijo passa, é claro, mas se o galã começa a dar mordidinhas nos lábios da mocinha, aí vamos estudar o caso.

No estudo do caso, há pelo menos 16 critérios para julgar o que o povo não pode ver: um para cada censor. Além da orientação geral de Romero do Lago, através das portarias que vai baixando.

Serviço de Censura de Diversões Públicas foi criado em 1946, dentro do Departamento Federal de Segurança Pública (hoje Departamento de Polícia Federal). Na mesma ocasião foi feito um regulamento de 136 artigos, onde só um - o "41" - fala dessas coisas que são proibidas: "Será negada a autorização sempre que a representação" exibição ou transmissão: a) contiver qualquer ofensa ao decoro público; b) contiver cenas de ferocidade ou for capaz de sugerir a prática de crimes; c) divulgar ou induzir aos maus costumes; d) for ofensiva à coletividade ou às religiões; e) puder prejudicar a cordialidade com outros povos; f) for capaz de provocar o incitamento contra o regime vigente, à ordem pública, às autoridades e seus agentes; g) ferir, por qualquer forma, a dignidade e o interesse nacional; h) induzir ao desprestigio das forças armadas."

São proibidas por lei, portanto, entre outras, cenas que ofendem o decoro público. Mas como até hoje ninguém definiu nem indicou quando o decoro público é ofendido, os censores usam, para julgar, a intuição e o bom senso pessoal.

BAIANO NÃO ENTENDE "O SILÊNCIO"?

Todo censor é a favor da censura: - Como é que aquela gente do interior da Bahia vai entender ou suportar um filme como O Silêncio, se não for cortado?

A frase é de Pedro José Chediak, que antecedeu Romero do Lago na chefia do departamento. O Silêncio, filme de Ingmar Bergman, premiado no mundo inteiro, saiu da censura brasileira com quatro cortes de cenas consideradas imorais: duas de relações sexuais, uma de masturbação e outra em que aparece um seio de mulher. Apesar de alguns dos censores admitirem que foram filmadas tão sutilmente que não chegavam a ferir o decoro público, Chediak foi categórico:

- O Silêncio não tem mensagem nenhuma, é vazio. O Ingmar Bergman fez fama e deitou na cama.

A VEZ DA SUBVERSÃO

Recentemente, o filme nacional Terra em Transe, de Glauber Rocha, foi submetido à censura, sendo inicialmente interditado por cinco votos contra um. Romero do Lago nem precisou ver o filme; examinou os pareceres e deu o veredicto:

- Realmente esse filme leva uma mensagem marxista de subversão da ordem.

José Vieira Madeira, o único censor que opinou por sua liberação, pensa diferente:

- O filme é pura ficção, que pode ter semelhança com o Brasil de hoje, mas pode ter também com outros países latino-americanos. É exagero dizer que o tirano do filme seja Castelo Branco e o Governador do Estado do Alecrim seja João Goulart.

Enquanto isso Terra em Transe era inscrito no Festival de Cannes, na França.

O recorde de cortes na censura é de um filme também nacional: Noite Vazia; de Walther Hugo Khouri. Cinco cenas foram cortadas - a considerada mais forte era aquela em que Norma Benguel e Odete Lara apareciam numa cama. Essa cena teve que ser exibida só com o começo e o fim, sem o meio.

Outro filme brasileiro, Canalha em Crise, só foi liberado dois anos e meio depois de sua entrada no departamento. Nesse período houve trocas na chefia e, quando a fita ia sendo liberada por uma equipe, Miguel Borges, o diretor, não concordava com os cortes e entrava com o recurso. De mudança em mudança, afinal, Canalha em Crise saiu de Brasília - depois de dois anos e meio - com duas cenas de sexo a menos, e ainda deixando os censores preocupados, porque é o bandido quem ganha no fim.

Mas acontecem coisas ainda mais estranhas: Katu no Mundo do Nudismo, liberado com alguns cortes, encontra-se em exibição. Enquanto isso, seu trailler_ está há vários meses aguardando liberação, pois chegou a Brasília atrasado.

Viva Maria, francês, foi liberado por acaso: tinha sido interditado pelos censores por ser considerado subversivo. Acontece que ao mesmo tempo o general Riograndino Kruel - então diretor do Departamento de Polícia Federal - via o filme em exibição especial e dava boas gargalhadas com as ''guerrilheiras'' Brigitte Bardot e Jeanne Moreau.

Quando soube da interdição, não achou graça nenhuma. Chefe do chefe da censura, mandou que Viva Maria fosse liberado.

Pode acontecer também que o público nem fique sabendo que certos filmes entram no Brasil. Delírio Noturno, japonês, foi devolvido pela censura para reexportação, por "imoral e antiestético''. Outros começam a passar e depois são apreendidos: Tentação Morena, mexicano, teve sua exibição interrompida em Belo Horizonte. Os distribuidores tinham esquecido de tirar daquela cópia uma cena cortada pela censura, em que a atriz Izabel Sarli toma banho num rio, completamente nua.

MAS NEM SÓ SEXO E SUBVERSÃO DÃO TRABALHO AOS CENSORES

- Crime com arma branca que tem sangue, eu corto - diz um dos homens do serviço.

005 contra o "strip-tease"

O ex-chefe Chediak baixou uma portaria - de número 005 - proibindo o strip-tease para todo o território nacional. Romero do Lago derrubou essa portaria. Agora o strip-tease não é mais proibido, desde que as câmaras estejam a mais de cinco metros do objetivo. Isso é o que diz a nova portaria, que assim exige um requisito a mais dos censores: golpe de vista.

Além dessa liberalidade, Romero do Lago juntou uma importante inovação ao Serviço de Censura de Diversões Públicas:

- O SCDP -diz ele - concederá certificados especiais de censura cinematográfica a filmes considerados de valor educativo, para exibição em entidades culturais, onde entidade cultural é definida como universidade, cinemateca, fundação cultural ou cineclube filiado à Associação Brasileira de Cinema de Arte.

Veridiana, de Luiz Bunel, foi o primeiro a obter essa categoria de filme de valor educativo" tendo sido liberado integralmente" com a condição de não ser exibido comercialmente. Antes da portaria, o filme fora censurado e cortada uma cena em que um grupo de mendigos se banqueteia numa mesa com talheres finíssimos, num salão medieval, durante a ausência dos donos da casa. A cena é uma paródia da passagem bíblica pintada por Leonardo Da Vinci.

Augusto da Costa, o ex-beque da seleção, afirma:

- É uma tentativa de ridicularizar a Santa Ceia, e o filme é anticlerical.

Antônio Fernandes de Sylos, um dos censores, está com o beque:

- E quem é que garante que não é mesmo a Santa Ceia?

PROIBIDO PARA CENSORES

Extraconjugal, filme italiano com quatro histórias, entrou na censura normalmente. A última das histórias deu um susto nos censores: era forte demais. Resolveram interditar a fita a não ser que aquele episódio fosse eliminado.

Os distribuidores entraram com recurso, pedindo reexame. Extraconjugal foi revisto e a censura acabou autorizando a emissão do certificado, mas proibindo o filme para menores até 21 anos. Assim, um brasileiro de 18 anos, pode ser eleitor, funcionário público (e até censor), mas está proibido de ver a fita.

