Sunday, October 9, 2016

Flávio Cavalcanti X Fantástico - 1981 TV Bandeirantes Boa Noite Brasil

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 03/07/1983
Autor/Repórter: Maria Helena Dutra

AR CONDICIONADO PARA QUEM TEM FRIO
Fantástico. Junto a outras pessoas, fui testemunha de um momento certamente show da vida fornecido por Flávio Cavalcanti em seu programa na Bandeirantes. Em meio de um chorrilho de prêmios o apresentador disse mais ou menos a seguinte frase: ''E não se preocupe aquela senhora que me pediu cobertores por estar sentindo muito frio, pois querida você acaba de ganhar um ar condicionado."

Não se sabe a reação da até possivelmente agradecida senhora das neves. Mas é um flagrante que por mil palavras fala do tratamento tipo choque térmico que estes programas andam fazendo pelo Brasil. E com bastante audiência. Muito maior porém é o público que há 10 anos assiste à contrapartida global, embora sem prêmios, no Fantástico dominical com o mesmo jeito de mostrar uma fatia do mundo sempre envolta por sensacionalismo, atrações populares amparadas por gravadoras, muito exotismo e loucos de toda a parte, paranormalidade, testemunhos de especialistas sobre todas as coisas, principalmente médicas, e várias lições de moral. Esta receita, que em agosto completa uma década, é bem estudada no livro sobre televisão de Carlos Alberto M. Pereira e Ricardo Miranda, dentro da série sobre o esdrúxulo debate do que é Nacional e Popular na Cultura Brasileira, patrocinado em esquisita hora pela Funarte.

Sem nenhuma base concreta esta série não ajuda o nacional - e muito menos o popular. No caso da televisão, esta divisão fica ainda mais confusa, pois o estudo data de 1980 e os autores colocam o padrão Globo na classificação de sofisticado e todas as outras estações como se simples fossem. Mal sabiam eles que três anos mais tarde esta diferença não mais existiria, pois a campeã de audiência para competir e segurar o título colocou sob suas asas Chacrinha, Batalha dos Astros, Caso Verdade, Balão Mágico, A Festa é Nossa e, dentro em pouco, Domingo Bingo para competir com J. Silvestre, Programa Sílvio Santos, Povo na TV, Bozo, Reapertura e todos os sorteios da Bandeirantes. Enfim, farinha de um mesmo saco.

O antigo ingrediente Fantástico, porém, há muito já provava a semelhança com todas estas programações. Apenas o show da vida global disfarça até hoje seu jeito. Flávio Cavalcanti misturado com O Homem do Sapato Branco. Em lugar de um apresentador único cheio de carismas e truques, os locutores da casa bem-vestidos e impassíveis. À exceção do editorial, que de vez em quando volta, quando todos sorrisos, confiança e esperanças. No mais a mistura sempre bastante rápida de todos os supérfluos semanais. Exatamente o que necessita o sofrido espectador. Nas reportagens, causando todos os males, apenas muitos assaltantes, marginais, gente diferente e bem longe da normalidade da casa do espectador.

Mais distante ainda surgem as loucuras nacionais é internacionais. Tipo o sujeito que derruba trem com a unha ou pula de milhões de metros de altura armado apenas com sua fé. Um tipo de gracinha que a televisão adora mostrar e as pessoas as realizam só para aparecer na maquininha, num gasto de tempo e dinheiro que jamais condiz com o endividamento do país. Todos os milhares de exemplos disso poderiam ser colocados sob o rótulo "O que eu tenho com isso?", já que esta é a única reação de algum espectador ainda não anestesiado por esta carga de brigada pesada. Dentro deste rótulo também dava para incluir algumas entrevistas com pessoas contando suas experiências absolutamente pessoais e nada universais de vida.

Mas se tudo isso ainda poderia, com muito boa vontade, ser incluído no indolor, nenhuma paciência resta para as denúncias. Matérias sobre menores abandonados, panacéias das mais variadas originadas de plantas ou químicos, tarados, pobres, roubos contra a economia popular, educação deficiente ou velhinhos desamparados são realizadas apenas contra o vento. É sempre a mesma coisa. O escândalo ou fato endêmico é mostrado com mazelas em todos os detalhes. Mas jamais a alguém cabe qualquer culpa ou leve responsabilidade. Autoridades e sistemas, no caso deste programa, são não apenas onipotentes, mas razão têm sempre.

De joelhos, porém, não pode ser enquadrado o noticiário diário, que muitas vezes agride o pastel-de-vento que o circunda. Nem o humor de Chico Anysio que persiste em dar nomes a bois, vaqueiros e aboios. No balanço, tudo muito pouco para fazer sucesso e cabeças par 10 anos. Mas fez. Vai ver é muito mais nacional e popular do que a gente pensa. Quem está no Brasil errado?

Antônio Maria - 1968

Revista Veja - 11/09/1968


ANTÔNIO MARIA
Um motorista que veio de Lisboa divide os portuguêses do Brasil

Os portuguêses que moram no Rio, em São Paulo, Minas e no Rio Grande do Sul estão divididos por causa de um motorista particular, de nome Antônio Maria e bigodes grandes, que toda noite aparece nos vídeos. A telenovela "Antônio Maria", das Associadas, está tendo muito sucesso nos quatro Estados em que é programada, mas há portuguêses que se queixam - e até brasileiros de origem portuguêsa. Por exemplo Alves Pinheiro, brasileiro, lusófilo, diretor do jornal "Mundo Português" do Rio: "Antônio Maria não é a alma do povo no coração de um homem, como sustenta a publicidade da telenovela, mas um tipo depreciativo, um português de anedota". Preocupado com críticas e protestos de patrícios, o Comendador Francisco Pereira Botelho, presidente da Federação das Associações Portuguêsas do Brasil, com sede no Rio, assistiu a alguns capítulos da telenovela. Achou criticáveis apenas o sotaque de Antônio Maria "e certos têrmos que um homem de sua categoria social raramente empregaria, como pois, pois". Há quem não se conforma com a profissão humilde de Antônio Maria. "Mas verifiquei", diz o Comendador Botelho, "que o môço, mesmo sendo empregado, é o mais digno, o mais culto e o mais querido da casa".

Tôda novela tem mistério - Nascido em Lisboa, Antônio Maria vem tentar a sorte no Brasil, onde se emprega como motorista particular na casa do Dr. Adalberto, dono de uma cadeia de supermercados de São Paulo. Logo ganha a confiança do patrão, que passa a tratá-lo como um amigo e lhe permite usar os automóveis da família nas horas de folga. E ganha mais: a amizade das filhas do Dr. Adalberto, que, naturalmente, se apaixonam por êle. Outro imigrante português, dono de uma panificadora, oferece-lhe sociedade, mas Antônio Maria, inexplicàvelmente, prefere continuar como empregado. Por que motivo Antônio Maria quer ficar na casa do Dr. Adalberto? Que vida êle levava em Portugal? Por que aceitou um emprêgo humilde sendo um moço de trato fino? Terá êle deixado alguma namorada em Lisboa? Enquanto os próximos capítulos não respondem a essas perguntas, o vice-cônsul de Portugal em São Paulo, também solicitado por queixas de patrícios, tenta uma previsão: "Tenho certeza de que no fim ficará eslcarecido que Antônio Maria é uma personalidade diferente, bem importante".

Um ator à procura do personagem - Para ser Antônio Maria, o ator Sérgio Cardoso (que ficou famoso no teatro interpretando "Hamlet") põe bigodes na hora de entrar em cena. Juntamente com Geraldo Vietri, autor e diretor da telenovela, Sérgio Cardoso conversou com dezenas de portuguêses de tôdas as categorias: desde o cônsul e o vice-cônsul de Portugal em São Paulo até donos de bares e armazéns, todos contribuíram para que seu personagem tivesse o vocabulário e o sotaque lisboetas. Antônio Maria chama automóvel de "máquina", terno de "fato", as môças de "meninas" e o patrão de "vossa excelência". Mas por causa do seu sotaque, não conseguiu melhor emprêgo que o de motorista. Várias vêzes na telenovela Antônio Maria repete uma denúncia: "Os portuguêses que chegam ao Brasil nunca encontram empregos compatíveis com seu grau de instrução". O Comendador Juliano Cancela, da Rocio Imobiliária S.A. (Rio), diz que isso pode ser verdade."Eu próprio cheguei ao Brasil com o curso ginasial completo e fui carregar sacos de arroz na rua Acre." Muitas personalidades de destaque na colônia lusa do País já passaram por esta provação. A telenovela não leva em conta que os critérios de seleção de imigrantes não prevêem a profissão de motorista. Mas, em Portugal, "dá-se um jeito", segundo o Itamarati: qualquer português pode alegar "reunião de família no Brasil". "Antônio Maria" terá duzentos capítulos; pode chegar a trezentos, se agradar muito.

Festival da Canção da Record - 1968

Revista: VEJA
Data de Publicação: 11/09/1968




FIGAS X VAIAS
Cantores invocam todos os santos quando o público é de festival

Num canto escuro do palco, parado numa perna só, Caetano Veloso observa o movimento. Tuca chora e treme, apertando a mão de todo mundo. Márcia acendeu uma vela no camarim, mas por segurança telefona para casa: "Mamãe, acenda uma vela para mim". Nos bastidores dos teatros e estúdios de televisão há sempre um desfile de manias, amuletos e superstições. Cynara e Cybele estão sempre remexendo na bôlsa em busca de um patuá, amuleto de couro costurado, que trouxeram da Bahia. E seguindo recomendação do seu pai-de-santo elas só vestem verde em suas apresentações de festival. Elis Regina também tem uma fôrmula parecida: "Repito na final o mesmo vestido com que ganhei a semifinal. Acaso ou não, dei sorte em dois festivais". Jair Rodrigues nunca sobe no palco sem antes plantar uma das famosas "bananeiras".

Coragem em doses - "Para enfrentar a platéia da TV Record tive que tomar três doses de conhaque", revela Nana Caymmi. Chico Buarque de Holanda bebe seu uísque em silêncio, praguejando contra o traje: detesta o "smoking". Maysa prefere vodca, Simonal uísque estrangeiro sem gêlo. Clementina de Jesus vermute. Caymmi e Vinícius de Morais continuam bebendo no próprio palco. Quem não acredita em amuletos e coisas do gênero é um pai-de-santo profissional: João da Baiana, sambista da velha guarda, não usa fórmulas mágicas: "Prefiro um bonito cravo vermelho na lapela".

Vaias famosas - Na opinião de muitos cantores, as vaias estimulam as superstições e as doses alcoólicas. Essas vaias são assunto mesmo fora do Brasil. O compositor amerciano Johnny Mandel (autor de "The Shadow of Your Smile") fêz parte do júri no último Festival Internacional da Canção no Maracanãnzinho e agora, evocando sua experiência carioca, grava nos Estados Unidos "As Vaias do Rio". A cantora negra Ella Fitzgerald, convidada para o próximo Festival, escreveu a Augusto Marzagão: "Preocupam-me as notícias que recebi sôbre artistas vaiados no Brasil".