Não existe nenhuma lei, decreto ou portaria que permita proibir filmes em estágios fora dos níveis de 10, 14 e 18 anos. Uma vez ou outra, porém, há essas exceções: Dr. Jivago, de custo caríssimo, tinha sido proibido para menores até 18 anos. Os distribuidores, desesperados, apresentaram recurso. Resultado - foi proibido para menores até 16 anos. Afinal, o filme mostrava muita guerra, um herói que vivia feliz com a amante e.. o romance fora proibido em seu pais de origem, a Rússia.

Mas não são apenas essas as fórmulas de censura vigentes no Brasil. Cinemas de propriedade de padres e igrejas, principalmente nas cidades do interior, de vez em quando suspendem a exibição de algum filme, quando os gerentes foram enganados pelo titulo, na escolha do programa mensal.

Há pouco tempo, em Niterói, o governador do Estado do Rio, Jeremias Fontes, que é protestante, censurou a própria censura. Rasgou e jogou no lixo uma foto de mulher nua que encontrou emoldurada, carimbada censurado, enfeitando a mesa do chefe da censura estadual.

QUEM ESTÁ CONTRA A CENSURA

Nem todos, porém, pensam como o governador Jeremias Fontes. Entre os intelectuais brasileiros, por exemplo, será difícil encontrar-se alguém favorável à censura. Para Carlos Diegues, cineasta, diretor de Ganga Zumba e A Grande Cidade, "não deveria existir censura nenhuma". Esta é a sua opinião:

-- Sou contra qualquer tentativa de impedir a expressão livre de quem quer que seja.

Por outro lado compreendo os motivos pelos quais o Estado se protege através de instrumentos odiosos como o da censura: ele precisa se precaver contra as "doenças sociais", animadas, quase sempre, pelo livre pensamento condutor da opinião pública e da crítica. A censura moral encobre, no final das contas, a censura política. E é em nome desta que se faz a primeira. Para quem faz cinema (ou qualquer outra coisa) a presença da censura é asfixiante, estamos sempre medindo nossa possibilidade de enfrentá-la. A única maneira de conviver com ela, já que é impossível evitá-la, é lutar pela sua liberalização, tentar fazé-la progredir, para que possa se transformar num instrumento menos obscuro, como já é em tantos países do mundo. O melhor modo para se chegar a isso é estabelecer uma discussão da qual ela sairá, quase que fatalmente, mais moderna.

"SOU CONTRA QUALQUER TIPO DE CENSURA"

O jornalista, ensaísta e crítico literário Paulo Francis faz comparações entre o Brasil e os Estados Unidos:

- Sou contrário a qualquer tipo de censura: política, moral etc. É evidente que o excesso de liberdade pode acarretar alguns excessos anárquicos. Mas está provado, pela experiência de países como os Estados Unidos, que qualquer sociedade civilizada é perfeitamente capaz de absorver esses excessos sem nenhum prejuízo para a sua estrutura. Um bom exemplo é a peca Mac Bird, onde o presidente Johnson é explicitamente acusado de haver assassinado o presidente Kennedy. A peça não foi censurada, e o govêrno Johnson não caiu.

Isto é válido também para a censura dos livros ditos obscenos. No Brasil, em particular, a censura tem sido um fator de obscurantismo político e sexual. Um bom exemplo do primeiro caso foram as apreensões de livros no governo Castelo Branco; e, no segundo, as apreensões de livros como O Casamento e Fanny Hill. Uma sociedade que não pode ler a respeito de um ato fisiológico normal, como é o sexual, não está preparada para o desenvolvimento industrial e para a era da tecnologia.

"CRÍTICA SIM, CENSURA NÃO"

Josué Montelo, escritor e membro do Conselho Nacional de Cultura, também condena a censura:

- Só aceito como válida à obra de arte a censura feita em nome de princípios de ordem estética. E esta é exercida ou pelo artista - no momento da criação - ou pelo espectador, diante da obra realizada. Esta censura chama-se crítica e só interfere na criação por iniciativa de seu criador. Fora dai, a censura aparece numa faixa de ordem ética. Fala a moral onde deveria falar a estética. Ora, a obra de arte deve ser permanente, como mensagem humana, enquanto os princípios de ordem ética - onde a censura se baseia - variam com o tempo e as latitudes.

"O CENSOR VIVE ASSUSTADO"

O JURISTA EVARISTO DE MORAIS VÊ O PROBLEMA ASSIM:

- A censura, do ponto de vista jurídico, pouco se diferencia da censura do ponto de vista sociológico. Pois ela representa nada mais do que aquele controle social, difuso e inorganizado, mas formal e institucionalizado através de códigos, leis e tribunais e policias. Em qualquer país do mundo, a censura é sempre a defesa da ordem social e econômica constituída. Por isso mesmo, o govêrno - apesar de todas as criticas - prefere sempre a censura prévia, em lugar da exercida depois do fato consumado, com plena responsabilidade de seu autor. Com a censura prévia o que se procura é evitar que o público tenha conhecimento daquilo que poderá causar dano aos valores, interesses e crenças dos poderes constituídos. Infelizmente, salvo raras exceções, os censores vivem assustados e vêem atentados contra a ordem dominante por toda parte, mutilando as livres criações do espírito humano.

"ELA CRIA HIPÓCRITAS"

Napoleão Moniz Freire autor e atualmente do Departamento de Teatro da Guanabara, encerra a série de críticas:

- Há um perpétuo conflito, na marcha do mundo, entre o bem e o mal. Existe a idéia. Existe a liberdade de pensamento. Existe a liberdade de opinião, de exame e deliberação. A liberdade de expressão sofre, às vezes, censura. Acontece que, existindo a liberdade de pensamento e a de opinião, não será a censura que irá eliminar a idéia. Uma idéia só poderá ser eliminada quando voar e sofrer o embate da dignidade. Nunca será eliminada pela censura, que somente cria hipócritas.

Sunday, October 9, 2016

Flávio Cavalcanti X Fantástico - 1981 TV Bandeirantes Boa Noite Brasil

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 03/07/1983
Autor/Repórter: Maria Helena Dutra

AR CONDICIONADO PARA QUEM TEM FRIO
Fantástico. Junto a outras pessoas, fui testemunha de um momento certamente show da vida fornecido por Flávio Cavalcanti em seu programa na Bandeirantes. Em meio de um chorrilho de prêmios o apresentador disse mais ou menos a seguinte frase: ''E não se preocupe aquela senhora que me pediu cobertores por estar sentindo muito frio, pois querida você acaba de ganhar um ar condicionado."

Não se sabe a reação da até possivelmente agradecida senhora das neves. Mas é um flagrante que por mil palavras fala do tratamento tipo choque térmico que estes programas andam fazendo pelo Brasil. E com bastante audiência. Muito maior porém é o público que há 10 anos assiste à contrapartida global, embora sem prêmios, no Fantástico dominical com o mesmo jeito de mostrar uma fatia do mundo sempre envolta por sensacionalismo, atrações populares amparadas por gravadoras, muito exotismo e loucos de toda a parte, paranormalidade, testemunhos de especialistas sobre todas as coisas, principalmente médicas, e várias lições de moral. Esta receita, que em agosto completa uma década, é bem estudada no livro sobre televisão de Carlos Alberto M. Pereira e Ricardo Miranda, dentro da série sobre o esdrúxulo debate do que é Nacional e Popular na Cultura Brasileira, patrocinado em esquisita hora pela Funarte.