CHACRINHA - 1968

Jornal/Revista: Manchete
Data de Publicação: 05/09/1968
Autor/Repórter: Ana Maria Rebouças


VOCÊS QUEREM BACALHAU?
Comunicação. A palavra tomou conta do mundo inteiro e uma verdadeira corria foi iniciada. Chacrinha mantém, com toda tranqüilidade, a liderança da disputa. O povo gosta dele e entra na onda com todo entusiasmo. O que acontece, paralelamente, nos bastidores dos programas é uma outra conversa. Uma loucura total, um corre-corre sem fim. E os personagens vão surgindo, de todos os tipos, até o caos. Pois todos querem, por vários motivos, participar, aparecer. Querem o seu momento de glória, não importa como. E as histórias se sucedem, as situações mais absurdas vão sendo criadas.

A mulher que tem a maior cabeleira do Brasil se agita toda, numa espécie de dança-de-são-guido ritmada. A galinha que dá cambalhotas, saracoteia pelo palco enquanto os anõezinhos circunspectos, que querem um sindicato, tentam desesperadamente fazer um discurso. Depois do black-power espera-se o mini-power. Nelson Ned, acompanhado de toda a família, inclusive o papagaio e o violão de estimação, entoa uma canção para as delicias do auditório, ávido de ternura enlatada. Os cameramen correm de um lado para o outro, fazendo milagres para não focalizar o senhor distinto que pulou no palco e quer dar um beliscão na pernoca da chacrete. Um português nervosinho esquece as armas e os barões assinalados e dá broncas camonianas na fila irrequieta de calouros. No auditório, o operário nordestino paquera abertamente a doméstica do Encantado, enquanto um grupo de colegiais de uniforme balança faixas e berra gritos de guerra de dois em dois minutos. Um calouro furibundo tenta furar o cerco e invadir o palco, brandindo um jornal. Na primeira página, em manchete, sua foto e a legenda: Waldick Soriano Me Deu o Beiço. O lusíada, irritado, tenta conter o homem, que a essa altura berra mais que o cantor focalizado: Eu não sou calouro coisa nenhuma, me disfarcei para vir aqui e mostrar ao público quem é Waldick Soriano. Dou nele! Na platéia, não resistindo ao excesso de calor humano, uma fanzoca desmaia e tem de ser levada para o pronto-socorro (voltou assim que conseguiu abrir o olho). Diante dos refletores, a irmã de caridade conta como vendeu mil jornais na Rodoviária, enquanto distribui santinhos. Comandando tudo isso, rei do pequeno território que vai dos bastidores à platéia, passando pelo palco, Abelardo Chacrinha Barbosa vive a inconseqüência de sua Passárgada e, no fim do programa, acaba contraparente da nora que nunca teve.

O MEIO É A MENSAGEM

Alô, seu Noronha, já tomou vergonha? Alô, dona Maria, vai ficar para titia? Vocês querem bacalhau? Alô, gatinhas, alô, bodes, alô, cachorrões! E vários outros alôs!

Para criar toda essa confusão e dar ao público a oportunidade de irromper num acesso de miados, balidos e latidos de fundir a cuca de qualquer zoólogo, gasta-se, toda a semana, uma verba de 13 milhões, 8 milhões na quarta feira, com A Discoteca, e 5 no domingo, com A Buzina. A Discoteca sai mais caro, porque o prato forte são os artistas das paradas de sucesso que ganham cachês altos e viajam de lá para cá de Caravelle. Calouro sai de graça e garota bonita, para mostrar as pernas em concurso, por qualquer 50 cruzeiros se arranja por isso, no domingo, eles só gastam um pouco mais para pagar os prêmios.

Aliás, uma das mais importantes tarefas da equipe que trabalha para o Chacrinha é fica bolando cada semana novas apelações que dêem IBOPE: O que dá mais? Os soluços angustiados ou as declarações do morto-vivo do Espirito Santo? Isso se decide numas salas de pré-fabricado, armadas no terraço da TV-Globo, onde os papas da comunicação dão o que podem e o que não podem para saber quem vende mais. O mito Chacrinha é resultante das bolações da equipe. Desde suas caretas até suas fantasias, tudo é decidido em conjunto, num esforço coletivo que exige sangue, suor e lágrimas. Afinal de contas, tempo é dinheiro e eles são muito bem pagos para pensar. Perguntei: -Vocês têm tempo para vida particular? Eles me apontam a moreninha que entra e vai falar com o rapaz da mesa em frente. É a noiva dele. Quando a saudade aperta, ela vem aqui bater um papinho.

A flexibilidade da produção é grande, porque, além dos funcionários da TV Globo que trabalham na sua equipe, o Chacrinha ainda dispõe de assessores particulares. Uma parte da equipe se dedica à Discoteca, outra é responsável pela Buzina. Nalígia, simpaticíssima mulata, está com o Chacrinha há muito tempo. Sua marca registrada são os óculos enormes, cada dia com lentes de cor diferente. Parece que passa o tempo todo na base da ponte-aérea, caçando aquele cantor que vai dar IBOPE se cantar nessa quarta-feira, e fugindo daquele que quer cantar mas não dá pé. Vou ver se encaixo você na semana que vem ou talvez na outra, tá bem, querido? A regra é não dizer não definitivamente, nunca se sabe se aquele cara vai Estourar no Norte no dia seguinte! Portanto, calma.

O Ferreira, PUBLIC-RELATION, é o tal, capaz de fazer um Bonzo aceitar o convite para ser júri do concurso das mais lindas pernas do Brasil. Aliás, a barra fica pesada, quando se trata de escolher os jurados que vão julgar os candidatos ao trono de qualquer coisa.

O baixinho eficientíssimo - Achei! O Kiko, da novela! Ótimo para julgar a estudante mais bonita do Brasil.

Chacrinha: - Kiko! Quem é Kiko? Assim ninguém vai acreditar no meu concurso! A gente precisa de gente de gabarito, que enalteça o concurso.

O baixinho sabe o que diz:- O Kiko é ídolo dessas garotas. Ainda mais, tem a mesma idade que elas!

Chacrinha: - Um menino! Este é um concurso de âmbito nacional. Tem que ser alguém de responsabilidade!

Afinal, no dia da eleição da mais bonita estudante do Brasil, coube ao Secretário de Turismo, o Sr. Levy Neves, dar o cunho de responsabilidade a uma mesa de jurados que começava por Luiz Jasmim e ia parar em Tony Tornado, uma beleza.

Antes de qualquer outro talento, a equipe do Chacrinha tem que aprender a andar na corda bamba. Qualquer mancada, e pode rolar a cabeça de um. Houve um calouro que, inconformado de ter sido excluído pela equipe no dia da seleção, saiu de lá e foi cantar debaixo da janela do Chacrinha. Agradou e a equipe quase foi despedida por incompetência. No dia do programa, na hora da apresentação, a voz que tinha encantado o Chacrinha emudeceu de nervoso. A equipe quase foi despedida de novo. É uma corda bamba!

Por essas e outras, eles dizem que, se metade da semana ficam bolando tarefas do arco-da-velha para alguém realizar, a outra metade da semana ficam rezando para essa pessoa conseguir, senão... cadê o dinheiro pro leite das crianças? É de fundir a cuca.

A principal preocupação da produção é o telespectador. Ao auditório, batatas, quero dizer, as bananas, o mocotó, o bacalhau. E, tome de chacrete, de calouro e de concurso, que o povo fica feliz.

QUEM NÃO REBOLA, SE ATOLA

A ordem é rebolar, e elas levam o negócio a sério. Samba, bolero, rumba, tango, valsa vienense, elas rebolam em qualquer ritmo. Não é mole ser chacrete. A fórmula é simples: pernas grossas, um pouquinho de pano (para a censura não chiar) e muita resistência para agüentar duas horas do mais frenético rebolado. Originalmente, parece que elas eram mocinhas afáveis e simpáticas. Depois, quando viraram notícia e passaram a ser procuradas por repórteres, fotógrafos e sociólogos, resolveram ter consciência de classe e ficaram difíceis de aturar. Entrevistar uma delas requer coragem e muita paciência, pois, se ela não estiver de bom humor, o repórter vai encontrar um arzinho de ai-que-coisa-chata-ser-sexy e o tradicional passa-amanhã. Dizem que ficaram assim depois que os velhos babões da vida as transformaram em símbolos eróticos. A verdade é que em cada programa há uma meia dúzia de cavalheiros aposentados gastando toda a pensão em flores e cartãozinhos galantes. Seguindo a lógica da oferta e da procura, é muito compreensível que as chacretes tenham resolvido dar uma esnobada.

Sua função no programa é de pau-para-tôda-obra. Rebolam para desviar a atenção do público da mediocridade que está cantando, buscam os calouros nos bastidores e os entregam nas mãos do Chacrinha, levam os buzinados para fora e os aprovados para o trono (É ele? Vai ou não vai para o trono?) e fazem mágicas para encaixar a coroa no estranho emaranhado de cachos e laquê das cantoras vitoriosas. A coreografia não importa muito, o que importa é não parar nunca. Por isso, cada uma rebola como bem entende. Mas, cada uma tem a sua especialidade: ninguém segura a ruivinha no iê-iê-iê; quando o negócio é samba, a mulata descasca e dá olé. Elas só perdem mesmo para o Chacrinha, que dá umbigadas em qualquer ritmo. A gente nota que elas têm um certo desprezo pelos calouros. Para muitas, conduzir pelo braço o pretendente a ídolo é um grande sacrifício. Deve ser mesmo. Cada um daqueles calouros, em seu lamê falsificado ou seu terninho, deve lembrar-lhes os outros dias-sem-fama-e-sem-rebolado que elas gostariam muito de esquecer.

POR UM LUGAR AO SOL

- Quem precisa de acompanhamento é procissão e entêrro. Microfone,meu chapa, é pra deputado ou líder estudantil. Vai abrindo o bico e dando o seu recado, que a gente vê e dá para encaixar você desta vez no programa. É a quarta, quinta vez em que ele mata trabalho, sai de casa ao meio-dia, pega trem, pega um ônibus, depois outro, enfrenta a fila de inscrição, enfrenta as broncas do Marrom, o crioulão com jeito de feitor que mantém a ordem na fila, enfrenta as gozações da equipe, que para passar cinco horas selecionando caIouros tem mesmo que arranjar qualquer coisa com que se divertir.

Um metro e cinqüenta e cinco, óculos de ladrão, camisa vermelha, cabelo comprido oxigenado (Diocil da Silva, às suas ordens, mas pode me chamar de Reginaldo) está no seu dia de glória. Cansaço, fome, humilhações, nada diminui o seu entusiasmo. Depois que ele aparecer na televisão não vai haver doméstica que lhe resista!

- O melhor calouro é desse tipo: convencido, pretensioso. Quanto mais se acreditar um artista, quanto mais cara-de-pau tiver, melhor é. Esse tipo nós sempre classificamos, tenha ou não tenha boa voz. É delicioso quando um cara destes leva uma buzinada.

- Não é a equipe do Chacrinha que é sádica. Sádico é o público que ela tem que divertir. Por isso, 70% dos calouros que eles selecionam são fracos. Teve aquele que, quando o maestro, no ensaio, disse:

- Você ai, está cantando muito alto, abaixa - referindo-se ao tom -, o cara tomou ao pé da letra e se abaixou. Cantou de joelhos!

Os outros calouros não podem nem se relaxar gozando a caveira do companheiro que dá mancada, que lá vem bronca. Ora essa, deboche não vale. Mas ninguém liga. Quem está neste barco está para tudo: aplausos ou chacotas. Quer é aparecer. Como aquele que, quando os outros calouros foram bronqueados por estar rindo dele, disse, humilde:

- Deixa, podem rir de mim que não me importo; já fui palhaço de circo.

Cantar não é o único talento desses artistas incompreendidos, se a voz não dá pé, na semana seguinte ele volta como compositor e, se não agradar, ele volta para sapatear. Por um minuto na glória dos refletores, ele se candidata até a comer caco de vidro. É comovente como podem viver só de esperança.

E que não se pense que isso são loucuras-da-mocidade-depois-endireita. Mesmo que a maioria seja de vinte anos, tá assim de velho de sessenta, louco para ser buzinado pelo Chacrinha. Neste dia se apresenta para a seleção um que achava que podia fazer a festa sozinho: muito malandrinho, na flor dos seus cinqüenta e oito anos, terno branco e gravata borboleta, olhar de tango:

- Pois é, eu canto pra esquentar os corações das moças; eu danço iê-iê-iê, eu faço umas brincadeiras, mas sem machucar ninguém.

Coitado. Desafinado e enferrujado, vai fazer uma brincadeira com um bamba da capoeira, leva uma banda de saída e é ele que acaba se machucando.

No domingo seguinte, às duas da tarde, estão lá os dez classificados, enfarpelados em seus terninhos os mais tímidos, os mais exuberantes em alguma indumentária prafrentex. Essencial e não esquecer as meias, se não quiserem ser fulminados pelo leão-de-chácara. Ensaiam, suam, ensurdecem com os berros da equipe, impacientes (não é para menos), rezam, fumam e até tomam alguns golinhos, escondido, para criar coragem e ir em frente.

Tudo está em jogo: o futuro, a carreira artística, a conta do armazém, o coração da amada. Mas, depois de tanta mão-de-obra e tanta esperança, a maioria deles sobra.

- Você fica para domingo que vem.

Dois entraram para ser buzinados, dois para disputar realmente. As cartas são marcadas: -É esse? ' É esse?

O auditório urra, deliciado e o calouro que berrou mais vai para o trono. Já se esboça uma certa profissionalização entre os calouros. E aquele que ganhou no Chacrinha foi cantar no Sílvio Santos e volta depois ao Chacrinha. Ganha sempre.

CONCURSO, PRA QUE TE QUERO?

Programa de auditório sem concurso é o mesmo que casamento na roça sem foguete. O Chacrinha sabe disso melhor do que ninguém. Há concursos de todos os tipos: quem dá a gargalhada mais engraçada, quem tem a perna mais bonita, a cabeleira mais comprida, o galo que canta primeiro, quem anda melhor de patinete, quem faz a melhor frase sobre a Transamazônica, etc. Cada um tem sua fauna própria. As candidatas a mais bonita estudante do Brasil são completamente diferentes das moças que disputam a coroa das praias cariocas, e assim por diante. As mães, porém, são todas iguais. Que nem mãe de miss, ficam dando pulinhos nos vestiários, e suspirando: - Ai, meu Deus, se eu tivesse podido, no meu tempo... Mas minha filha...

Como a promissora carreira artística de todas elas foi cortada por um nefasto casamento (hoje só são artistas do fogão), transferiram para as filhas a responsabilidade de viver seus sonhos. Empurrada pela mãe, a candidata de hoje ao título de qualquer coisa mais do Brasil foi o sucesso de anteontem no Clube do Guri Todas elas ainda sabem cantar Ai Lili, ai lô, na perfeição!

Mas sempre tem umas que chegam lá com outras motivações: Suzete, do Méier, 18 anos, precisa de dinheiro e não consegue trabalhar porque, em todos os empregos que arranja, os patrões tentam agarrá-la. O primeiro conseguiu e é só para o filhinho, que resultou disso, que Suzete precisa tanto de dinheiro. Agora Suzete está mais esperta e veio servir de manequim no concurso da melhor costureira, o que parece ser uma coisa menos perigosa. Ela é tão bonita e tem um jeitinho tão meigo que a costureira disse que se o seu vestido ganhasse, dava o prêmio todo para ela. Eu também estava torcendo por Suzete, mas naquela noite o prêmio ficou com a moreninha de cabelos escorridos que desfilou um maxi-arco-íris. Que não ganhou sozinha. Uma loura alta, com uma classe sensacional, conseguiu empatar o concurso, sem que o Chacrinha entendesse por quê (em seus programas as moreninhas sempre ganham ). Acontece que a moça se chamava simplesmente Vera Barreto Leite, o mais famoso manequim do Brasil. Sem alcançar o significado disso, o Chacrinha, furioso, gritava que lá estavam julgando o melhor vestido e não o melhor manequim. Foi assim que o auditório do Chacrinha vaiou o manequim que sempre arrancou aplausos das platéias mais exigentes do mundo inteiro. Vera estava lá para ajudar sua costureira, uma moça muito simples e que precisa muito. Se a outra concorrente não fosse moreninha, e não usasse vestido cor de arco-íris. Vera levava sozinha o prêmio para sua costureira.

Mas a sensação da noite é o concurso da rainha das praias cariocas. Meia hora antes do programa ir para o ar, as candidatas, coitadas, já estão suando debaixo dos refletores: a secretária do Chacrinha tenta ensiná-las a desfilar. Mas é duro, desiste e resolve ensinar um manequim elegante a ficar parado:

- Assim, o pé esquerdo um pouquinho mais para a frente, apontando bem para a esquerda. Pronto, há oito estátuas pregadas no chão. E agora, as mãos, ninguém sabe o que fazer das mãos. Como último recurso, acabam todas em posição de sentido.

A equipe do Chacrinha está desesperada: o nível das candidatas é realmente muito baixo. Enfim, perna de fora acaba sempre dando IBOPE. Tem gosto para todo tipo de perna e ali tem perna para todos os gostos: bonita, gorda, fina, torta, com celulite e joelhos pontudos, o caos.

Quem está na sua, confiante na candidata que trouxe, é Ricardo:

- Carla (ou Karla) é uma parada. Vai tirar todas essas aí de letra.

Ele dirige uma agência de modelos que supre o programa do Chacrinha, como supre outros concursos, desfiles e outras badalações no gênero. Ele gosta de falar e é dos tais que dão entrevista sem a gente pedir:

- Eu também sou advogado e tenho uma financeira. Mas a agência dá mais. Hoje, por exemplo, estou ganhando Cr$ 50,00 p/garota que trouxe. A elas não pago nada, nem faço contrato. Elas ganham dos promotores dos concursos dos desfiles e, além do mais, badalam, ficam conhecidas, recebem convites. Vale a pena, não vale, Carla?

A PROVÁVEL RAINHA DAS PRAIAS, UMA MOÇA MUITO RELATIVA

Ela tem um rosto lindo de anjo suburbano e é boazudissima. 18 anos, mas aparenta mais. Sorri, cheia de promessas pra ele, como, aliás, sorri cheia de promessas para todo mundo.

- O que eu gosto de fazer? . . . Praia, boate . . essas coisas. É muito relativo... Casar? Não sei, talvez mais tarde... é muito relativo... se eu encontrar aquele homem, aí eu vou gostar provavelmente de ser dona de casa, varrer, espanar... Trabalhar fora é muito relativo, pode ser... se aparecer coisa interessante... acho que prefiro mesmo casar... por enquanto estou na minha, né, não estudo, não trabalho, não faço nada... Vivo, né? Moro com minhas irmãs, em Copacabana. Meus pais? Ah, me dou muito bem com eles, adoro eles, mas eles moram em Petrópolis... Bem quadrados, não queria que fossem diferentes, me dou mesmo muito bem com eles (está aflita para ver se eu acredito). Minhas irmãs também não trabalham... bem, só de vez em quando. Agora uma delas vai ser lançada como cantora, sabe? Namorado? Nada sério. Livros? Não. Politica? Isso é muito relativo. Nunca pensei muito... dizem que a democracia é o melhor regime. Eu, francamente, não me importo muito com o que esteja acontecendo, desde que eu possa levar a vida que quero... É o que penso, né?

Ela sublinha cada frase com um sorriso encantador. Palmas que ela merece. Desse jeito, Carla vai ganhar todos os concursos de rainha da praia, mesmo que seu reinado seja muito relativo. Mas ela acha ótimo.

WOODSTOCK TROPICAL

- Não me importa que a mula manque, eu quero é rosetar.

A frase de marchinha é o lema perfeito para o auditório dos programas do Chacrinha. Todos vão com um único objetivo: se divertir ao máximo. E como se divertem! A doméstica esquece o fogão e as panelas e tem sua noite de Vanderléia: canta e dança no fundo do auditório, alucinando o crioulo que aproveita para conversar. Juntando o útil ao agradável, dona Maria, moradora do bairro de Madureira, levanta as mãos ávidas sempre que ouve falar em bacalhau. A entrada de Waldick Soriano (que estourou no Norte. Boom!) deixa a mulatinha de mini-saia às portas de um ataque histérico. Ela dá cambalhotas na cadeira, faz o que pode para chamar sua atenção, mas ele continua a mastigar seu bolero, entrincheirado atrás de fantásticos óculos escuros, que só vendo se acredita.

O auditório do Chacrinha vive em clima de festival. Tanto faz se for Woodstock ou festival da cerveja. Todos, sem exceção vibram o tempo todo, aproveitando qualquer deixa para rir e se sacudir. Todos, desde as fanzoca - segunda geração de macacas de auditório - aos hippies amigos da Baby Consuelo, para eles o programa do Chacrinha é melhor do que qualquer viagem.

Quanto à fanzoca segunda geração, esta é individualista, nem pensa em se organizar en clubes como sua mamãe. (Aliás, organização em ritmo de festival é furado, todo mundo sabe. ) Para elas o importante é a curtição Estão na sua. Ainda encontrei uma garota de 15 anos que economiza seu salário de babá para mandar rosas a Vanderléia.