Sem nenhuma base concreta esta série não ajuda o nacional - e muito menos o popular. No caso da televisão, esta divisão fica ainda mais confusa, pois o estudo data de 1980 e os autores colocam o padrão Globo na classificação de sofisticado e todas as outras estações como se simples fossem. Mal sabiam eles que três anos mais tarde esta diferença não mais existiria, pois a campeã de audiência para competir e segurar o título colocou sob suas asas Chacrinha, Batalha dos Astros, Caso Verdade, Balão Mágico, A Festa é Nossa e, dentro em pouco, Domingo Bingo para competir com J. Silvestre, Programa Sílvio Santos, Povo na TV, Bozo, Reapertura e todos os sorteios da Bandeirantes. Enfim, farinha de um mesmo saco.

O antigo ingrediente Fantástico, porém, há muito já provava a semelhança com todas estas programações. Apenas o show da vida global disfarça até hoje seu jeito. Flávio Cavalcanti misturado com O Homem do Sapato Branco. Em lugar de um apresentador único cheio de carismas e truques, os locutores da casa bem-vestidos e impassíveis. À exceção do editorial, que de vez em quando volta, quando todos sorrisos, confiança e esperanças. No mais a mistura sempre bastante rápida de todos os supérfluos semanais. Exatamente o que necessita o sofrido espectador. Nas reportagens, causando todos os males, apenas muitos assaltantes, marginais, gente diferente e bem longe da normalidade da casa do espectador.

Mais distante ainda surgem as loucuras nacionais é internacionais. Tipo o sujeito que derruba trem com a unha ou pula de milhões de metros de altura armado apenas com sua fé. Um tipo de gracinha que a televisão adora mostrar e as pessoas as realizam só para aparecer na maquininha, num gasto de tempo e dinheiro que jamais condiz com o endividamento do país. Todos os milhares de exemplos disso poderiam ser colocados sob o rótulo "O que eu tenho com isso?", já que esta é a única reação de algum espectador ainda não anestesiado por esta carga de brigada pesada. Dentro deste rótulo também dava para incluir algumas entrevistas com pessoas contando suas experiências absolutamente pessoais e nada universais de vida.

Mas se tudo isso ainda poderia, com muito boa vontade, ser incluído no indolor, nenhuma paciência resta para as denúncias. Matérias sobre menores abandonados, panacéias das mais variadas originadas de plantas ou químicos, tarados, pobres, roubos contra a economia popular, educação deficiente ou velhinhos desamparados são realizadas apenas contra o vento. É sempre a mesma coisa. O escândalo ou fato endêmico é mostrado com mazelas em todos os detalhes. Mas jamais a alguém cabe qualquer culpa ou leve responsabilidade. Autoridades e sistemas, no caso deste programa, são não apenas onipotentes, mas razão têm sempre.

De joelhos, porém, não pode ser enquadrado o noticiário diário, que muitas vezes agride o pastel-de-vento que o circunda. Nem o humor de Chico Anysio que persiste em dar nomes a bois, vaqueiros e aboios. No balanço, tudo muito pouco para fazer sucesso e cabeças par 10 anos. Mas fez. Vai ver é muito mais nacional e popular do que a gente pensa. Quem está no Brasil errado?

Antônio Maria - 1968

Revista Veja - 11/09/1968


ANTÔNIO MARIA
Um motorista que veio de Lisboa divide os portuguêses do Brasil

Os portuguêses que moram no Rio, em São Paulo, Minas e no Rio Grande do Sul estão divididos por causa de um motorista particular, de nome Antônio Maria e bigodes grandes, que toda noite aparece nos vídeos. A telenovela "Antônio Maria", das Associadas, está tendo muito sucesso nos quatro Estados em que é programada, mas há portuguêses que se queixam - e até brasileiros de origem portuguêsa. Por exemplo Alves Pinheiro, brasileiro, lusófilo, diretor do jornal "Mundo Português" do Rio: "Antônio Maria não é a alma do povo no coração de um homem, como sustenta a publicidade da telenovela, mas um tipo depreciativo, um português de anedota". Preocupado com críticas e protestos de patrícios, o Comendador Francisco Pereira Botelho, presidente da Federação das Associações Portuguêsas do Brasil, com sede no Rio, assistiu a alguns capítulos da telenovela. Achou criticáveis apenas o sotaque de Antônio Maria "e certos têrmos que um homem de sua categoria social raramente empregaria, como pois, pois". Há quem não se conforma com a profissão humilde de Antônio Maria. "Mas verifiquei", diz o Comendador Botelho, "que o môço, mesmo sendo empregado, é o mais digno, o mais culto e o mais querido da casa".

Tôda novela tem mistério - Nascido em Lisboa, Antônio Maria vem tentar a sorte no Brasil, onde se emprega como motorista particular na casa do Dr. Adalberto, dono de uma cadeia de supermercados de São Paulo. Logo ganha a confiança do patrão, que passa a tratá-lo como um amigo e lhe permite usar os automóveis da família nas horas de folga. E ganha mais: a amizade das filhas do Dr. Adalberto, que, naturalmente, se apaixonam por êle. Outro imigrante português, dono de uma panificadora, oferece-lhe sociedade, mas Antônio Maria, inexplicàvelmente, prefere continuar como empregado. Por que motivo Antônio Maria quer ficar na casa do Dr. Adalberto? Que vida êle levava em Portugal? Por que aceitou um emprêgo humilde sendo um moço de trato fino? Terá êle deixado alguma namorada em Lisboa? Enquanto os próximos capítulos não respondem a essas perguntas, o vice-cônsul de Portugal em São Paulo, também solicitado por queixas de patrícios, tenta uma previsão: "Tenho certeza de que no fim ficará eslcarecido que Antônio Maria é uma personalidade diferente, bem importante".

Um ator à procura do personagem - Para ser Antônio Maria, o ator Sérgio Cardoso (que ficou famoso no teatro interpretando "Hamlet") põe bigodes na hora de entrar em cena. Juntamente com Geraldo Vietri, autor e diretor da telenovela, Sérgio Cardoso conversou com dezenas de portuguêses de tôdas as categorias: desde o cônsul e o vice-cônsul de Portugal em São Paulo até donos de bares e armazéns, todos contribuíram para que seu personagem tivesse o vocabulário e o sotaque lisboetas. Antônio Maria chama automóvel de "máquina", terno de "fato", as môças de "meninas" e o patrão de "vossa excelência". Mas por causa do seu sotaque, não conseguiu melhor emprêgo que o de motorista. Várias vêzes na telenovela Antônio Maria repete uma denúncia: "Os portuguêses que chegam ao Brasil nunca encontram empregos compatíveis com seu grau de instrução". O Comendador Juliano Cancela, da Rocio Imobiliária S.A. (Rio), diz que isso pode ser verdade."Eu próprio cheguei ao Brasil com o curso ginasial completo e fui carregar sacos de arroz na rua Acre." Muitas personalidades de destaque na colônia lusa do País já passaram por esta provação. A telenovela não leva em conta que os critérios de seleção de imigrantes não prevêem a profissão de motorista. Mas, em Portugal, "dá-se um jeito", segundo o Itamarati: qualquer português pode alegar "reunião de família no Brasil". "Antônio Maria" terá duzentos capítulos; pode chegar a trezentos, se agradar muito.