- Estão por Cr$ 50,00, sabe? - Mas é um exemplo isolado.

O tipo mais comovente é o solitário, que espera o domingo para ir fazer uma sauna de calor humano. A gente conhece logo. Terno azul-marinho, impecável, caneta no bolsinho de fora para mostrar que sabe ler, óculos de tartaruga, preto, que nem embaixador dc Gana. Este não quis dizer o nome, mas, com sua cara de bedel do tempo do Império, só pode chamar-se Tibúrcio. Solteiro, 52 anos. Ficou nervoso quando foi entrevistado, enrolando mil vezes a gravata enquanto pensava cada resposta. Cantor preferido é o Nelson Ned e, quando pergunto por quê, responde com muita dignidade:

- A senhora sabe, além de ter boa voz, eu gosto dele porque ele representa um dos Estados do nosso querido Brasil (??? ) . Pois é, aqui na Guanabara nós somos assim, altos e fortes... Deve existir por ar algum Estado em que os habitantes sejam assim desse tamaninho, não é? O Brasil tem tantos Estados... ele deve ser de algum, por isso é que eu gosto dele!

O surrealismo da resposta fica por conta do ardor patriótico.

OS ELEMENTOS CONTRA O CHACRINHA

Segunda-feira, 6 horas da tarde. Todos já acordaram de sua viagem. A doméstica-cinderela, que foi para o trono no domingo já está de volta ao seu borralho. O calouro já devolveu o paletó de lamé e come de sua marmita fria, sentado entre os tabiques da obra. O solitário tem agora nas mãos um pedaço de papel que é e desamassa com carinho: é um número de telefone.

Enquanto isso, os comandantes se reúnem para fazer um balanço da batalha. Chacrinha, Napoleão dos auditórios, discute com seus assessores o programa da véspera. A pesquisa do IBOPE (quinhentos cruzeiros por semana) indica números menores que os esperados. Muito menores. O Chacrinha perdeu para o Flávio Cavalcanti!

- Mas, não é possível, o programa ontem estava sensacional! Nós tínhamos todos os trunfos!. . . Por quê? Por quê?. . .

Afinal, alguém descobre: foi a chuva. Quando chove, no subúrbio as televisões são desligadas porque seguro morreu de velho e ninguém quer receber um raio na sala de visitas. Nessas horas, o melhor é desligar tudo, queimar palha benta e rezar para Santa Bárbara. A audiência do Flávio se concentra na Zona Sul, onde a chuva não é capaz de provocar nenhum acesso de religiosidade. E eles ficam um pouco consolados em saber que o Chacrinha não perdeu para o Flávio, mas para a meteorologia, que não dá para prever.

Sunday, April 24, 2016

TV Mulher... zinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 13/04/1980
Autora: Maria Helena Dutra
INFORMAÇÃO É SEMPRE PROBLEMA

Para quem? Os primeiros programas da TV Mulher, de nove ao meio dia na Rede Globo, mostram o padrão de sempre, a produção cuidada, fluência entre seus múltiplos quadros e direção eficiente e profissional de Nilton Travesso. Todo um esforço dirigido, de acordo com os anúncios e entrevistas dos seus produtores, a mulher da classe média baixa porque os integrantes da Alta estão, neste horário, dormindo, trabalhando fora do lar ou levando e apanhando filhos em colégios, cursos, natação e tudo mais que a turma desta classe inventa para tirar a paz das crianças. Então seria urna apresentação diária planejada para concorrer e tirar público dos dominantes programas radiofônicos tipo Haroldo de Andrade e Cidinha Campos no Rio, e shows da manhã de São Paulo já que a TV Mulher é transmitida apenas para estes dois Estados. E para as suas habitantes mais tipicamente domésticas e caseiras.

Mesmo assim, complicou. É que toda a linguagem e a informação do programa é visivelmente sofisticada para este tipo de público. Os ensinamentos estéticos, jurídicos, educacionais e editoriais são finíssimos mas, me parece, muito pouco práticos. Fala-se de inflação sem dizer o que é isto e de cuidados extremamente caros para qualquer beleza. O apogeu desta linha é Panela no Fogo que trata de culinária.

Na estréia a imagem de belíssima frigideira e uma voz em off que dizia: Encha-a completamente com manteiga. Estão brincando. O pratinho tinha ainda molho de poisson, sem tradução, lagosta e uvas, daquelas bem pequenas, de casca cortada uma a uma. Delírio. Em outra edição, um cuscus paulista cujos ingredientes devem estar custando muito.

Será que é outro programa apenas para sonhar? A exceção ao onirismo vigente é Clodovil que se dirige mesmo às mulheres que não podem ser freguesas de seu atelier e revela também ser o único a ter senso de humor no programa inteiro. Abaixo da média, três registros: A péssima fôrma como entrevistadora da boa apresentadora Maria Gabriela, a educadora Fanny Abramovich que se balança tanto que chega a enjoar o fraco estomago matinal da espectadora e seus nés depois de cada três ,palavras e o final mentiroso mostrando mulheres gerindo toda a parte operacional de urna televisão ao mesmo tempo que os créditos , fixados em cima desta imagem, mostram a verdade. Apenas, entre 47 nomes da parte técnica, nove são femininos. Para elogio maior, a inclusão de cena da novela Pé de Vento, da Bandeirantes, entre os destaques diários da TV. Para piche total, reprisar também nesta produção uma novela. Será que não tem outras armas?

TV Mulher Faz Sucesso

O Globo
Data de Publicação: 13/04/1980

PUBLICITÁRIOS CUMPRIMENTAM ROBERTO MARINHO
Nosso companheiro Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, recebeu a seguinte carta da agência Alcântara Machado, Periscinoto Comunicações Ltda.: "Prezado Sr. Dr. Roberto Marinho, "Depois do incontestável sucesso do programa "Globo Rural", a gente se vê agradavelmente surpreendido com a enorme repercussão e o indiscutível êxito da "TV Mulher". "Isso vem provar de forma categórica, que a televisão até ontem considerada um veículo para divertir e alienar-se transformou, nas mãos dos mestres da Globo, numa verdadeira ferramenta de comunicação, que está prestando um utilíssimo e oportuno serviço para toda a comunidade. "Na verdade, estes dois programas, somados a outros da Globo, vem demonstrando que a televisão já está cumprindo o seu verdadeiro destino, deixando de ser um simples acessório nos lares, para se transformar num conselheiro, num orientador, num educador e sobretudo num grande amigo. "Por isso, os nossos maiores parabéns pela "TV Mulher". "E que novas e agradáveis surpresas idênticas continuem acontecendo. "Para isso, a Globo tem toda nossa torcida. "Cordialmente, Alex Periscinoto"

TV Mulher

 O Globo
Data de Publicação: 06/04/1980

AMANHA, NO AR, TV MULHER

Nesta segunda, estréia TV Mulher, um programa criado e produzido especialmente para você, com direção de Nilton Travesso e editoria de Rose Nogueira. Moda, decoração, comportamento sexual, debates, entrevistas, educação dos filhos, trabalho, estética, culinária, noticiário, prestação de serviços, direitos da mulher, tudo em linguagem simples e objetiva.

Diariamente, das 9 ao meio-dia de segunda a sexta, você vai conversa; com Marília Gabriela, Ney Gonçalves Dias, Fanny Abramovich, Clodovil, Malu Maia, Marilu Torres, Afanazio Jazadi, Ala Zerman, convidados especiais e muitas outras pessoas que estão presentes no dia a dia da mulher. Contribuindo para tornar sua vida mais prática, mais agradável.

EDITORIAL

Marilia Gabriela vai abrir o programa sempre com um assunto quente, do momento, que venha mobilizando a opinão pública.

NEY G. DIAS COMENTA

Os assuntos apresentados por Marília Gabriela serão comentados por Ney G. Dias, em linguagem simples e direta.

BOLSA DE MERCADORIAS

Os preços do dia de gêneros de primeira necessidade. Você pode programar melhor suas compras acompanhando a bolsa de mercadorias.

PANELA NO FOGO

Cozinheiros dos principais restaurantes da cidade vão ensinar a você pratos variados, do trivial aos mais sofisticados.

POLÍCIA

Informações úteis, noticiário policial, tudo que interessa à mulher dos grandes centros urbanos, preocupada com a segurança da sua família.

SPT- SERVIÇO DE PROTEÇÃO A TELESPECTADORA

Informações sobre o dia a dia de sua cidade de seu bairro. Como está o trânsito, locais en que há falta de luz, farmácias de plantão funcionamento de colégios.

SPT é um serviço que, além de informar, participa de soluções, como um elo entre o povo e as autoridades.

FLASH BACK

Una informação e outra, você vai relembrar os sucessos que todo mundo cantou, fatos e circunstâncias que marcaram aqueles momentos.

COMPORTAMENTO SEXUAL

A psicóloga Marta Suplicy vai esclarecer dúvidas, promover debates, abordar assuntos relacionados com o comportamento sexual do ser humano.

A MULHER NO MUNDO

Mulheres que são e fazem noticias, que determinam caminhos, modificam comportamentos. Um retrato diário do que faz e pensa a mulher moderna.

CLAQUETE

Os bastidores da TV. A informação sobre seu ídolo preferido. A vida profissional e pessoal dos artistas, do jeitinho que você gosta.

O DIREITO DA MULHER

Ney Gonçalves Dias, assessorado por advogados, está à sua disposição para explicar direitinho assuntos trabalhistas, divórcio, separação, pensão alimentícia, herança e todos os aspectos legais que definem seus direitos em casa e no trabalho.

ESTÉTICA

Receitas para tratamento de celulite, limpeza de pele, cabelo, saúde do corpo em geral. TV Mulher vai ajudar você diariamente a manter sua beleza.

O MELHOR DA TV _ _

Atitude inédita na televisão: você vai rever o melhor programa de televisão apresentado, no dia anterior, em qualquer emissora do país.

O QUE HÁ PRA CRIANÇA

A psicóloga Fanny Abramovich vai orientar você sobre uma melhor compreensão do temperamento e da personalidade de seus filhos.

CLODOVIL

Vestidos fáceis de fazer, aproveitamento de roupas velhas com um toque de novo, atualização do seu guarda-roupa. Clodovil vai deixar você elegante e bem vestida, de maneira prática e econômica.

PONTO DE ENCONTRO

A entrevista do dia. Depoimentos de mulheres que desenvolvem as mais diversas atividades profissionais. O lado pessoal e familiar de personalidades femininas que se destacaram na arte, na musica, na politica.

DICAS DE HOJE

Teatro, cinema, shows. O que está acontecendo na vida cultural e artística da cidade. Os bons programas.

PALAVRA DE MULHER

Aqui, áudio e vídeo estão à sua disposição. Você é parte integrante do programa, falando de seus anseios, dos problemas do dia a dia de seus relacionamentos, de sua vida.