Festival da Canção da Record - 1968

Revista: VEJA
Data de Publicação: 11/09/1968




FIGAS X VAIAS
Cantores invocam todos os santos quando o público é de festival

Num canto escuro do palco, parado numa perna só, Caetano Veloso observa o movimento. Tuca chora e treme, apertando a mão de todo mundo. Márcia acendeu uma vela no camarim, mas por segurança telefona para casa: "Mamãe, acenda uma vela para mim". Nos bastidores dos teatros e estúdios de televisão há sempre um desfile de manias, amuletos e superstições. Cynara e Cybele estão sempre remexendo na bôlsa em busca de um patuá, amuleto de couro costurado, que trouxeram da Bahia. E seguindo recomendação do seu pai-de-santo elas só vestem verde em suas apresentações de festival. Elis Regina também tem uma fôrmula parecida: "Repito na final o mesmo vestido com que ganhei a semifinal. Acaso ou não, dei sorte em dois festivais". Jair Rodrigues nunca sobe no palco sem antes plantar uma das famosas "bananeiras".

Coragem em doses - "Para enfrentar a platéia da TV Record tive que tomar três doses de conhaque", revela Nana Caymmi. Chico Buarque de Holanda bebe seu uísque em silêncio, praguejando contra o traje: detesta o "smoking". Maysa prefere vodca, Simonal uísque estrangeiro sem gêlo. Clementina de Jesus vermute. Caymmi e Vinícius de Morais continuam bebendo no próprio palco. Quem não acredita em amuletos e coisas do gênero é um pai-de-santo profissional: João da Baiana, sambista da velha guarda, não usa fórmulas mágicas: "Prefiro um bonito cravo vermelho na lapela".

Vaias famosas - Na opinião de muitos cantores, as vaias estimulam as superstições e as doses alcoólicas. Essas vaias são assunto mesmo fora do Brasil. O compositor amerciano Johnny Mandel (autor de "The Shadow of Your Smile") fêz parte do júri no último Festival Internacional da Canção no Maracanãnzinho e agora, evocando sua experiência carioca, grava nos Estados Unidos "As Vaias do Rio". A cantora negra Ella Fitzgerald, convidada para o próximo Festival, escreveu a Augusto Marzagão: "Preocupam-me as notícias que recebi sôbre artistas vaiados no Brasil".

CHACRINHA - 1968

Jornal/Revista: Manchete
Data de Publicação: 05/09/1968
Autor/Repórter: Ana Maria Rebouças


VOCÊS QUEREM BACALHAU?
Comunicação. A palavra tomou conta do mundo inteiro e uma verdadeira corria foi iniciada. Chacrinha mantém, com toda tranqüilidade, a liderança da disputa. O povo gosta dele e entra na onda com todo entusiasmo. O que acontece, paralelamente, nos bastidores dos programas é uma outra conversa. Uma loucura total, um corre-corre sem fim. E os personagens vão surgindo, de todos os tipos, até o caos. Pois todos querem, por vários motivos, participar, aparecer. Querem o seu momento de glória, não importa como. E as histórias se sucedem, as situações mais absurdas vão sendo criadas.

A mulher que tem a maior cabeleira do Brasil se agita toda, numa espécie de dança-de-são-guido ritmada. A galinha que dá cambalhotas, saracoteia pelo palco enquanto os anõezinhos circunspectos, que querem um sindicato, tentam desesperadamente fazer um discurso. Depois do black-power espera-se o mini-power. Nelson Ned, acompanhado de toda a família, inclusive o papagaio e o violão de estimação, entoa uma canção para as delicias do auditório, ávido de ternura enlatada. Os cameramen correm de um lado para o outro, fazendo milagres para não focalizar o senhor distinto que pulou no palco e quer dar um beliscão na pernoca da chacrete. Um português nervosinho esquece as armas e os barões assinalados e dá broncas camonianas na fila irrequieta de calouros. No auditório, o operário nordestino paquera abertamente a doméstica do Encantado, enquanto um grupo de colegiais de uniforme balança faixas e berra gritos de guerra de dois em dois minutos. Um calouro furibundo tenta furar o cerco e invadir o palco, brandindo um jornal. Na primeira página, em manchete, sua foto e a legenda: Waldick Soriano Me Deu o Beiço. O lusíada, irritado, tenta conter o homem, que a essa altura berra mais que o cantor focalizado: Eu não sou calouro coisa nenhuma, me disfarcei para vir aqui e mostrar ao público quem é Waldick Soriano. Dou nele! Na platéia, não resistindo ao excesso de calor humano, uma fanzoca desmaia e tem de ser levada para o pronto-socorro (voltou assim que conseguiu abrir o olho). Diante dos refletores, a irmã de caridade conta como vendeu mil jornais na Rodoviária, enquanto distribui santinhos. Comandando tudo isso, rei do pequeno território que vai dos bastidores à platéia, passando pelo palco, Abelardo Chacrinha Barbosa vive a inconseqüência de sua Passárgada e, no fim do programa, acaba contraparente da nora que nunca teve.

O MEIO É A MENSAGEM

Alô, seu Noronha, já tomou vergonha? Alô, dona Maria, vai ficar para titia? Vocês querem bacalhau? Alô, gatinhas, alô, bodes, alô, cachorrões! E vários outros alôs!

Para criar toda essa confusão e dar ao público a oportunidade de irromper num acesso de miados, balidos e latidos de fundir a cuca de qualquer zoólogo, gasta-se, toda a semana, uma verba de 13 milhões, 8 milhões na quarta feira, com A Discoteca, e 5 no domingo, com A Buzina. A Discoteca sai mais caro, porque o prato forte são os artistas das paradas de sucesso que ganham cachês altos e viajam de lá para cá de Caravelle. Calouro sai de graça e garota bonita, para mostrar as pernas em concurso, por qualquer 50 cruzeiros se arranja por isso, no domingo, eles só gastam um pouco mais para pagar os prêmios.

Aliás, uma das mais importantes tarefas da equipe que trabalha para o Chacrinha é fica bolando cada semana novas apelações que dêem IBOPE: O que dá mais? Os soluços angustiados ou as declarações do morto-vivo do Espirito Santo? Isso se decide numas salas de pré-fabricado, armadas no terraço da TV-Globo, onde os papas da comunicação dão o que podem e o que não podem para saber quem vende mais. O mito Chacrinha é resultante das bolações da equipe. Desde suas caretas até suas fantasias, tudo é decidido em conjunto, num esforço coletivo que exige sangue, suor e lágrimas. Afinal de contas, tempo é dinheiro e eles são muito bem pagos para pensar. Perguntei: -Vocês têm tempo para vida particular? Eles me apontam a moreninha que entra e vai falar com o rapaz da mesa em frente. É a noiva dele. Quando a saudade aperta, ela vem aqui bater um papinho.