SAÚDE DAS CRIANÇAS

As terças e quintas, pediatras de renome falarão sobre problemas de saúde que podem ser prevenidos e tratados em casa. Conselhos práticos sobre amamentação, higiene e limpeza pessoal, alimentação correta e informações que vão deixar você mais tranqüila com a saúde das crianças.

TV Mulher No Ar

O Globo
Data de Publicação: 30/03/1980

NASCE UMA NOVA TELEVISÃO

Numa época em que se discute a posição da mulher na sociedade, o que é feminismo e o que é feminino, constata-se que a grande maioria das mulheres brasileiras ainda vive uma rotina semelhante de suas avós. Ainda é dentro de lar que se desenvolve a maior parte de sua vida, sempre às voltas com mil problemas. Como solucioná-los, como dialogar? Um novo programa vai preencher esta lacuna.

A mulher que, mesmo trabalhando em dupla jornada dentro e fora de casa é sempre pressionada pelo preço cada vez mais alto da alimentação, palma problemas dos filhos, dc marido, pelo solitário e repetitivo serviço doméstico, formará o público de "TV Mulher". Sua estréia será no próximo dia 7, ás 9 horas, no Rio e em São Paulo. De segunda a sexta, durante três horas, essa mulher será objeto e sujeito de um programa ao vivo que, mais do que isso, se propõe a ser uma nova televisão dentro da Rede Globo. Para. Nilton Travesso, diretor geral do programa, ela precisa de diálogo: "basicamente vamos nos dirigir a mulher que não trabalha fora, que tem dificuldade de conseguir emprego, que é desassistida, que não tem fácil acesso é informação. No seu dia-adia, o máximo de diálogo que ela consegue é com a empregada, sua companhia mais constante:

Uma extensa lista de dados novos ou de retomadas de caminhos aparece em "TV Mulher", A começar pelo fato de ser um programa ao vivo, em plena época do videotape. Nilton não se preocupa com isso: "tenho 25 anos de televisão, na maioria com programação ao vivo. Nós precisamos nos aproximai mais do público, errar um pouco, cometer gafes". Outra novidade é que esta é uma produção nascida, formada e acabada em São Paulo, com uma ou outra exceção, e com uma equipe praticamente virgem em televisão. "A TV também nunca dedicou sua programação diurna a uma determinada faixa", lembra Nilton, "e aí surgiu a idéia de um programa para a mulher, num horário em que ela não tem opção na TV. Seu hábito matinal é o rádio. Então, vamos nos aproximar desta linguagem radiofônica de forma que o público não precise ficar preso ao vídeo. O programa não terá uma linguagem de imagem. A mulher poderá assisti-lo sem parar as tarefas de casa''.

Tudo isso acontecerá dentro de uma verdadeira casa rústica, que foi criada no palco da Globo-SP, pela "Art de vivre". Gente descontraída senta pelo chão, se encosta num sofá ou fica na mesa. O tora é de absoluta intimidade: "você não poda invadir um programa desses com acrílicos e brilhos", diz Nilton, "Esfria. A mulher se distancia. Por isto, idealizamos um ambiente simples e humano. Dentro disto. vamos procurar um tom informal, descontraído de casa mesmo Nossa meta é a mulher , e conversar com ela sobre seus problemas cotidianos, seus filhos, seu marido, receitas de bolos, legislação que diz respeito à mulher. Vamos dar atenção integral a ela, que é a nossa meta".

EM TRÊS HORAS, TUDO QUE INTERESSA AO MUNDO FEMININO - "TV Mulher" terá 20 sessões sobre assuntos diversos, além de exibir a reprise de unia novela, em suas três horas de duração. Marília Gabriela, sua apresentadora principal, abrirá o programa com um editorial sobre temas que estão nas manchetes dos jornais, traduzidos para o universo doméstico, isto é, mostrando suas conseqüências no mundo da mulher. "Bolsa de mercadorias" vai mostrar o que está acontecendo em relação aos preços dos produtos de primeira necessidade. A sessão "Panela no fogo" será apresentado por Marilu Torres Travasso que terá três entradas no programa. Afanazio Jazadi apresentará "Polícia", com o noticiário policial que se refere à mulher, alertando-a também para as armadilhas que são montadas para ela, como os famosos "contos do vigário".

Com duas entradas diárias, o "Serviço de proteção ao telespectador" atenderá a qualquer solicitação do público. Ney Gonçalves Dias dividirá com Marília Gabriela sua apresentação. As reclamações serão apuradas e colocadas no ar, além de se cobrarem as soluções. "Flash-back' vai pega" um aspecto novo do número musical. Antes de mostrá-lo, será contada a história da música, "Comportamento sexual". com a psicóloga Marta Suplicy, irá ao ar três vezes na semana, levantando temas de interesse da mulher, em relação aos filhos, ao marido e à ela mesma. "Saúde da criança" se revestirá com esta sessão. "A mulher no mundo" será um documentário curto. Hildegard Angel vai falar sobre os bastidores da TV, em "Claquete". "Novela" apresentará uma reprise do gênero. Consultas jurídicas serão atendidas em "O direito da mulher". Ala Szerman dará dicas para a beleza feminina em "Estética". Trechos de programas serão mostrados em "O melhor da TV". A programação infantil estará em "O que há para a criança", com Fanny Abramovich. A dos adultos estará em "Dicas de hoje". Clodovil dá nome à sua sessão de moda feminina. Uma entrevista diária será feita em "Ponto de encontro". O entrevistado será sempre uma pessoa de destaque, homem ou mulher, que falará de sua vida. Eventualmente, poderá aparecer uma pessoa não conhecida que tenha vivido experiências incríveis. Em "A mulher com a palavra", ela vai falar o que quiser, de segunda à quinta. Na sexta, o homem terá o mesmo direito. O "Boa tarde", uma mensagem curta retirada de um dos temas abordados no dia, encerrará "TV Mulher".

Estreia o TV Mulher

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 05/03/1980

AS ATRAÇÕES PARA A MULHER NAS MANHÃS DA GLOBO

A nova programação da Globo ainda não está inteiramente definida, sabendo-se apenas que, na área de jornalismo e programação orientada para a mulher, está acertado novo programa, produzido pela primeira vez em São Paulo. Trata-se do TV Mulher, de segunda a sexta, das 9 às 12h, com Marília Gabriela e Ney Gonçalves Dias, com estréia prevista para 7 de abril. Durante as três horas do programa, exibido em rede, o telespectador terá um editorial e um comentário sobre o melhor assunto do dia, uma bolsa de mercadorias, uma receita — Panela no Fogo — um serviço de proteção ao espectador e meia hora de novela. Contará ainda com os conselhos da psicóloga Martha Suplicy sobre comportamento sexual. Uma seção, A Mulher no Mundo, falará do direito da mulher visto por advogados, e mais Melhor na Televisão (em qualquer canal), o que há para crianças, apresentado por Fanny Abranovich, dicas, entrevistas e uma seção fixa em Clodovil. A saúde das crianças também será focalizada e, nas sextas-feiras, haverá um debate sobre o comportamento sexual. O homem também terá um espaço para os seus problemas, ocupado, no resto da semana, pela seção a mulher com a palavra.

Saturday, February 20, 2016

Sílvio Santos Vem Aí!

Revista: Cartaz
Data de Publicação: 22/06/1972

AGORA É GUERRA!
A TV de Sílvio Santos vem aí

Sílvio Santos está no Japão se preparando para a nova guerra da televisão: em 22 dias vai conhecer e comprar os mais modernos equipamentos para gravação de vídeo-tape e montagem do que se pode chamar de a primeira emissora particular de televisão do Brasil, a Central Sílvio Santos de Produções Artísticas. Por 20 mil cruzeiros mensais, ele deixou alugado em São Paulo os estúdios de Vila Guilherme, da falecida TV Excelsior, onde pretende produzir não só o seu programa de domingo, mas novelas e espetáculos musicais para vender aos principais canais. Sílvio em Tóquio aproveitará para dar entrevista a um canal de TV japonesa e, antes de voltar, passará pela Europa e Estados Unidos. vendo o que de mais moderno se faz e descansando.

SÍLVIO A JATO

Seus últimos dias em São Paulo foram estafantes: teve que apresentar o programa dominical, deixar gravado 30 programas de rádio e manter várias reuniões com sua equipe de produção para acerto dos novos projetos. Uma semana antes da viagem, esteve em Brasília tentando ser recebido pelo ministro Higino Corsetti, das Comunicações, para se informar da proibição quanto aos programas ao vivo, mas não foi atendido. Sílvio deixou sua equipe de advogados encarregada de tentar o contato com o governo, com um plano que elaborou para atender às exigências do ministro Corsetti de gravação em tape de seu programa dominical.

TV SÍLVIO SANTOS

Com a aparelhagem comprada no Japão e os estúdios de Vila Guilherme, Sílvio pretende gravar o programa no próprio domingo, às nove horas da manhã. Das nove ao meio-dia seria feita a primeira parte e o censor do governo iria executando o seu trabalho de censura. Ao meio-dia, censurado, o programa entraria no ar, enquanto Sílvio e sua equipe iriam gravando mais três horas no estúdio, e assim por diante. Esse esquema permitiria ao programa Sílvio Santos não perder o sabor de atualidade, de reportagens bem atuais. Para o esquema funcionar é necessária apenas a palavra final do ministro.

Além do programa, nos estúdios de Vila Guilherme, Sílvio pretende fazer até mesmo concorrência às novelas da TV Globo. Vai contratar um elenco milionário de artistas, técnicos, autores e diretores, mas até agora não pode adiantar nenhum nome. Seu objetivo é além de vender as novelas para as televisões brasileiras, passar a exportar para Argentina, Uruguai e Chile. No estúdio, a novela já sairá dublada em castelhano e,depois, o escritório de Sílvio Santos Produções Artísticas em Buenos Aires se encarregará da colocação no mercado latino-americano.

ARTISTAS CONTRATADOS

Para a produção de shows. e musicais, a Central Sílvia Santos já tem contratados vários artistas dos mais badalados: Wanderley Cardoso, Agnaldo Rayol, Paulo Sérgio, Antônio Marcos e Vanusa, entre outros. Esses artistas já estão trabalhando dentro do esquema do Baú da Felicidade, que financia shows para clubes do interior em São Paulo e do Brasil. Os artistas recebem o cachê no mesmo dia da apresentação e o clube ou entidade promotora paga a produção ao Baú da Felicidade em dez suaves prestações mensais. Sílvio, apesar de cansado nas vésperas de sua viagem, mostrava-se bastante entusiasmado com os planos de sua Central de Produções: "Não só porque a concorrência vai elevar o nível da TV brasileira, mas principalmente porque vai aumentar o campo de trabalho ainda um pouco limitado".

Enquanto estiver ausente, o programa Sílvio Santos será apresentado em rodízio por vários companheiros, sendo certo somente que Leo Santos, seu irmão, deverá apresentar pelo menos um. Mesmo depois da volta de Sílvio e de passar a ser gravado em tape, o programa não sofrerá nenhuma modificação radical. "Uma mudança radical não me interessa. Meu público, mesmo quando alguma mudança é feita para elevar o nível, não aceita a coisa assim de sopetão, e qualquer mudança tem que ser feita aos poucos".

Xênia Bier na Globo?

 Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/02/1980
Autor: Luis Henrique Romagnoli
XÊNIA NÃO VAI PARA A GLOBO, PELO MENOS ATÉ JUNHO

SÃO Paulo - "Foi tudo num clima muito emocional. Choramos, xingamos e brigamos tudo a que tínhamos direito. No fim, fiquei". Bem ao seu estilo, foi assim que Xênia Bier descreveu sua reunião com a diretoria da Rede Bandeirantes, na qual ela decidiu aceitar a proposta de apresentar um programa semanal noturno. Pelo menos até junho, quando vence seu contrato.

Com isso termina, pelo menos por enquanto, a novela Xênia-Bandeirantes que começou na semana passada, quando ela ficou sabendo pelas chamadas na TV que seu programa havia mudado de horário. Seu último programa na semana passada reuniu centenas de fãs endoidecidos que pediam que ficasse. A campanha prossegue até hoje. Xênia diz que seu clube já arrecadou mais de 20 mil assinaturas pedindo a sua permanência no horário vespertino, onde já passou dos treze anos.

As pichações "Queremos Xênia" foram vistas em vários pontos da cidade, até mesmo em frente ao prédio onde ela mora na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Recostada em almofadas com reproduções de cenas da "Guerra dos Dalmatas" de Walt Disney, Xênia confessa que quase aceitou a proposta da Rede Globo:

- Eu estava magoada e ia partir para aquela de revanchismo. "Ah é? Pois então eu vou pra Globo". O Nilton Travesso esteve aqui em casa e me convidou para fazer aquele programa matutino que eles vão lançar. Ele me garantiu que eu teria toda a liberdade e era justamente por isso que eles queriam que eu fosse para lá. Pelo meu jeito. Até a Globo já está notando que de um jeito ou de outro, existe uma abertura. Há dois anos quem falasse de Luis Carlos Prestes ou Arraes ia preso. Agora é tão normal falar neles como em modess.

Ela quase ia. "Pelo desafio", disse. "Mas eu não consegui dormir naquela noite. Dai para entrar em acordo com a Bandeirantes não foi tão difícil. O programa deverá entrar no ar em duas semanas, às sextas-feiras, às 22 horas.

Xênia, porém, fez uma exigência à Bandeirantes: "não quero nada de especial, plumas, paetês, porque eu me afogo nisso tudo. A Globo que inventou isso está querendo humanizar a programação. Não quero nada pasteurizado, mas também sem subdesenvolvimento apenas uma coisa natural. Quero que seja ao vivo; se o microfone cair, caiu; se eu espirrar, que o espirro entre no ar".

Muita gente desconfia que a entrada de Xénia no horário noturno possa vir a ser uma ameaça ao doce reinado dominical de Hebe. Mas Xênia afasta esta possibilidade: "São dois estilos diferentes. O público da Hebe foi chamado pelo Ricardo Bandeira de "desempregados da vida". E é isso mesmo. O público da Hebe não quer ser mexido; está estabilizado e apenas quer ver sua fada-madrinha. E a Hebe lhes dá isso, com aquela euforia toda, aquele deslumbramento. A Hebe é uma mulher bem-sucedida. Eu sou ao contrário, a maldita, a Geni da televisão".

- Eu mexo com as pessoas, eu futuco, e me futuco. Eu quero mexer. Eu sou assim, meio anarquista. Eu também me olho muito, me questiono muito. Por isso eu troco muita informação com meu público.

E esse público é muito variado. Durante a entrevista, ligaram para se informar sobre os rumos de Xênia gente tão oposta como o colunista social Tavares de Miranda e o cartunista Henfil. Para este já foi feito um convite para participar do primeiro programa e até para uma atuação fixa. "Henfil é ótimo. Ele me mandou um cartão lindo, me deu a maior força. Se ele participar do programa, vai ficar ótimo".

Xênia faz questão de desmentir que seu público seja apenas o feminino: "No Rio é meio a meio, homens e mulheres. Meu público jovem também é muito grande. Os universitários tinham muito preconceito contra mim. Mas depois de algum tempo, eles jogaram a toalha, principalmente depois que eu fiquei ao lado deles nas passeatas que eles fizeram. E eu também ganhei os estudantes pelas mães. Eles começaram a notar que suas mães se tornaram mais compreensivas, mais abertas e me descobriram".

- Isso não quer dizer que eu faça a cabeça do meu público. Acho isso de fazer a cabeça muito fascista. Falam também que eu sou líder. Eu tenho capacidade de liderança, mas não neste sentido fascista de atrair os seguidores. Eu quero é despertar idéias, mesmo que seja contra mim. O resto é populismo".

Xênia acredita que vai fazer sucesso no seu novo horário, mas não liga para os indicadores de audiência: "Ninguém acredita mais neste negócio chamado IBOPE. O Carlos Imperial está sendo processado porque comprou IBOPE. Eu não acredito mais". Além do novo horário na TV, Xênia vai estrear em abril um programa diário pela Rádio Globo de São Paulo, no mesmo esquema de suas tardes no estúdio da Bandeirantes.

Xênia Bier no Rio de Janeiro

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 01/01/1978

QUEREM MAIS

Visitas pessoais e até abaixo-assinados já chegaram a TV Guanabara pedindo que o programa de Xenia Bier volte a ser apresentado integralmente no Rio. É que atualmente a estação cortou suas mesas redondas com médicos e outros convidados, passando apenas o longo recado da apresentadora sobre todas as coisas da vida. Isto mostra que o peculiar desempenho desta veterana apresentadora paulista de televisão - ela fica sozinha, em dose, falando incessantemente para uma câmara fixa sem mais nenhum recurso tecnológico - realmente interessou a platéia carioca. Talvez porque seja uma coisa muito diferente do costumeiro. Tanto que ela chega a realizar algo inédito na TV brasileira como gastar todo o seu tempo, quase trinta minutos, falando sobre a Rede Globo. Juro, é verdade. É a primeira crítica de televisão que usa a própria máquina para isso. Pouco comenta de sua estação, também não é louca, mas passa horas julgando detalhes, estilos e "mensagens" das novelas globais. Ataca muito, principalmente interpretações do elenco, mas defende comportamentos de personagens como se fossem íntimos dela e do público. Parece que tem razão porque faz sucesso e prova que a telenovela é mundo tão fechado que até muda as normas de comportamento da concorrência.

TV Guaíba em 1981

Folha da Tarde
Data de Publicação: 31/10/1981

''PARA SER REPÓRTER É PRECISO SER CRIATIVO E PERDIGUEIRO''

João Francisco é repórter do Departamento de Esportes da TV Guaíba. Ele começou há vinte anos na profissão, mas por falta de tempo para conciliar com suas outras atividades teve que abandonar tudo e ficar afastado de jornal, rádio e televisão durante dez anos

"Eu me afastei por força das circunstâncias", diz ele, "mas nunca me desvinculei totalmente do esporte porque é uma coisa que eu gosto de fazer; apenas esperava uma oportunidade para poder conciliar as coisas e voltar à televisão".

Há dois anos apareceu esta oportunidade e João Francisco foi trabalhar no Departamento de Esportes da TV Difusora, embora dentro da programação daquela emissora fizesse outro tipo de cobertura, além da esportiva.

E agora faz parte da equipe de esportes do canal 2. Solicitado a fazer uma comparação entre os jogadores do futebol de outros tempos e os de agora, João Francisco comenta que o nível deles melhorou emito e que, por tabela, o trabalho dos repórteres também cresceu. "Agora nós não precisamos perguntar sempre as mesmas coisas porque e. les já falam sobre diversos assuntos", diz ele.

Essa semana, quando a Seleção Brasileira esteve em Porto Alegre, João Francisco fez várias entrevistas com os jogadores e diz que gosta de trabalhar com, o pessoal da Seleção, pois é quem tem mais consciência do papel que a imprensa representa, até para eles estarem na posição em que estão.

Comenta que muita gente considera que o trabalho de repórter esportivo é um trabalho fácil. Para ele, "além de ser tão importante quanto outro tipo de reportagem qualquer, está tratando de um assunto que praticamente cem milhões de brasileiros entendem: e tu tens que saber o que tu estás falando".

Que é preciso para ser um bom repórter esportivo? Folha da Tarde perguntou a ele. ''Precisa ser criativo e perdigueiro, pois os dirigentes de clubes procuram esconder da imprensa até as coisas mais óbvias. Eu até entendo algumas posições que eles tomam, porque enquanto as coisas não estão com o preto no branco, a divulgação apressada de uma notícia pode prejudicar todo um trabalho".

AUTOMOBILISMO - Na opinião de João Francisco, a cobertura que a TV Guaíba vem dando às provas automobilísticas realizadas em Tarumã e Guaporé vem contribuindo Para aumentar o público nos autódromos - e isso é comprovado por números. A TV Guaíba é responsável pela motivação que faltava ao automobilismo do Rio Grande do Sul.

João Francisco diz que gosta de fazer esse tipo de cobertura parque "a gente encontra muitas facilidades para abordar os assuntos com as pessoas mais indicadas para abordá-los. Esses profissionais têm consciência de que o automobilismo precisa ser divulgada", conclui.

Marília Pêra em 1975

Amiga TV
Data de Publicação: 08/01/1975
Autor: Rogaciano de Freitas
MARÍLIA: UM FILHO PARA CURTIR
Ela está tranqüila e faz planos para depois do parto

Marília Pera não tem mais tempo para pensar em TV: agora é a vez do bebê. Televisão, só de vez em quando e, teatro, fica só para depois que ele nascer: "Depois de grávida, só à base de cachê, porque tão logo terminaram as gravações de Supermanuela pedi rescisão de contrato com a Globo. Não estava mais agüentando trabalhar. Precisava parar para dar uma pensada na carreira, quando pintou a gravidez. Também não pretendo ir para outra emissora, Enquanto puder vou trabalhando por cachê, fazendo trabalhos leves. O processo de gravações estava muito cansativo para mim." A respeito de futuros trabalhos em teatro, Marília ainda vai pensar: "Gracindo Júnior me procurou outro dia para me convidar a dirigir um espetáculo que ele pretende fazer. Trata-se do monólogo Corpo a Corpo. Tive de pedir alguns dias para pensar porque nunca dirigi. Será uma experiência nova, que estou inclinada a aceitar. Fora isso, recebi uma proposta para trabalhar na peça Pano de Boca, de Fauzi Arap, com nove personagens. Eu faria uma delas. Estou lendo, é uma peça interessante porque fala de gente e coisas de teatro. Mas isso é só para depois do parto.- Com seis meses e meio de gravidez, Marília Pêra, está passando muito bem. "Esta gravidez está sendo excelente, sem problema nenhum. Na primeira, apesar de ter passado bem durante todo o período de gestação, tive de trabalhar até 15 dias antes de Ricardo nascer. Hoje, felizmente, estou mais tranqüila, não tive enjôos, não engordei e meu peso só aumentou por causa da barriga. Não sei porque, mas as pessoas dizem que toda gestante fica nervosa. Comigo aconteceu justamente o contrário. Estou tranqüilíssima. Acho que as pessoas só ficam nervosas quando a cuca já está meio confusa." Assim como Marília, toda a família está curtindo a chegada do bebê: "Acho às vezes muita graça porque Joaninha, a filha de Nélson Mota, passa todos os fins de semana aqui com a gente e a toda hora fica querendo sentir se o bebê está mexendo. Depois, brinca com meu filho Ricardo César, de 13 anos, dizendo que este bebê é só irmão dela. Essas alegrias todas têm transformado minha gravidez na coisa mais maravilhosa que existe."