A flexibilidade da produção é grande, porque, além dos funcionários da TV Globo que trabalham na sua equipe, o Chacrinha ainda dispõe de assessores particulares. Uma parte da equipe se dedica à Discoteca, outra é responsável pela Buzina. Nalígia, simpaticíssima mulata, está com o Chacrinha há muito tempo. Sua marca registrada são os óculos enormes, cada dia com lentes de cor diferente. Parece que passa o tempo todo na base da ponte-aérea, caçando aquele cantor que vai dar IBOPE se cantar nessa quarta-feira, e fugindo daquele que quer cantar mas não dá pé. Vou ver se encaixo você na semana que vem ou talvez na outra, tá bem, querido? A regra é não dizer não definitivamente, nunca se sabe se aquele cara vai Estourar no Norte no dia seguinte! Portanto, calma.

O Ferreira, PUBLIC-RELATION, é o tal, capaz de fazer um Bonzo aceitar o convite para ser júri do concurso das mais lindas pernas do Brasil. Aliás, a barra fica pesada, quando se trata de escolher os jurados que vão julgar os candidatos ao trono de qualquer coisa.

O baixinho eficientíssimo - Achei! O Kiko, da novela! Ótimo para julgar a estudante mais bonita do Brasil.

Chacrinha: - Kiko! Quem é Kiko? Assim ninguém vai acreditar no meu concurso! A gente precisa de gente de gabarito, que enalteça o concurso.

O baixinho sabe o que diz:- O Kiko é ídolo dessas garotas. Ainda mais, tem a mesma idade que elas!

Chacrinha: - Um menino! Este é um concurso de âmbito nacional. Tem que ser alguém de responsabilidade!

Afinal, no dia da eleição da mais bonita estudante do Brasil, coube ao Secretário de Turismo, o Sr. Levy Neves, dar o cunho de responsabilidade a uma mesa de jurados que começava por Luiz Jasmim e ia parar em Tony Tornado, uma beleza.

Antes de qualquer outro talento, a equipe do Chacrinha tem que aprender a andar na corda bamba. Qualquer mancada, e pode rolar a cabeça de um. Houve um calouro que, inconformado de ter sido excluído pela equipe no dia da seleção, saiu de lá e foi cantar debaixo da janela do Chacrinha. Agradou e a equipe quase foi despedida por incompetência. No dia do programa, na hora da apresentação, a voz que tinha encantado o Chacrinha emudeceu de nervoso. A equipe quase foi despedida de novo. É uma corda bamba!

Por essas e outras, eles dizem que, se metade da semana ficam bolando tarefas do arco-da-velha para alguém realizar, a outra metade da semana ficam rezando para essa pessoa conseguir, senão... cadê o dinheiro pro leite das crianças? É de fundir a cuca.

A principal preocupação da produção é o telespectador. Ao auditório, batatas, quero dizer, as bananas, o mocotó, o bacalhau. E, tome de chacrete, de calouro e de concurso, que o povo fica feliz.

QUEM NÃO REBOLA, SE ATOLA

A ordem é rebolar, e elas levam o negócio a sério. Samba, bolero, rumba, tango, valsa vienense, elas rebolam em qualquer ritmo. Não é mole ser chacrete. A fórmula é simples: pernas grossas, um pouquinho de pano (para a censura não chiar) e muita resistência para agüentar duas horas do mais frenético rebolado. Originalmente, parece que elas eram mocinhas afáveis e simpáticas. Depois, quando viraram notícia e passaram a ser procuradas por repórteres, fotógrafos e sociólogos, resolveram ter consciência de classe e ficaram difíceis de aturar. Entrevistar uma delas requer coragem e muita paciência, pois, se ela não estiver de bom humor, o repórter vai encontrar um arzinho de ai-que-coisa-chata-ser-sexy e o tradicional passa-amanhã. Dizem que ficaram assim depois que os velhos babões da vida as transformaram em símbolos eróticos. A verdade é que em cada programa há uma meia dúzia de cavalheiros aposentados gastando toda a pensão em flores e cartãozinhos galantes. Seguindo a lógica da oferta e da procura, é muito compreensível que as chacretes tenham resolvido dar uma esnobada.

Sua função no programa é de pau-para-tôda-obra. Rebolam para desviar a atenção do público da mediocridade que está cantando, buscam os calouros nos bastidores e os entregam nas mãos do Chacrinha, levam os buzinados para fora e os aprovados para o trono (É ele? Vai ou não vai para o trono?) e fazem mágicas para encaixar a coroa no estranho emaranhado de cachos e laquê das cantoras vitoriosas. A coreografia não importa muito, o que importa é não parar nunca. Por isso, cada uma rebola como bem entende. Mas, cada uma tem a sua especialidade: ninguém segura a ruivinha no iê-iê-iê; quando o negócio é samba, a mulata descasca e dá olé. Elas só perdem mesmo para o Chacrinha, que dá umbigadas em qualquer ritmo. A gente nota que elas têm um certo desprezo pelos calouros. Para muitas, conduzir pelo braço o pretendente a ídolo é um grande sacrifício. Deve ser mesmo. Cada um daqueles calouros, em seu lamê falsificado ou seu terninho, deve lembrar-lhes os outros dias-sem-fama-e-sem-rebolado que elas gostariam muito de esquecer.

POR UM LUGAR AO SOL

- Quem precisa de acompanhamento é procissão e entêrro. Microfone,meu chapa, é pra deputado ou líder estudantil. Vai abrindo o bico e dando o seu recado, que a gente vê e dá para encaixar você desta vez no programa. É a quarta, quinta vez em que ele mata trabalho, sai de casa ao meio-dia, pega trem, pega um ônibus, depois outro, enfrenta a fila de inscrição, enfrenta as broncas do Marrom, o crioulão com jeito de feitor que mantém a ordem na fila, enfrenta as gozações da equipe, que para passar cinco horas selecionando caIouros tem mesmo que arranjar qualquer coisa com que se divertir.

Um metro e cinqüenta e cinco, óculos de ladrão, camisa vermelha, cabelo comprido oxigenado (Diocil da Silva, às suas ordens, mas pode me chamar de Reginaldo) está no seu dia de glória. Cansaço, fome, humilhações, nada diminui o seu entusiasmo. Depois que ele aparecer na televisão não vai haver doméstica que lhe resista!

- O melhor calouro é desse tipo: convencido, pretensioso. Quanto mais se acreditar um artista, quanto mais cara-de-pau tiver, melhor é. Esse tipo nós sempre classificamos, tenha ou não tenha boa voz. É delicioso quando um cara destes leva uma buzinada.

- Não é a equipe do Chacrinha que é sádica. Sádico é o público que ela tem que divertir. Por isso, 70% dos calouros que eles selecionam são fracos. Teve aquele que, quando o maestro, no ensaio, disse:

- Você ai, está cantando muito alto, abaixa - referindo-se ao tom -, o cara tomou ao pé da letra e se abaixou. Cantou de joelhos!