1974 - As Novelas do Ano

Revista: Amiga TV
Data de Publicação: 01/01/1975
Autor: Artur da Távola
1974: BALANÇO DAS TELENOVELAS DA GLOBO
Fim de ano é época de balanço. Devagar, um assunto a cada semana, irei traçando uma panorâmica, tanto dos canais como de setores dos mesmos. Hoje o tema é novela e teleteatro na Globo. Como andou a produção da rede líder neste ano de 1974?

Em termos de teleteatro, a Globo caiu em relação a 73. Nesse ano ela realizava um Caso Especial a cada quinze dias. Em 74, sob o argumento de dar mais tempo para melhor elaborar os trabalhos, ela realizou apenas um por mês. Mas os realizou sem diferenças artísticas significativas em relação a 73. Claro, nesse setor houve uma evolução: usar só autores nacionais, com textos especialmente escritos. Isso é evolução em relação ao excesso de adaptações, levando, ainda, a vantagem de formar, preparar, experimentar, gerar, novos autores especializados em TV. Tem outra vantagem: melhor espelhar realidades brasileiras. Caiu a produção de teleteatros, nada obstante os levados ao ar tenham sido de boa qualidade. Onde a Globo deixou de evoluir foi tanto na duração (cinqüenta minutos é muito pouco, mas isso não entra na cabeça do Boni) e na freqüência: uma vez por mês não é suficiente para fixar o gênero, nem criar hábitos no telespectador. A realizá-lo nessa base, só com programas realmente especiais de mais de uma nora de duração, dando a autores, diretores e atores, reais condições de criatividade e tempo, em vez de serem obrigados ao clichê imposto pelas limitações dos tais cinqüenta minutos de duração. No campo da telenovela, a emissora continuou em sua trilha. Aqui podem ser apontados alguns pontos falhos: o infinito troca-troca de diretores, jamais criando uma unidade nas obras (exceção de O Espigão); outro, a deficiência do mise-en-scene de Fogo Sobre Terra. Se a gente comparar os recursos e o trabalho de produção de Fogo Sobre Terra com o realizado em novelas anteriores da emissora em seu principal horário, vai verificar enorme diferença.

Por exemplo: comparar com Irmãos Coragem que teve um tipo de movimentação e ambientação repleto de analogias, Fogo Sobre Terra foi totalmente inferior em termos de produção, locais, externas, tomadas, ritmos etc. É coisa que não se refere nem à obra, nem aos atores: refere-se à empostação da produção. Posso garantir que as constantes mudanças de direção e o fato de o canal não ter que conquistar o que àquela época tinha que conquistar, tenha sido um dos fatores de menor intensidade e qualidade de produção da obra. Fora desses pontos negativos tanto no teleteatro como na telenovela, resta, ainda um, a anotar. a política de renovação da emissora, mudando vários atores de seu cast, sem dúvida já começa a revelar algumas pessoas. Possivelmente se expanda em 75. Mas em 74, vários atores, hoje fora do vídeo na Globo, fizeram falta. Ainda não foram substituídos à altura. O mais, foram acertos. O maior de todos pode ser considerado O Espigão, tanto em termos de obra quanto de produção. Fogo Sobre Terra foi sucesso de positivos. Vários. Mas entrou, como eu disse antes, naquele joguinho responsável pela queda na produção: os caras cuidam os primeiros vinte capítulos, criam uma imagem, e depois mandam brasa descuidadamente. Corrida do Ouro foi sucesso total em todos os pontos, da concepção à Criação. O Rebu é cedo para fâlar. Mas em termos de produção foi outro sucesso do canal. Ainda na linha dos êxitos: vários teleteatros do Caso Especial.

Que a Globo, com a responsabilidade da liderança e ainda com fôlego para mantê-la por mais alguns anos, cuide e atente para estes detalhes. Senão, um belo dia pinta outro Beto Rockfeller e lhe tira a dianteira.

Friday, October 23, 2015

Nova Logomarca da Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 06/04/1981

O ''OLHO'' DA BANDEIRANTES

SÃO PAULO - Primeiro foi um pavão, símbolo adequado, mas muito figurativo. Mais figurativo ainda era o pequeno bandeirante, parecido demais com o indiozinho da Tupi. Finalmente, uma agência de publicidade criou o "olho", até hoje o símbolo da Rede Bandeirantes de Televisão, mas agora o olho (antigamente, duas salsichas envolvendo uma bola) ganhou novo design.

O símbolo já está no ar, a anunciar a nova programação, principalmente a do Departamento de Jornalismo, que vai estrear amanhã, em Rede. E também tem um autor: o designer, diretor de arte, arquiteto e artista plástico paulista Sérgio Fridman Roberg, que impôs seu conceito, mesmo concorrendo com pré-projetos de famosos desenhistas industriais brasileiros, como Aloísio Magalhães e Alexandre Wollner.

O novo visual da Bandeirantes começa justamente com o esquema de reformulação iniciado a partir da compra de 17 milhões de dólares em equipamentos na Europa e coroado com a contratação de Walter Clark como o novo diretor-geral da Rede de Televisão. O logotipo, segundo explicou Sérgio Roberg, vai ser usado em tudo o que refletir a empresa, desde os veículos, até vinhetas, fachadas, papelaria, uniformes de funcionários etc. Segundo ele, "a idéia é a de se criar um verdadeiro programa de identidade visual como todas, as grandes corporações têm".

- A idéia inicial era a de se mudar completamente o visual existente, mas foram realizadas pesquisas que indicaram que a Bandeirantes tinha um bom conceito junto ao público. uma imagem de confiabilidade e que se ainda não tinha conseguido uma boa programação, ela sem dúvida viria. Por isso, optei por um aperfeiçoamento do visual existente - contou Roberg.

O símbolo anterior da Bandeirantes, além do aspecto de salsicha, tinha o problema de ser muito semelhante ao da Globo. Além disso, era considerado de difícil reprodução e não tinha um fácil significado aparente. As letras usadas para a identificação, em caixa alta, eram consideradas muito pesadas. Por isso, Roberg fez o título em caixa baixa sob um olho mais fácil de ser reproduzido.

- O primeiro passo foi estabelecer um conceito. A idéia era a de se aproximar o vídeo do espectador, que já está cansado de ver um mundinho separado do dele, piscando (Globo). Daí a idéia do olho, porque assim o vídeo cria vida, está observando o observador, dialogando com ele, Junto à idéia foi somado um lettering (letreiro) de formas modernas e arrojadas - disse o designer.

Para chegar à solução final, Sérgio Fridman Roberg fez mais de 370 modelos e passou três meses tentando aperfeiçoar o desenho, procurando uma forma de aproximá-lo cada vez mais do conceito que julgava acertado. Para fazer isso, contou com a experiência de quem trabalhou, como diretor de arte de agências 'de publicidade, obteve premiações internacionais como desenhista industrial e viu muitos trabalhos seus publicados em livros e revistas especializadas da Europa e dos Estados Unidos.

Sérgio Fridman Roberg foi o primeiro designer brasileiro a exportar um projeto de desenho industrial inteiramente realizado no Brasil, o da K.A. International Corp., levado para 27 países de sete idiomas diferentes. Criador de embalagens, tem escritório em São Paulo.

1981 - Jornalismo da Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 16/08/1981
Autor: Alberto Beuttenmuller
A BANDEIRANTES É NOTÍCIA
Seis horas diárias de jornalismo no vídeo

SÃO Paulo - A TV Bandeirantes parece ter descoberto no jornalismo e na realidade do cotidiano seu principal veio para alcançar o todo-poderoso Ibope e vencer a guerra, a cada dia mais acirrada, com sua principal rival - é a TV Globo. Assim, a emissora paulista dividiu sua estratégia em três segmentos - telejornalismo, divisão de realidade e divisão de ficção (novelas). Para conseguir chegar a bom termo nessa sua campanha, depois da contratação de Walter Clark, uma espécie de Napoleão da TV brasileira, graças ao sucesso alcançado na Globo, chegou a vez de Sérgio de Souza, anteriormente responsável pelo Fantástico, e agora novamente às voltas com um programa semelhante, onde se mesclam música, humor e jornalismo. Na última quarta-feira, era a vez de José Trajano assumir o departamento de esportes da rede, dizendo que o enfoque principal da emissora será para o esporte amador, "aliás tradição que a Bandeirantes vem mantendo, com as coberturas de basquete, vôlei, Fórmula-1, entre outros eventos desportivos."

A abertura política do Presidente Figueiredo, segundo Joelmir Betting, "é a grande oportunidade que nós, jornalistas, temos de conquistar a televisão brasileira, criando o hábito, no espectador, da informação e do comentário político e econômico". Joelmir Betting descobriu-a e aproveitou-se da informação do dia-a-dia para fazer seus comentários econômicos numa linguagem simples, criando assim um tipo novo de telejornalismo. Após a notícia, lida pelo fluente e sóbrio Ferreira Martins - outro profissional que a Globo perdeu para a Bandeirantes - Joelmir explica como aquele manchete ira afetar o bolso do espectador, em apenas 40 segundos. A Bandeirantes terá, a partir de agora, cerca de seis horas diárias de jornalismo, seja noticiário, sob o comando de Sílvia Jafet, seja reportagem, agora sob comando de Sérgio de Souza, diretor do Departamento de Realidade, responsável por Cidade Aberta, Canal Livre e os novos programas. Paulo Mário Mansur continuará sendo o diretor responsável pelo Departamento de Telejornalismo de toda a Rede Bandeirantes, além de articulador da nova estratégia.