Os outros calouros não podem nem se relaxar gozando a caveira do companheiro que dá mancada, que lá vem bronca. Ora essa, deboche não vale. Mas ninguém liga. Quem está neste barco está para tudo: aplausos ou chacotas. Quer é aparecer. Como aquele que, quando os outros calouros foram bronqueados por estar rindo dele, disse, humilde:

- Deixa, podem rir de mim que não me importo; já fui palhaço de circo.

Cantar não é o único talento desses artistas incompreendidos, se a voz não dá pé, na semana seguinte ele volta como compositor e, se não agradar, ele volta para sapatear. Por um minuto na glória dos refletores, ele se candidata até a comer caco de vidro. É comovente como podem viver só de esperança.

E que não se pense que isso são loucuras-da-mocidade-depois-endireita. Mesmo que a maioria seja de vinte anos, tá assim de velho de sessenta, louco para ser buzinado pelo Chacrinha. Neste dia se apresenta para a seleção um que achava que podia fazer a festa sozinho: muito malandrinho, na flor dos seus cinqüenta e oito anos, terno branco e gravata borboleta, olhar de tango:

- Pois é, eu canto pra esquentar os corações das moças; eu danço iê-iê-iê, eu faço umas brincadeiras, mas sem machucar ninguém.

Coitado. Desafinado e enferrujado, vai fazer uma brincadeira com um bamba da capoeira, leva uma banda de saída e é ele que acaba se machucando.

No domingo seguinte, às duas da tarde, estão lá os dez classificados, enfarpelados em seus terninhos os mais tímidos, os mais exuberantes em alguma indumentária prafrentex. Essencial e não esquecer as meias, se não quiserem ser fulminados pelo leão-de-chácara. Ensaiam, suam, ensurdecem com os berros da equipe, impacientes (não é para menos), rezam, fumam e até tomam alguns golinhos, escondido, para criar coragem e ir em frente.

Tudo está em jogo: o futuro, a carreira artística, a conta do armazém, o coração da amada. Mas, depois de tanta mão-de-obra e tanta esperança, a maioria deles sobra.

- Você fica para domingo que vem.

Dois entraram para ser buzinados, dois para disputar realmente. As cartas são marcadas: -É esse? ' É esse?

O auditório urra, deliciado e o calouro que berrou mais vai para o trono. Já se esboça uma certa profissionalização entre os calouros. E aquele que ganhou no Chacrinha foi cantar no Sílvio Santos e volta depois ao Chacrinha. Ganha sempre.

CONCURSO, PRA QUE TE QUERO?

Programa de auditório sem concurso é o mesmo que casamento na roça sem foguete. O Chacrinha sabe disso melhor do que ninguém. Há concursos de todos os tipos: quem dá a gargalhada mais engraçada, quem tem a perna mais bonita, a cabeleira mais comprida, o galo que canta primeiro, quem anda melhor de patinete, quem faz a melhor frase sobre a Transamazônica, etc. Cada um tem sua fauna própria. As candidatas a mais bonita estudante do Brasil são completamente diferentes das moças que disputam a coroa das praias cariocas, e assim por diante. As mães, porém, são todas iguais. Que nem mãe de miss, ficam dando pulinhos nos vestiários, e suspirando: - Ai, meu Deus, se eu tivesse podido, no meu tempo... Mas minha filha...

Como a promissora carreira artística de todas elas foi cortada por um nefasto casamento (hoje só são artistas do fogão), transferiram para as filhas a responsabilidade de viver seus sonhos. Empurrada pela mãe, a candidata de hoje ao título de qualquer coisa mais do Brasil foi o sucesso de anteontem no Clube do Guri Todas elas ainda sabem cantar Ai Lili, ai lô, na perfeição!

Mas sempre tem umas que chegam lá com outras motivações: Suzete, do Méier, 18 anos, precisa de dinheiro e não consegue trabalhar porque, em todos os empregos que arranja, os patrões tentam agarrá-la. O primeiro conseguiu e é só para o filhinho, que resultou disso, que Suzete precisa tanto de dinheiro. Agora Suzete está mais esperta e veio servir de manequim no concurso da melhor costureira, o que parece ser uma coisa menos perigosa. Ela é tão bonita e tem um jeitinho tão meigo que a costureira disse que se o seu vestido ganhasse, dava o prêmio todo para ela. Eu também estava torcendo por Suzete, mas naquela noite o prêmio ficou com a moreninha de cabelos escorridos que desfilou um maxi-arco-íris. Que não ganhou sozinha. Uma loura alta, com uma classe sensacional, conseguiu empatar o concurso, sem que o Chacrinha entendesse por quê (em seus programas as moreninhas sempre ganham ). Acontece que a moça se chamava simplesmente Vera Barreto Leite, o mais famoso manequim do Brasil. Sem alcançar o significado disso, o Chacrinha, furioso, gritava que lá estavam julgando o melhor vestido e não o melhor manequim. Foi assim que o auditório do Chacrinha vaiou o manequim que sempre arrancou aplausos das platéias mais exigentes do mundo inteiro. Vera estava lá para ajudar sua costureira, uma moça muito simples e que precisa muito. Se a outra concorrente não fosse moreninha, e não usasse vestido cor de arco-íris. Vera levava sozinha o prêmio para sua costureira.

Mas a sensação da noite é o concurso da rainha das praias cariocas. Meia hora antes do programa ir para o ar, as candidatas, coitadas, já estão suando debaixo dos refletores: a secretária do Chacrinha tenta ensiná-las a desfilar. Mas é duro, desiste e resolve ensinar um manequim elegante a ficar parado:

- Assim, o pé esquerdo um pouquinho mais para a frente, apontando bem para a esquerda. Pronto, há oito estátuas pregadas no chão. E agora, as mãos, ninguém sabe o que fazer das mãos. Como último recurso, acabam todas em posição de sentido.

A equipe do Chacrinha está desesperada: o nível das candidatas é realmente muito baixo. Enfim, perna de fora acaba sempre dando IBOPE. Tem gosto para todo tipo de perna e ali tem perna para todos os gostos: bonita, gorda, fina, torta, com celulite e joelhos pontudos, o caos.

Quem está na sua, confiante na candidata que trouxe, é Ricardo:

- Carla (ou Karla) é uma parada. Vai tirar todas essas aí de letra.

Ele dirige uma agência de modelos que supre o programa do Chacrinha, como supre outros concursos, desfiles e outras badalações no gênero. Ele gosta de falar e é dos tais que dão entrevista sem a gente pedir:

- Eu também sou advogado e tenho uma financeira. Mas a agência dá mais. Hoje, por exemplo, estou ganhando Cr$ 50,00 p/garota que trouxe. A elas não pago nada, nem faço contrato. Elas ganham dos promotores dos concursos dos desfiles e, além do mais, badalam, ficam conhecidas, recebem convites. Vale a pena, não vale, Carla?

A PROVÁVEL RAINHA DAS PRAIAS, UMA MOÇA MUITO RELATIVA

Ela tem um rosto lindo de anjo suburbano e é boazudissima. 18 anos, mas aparenta mais. Sorri, cheia de promessas pra ele, como, aliás, sorri cheia de promessas para todo mundo.

- O que eu gosto de fazer? . . . Praia, boate . . essas coisas. É muito relativo... Casar? Não sei, talvez mais tarde... é muito relativo... se eu encontrar aquele homem, aí eu vou gostar provavelmente de ser dona de casa, varrer, espanar... Trabalhar fora é muito relativo, pode ser... se aparecer coisa interessante... acho que prefiro mesmo casar... por enquanto estou na minha, né, não estudo, não trabalho, não faço nada... Vivo, né? Moro com minhas irmãs, em Copacabana. Meus pais? Ah, me dou muito bem com eles, adoro eles, mas eles moram em Petrópolis... Bem quadrados, não queria que fossem diferentes, me dou mesmo muito bem com eles (está aflita para ver se eu acredito). Minhas irmãs também não trabalham... bem, só de vez em quando. Agora uma delas vai ser lançada como cantora, sabe? Namorado? Nada sério. Livros? Não. Politica? Isso é muito relativo. Nunca pensei muito... dizem que a democracia é o melhor regime. Eu, francamente, não me importo muito com o que esteja acontecendo, desde que eu possa levar a vida que quero... É o que penso, né?

Ela sublinha cada frase com um sorriso encantador. Palmas que ela merece. Desse jeito, Carla vai ganhar todos os concursos de rainha da praia, mesmo que seu reinado seja muito relativo. Mas ela acha ótimo.

WOODSTOCK TROPICAL

- Não me importa que a mula manque, eu quero é rosetar.

A frase de marchinha é o lema perfeito para o auditório dos programas do Chacrinha. Todos vão com um único objetivo: se divertir ao máximo. E como se divertem! A doméstica esquece o fogão e as panelas e tem sua noite de Vanderléia: canta e dança no fundo do auditório, alucinando o crioulo que aproveita para conversar. Juntando o útil ao agradável, dona Maria, moradora do bairro de Madureira, levanta as mãos ávidas sempre que ouve falar em bacalhau. A entrada de Waldick Soriano (que estourou no Norte. Boom!) deixa a mulatinha de mini-saia às portas de um ataque histérico. Ela dá cambalhotas na cadeira, faz o que pode para chamar sua atenção, mas ele continua a mastigar seu bolero, entrincheirado atrás de fantásticos óculos escuros, que só vendo se acredita.

O auditório do Chacrinha vive em clima de festival. Tanto faz se for Woodstock ou festival da cerveja. Todos, sem exceção vibram o tempo todo, aproveitando qualquer deixa para rir e se sacudir. Todos, desde as fanzoca - segunda geração de macacas de auditório - aos hippies amigos da Baby Consuelo, para eles o programa do Chacrinha é melhor do que qualquer viagem.

Quanto à fanzoca segunda geração, esta é individualista, nem pensa em se organizar en clubes como sua mamãe. (Aliás, organização em ritmo de festival é furado, todo mundo sabe. ) Para elas o importante é a curtição Estão na sua. Ainda encontrei uma garota de 15 anos que economiza seu salário de babá para mandar rosas a Vanderléia.

- Estão por Cr$ 50,00, sabe? - Mas é um exemplo isolado.

O tipo mais comovente é o solitário, que espera o domingo para ir fazer uma sauna de calor humano. A gente conhece logo. Terno azul-marinho, impecável, caneta no bolsinho de fora para mostrar que sabe ler, óculos de tartaruga, preto, que nem embaixador dc Gana. Este não quis dizer o nome, mas, com sua cara de bedel do tempo do Império, só pode chamar-se Tibúrcio. Solteiro, 52 anos. Ficou nervoso quando foi entrevistado, enrolando mil vezes a gravata enquanto pensava cada resposta. Cantor preferido é o Nelson Ned e, quando pergunto por quê, responde com muita dignidade:

- A senhora sabe, além de ter boa voz, eu gosto dele porque ele representa um dos Estados do nosso querido Brasil (??? ) . Pois é, aqui na Guanabara nós somos assim, altos e fortes... Deve existir por ar algum Estado em que os habitantes sejam assim desse tamaninho, não é? O Brasil tem tantos Estados... ele deve ser de algum, por isso é que eu gosto dele!

O surrealismo da resposta fica por conta do ardor patriótico.

OS ELEMENTOS CONTRA O CHACRINHA

Segunda-feira, 6 horas da tarde. Todos já acordaram de sua viagem. A doméstica-cinderela, que foi para o trono no domingo já está de volta ao seu borralho. O calouro já devolveu o paletó de lamé e come de sua marmita fria, sentado entre os tabiques da obra. O solitário tem agora nas mãos um pedaço de papel que é e desamassa com carinho: é um número de telefone.

Enquanto isso, os comandantes se reúnem para fazer um balanço da batalha. Chacrinha, Napoleão dos auditórios, discute com seus assessores o programa da véspera. A pesquisa do IBOPE (quinhentos cruzeiros por semana) indica números menores que os esperados. Muito menores. O Chacrinha perdeu para o Flávio Cavalcanti!

- Mas, não é possível, o programa ontem estava sensacional! Nós tínhamos todos os trunfos!. . . Por quê? Por quê?. . .

Afinal, alguém descobre: foi a chuva. Quando chove, no subúrbio as televisões são desligadas porque seguro morreu de velho e ninguém quer receber um raio na sala de visitas. Nessas horas, o melhor é desligar tudo, queimar palha benta e rezar para Santa Bárbara. A audiência do Flávio se concentra na Zona Sul, onde a chuva não é capaz de provocar nenhum acesso de religiosidade. E eles ficam um pouco consolados em saber que o Chacrinha não perdeu para o Flávio, mas para a meteorologia, que não dá para prever.

Sunday, April 24, 2016

TV Mulher... zinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 13/04/1980
Autora: Maria Helena Dutra
INFORMAÇÃO É SEMPRE PROBLEMA

Para quem? Os primeiros programas da TV Mulher, de nove ao meio dia na Rede Globo, mostram o padrão de sempre, a produção cuidada, fluência entre seus múltiplos quadros e direção eficiente e profissional de Nilton Travesso. Todo um esforço dirigido, de acordo com os anúncios e entrevistas dos seus produtores, a mulher da classe média baixa porque os integrantes da Alta estão, neste horário, dormindo, trabalhando fora do lar ou levando e apanhando filhos em colégios, cursos, natação e tudo mais que a turma desta classe inventa para tirar a paz das crianças. Então seria urna apresentação diária planejada para concorrer e tirar público dos dominantes programas radiofônicos tipo Haroldo de Andrade e Cidinha Campos no Rio, e shows da manhã de São Paulo já que a TV Mulher é transmitida apenas para estes dois Estados. E para as suas habitantes mais tipicamente domésticas e caseiras.

Mesmo assim, complicou. É que toda a linguagem e a informação do programa é visivelmente sofisticada para este tipo de público. Os ensinamentos estéticos, jurídicos, educacionais e editoriais são finíssimos mas, me parece, muito pouco práticos. Fala-se de inflação sem dizer o que é isto e de cuidados extremamente caros para qualquer beleza. O apogeu desta linha é Panela no Fogo que trata de culinária.