Paulo Mário Mansur passou 10 anos na Globo, entre São Paulo e Rio, nos seus 21 anos de jornalismo, notadamente o de rádio e TV. Em jornal, só trabalhou no Diário do Comércio e na Folha de S. Paulo. Em sua nova função de diretor responsável por todo o telejornalismo da Rede Bandeirantes, ele explica que "houve um deslocamento na programação do lazer para o jornalismo. Assim temos o noticiário do cotidiano, o Jornal Bandeirantes, O Repórter e os vários Atenção. Agora, teremos ainda reportagens nos demais programas, como Cidade Aberta e nos programas que estão sendo criados em equipe. Iremos reformular a programação da para torná-la mais ágil, logo após recebermos os novos equipamentos de tape, quando poderemos sair com a camará na mão. Toda essa mudança de salas deve-se à criação da Central Técnica de Jornalismo, onde ficará toda a estrutura jornalística da Bandeirantes. As redações ficarão agrupadas, mas independentes entre si".

Pelas mudanças, sente-se que até a novela Os Adolescentes, de Ivani Ribeiro, em fase de gravação, e que entrará em setembro no ar, terá um cunho realista e atingirá a juventude e seus problemas psicológicos. Essa novela segue a linha de realismo da emissora.

Instalado no quarto andar da Bandeirantes, em sua sala atapetada - só no quarto andar existem tapetes na emissora -Walter Clark parece mais um jogador de xadrez que, a cada momento, mexe uma peça em busca do xeque-mate. Sua advertência é de que toda essa mudança "não será a toque de caixa, pois ha muito por fazer. Creio que dentro de dois anos (embora isso também seja perigoso dizer, a emissora estará em pleno funcionamento. Pretendemos fazer um programa de entrevistas, às 23h, sempre em debates com convidados. Mas precisamos ainda acertar a programação da tarde e da nova faixa das 20 às 22h. Como se vê, há muito ainda para se fazer."

Walter Clark é cuidadoso quando fala dos novos planos, pois sabe que em televisão só vale aquilo que o espectador vê e que tais modificações sempre acontecem com lentidão. Mas a Bandeirantes continua com novidades, incluindo-se a possibilidade de contratar Osmar Santos, o mais famoso locutor de futebol do país e que pertence aos quadros da Rádio Globo. Ninguém quer comentar o fato, pois, de certa maneira, Osmar Santos pertence à Organização Globo e, por isso mesmo, pode haver alguma dificuldade para sua contratação. Sabe-se que há um emissário cuidando disso, segundo informaram Paulo Mário Mansur e outros funcionários da Bandeirantes.

Sérgio de Souza já se encontra na Bandeirantes há uma semana. O namoro, como se vê, acabou em casamento, pois de há muito a Bandeirantes queria tê-lo em seus quadros. Seus planos são contados aqui com certa cautela, a mesma cautela sentida em Walter Clark, o que demonstra uma certa sintonia de atitudes entre os dois amigos. O principal projeto é um programa semelhante ao Fantástico da Globo, onde se irão mesclar humor, música e jornalismo. O maestro Júlio Medaglia será o responsável pela parte musical. Para o setor de humor, estão pensando em Millôr Fernandes, embora isso pareça mais um sonho para Sérgio de Souza, já que todos acreditam ser bastante difícil a vinda do humorista. Para o horário das 20h às 21h30m, haverá uma programação baseada em reportagens, alguma coisa gravada e acontecimentos recentes, mas também mesclados a música e humor, pois a Bandeirantes acredita que há público para esse horário. "Nem todos vivem de novelas", como diria Joelmir Betting.

O programa Cidade Aberta, um tanto descosido, sem ritmo, que se vai arrastando tarde afora, sofrerá mudanças básicas, segundo informou Sérgio de Souza, que agora dirige a própria Rose Nogueira, a responsável pelo programa. O visual também deverá sofrer modificações, já que ninguém mais agüenta essas salas de espera de consultório médico em que se tornaram esses programas. Sérgio de Souza tem muito cuidado no que fala, pois as coisas ainda estão em projetos e "precisamos usar de muita criatividade para compormos determinadas coisas e compormos outras". Um projeto que deverá merecer bastante atenção de Sérgio de Souza será o programa de 23h, de debates, diariamente, mas que ainda não tem data certa, pois estão no campo da discussão de como será, quais os temas a serem abordados, qual a linguagem. O esporte, departamento que estará também sob o comando geral de Sérgio de Souza, passará por algumas modificações. A principal é o novo diretor - José Trajano - um editor esportivo com passagens nos principais jornais e revistas brasileiros. Trajano fez questão de frisar que sua linha será de total apoio ao esporte amador - basquete, vôlei, etc., sem se esquecer, obviamente, dos grandes acontecimentos do esporte profissional, como automobilismo, principalmente a Fórmula-1.

O jornalista Joelmir Betting é, sem dúvida, o padrão do telejornalismo da Bandeirantes. Sóbrio, com uma linguagem exemplar e fácil, sem perder o estilo fluente, consegue dar seu recado econômico de maneira que todos entendam. "A TV deixou de ser teatro de variedades para ser teatro de revistas. Depois passou a ser uma vitrola mágica (tempo dos festivais) e acabou cineteatro, com filmes e novelas. Agora chegou a vez de tornar-se informação e realidade." Joelmir Betting acredita que precisamos aproveitar a abertura política e a crise econômica, que obrigaram a todos ficarem atentos ao noticiário, e partirmos para a informação jornalística. Segundo ele, tentar passar 20 notícias em 15 minutos é dar "informação de isopor", pois ninguém fixa nada. O ideal é colocar seis notícias importantes e comentá-las. Depois da manchete, sempre vem o comentário econômico. Assim, o telespectador fica sabendo "o que influirá economicamente em seu bolso, por exemplo, o tiro que o Reagan tomou nos Estados Unidos." Joelmir Betting acredita que o telejornalismo, aos poucos, está deixando de ser uma janela de novela para ter seu próprio valor e sua linguagem. "Precisamos criar o hábito do debate, do comentário político e econômico, com uma linguagem fácil, que todos entendam". Betting conseguiu ganhar a confiança do espectador, pois se um Ministro tentar esconder alguma coisa, ele não se faz de rogado e toca na ferida. Há pouco tempo deixou todo mundo preocupado quando disse que o gasto com o uso do automóvel deixou de ser 6% para uma família composta de casal jovem e dois filhos com menos de 10 anos, índice de 1970, para, em 1980, atingir 17%. Essa foi a crise do automobilismo brasileiro, mas ninguém quer entender. As famílias estão procurando gastar menos com o uso de seus carros, por isso está havendo desemprego e as fábricas terão de baixar seus índices de produtividade. Afinal, o Brasil é um país pobre e não têm sentido tais gastos. Talvez esta crise seja realmente a saída para a realidade. "Atualmente", complementa o comentarista econômico, "o gasto com o uso do automóvel é o terceiro item que mais pesa na família, são dados colhidos em fontes seguras", diz ainda. "Como a família brasileira está bloqueando o carro, deixando de usá-lo - atualmente uma família tem um carro e meio, jamais três ou quatro como era no passado - houve a crise de São Bernardo. O uso do carro ficou caro."

Com essa linguagem simples, sem arroubos, sem palavras rebuscadas, Betting consegue prender o espectador em seu comentário econômico, caso único no jornalismo nacional e hoje modelo de todos os comentaristas, que estão deixando de lado os nomes para falar abertamente. Hoje, ele escreve para 22 jornais (cerca de 1 milhão de pessoas), fala em rádio (2 milhões de ouvintes) e na Bandeirantes, para 12 milhões de pessoas em todo o Brasil, vendo-o e ouvindo-o atentamente. E a Bandeirantes começa a ser opção maior para aqueles que queiram fugir da noveletas, em busca de uma programação mais inteligente - este é o desejo de todas da emissora, segundo Betting.

Globo rouba toda equipe de humor de Sílvio Santos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 20/12/1981

A TVS SE VÊ FORTE AO PERDER ''REAPERTURA''

A contratação, pela TV Globo, de toda a equipe do programa Reapertura, que a TVS transmite nas noites de quarta-feira, não representa qualquer perda substancial para a emissora do animador Sílvio Santos. Pelo menos é o que afirma o diretor do Sistema Brasileiro de Televisão, Moyses Weltman. Ele anuncia uma nova atração na TV S, já para o início de 1982: a Turma da Mônica - Mônica, Cebolinha, Cascão e outros - do artista Maurício de Souza, autor da mensagem de fim de ano da emissora.

- O Reapertura - diz Moyses -é exibido apenas uma vez por semana. Sua ausência, assim, não significará uma alteração importante na nossa programação. Além disso, haverá tempo para uma substituição adequada, pois o contrato dos artistas, técnicos e operadores - a Globo só faltou levar o rapaz que serve cafezinho - vai até março. E eles, como bons profissionais, vão cumpri-lo até lá.

Com uma tranqüilidade assegurada pelo segundo lugar em audiência no Rio e em São Paulo, Moyses Weltman assegura que já se foi o tempo em que a TVS, dependia de um ou dois programas. E, pesquisas do IBOPE nas mãos, mostra os números com os quais a Globo tem de se defrontar.

No caso do Reapertura garante - a perda é muito mais de caráter sentimental do que comercial.

A filosofia de programação da TV S permanecerá a mesma, segundo o diretor do SBT:

Continuaremos dando espaço ao artista brasileiro, lançando novos talentos e relançando antigos profissionais.

Weltman diz que os salários oferecidos pela TV Globo à equipe de Reapertura são irresistíveis. E cita exemplos: Paulo Celestino via ganhar Cr$ 1 milhão, Geraldo Alves Cr$ 600 mil, Tutuca Cr$ 400 mil e assim por diante:

- Nós não quisemos entrar no leilão que se caracterizou em determinado momento.

As propostas da emissora revela concorrente em foram feitas - revela Weltman - em novembro, quando Reapertura completava um ano e três meses de apresentação:

- O programa se transformou num sucesso, em nossos termos. A Globo, todo-poderosa, tem o maior elenco de artistas. No humor, tem Chico Anísio, Agildo Ribeiro, Jô Soares. Por que levaria os nossos humoristas, os que há um ano e meio estavam na rua da amargura, fazendo greve para receber os salários atrasados em outra emissora? Ela passou o maior recibo do crescimento da TVS, está incomodada porque até há pouco tempo não tinha concorrente.

Dizendo que a imprensa foi irônica com esses humoristas quando a TVS os contratou, chamando-os de "rebotalho da Tupi", Weltman ressalta que a contratação simultânea de todo um elenco é coisa difícil de acontecer:

- O caso mais parecido ocorreu no início da década de 60, quando a TV Excelsior, com o dinheiro da exportação do café, levou metade da TV Rio em 24 horas. O mais recente é o da contratação dos Trapalhões, levados da TV Tupi para a Globo.

A TVS, segundo Weltman, não pretende uma revanche. Não pensa em tirar ninguém da Globo, embora saiba que lá há profissionais que, mesmo contratados, não atuam.

Não vamos entrar na loucura de inflacionar salários ou propiciar leilões.

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