Na estréia a imagem de belíssima frigideira e uma voz em off que dizia: Encha-a completamente com manteiga. Estão brincando. O pratinho tinha ainda molho de poisson, sem tradução, lagosta e uvas, daquelas bem pequenas, de casca cortada uma a uma. Delírio. Em outra edição, um cuscus paulista cujos ingredientes devem estar custando muito.

Será que é outro programa apenas para sonhar? A exceção ao onirismo vigente é Clodovil que se dirige mesmo às mulheres que não podem ser freguesas de seu atelier e revela também ser o único a ter senso de humor no programa inteiro. Abaixo da média, três registros: A péssima fôrma como entrevistadora da boa apresentadora Maria Gabriela, a educadora Fanny Abramovich que se balança tanto que chega a enjoar o fraco estomago matinal da espectadora e seus nés depois de cada três ,palavras e o final mentiroso mostrando mulheres gerindo toda a parte operacional de urna televisão ao mesmo tempo que os créditos , fixados em cima desta imagem, mostram a verdade. Apenas, entre 47 nomes da parte técnica, nove são femininos. Para elogio maior, a inclusão de cena da novela Pé de Vento, da Bandeirantes, entre os destaques diários da TV. Para piche total, reprisar também nesta produção uma novela. Será que não tem outras armas?

TV Mulher Faz Sucesso

O Globo
Data de Publicação: 13/04/1980

PUBLICITÁRIOS CUMPRIMENTAM ROBERTO MARINHO
Nosso companheiro Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, recebeu a seguinte carta da agência Alcântara Machado, Periscinoto Comunicações Ltda.: "Prezado Sr. Dr. Roberto Marinho, "Depois do incontestável sucesso do programa "Globo Rural", a gente se vê agradavelmente surpreendido com a enorme repercussão e o indiscutível êxito da "TV Mulher". "Isso vem provar de forma categórica, que a televisão até ontem considerada um veículo para divertir e alienar-se transformou, nas mãos dos mestres da Globo, numa verdadeira ferramenta de comunicação, que está prestando um utilíssimo e oportuno serviço para toda a comunidade. "Na verdade, estes dois programas, somados a outros da Globo, vem demonstrando que a televisão já está cumprindo o seu verdadeiro destino, deixando de ser um simples acessório nos lares, para se transformar num conselheiro, num orientador, num educador e sobretudo num grande amigo. "Por isso, os nossos maiores parabéns pela "TV Mulher". "E que novas e agradáveis surpresas idênticas continuem acontecendo. "Para isso, a Globo tem toda nossa torcida. "Cordialmente, Alex Periscinoto"

TV Mulher

 O Globo
Data de Publicação: 06/04/1980

AMANHA, NO AR, TV MULHER

Nesta segunda, estréia TV Mulher, um programa criado e produzido especialmente para você, com direção de Nilton Travesso e editoria de Rose Nogueira. Moda, decoração, comportamento sexual, debates, entrevistas, educação dos filhos, trabalho, estética, culinária, noticiário, prestação de serviços, direitos da mulher, tudo em linguagem simples e objetiva.

Diariamente, das 9 ao meio-dia de segunda a sexta, você vai conversa; com Marília Gabriela, Ney Gonçalves Dias, Fanny Abramovich, Clodovil, Malu Maia, Marilu Torres, Afanazio Jazadi, Ala Zerman, convidados especiais e muitas outras pessoas que estão presentes no dia a dia da mulher. Contribuindo para tornar sua vida mais prática, mais agradável.

EDITORIAL

Marilia Gabriela vai abrir o programa sempre com um assunto quente, do momento, que venha mobilizando a opinão pública.

NEY G. DIAS COMENTA

Os assuntos apresentados por Marília Gabriela serão comentados por Ney G. Dias, em linguagem simples e direta.

BOLSA DE MERCADORIAS

Os preços do dia de gêneros de primeira necessidade. Você pode programar melhor suas compras acompanhando a bolsa de mercadorias.

PANELA NO FOGO

Cozinheiros dos principais restaurantes da cidade vão ensinar a você pratos variados, do trivial aos mais sofisticados.

POLÍCIA

Informações úteis, noticiário policial, tudo que interessa à mulher dos grandes centros urbanos, preocupada com a segurança da sua família.

SPT- SERVIÇO DE PROTEÇÃO A TELESPECTADORA

Informações sobre o dia a dia de sua cidade de seu bairro. Como está o trânsito, locais en que há falta de luz, farmácias de plantão funcionamento de colégios.

SPT é um serviço que, além de informar, participa de soluções, como um elo entre o povo e as autoridades.

FLASH BACK

Una informação e outra, você vai relembrar os sucessos que todo mundo cantou, fatos e circunstâncias que marcaram aqueles momentos.

COMPORTAMENTO SEXUAL

A psicóloga Marta Suplicy vai esclarecer dúvidas, promover debates, abordar assuntos relacionados com o comportamento sexual do ser humano.

A MULHER NO MUNDO

Mulheres que são e fazem noticias, que determinam caminhos, modificam comportamentos. Um retrato diário do que faz e pensa a mulher moderna.

CLAQUETE

Os bastidores da TV. A informação sobre seu ídolo preferido. A vida profissional e pessoal dos artistas, do jeitinho que você gosta.

O DIREITO DA MULHER

Ney Gonçalves Dias, assessorado por advogados, está à sua disposição para explicar direitinho assuntos trabalhistas, divórcio, separação, pensão alimentícia, herança e todos os aspectos legais que definem seus direitos em casa e no trabalho.

ESTÉTICA

Receitas para tratamento de celulite, limpeza de pele, cabelo, saúde do corpo em geral. TV Mulher vai ajudar você diariamente a manter sua beleza.

O MELHOR DA TV _ _

Atitude inédita na televisão: você vai rever o melhor programa de televisão apresentado, no dia anterior, em qualquer emissora do país.

O QUE HÁ PRA CRIANÇA

A psicóloga Fanny Abramovich vai orientar você sobre uma melhor compreensão do temperamento e da personalidade de seus filhos.

CLODOVIL

Vestidos fáceis de fazer, aproveitamento de roupas velhas com um toque de novo, atualização do seu guarda-roupa. Clodovil vai deixar você elegante e bem vestida, de maneira prática e econômica.

PONTO DE ENCONTRO

A entrevista do dia. Depoimentos de mulheres que desenvolvem as mais diversas atividades profissionais. O lado pessoal e familiar de personalidades femininas que se destacaram na arte, na musica, na politica.

DICAS DE HOJE

Teatro, cinema, shows. O que está acontecendo na vida cultural e artística da cidade. Os bons programas.

PALAVRA DE MULHER

Aqui, áudio e vídeo estão à sua disposição. Você é parte integrante do programa, falando de seus anseios, dos problemas do dia a dia de seus relacionamentos, de sua vida.

SAÚDE DAS CRIANÇAS

As terças e quintas, pediatras de renome falarão sobre problemas de saúde que podem ser prevenidos e tratados em casa. Conselhos práticos sobre amamentação, higiene e limpeza pessoal, alimentação correta e informações que vão deixar você mais tranqüila com a saúde das crianças.

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